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Bem-vindos ao programa "Imperdíveis". Hoje com o Miguel Pina Martins, fundador e CEO do Science4You. Formado em Finanças, com mestrado em Gestão. Sempre se interessou pela política. Aos 18 anos já era deputado municipal, ainda trabalhou na banca de investimentos, mas o que ele queria era mesmo fazer os seus próprios projetos e em 2008 nasceu oficialmente a Science4You, que é uma empresa portuguesa de brinquedos científicos e educativos. É a primeira empresa nacional, está no pódio das empresas ibéricas e estes brinquedos são vendidos em mais de 50 países. Já recebeu vários prêmios, é difícil enunciá-los a todos, mas teve o prêmio de empreendedor do ano, dado pela Comissão Europeia, o primeiro European Enterprise Award, que foi condecorado pelo Presidente da República. É casado, pai de três filhos, dois deles são gêmeos, o Lourenço e o Rodrigo, e o Afonso é mais novo, tem dois anos e imagino que já brincam com os brinquedos que constrói ou ainda não?
Olá, e antes de mais, um agradecimento muito grande pelo convite, para poder partilhar aqui a história da Science4You.
O Miguel é imperdível e tudo aquilo que tem feito é imperdível. Portanto, nós é que agradecemos.
Muito obrigado. Mas sim, o Afonso é o mais pequenino, com dois anos e meio.
E os outros, os gêmeos?
Os outros são os que brincam mais e já fazem aqui algumas experiências em casa, portanto, já posso saborear um bocadinho do meu próprio veneno, assim dizendo, porque eles já sujam muito, já descobrem muita coisa também, já experimentam muito e já se divertem muito, obviamente, com a ciência e com a experimentação.
Deve ser muito interessante para si. Eu conheci-o e entrevistei-o há 10 anos, quando estava a começar. Aliás, há mais de 10 anos. E deve ser interessante para si também olhar e ver que os seus próprios filhos, na época era um miúdo, agora tem 36 anos, portanto teria 24, por aí, e de repente é pai de três filhos e os seus filhos brincam com os brinquedos que o Miguel cria, exporta e produz. Com o que eles gostam mais de brincar?
Eles começaram agora, especialmente com aquele que é o primeiro kit de ciências, com aqueles que são os mais básicos. Obviamente, têm cinco anos, não sabem ler e por isso precisam daqui também muito apoio dos pais, dos avós, dos tios e quem tem feito com eles, porque são brinquedos de ciência. Mas acima de tudo, estão muito nestes primeiros passos agora do corpo humano, também do sistema solar e tudo mais, que são coisas que eles acabam por dar também na escola e que aqui, neste caso, acabam depois por também fazer um bocadinho em casa. E muito giro às vezes é que eles depois levam os brinquedos pra escola.
E dizem: "O pai é que fez".
Sim, mais ou menos. Eu não gosto muito dessa ligação direta, mas ficam sempre todos contentes e obviamente os miúdos ficam contentes, fazem o vulcão para fazerem na sala e acaba por ser sempre giro vê-los também a viver um bocadinho a ciência e poderem também aprender.
Miguel, andando para trás, e mesmo que haja muitas pessoas que já conhecem a sua história, os públicos são sempre diferentes e se calhar vou lhe pedir para voltar assim um back to basics. Como é que começou, quando é que surgiu esta ideia de criar brinquedos científicos, pedagógicos, que divertem as crianças, que juntam as famílias, que são lúdicos, mas também educativos, que podem ser usados na escola. É muito interessante todos estes universos que junta através de uma brincadeira.
Isto tudo começa há 13 anos, vai fazer agora 14 anos no próximo ano, e começa com o projeto final de curso. Ou seja, eu estava a estudar no ISCTE e havia uma parceria entre a Faculdade de Ciências e o ISCTE, em que na prática, a Faculdade de Ciências dava as ideias e o ISCTE montava os planos de negócio. E isto acabou por me sair literalmente na rifa, que o professor na altura tirava um papelinho, nós abríamos o papelinho e víamos o que aparecia lá e na altura saiu-nos a nós kits de Física. Ficamos chateados quando saiu, não quisemos fazer.
