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"Ideias Feitas" na Rádio Observador com Alberto Gonçalves. Olá, Alberto, bem-vindo.

Olá, Ricardo, boa tarde.

E hoje queres fazer um exercício de história alternativa?

Exatamente. Não sou eu que estou a fazê-lo, mas eu posso tentar esclarecer um ponto ou dois acerca disso. Mas para começar, a primeira conclusão que se tira não é aquilo que nós aprendemos desta história da tempestade e das reações à tempestade, mas é aquilo que devíamos ter aprendido, mas não vale a pena, porque é sempre igual, nunca aprendemos. Mas a primeira conclusão que se tira desta história toda da tempestade Kristen é que os portugueses dependem demasiado de um Estado que não funciona ou funciona mal, ou muito mal. Uma coisa são os danos provocados por eventos extremos, que nem sequer estavam completamente previstos e mesmo que estivessem previstos, teriam sempre efeitos, não se consegue impedir os efeitos de um vento destes ou daqueles. Outra coisa é o desamparo a que as vítimas foram largadas, neste caso e em todos os casos anteriores em que acontecem calamidades. Os políticos, pelos vistos, apenas servem para dizer que é fundamental retirar ilações, como eles dizem, para que a reação à catástrofe seguinte seja eficaz. E depois vem a catástrofe seguinte e não há eficácia nenhuma, há destruição, há o desconchavo habitual, a falta de assistência habitual, etc. E neste caso desta tempestade, eu sei, e já o disse aqui no "Ideias Feitas", que a resposta do Governo às consequências, a estes estragos todos, a esta tragédia, não foi famosa ou ficou um bocadinho famosa pelo desnorte evidenciado pelo Governo. Desde logo, o primeiro-ministro demorou ou pareceu demorar a perceber o que se passou. A senhora ministra da Administração Interna deu a ideia que nem sabe muito bem o que é ministra ou do que é que é ministra e o que anda por ali a fazer. Pode ser uma excelente pessoa, com certeza será uma excelente pessoa, não parece ser uma excelente ministra. Passou por lá o ministro da Defesa, promoveu parece uma rábula com os militares, uma coisa qualquer, sem consequência nenhuma ou sem efeito nenhum positivo. E o ministro da Presidência, falei aqui na sexta-feira, fez o tal vídeo promocional a exibir preocupação e capacidade de simular competência. E, aliás, fez evocar as imagens do doutor Costa de colete refletor a fingir que coordenava a resposta aos incêndios de 2017. E por falar no doutor Costa, a cartilha socialista fez lançar agora por aí, tem andado por aí a correr nos últimos dias, uma questão: o que nos teria acontecido se fosse o PSD a governar durante a Covid? Isto dito a insinuar que seria uma tragédia muito maior. É curioso, desde logo, que os socialistas não promovem comparações com o que nos aconteceu justamente durante os incêndios de 2017. Mas pronto, em vez disso, recuperam, salvo seja, a pandemia para sugerir que o atual governo, se estivesse em funções em 2020 e 2021, seria completamente incapaz de providenciar aquela excelsa resposta dada pelo governo dele. E os socialistas para difundirem isto, têm que confiar na amnésia coletiva para que uma tese destas possa vingar. E por isso mesmo é capaz de ser útil resgatar a memória das pessoas acerca do que de fato sucedeu durante os anos da Covid. Isto não é história alternativa, esta é a verdadeira história. E acerca do alegado êxito das medidas governamentais e resumindo muito, muitíssimo, Portugal teve proporcionalmente, claro, seis vezes mais casos de Covid que a média global em todo o mundo. Teve três vezes mais mortos por Covid que o resto do mundo. E face ao resto da Europa, Portugal esteve acima da média, bem acima da média, em número de casos e em número de mortes. E estou só a falar da Covid propriamente dita, porque precisava de cinco ou sete ou 12 "Ideias Feitas" para descrever o desastroso impacto das medidas governamentais na saúde em geral, nas consultas que foram canceladas, diagnósticos adiados ou inexistentes, cirurgias suspensas, por aí fora. E os impactos na economia, os impactos no equilíbrio mental das pessoas, tudo isso. Ou seja, não precisamos de especular sobre o que aconteceria se durante a Covid fôssemos governados por um governo débil como o atual. Temos a infeliz experiência de uma altura termos sido governados por um governo ainda pior. E nestes últimos dias, o doutor Montenegro pode ter estado longe, e esteve, do que se exigia a um governante, mas pelo menos teve o mérito de não agravar as coisas. Já o doutor Costa, na altura da Covid, com uma mistura notável de incompetência e prepotência, conseguiu agravar tudo o que era possível ser agravado nesse período. E por isso é que lembrar com saudosismo essa época dos exercícios, por um lado, mais tontos e, por outro lado, mais cruéis, a que uma pessoa se pode dedicar. E ainda assim, há quem se dedique.

Obrigado, Alberto. Amanhã regressas, Alberto Gonçalves, nas "Ideias Feitas."

Até amanhã, Ricardo.

O "Ideias Feitas" conta com o apoio do Azeite de Alisman.