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Arranca aqui mais uma edição de "Ideias Feitas", a crônica diária de Alberto Gonçalves. Alberto, boa tarde. E hoje queres falar-nos da perda de mandato do autarca de Gaia, Eduardo Vitor Rodrigues, e outras coisinhas?

Sim, sobretudo outras coisinhas. Olá, Miguel, boa tarde. Há poucas horas, saiu a notícia de que o autarca de Gaia, que entre parênteses aproveito para dizer, não interessa muito, foi meu colega de faculdade, não era especialmente meu amigo, nem deixava de o ser.

Não há um nexo de causalidade entre esta condenação e o facto de ter sido seu colega de faculdade?

Acho que não, eu espero que não, Miguel. Ele perdeu o mandato, embora vá recorrer, mas para já perdeu o mandato, foi condenado a uma multa de alguns milhares de euros por a mulher dele andar com um veículo elétrico, para o caso, não faz diferença, que pertencia a uma empresa municipal da autarquia de Gaia. E uma pessoa logo a seguir a isso é confrontado nas redes sociais, quando uma pessoa que tem algum vício, como é o meu caso, de ir às redes sociais, ou alguma tendência para isso, e vê logo um processo de desculpa em curso, vê uma série de pessoas a citar o caso e a desvalorizar o caso. Desvalorizar o caso: "Foi só por isto? Um autarca pode cair só por isto?" Isto fez-me lembrar que não é nada de novo, nem é preciso recuar muito, nem é preciso recuar praticamente nada para ver casos semelhantes, basta recuar um dia, porque ontem vimos que como a acusação de corrupção lançada pelo Ministério Público sobre aqueles arguidos da Operação Influencer não seguiu em frente. Não seguiu, ou pelo menos para já, até eles arranjarem novas provas, foi assim entendido por um juiz. Apenas ficou a acusação de tráfico de influências. Com base nisso, todo o spin socialista, toda a central de propaganda socialista mandou divulgar, e foi divulgado em obediência às ordens superiores, que o caso estava absolutamente de rastros. O caso tinha acabado ali, porque se não há corrupção, tráfico de influências não é nada, também. É como o carro elétrico da outra senhora. Também não justifica qualquer processo, não justifica muito menos a queda de um governo ou a demissão de seja de quem for, ou a detenção de seja de quem for. Não faz sentido nenhum, apenas por tráfico de influências haver qualquer preocupação. E depois, também para continuar a não recuar praticamente nada e a manter-nos num só dia ou recuar apenas um dia. Também no dia de ontem, pouco tempo depois deste novo desenvolvimento da Operação Influencer, tivemos a apresentação da candidatura de Pedro Nuno Santos, que é apresentado agora como uma espécie de salvador e um fundador de um novo PS e talvez de um novo país, cheio de carisma, que embora não seja acusado ou que se saiba até suspeito de nenhum crime, é a meu ver, responsável por alguma coisa com mais consequência até do que estes crimes de que temos estado a falar, que foi o facto de ter desviado três mil e tal milhões dos contribuintes para apostar num negócio absolutamente ruinoso, que todos sabemos qual é, e sobre o qual não lhe são exigidas quaisquer responsabilidades. De certeza que não faria sentido também, mesmo se eventualmente, como eu imagino que pudesse acontecer nalguns países, um governante pudesse estraçalhar três mil e tal milhões do erário público para brincar aos aviões, isso era capaz de ter consequências desde logo políticas, teria com certeza, e eventualmente até penais, não faço ideia. Em Portugal, também, se se pusesse essa possibilidade, apareceriam logo muitas pessoas a dizer que não faria sentido nenhum estar a penalizar uma pessoa por usar o dinheiro alheio para investir numa companhia tão próspera e tão promissora quanto a TAP. Ora bem, há aqui duas coisas a ocorrer em simultâneo e uma ocorre porque a outra também ocorre. Há o facto de os políticos em Portugal, em particular, e ainda mais em particular o Partido Socialista, os políticos socialistas, tenderem a ver a coisa pública e os bens públicos, os dinheiros públicos, como propriedade deles. Eles acham que a partir do momento que são eleitos, tomam posse de coisas. Isso acontece porque existe um eleitorado ou uma parte substancial do eleitorado que é propensa a aceitar isso e que é propensa a sair às redes sociais, porque nem toda a gente que vem para as redes sociais defender estas trapalhadas, no caso socialistas, o faz por serem diretamente avençados do partido ou têm algum interesse direto no assunto, fazem-no mesmo por convicção, por achar que estes crimes ou que estas apropriações, mesmo que não sejam ilegais de dinheiros públicos, que não são más em si, que não são prejudiciais, que não encerram em si qualquer coisa de negativo. E encerram! Há aqui uma falta de cidadania, uma falta de consciência das coisas, de noção de que alguém que se aproprie indevidamente de uma coisa pública, de uma coisa que deva pertencer a todos, está a cometer um crime ou está a cometer pelo menos um abuso. E em Portugal há uma falta de noção sobre isso. Os portugueses não acham que isso seja errado, ou muitos portugueses, ou demasiados portugueses não acham que isso seja errado. Provavelmente porque talvez gostassem de estar na mesma situação e acharem que se um dia puderem estar na mesma situação, farão exatamente o mesmo. E esse é o problema. Só para terminar, Miguel, eu tenho estado aqui a concentrar-me no Partido Socialista, porque o Partido Socialista também concentra muito em si estas questões, estas trapalhadas, mas não sou ingénuo a ponto de pensar que o Partido Socialista tem o exclusivo destas coisas. Isto é um bocado como aquela questão do terrorismo e do Islão. Graças a Deus, nem todos os islâmicos são terroristas, muito longe disso, e nem todos os terroristas são islâmicos. Agora, que há uma intersecção entre os dois grupos considerável, há. E é o que acontece em Portugal nesta matéria. Nem todos os socialistas são corruptos, nem todos os corruptos são socialistas, mas que eles também se tendem a confundir com muita frequência, tendem. E tendem realmente, porque há uma tendência do eleitorado a permitir e até a exaltar que isso seja assim. Porque enquanto continuarmos a desvalorizar crimes, coisas que nem chegam a ser crimes, que não são propriamente ilegais, ou pequenos delitos, ou pequenos crimes, ou crimes médios, vamos acabar a legitimar crimes grandes e crimes enormes e, sobretudo, estamos a legitimar para que estas coisas aconteçam com esta frequência, porque cada vez tenderão a acontecer mais, porque o poder tende justamente para o abuso, e o poder não escrutinado tende para abusos maiores.

A crônica de Alberto Gonçalves, "Ideias Feitas" hoje sobre a perda de mandato de Eduardo Vitor Rodrigues, autarca de Gaia, condenado pelo crime de peculato e outras coisinhas.