Apetece nada fazer um kit de Física.
Não, era uma coisa: "Porque é isto, professor?" Fartámos de apertar com o professor. "Professor, o que é isto, kits de Física? Isto não interessa a ninguém, não queremos". E o professor insistiu, nós dissemos que não queríamos, o professor insistiu, nós dissemos que não queríamos, até que chegou uma altura em que o professor disse: "Olha, meus amigos, só temos duas hipóteses: ou fazem os kits de Física ou não acabam o curso". E nós ficamos muito convencidos então e fomos acabar o curso e fizemos o projeto. E fizemos, tivemos uma boa nota, a coisa funcionou. Na altura, depois foi toda a gente trabalhar. Estamos, obviamente, em 2007. Foi cada um pra sua vida. 2017, não.
2007, exatamente.
2007. E cada um foi trabalhar para um lado. Eu fui pra banca de investimento. Felizmente, acabei por perceber que não era aquilo que queria fazer até o fim da minha vida. Saí e fui tentar levantar capital com o plano de negócios feito, porque já estava tudo feito, e acabamos por conseguir, na altura, investimento.
Portanto, graças à insistência desse professor.
É verdade, o professor Paulo Esperança, que realmente apertou muito conosco para conseguirmos ir, e fizemos. É muito interessante, porque eu tinha 21, 22 anos Não tinha propriamente dinheiro. Tinha trabalhado quatro meses da minha vida e as pessoas, as que se recordam, os primeiros salários são muito mal tratados, porque são os primeiros e obviamente não há nenhuma pensão que compense.
Gastam-se.
Sim, gastam-se muito depressa.
Exatamente.
Na altura, olhámos o grupo que foi e não tínhamos propriamente dinheiro. Hoje, teríamos feito um crowdfunding. Na altura não existia essa palavra, sequer.
Sim, o conceito era desconhecido.
Então organizámos um peditório, na prática. Andámos a bater à porta dos professores do ISCTE e a pedir dinheiro, porque eram precisos 5 mil € e na altura eu tinha 1125. Foi isso que investi. E esses 5 mil € tivemos que ir fazendo a coleta pelos professores. E o professor Paulo Esperança, na altura, dissemos: "Professor, o professor é que nos trouxe até aqui, agora vai ter que meter". E foi o professor que meteu mais do ISCTE, foi ele que investiu mais.
É muito extraordinário isso.
Acabou por ter esse ônus. Insistiu.
E de certeza que não se arrependeu até hoje.
Espero que não.
Voltou a falar com ele? É uma pessoa que vê regularmente?
Sim. Na altura mais, quando estávamos ali na Faculdade de Ciências, porque estamos mais perto do ISCTE e tudo mais, mas continuo a falar com ele várias vezes.
É muito extraordinário isso que conta, porque há muitas pessoas muito novas que o ouvem e que podem apanhar também alguma coragem para seguir os seus projetos, para fazer coisas ou então para confiar na confiança dos que confiam neles. Porque no fundo esse professor fez isso, confiou tanto em vocês, que depositou uma confiança que gerou essa confiança de fazer.
Eu sempre que tenho a oportunidade de falar com algumas pessoas, como é agora aqui este caso, eu tento sempre realmente passar a mensagem às pessoas que é possível e que dá para fazer. Foram 1125 €, na altura levantámos 50 mil €. Não é muito, mas foi o suficiente para lançar as primeiras pedras. E esses 1125 € não tinham propriamente uma ideia completamente disruptiva. É uma boa ideia fazer kits de ciência certificados por uma faculdade, é uma boa ideia, mas não é o Google, não é o Facebook.
Não é a Amazon.
Não é a Amazon, infelizmente para mim e para todos os que começaram o projeto. Mas acho que acima de tudo é importante porque são estes pequenos projetos que depois vão criando emprego e que vão fazendo as coisas funcionarem.
Quanto é que fatura hoje em dia?
