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"Ideias Feitas", na Rádio Observador, com Alberto Gonçalves. Bem-vindo, Alberto. E hoje queres falar de ginástica? Queres falar de cambalhotas?
Olá, Ricardo, boa tarde. Vou começar por dizer que havia um vilão nas historinhas do Batman, pelo menos na banda desenhada, que era o Two-Face, o Duas Caras. E Portugal está a caminho de ter, não um vilão, claro, mas um herói com 20 ou 30 ou 45 caras. E estou a falar do almirante Gouveia e Melo, que antes era vice-almirante Gouveia e Melo e hoje é candidato presidencial. E antes de ser candidato, o almirante era frontalmente avesso à política. Tanto que chegou a dizer para lhe darem uma corda caso caísse nessa tentação, e a frase exata foi proferida, eu fui ver, há apenas quatro anos, em outubro de 2021. E é a seguinte: "Se isso acontecer, a tal tentação face à política, deem-me uma corda para me enforcar." Ninguém lhe deu a corda, ele não se enforcou, graças a Deus, e desde que cedeu à tentação da política, o almirante tem se vingado do tempo perdido e embarcado, sem trocadilhos ou com trocadilhos, como quiserem, numa extraordinária promiscuidade de posições. Só este ano, em janeiro, afirmou que "Eu não sou de esquerda, não sou de direita, sou militar. A minha ideologia é Portugal." Em fevereiro, portanto, um mês depois, localizou-se politicamente, estou a citá-lo, "entre o socialismo e a social-democracia.", num cantinho que há ali, "e defendo a democracia liberal como regime político." Em agosto passado, portanto, já há muito pouco tempo, almoçou com André Ventura, a ver se conseguia o apoio do CHEGA. Ou não, com certeza, ele não assumiu isto. Há menos de um mês, declarou-se um moderado: "Eu sou um moderado de centro com valores de liberdade, de democracia, de solidariedade." E há dois ou três dias, o almirante Gouveia e Melo garantiu que a sua referência é Mário Soares. "Foi Mário Soares que consolidou a democracia em Portugal, etc. É essa a presidência que eu quero." Eu, ele, claro. E ontem disse Gouveia e Melo que era um social-democrata antigo ou um socialista democrático. Portanto, são realmente muitas cambalhotas, muita ginástica, como tu disseste, Ricardo, mas nos intervalos desta ginástica toda, o almirante vai recorrentemente declarando-se supra-partidário. E quem pode negar? Ele não só é supra-partidário, como é quase omni-ideológico. Isso não existe, mas passa a existir, já que lhe falta pouco para esgotar o espectro todo. Mais dois meses, antes das eleições, ainda dá tempo para o homem se confessar comunista, eco europeísta e qualquer dia vai jurar que é monárquico desde pequenino. O que o almirante Gouveia e Melo também é engraçado, ele é uma espécie de equivalente português, eu citei o vilão do Batman, mas se calhar uma analogia mais apropriada é compará-lo ao Groucho Marx, que dizia a lendária frase: "Estes são os meus princípios, se não gostam, arranjo outros." E não há dúvida de que o almirante arranja princípios com uma enorme facilidade. É um passatempo que eu recomendo aos ouvintes analisarem as alterações diário que ele demonstra, tendo como contexto a evolução das sondagens e a aparição de novos candidatos. De início, quando as sondagens brilhavam para ele, era praticamente o único protocandidato, embora ainda não o fosse oficialmente. Ele surgiu como uma espécie de militar genérico e que paira acima dos mortais. Isto a ver se apanhava todos os votos da área que vai do PS ao CHEGA e mais alguns, se fosse possível. Quando percebeu que a esquerda, o crescente de esquerda, não estava propriamente cativado por ele, apostou no nacionalismo e voltou-se mais para a direita, de modo a ver se ficava com o eleitorado do CHEGA, que já é significativo, e mais umas parcelas importantes de PSD, do CDS, de IL. E depois, quando a direita se encheu de candidatos e que o PS tem apenas um candidato que apoia contrariado, o almirante foi se chegando à esquerda, mas também não pode ser demasiado à esquerda, porque por ali também não há grandes votos. Mas de qualquer maneira, já há candidatos do Bloco, do PCP, há um rapaz do Livre, aquilo também já está muito lotado. Agora, os ouvintes podem achar que eu estou a criticar as inversões de marcha do almirante porque acho os outros candidatos fantásticos. Não acho, é exatamente o contrário. O almirante só continua a ser falado enquanto um possível vencedor das presidenciais, que continua a ser um possível vencedor, porque os outros candidatos são o que se sabe. Se os outros candidatos não fossem o que se sabe, o almirante Gouveia e Melo tinha tantas hipóteses de ser presidente quanto eu de ganhar o Nobel de Química, ou menos, porque eu confesso aqui que estudei Química até a ver se no segundo ano.
Não te vou perguntar com que média terminaste, Alberto.
Não perguntes, por favor.
Terminamos agora o "Ideias Feitas". Bom fim de semana. Um abraço, Alberto.
Grande abraço, Ricardo. Bom fim de semana.
O "Ideias Feitas" conta com o apoio do azeite Talismã.