Nós já faturamos ao longo destes anos todos cerca de 80 a 90 milhões de euros, ou seja, desses anos todos. Por isso já é alguma coisa, já passaram por nós mais de 6 mil pessoas.
E estão em 50 países.
Sim, estamos em vários países, exportamos bastante, continuamos a exportar bastante. Tempos difíceis hoje em dia, obviamente, como se deve imaginar, mas continuamos e estamos na luta, obviamente, para fazer. Mas voltando só ao tema, acho que é realmente relevante que as pessoas que possam ouvir percebam que é possível, porque sem uma ideia fantástica, sem ter pais ricos ou ir ao banco e sem propriamente muito capital, é possível fazer uma empresa e é possível começar para depois fazer esta journey de passarmos a 90 milhões de euros de venda. E acho que é isso que é muito relevante, as pessoas que estejam do outro lado perceberem que é possível. E se um miúdo com 22, 23 anos conseguiu fazer, hoje em dia, uma pessoa com muito mais experiência ainda terá mais hipótese de o fazer, porque eu, na altura, não percebia absolutamente nada do meio dos brinquedos, nem do meio da logística. E como tive muitos erros, muito jovem.
Mas o erro é muito bom para se aprender e para evitar erros maiores. E há sites hoje em dia de erros de empreendedores, de empresários. Quais foram os erros que cometeu e com os quais aprendeu mais?
Tantos erros que cometi, que continuo a cometer, naturalmente, mas nós cometemos realmente muitos erros. No início, acabou por ser interessante. E este aqui é um que pode espelhar um bocadinho para quem estiver a ouvir. Nós, na altura, recebemos uma ordem, foi do Corte Inglês e da FNAC, foram os dois primeiros clientes. E o Corte Inglês tinha dois pontos de entrega, que era aqui em Lisboa e outro lá em cima no Porto, em Gaia. E nós olhámos para aquilo e vimos: "Como é que vamos fazer isto? O que é que eu sei? Vou pôr a encomenda no carro", rebati os bancos e fui entregar Alcochete. Levou um bocadinho de tempo, que era para fazer a entrega aqui para Lisboa. Mas fez, tudo bem, ok. O que é que eu fiz? Agora para Gaia, igualzinho. Ia a encomenda nos bancos de trás do carro e lá fomos nós. Aquilo era uma encomenda de 600 €. Quando chego a Gaia, começo a fazer as continhas à vida. Isto foi caro. Na altura tinha de ir pela autoestrada, o tempo todo que tinha levado, um dia, disse: "Isto não vai dar nada. Estamos a falar de uma loja desta envergadura, isto não vai dar nada". E comecei, já tinha gasto mais de 150 € no transporte e tudo mais. Até que olhei um bocadinho à volta e vi lá umas carrinhas TNT, DHL, e vi: "Vou tentar ligar e perceber quanto é que era". E tinha descoberto na altura que ia ter custado 4,5 € ter feito o transporte. E é isto que às vezes nós erramos.
Às vezes é um voluntarismo. É uma pessoa achar que tem que controlar tudo e que tem que fazer tudo.
E foi feito o caminho.
Esse é um princípio de delegar, confiar nos serviços.
E aprendemos muito, erramos muito, aprendemos muito, o importante é continuar, obviamente, e continuar esse período de aprendizagem. E acho que um dos grandes temas é esse, porque acho que as pessoas em Portugal, genericamente, têm muito medo de errar. Há um erro do risco de arriscar, que não acontecia há 500 anos atrás, quando aí é que arriscámos à séria. Isso é que era arriscar, hoje abrir a empresa é uma brincadeira. Mas mesmo assim, as pessoas têm muito medo de arriscar e de perder tudo e depois ficarem obviamente com a sua credibilidade manchada. E esse é um grande tema, que eu acho que é um grande obstáculo que nós temos ao empreendedorismo em Portugal, é realmente este medo de arriscar. A sociedade trata a pessoa que falha como um falhado.
Para sempre.
E não como a pessoa que tentou.
E errar faz parte do processo.
Eu acho que isso é muito importante, porque acho que devia mesmo haver medalhas para quem tentou e quem falhou, mas tentou, foi à luta e aprendeu bastante no percurso.
Miguel, mas na verdade, o Miguel foi condecorado e recebeu uma medalha exatamente porque lutou, tentou, errou, falhou e conseguiu.
É verdade.
Devia haver era mais reconhecimento.
Acima de tudo, reconhecimento para aqueles que não conseguiram, porque até são muito mais, e esse é que é o tema. Ao abrirmos uma startup, nós percebemos que 95% das startups falham. E não tem mal nenhum.
Mas faz parte.
Faz parte. Se não conseguimos fazer as 100 para ter cinco que têm sucesso, só fizemos 10. É preciso também ter escala e é preciso haver muitas para isto funcionar. E esse é que é o tema, é que depois é difícil porque há um desincentivo muito grande em que isto aconteça. A história diz-nos que os Estados Unidos tiveram um boom econômico muito grande quando se criaram as sociedades limitadas. O que isto quer dizer? É que as pessoas dizem: "Olha, eu ponho aqui 10 mil € e acabou E são só €10 mil, não é mais. É muito importante. O problema é que em Portugal esse tema não existe. Não existe a sociedade limitada, porque as pessoas têm sempre responsabilidades que, se a empresa não conseguir pagar, os próprios têm que pagar. E isso é um grande desincentivo a quem quiser investir, porque sabe: "Olha, eu até posso perder o meu património todo, se ficar com dívidas à Segurança Social, a quem for, até se quiser pedir um empréstimo bancário, normalmente vem sempre atrelado com um aval, e posso ter que perder tudo aquilo que eu já fiz na minha vida, porque quero arriscar, quero criar emprego e quero tentar. E se correr mal, correu mal, é a vida, faz parte". E eu acho que para conseguirmos realmente ter muito mais empresas, temos que realmente ter sociedades verdadeiramente limitadas, em que a responsabilidade das pessoas que estão a tentar tem que ficar por ali e têm as suas casas, os seus filhos e tudo mais, onde podem manter esse património.
Ó Miguel, então indo ao seu lado político e civicamente ativo, o que diria a quem tem o poder de decidir, de legislar, a quem governa, seja o país ou as cidades, o que diria que pode ser feito, na realidade?
Pode ser feita muita coisa, obviamente, e há muita coisa para fazer, e não dava um programa só para falar disso. Neste tema da responsabilidade, acho que é muito importante haver uma separação real daquilo que é abrir uma empresa e falhar. Noventa e cinco por cento vão falhar, esse vai ser o normal, não vão ter sucesso e, portanto, é muito importante que as pessoas tenham a certeza absoluta que a casa onde vivem, onde têm os filhos, o dinheiro que já conseguiram ter para eles, vai lá ficar e que não vai haver depois essa separação. E isso é que é muito importante, porque as pessoas têm a certeza que isso seria um passo para que as pessoas tentassem mais, arriscassem mais.
E conseguissem mais.
Obviamente, porque esse é que é sempre o tema. E é preciso, nós temos que criar as 100 para conseguir ter as cinco. Não há hipótese nenhuma. Se nós depois olhamos e há logo uma série de pessoas que dizem: "Não vale a pena, já estou bem e não vale a pena estar a tentar fazer isso, porque depois posso realmente perder tudo", acaba por ser um tema bastante grande e por isso essa separação inequívoca é fundamental.
Como é que venceu o seu próprio medo de falhar, de arriscar e de poder vir a perder?
Eu, na altura, para ser muito honesto, não tinha muito a arriscar nem a perder, porque tinha 22, 23 anos. Nem tinha noção, obviamente, em primeiro lugar, mas acima de tudo achava que era interessante tentar fazer uma empresa.
Investiu 1120 €.
Ou seja, não era muito. Se tivesse investimento, obviamente, poderia, se as coisas corressem mal, poderia me custar muito mais, se as coisas corressem realmente mal, mas na realidade foi isso. Depois, obviamente, as coisas vieram a crescer e hoje em dia tenho a VAST, tenho aquelas coisas todas e tudo mais, e obviamente o meu risco-
Isso pesa-lhe?
E pesa, obviamente, e acho que começa a pesar mais quando as pessoas têm filhos e quando começam a ver que as coisas-
E a pandemia abrandou muito o negócio.
Com a pandemia ainda pesa mais, não é? Porque de repente fecham-nos a loja, assim dizendo, e nós de repente deixamos de poder vender, não tendo feito nada contra isso. Ou seja, o setor não fez absolutamente nada contra, estava tudo bem, os impostos todos pagos, as rendas todas pagas, e de repente fomos obrigados a parar de vender. E obviamente que isso ainda pesa mais, porque de repente nós até podemos ser responsabilizados por uma coisa que não tivemos culpa diretamente, porque se nós formos a ver, foram praticamente seis meses, durante um ano, de fecho.
Que é uma brutalidade em todas as áreas.
Em todas as áreas, principalmente na restauração, no retalho e tudo mais, que estão mais expostas a isto. E os seis meses abertos, sempre com restrições muito grandes, nomeadamente não poder vender ao sábado e domingo à tarde, que são só os melhores dias para se vender, por exemplo, na altura do Natal, que é tão importante para os brinquedos.
Então, agora saindo desta parte deste plano, que é um plano difícil e que exige muita superação, muita resiliência, voltando aqui à questão dos brinquedos, quem são as pessoas de quem se rodeia hoje, mas também quem foram os pioneiros que começaram a criar estes brinquedos científicos, pedagógicos e educativos? Onde é que foi buscá-los? Como é que acertou logo?
Bem, por acaso acho que não acertamos logo, porque mesmo isso foi uma questão de evolução, de perceber o perfil de pessoas que procurávamos, se eram mais cientistas, se eram mais gestores, se eram mais um mix. E isso também, nem isso se acerta logo à primeira. Mas felizmente, se calhar, acertamos à segunda, à terceira e tudo mais. Mas estamos a falar de pessoas, até temos, por exemplo, a primeira pessoa que veio trabalhar conosco, que ainda está a trabalhar na Science, que é o Jorge Faria, que é designer, foi uma das primeiras pessoas e continua conosco, como a Paula Castro, que também está e que também tem trabalhado conosco, isto também já lá vão 12 anos disto. Mas são pessoas, acima de tudo, que tinham um grande amor à camisola e que têm, espero eu, também, e que querem realmente ver as coisas evoluir e querem fazer as coisas andar para a frente. Muitas vezes contratamos mais atitude do que propriamente hard skills. Mais pessoas com atitude, que querem aprender.
Mais as soft skills, então.
Sim, ou seja, muito mais nesse ponto, porque acreditamos que elas se aprendem.
Hoje em dia é mesmo bom apanhá-lo aqui para perguntar estas coisas, porque o Miguel não só criou este negócio, como gere e é a pessoa que contrata. E gostava também de o ouvir falar sobre isto. Hoje em dia há esta lendária questão das hard skills, soft skills, que hoje em dia também se começa a chamar mais human skills, para não ter este hard ou um soft, digamos assim. Mas na verdade, hoje em dia privilegia-se mais esse dinamismo, esse entusiasmo, essa atitude, esse querer aprender, mais do que aquilo que já se sabe. E nesse sentido, as competências técnicas é um ter que ter. Mas aquilo que diferencia são as soft skills.
Sem dúvida nenhuma. E esse eu acho que é sempre o ponto. Nós não estamos em rocket science, é science, mas não é rocket. Ou seja, as competências técnicas são importantes, mas não são assim tão importantes, porque não estamos a falar de coisas assim tão minuciosas. Por isso, num tema como este, com uma empresa como a Science 4 You, é muito mais importante as soft skills, as human skills, as pessoas acima de tudo terem vontade de aprender, querer fazer mais Mais além. É isso mesmo. Do que propriamente ter pessoas técnicas muito boas, engenheiros muito bons, que consigam compreender um determinado ponto. É assim nesta indústria, há indústrias que são diferentes, mas genericamente falando, normalmente, na maior parte das indústrias, estamos sempre a falar muito mais de soft skills do que de hard skills. E isso é algo que, no meu entender, tem que se fazer mais nas escolas. Mesmo ontem até estava a falar com uma série de professores de Sintra, numa conferência organizada pela Câmara Municipal, e que falava muito desse tema que nós vivemos, que é realmente as escolas têm que estar preparadas para que as crianças tenham soft skills e que isso conte para a nota. As soft skills têm que contar para a nota. Tem que haver um incentivo muito grande às crianças serem delegados de turma, candidatarem-se a associações de estudantes.
Fazerem preventivos.
Chamem a Intel.
Colaborarem uns com os outros, pedirem ajuda uns aos outros.
Feiras de ciência.
Encorajarem-se, darem bom feedback.
Venda de limonada. Tudo isso é muito importante, não está dentro do currículo, não conta pra nota, normalmente prejudica a nota, porque tira tempo para estudar para os testes e acaba por ser aquilo que realmente o mercado precisa.
E há um equívoco também muito comum, que é achar que há uns que são os natural born. Aquele nasceu para comunicar, aquele nasceu para isso, mas não é verdade. A comunicação e as soft skills são um músculo que nós podemos treinar todos.
Corretíssimo.
Muito bem, fazemos aqui uma pausa, voltamos já a seguir às notícias. Até já. Voltamos à conversa com o Miguel Pina Martins, fundador e CEO da Science4You, empresa de brinquedos científicos educativos, que já recebeu muitos prêmios nacionais e internacionais. Estávamos a falar desta necessidade de contratar pessoas que se entusiasmam pelos projetos e, por isso, pelo entusiasmo, aprendem depressa e conseguem chegar a melhores resultados. Quantas pessoas é que já empregou? Quantas pessoas é que já passaram pela sua empresa?
Nós fizemos as contas há uns tempos e seriam seguramente mais de 6 mil.
Impressionante.
Depois tem pico, nós já chegamos a ter 800, 900 pessoas ao mesmo tempo. No nosso melhor ano, que foi 2017. Neste momento, que não estamos numa altura de pico, porque nós temos uma indústria extremamente sazonal e não é neste momento uma altura de pico. E como sabemos, para além disso, estamos ainda dentro da pandemia, já temos as lojas abertas, mas não é propriamente uma altura em que haja muitas festas de aniversário, e é normalmente um canal muito importante para venda de brinquedos para as festas de aniversário, mas neste momento andamos ao redor das 250, 300 pessoas. Mas isto vai por picos e as coisas vão variando. O brinquedo é muito, costumo dizer que é fashion industry, ou seja, é muito da moda. Há três anos tínhamos o slime, que era uma loucura total e completa.
Não havia criança que não quisesse fazer um slime e que o tivesse.
É isso mesmo.
Já eles podiam fazê-lo.
Podiam fazê-lo em casa e o nosso slime era sempre para as crianças fazerem o próprio slime e quereres moldá-lo como quiser, e continuam a fazê-lo e continuam a vender. Mas houve realmente, por exemplo, uma febre muito grande, e isto nos brinquedos funciona muito assim, não é só no slime, foi em todos. Havia uma grande questão no slime, é que nós produzíamos slime em Loures e por isso acabava por dar esse boom também. Mas faz parte da indústria também ir crescendo e ir decrescendo.
Quais são os brinquedos core, aqueles brinquedos que os miúdos querem sempre? O vulcão?
O vulcão, sem dúvida, o slime. Hoje em dia continua a fazer parte. Depois temos também os perfumes e os sabonetes.
Que as meninas adoram.
Sim, e miúdos também. Também temos as tatuagens, que também funciona nos dois e muito bem. Temos também brinquedos como por exemplo, o Meu Primeiro Kit de Ciências, que é um brinquedo que é para iniciar as crianças. Estava a falar há pouco para mais de quatro anos, que é sempre um dos brinquedos que mais vende, porque é um dos primeiros passos na ciência das crianças e às vezes quanto mais cedo, melhor nestes temas. E temos depois muitos brinquedos, as escavações de dinossauros. Há muitas coisas que vão vendendo sempre e que acabam por funcionar. E agora estamos a lançar muitas novidades. Por exemplo, lançamos o primeiro kit de veterinária, para as crianças que querem ser veterinárias a partir dos quatro anos também poderem já fazer algumas coisas sobre veterinária. Lançamos agora um também sobre o corpo humano, também para quatro anos, a partir dos quatro anos. Temos feito agora alguns lançamentos também do espaço, sobre o sistema solar. Alguns lançamentos muito interessantes agora nos últimos tempos e temos aí algumas coisas também ainda preparadas para este ano, que acreditamos que sejam realmente muito boas.
Eu acho que uma pessoa ouve falar destes brinquedos e até nós, que já não temos idade para brincar com eles sozinhos. Temos idade para brincar com filhos, com netos, com sobrinhos, com filhos de amigos, mas brilha-nos os olhos. E acho que brincar é universal, é intergeracional e esta vossa empresa, esta sua empresa, de fato, é isso que faz, junta as famílias, aproxima pais e filhos, aproxima avós e netos, aproxima professores e alunos, aproxima os pares. E isso foi também o seu propósito ou isso, no fundo, é uma consequência?
Quando nós pensamos, já foi há muito tempo, mas houve sempre um tema que era aprender enquanto se brinca, e esse tema está lá e é esse o nosso tema, mas realmente com a junção da família. Nós temos vindo a uma destruição do tempo de qualidade entre pais e filhos, que tem vindo a decrescer. Agora com a pandemia, acho que até cresceu um bocadinho, porque as pessoas passaram mais tempo em casa, já não é aquele buscar e levar.
Para o melhor e para o pior.
Sim, para o melhor e para o pior, mas não conta, acho eu. Mas acima de tudo, tem vindo ao longo dos últimos 20 anos, as pessoas têm menos tempo. E isso é algo que os nossos brinquedos permitem dizer: "Eu vou comprar um brinquedo e sábado de manhã Vai ser para fazer este slime, para fazer este perfume, para fazer estas tatuagens.
Montar este esqueleto.
É isso. E esse é o tema que é muito importante nos nossos brinquedos, que eles levam realmente a que os pais e os filhos consigam brincar e aprender ao mesmo tempo e realmente haver uma passagem de conhecimento também dos pais para os filhos, que acaba por ser muito relevante e que, no nosso entender, é uma das chaves. É as pessoas reconhecerem que passarem tempo juntos é muito importante e é o que os nossos brinquedos realmente permitem muito, é as pessoas passarem mais tempo juntos com as crianças de uma forma de qualidade. Não é só passar a ver televisão, é realmente com qualidade.
Exatamente, essa coconstrução, essa cocriação também é um princípio de entreajuda, interdependência, passa-me isto, eu dou-te aquilo, eu preciso de ti, tu precisas de mim. Isso também é muito interessante e também não é despiciente. O Miguel também é chamado a muitos fóruns nacionais e internacionais para falar desta empresa, que no fundo é um caso de estudo, é um caso de sucesso e a sua marca representa Portugal. E, portanto, quando a Science4You está nos palcos europeus ou no mundo, é também Portugal que está aí. E no fundo também é este Portugal empreendedor, apesar dos medos e apesar de tudo. O que sente que é a lição que dá, ou mesmo sem ter essa pretensão de dar lições, mas no fundo acaba por dar lições de vida com o seu exemplo, com o seu testemunho, o que sente que é o que pode passar aos outros, que é mais útil?
Isso é uma boa pergunta.
E longa.
São dois temas parecidos, mas distintos. O primeiro é o fato de que arriscar vale a pena, que é possível, que dá para fazer. É preciso resiliência, muita. É preciso trabalhar muito, é preciso muito foco, mas é possível. Para um miúdo de 21 anos, com 1.125 euros, sem uma ideia genial e sem experiência absolutamente nenhuma.
E sem pais ricos e sem grandes apoios.
E sem pais ricos, e nesse caso, sem sequer ter que ter ido ao banco para começar. Ou seja, isso é o primeiro ponto que eu acho que é muito importante e tento sempre dizer às pessoas que é possível para tentarem, porque num caso significativo, das vezes, vale a pena. No outro caso menos significativo, das vezes, que não vale a pena, que é quando as coisas não funcionam, e temos que estar muito preparados para isso, também vale a pena, porque se aprende muito, porque se tenta, porque vale a pena fazer a tentativa de fazer uma empresa, de criar emprego, de realmente fazer algo diferente, de criar valor, de criar impacto. Hoje em dia também criar impacto para a sociedade, fazer uma coisa que tenha impacto. Eu acho que a Science4You tem imenso impacto nas crianças, nos pais.
E acrescenta imenso valor.
E acrescenta algo. As pessoas acabam de fazer um brinquedo e disseram: "Valeu a pena, foi melhor que estar a ver televisão". E acho que isso é muito importante, criar esse impacto. E isso é possível. Temos é que estar preparados. E essa vai a segunda parte, que está OK, está tudo bem, não correu bem, está tudo muito melhor do que antes disso, porque se aprendeu, porque se viu como é que funcionava e levou-se algo, que é a aprendizagem. Há muitos fundos norte-americanos que só investem em pessoas que já tenham falhado pelo menos uma vez. A pessoa pode ir lá com a melhor ideia do mundo, vai lá 15 anos atrás e: "Olha, eu tenho aqui a Uber". "Já alguma vez tentaste?" "Não, vai ser a primeira." "Nós não queremos. Queremos alguém que já tenha falhado, que já tenha aprendido como é que é". Porque há uma aprendizagem muito grande quando se falha. E eu acho que é isso que é muito importante também as pessoas terem essa noção. Está tudo OK. Falhou, arriscou e tem a certeza que há uma parte.
O princípio do laboratório, de partir lâminas, de experimentar, testar.
Eu acho que há uma parte muito significativa da população que compreende perfeitamente aqueles que falharam e que as coisas não correram bem, mas que tentaram. Porque muitas vezes falharam, nem era da ideia, era da conjuntura, era de tudo o que acontece. Ou seja, e acho que é isso que é muito importante toda a gente perceber. E por isso tem dois pontos: um ponto que vale a pena e o outro ponto que mesmo que não funcione, falhar não tem problema nenhum. Pelo contrário.
A lendária máxima do fail, fail again, fail better.
É isso mesmo. Nós tínhamos muitas pessoas que iam trabalhar para a Science4You, que tinham tentado a sua empresa e que não tinham conseguido e que nós vimos sempre isso como uma mais-valia muito grande, mesmo uma grande mais-valia as pessoas terem tido esse-- e faz parte, porque voltamos ao tema. Há uma parte muito grande que não vai conseguir, mas o arriscar, o tentar, o ter ido à luta, eu acho que isso tem um valor muito grande e Portugal precisa disso, acima de tudo, nós precisamos de empreendedores. E é muito interessante ver a diferença entre os Estados Unidos e a Europa. Quais é que são as quatro maiores empresas dos Estados Unidos? Apple, Amazon, Facebook e Google. Todas elas criadas nos últimos 30, 40 anos, por empreendedores que nós sabemos, pessoas que sabemos que começaram. E depois temos a Tesla, temos uma série delas, todas empresas novas. Quais são as quatro maiores empresas europeias? Bancos e é petróleo. BP, Royal Dutch Shell. Estamos a falar depois do HSBC, de um banco. Tudo empresas que muitas vezes já foram do Estado e que passaram a ser privadas. É uma diferença gigantesca. Nós precisamos de empreendedores. Se nós queremos voltar a crescer 3, 4, 5%, nós precisamos de empreendedores. Nós precisamos de Elon Musks, nós precisamos de Mark Zuckerbergs, e eles é que vão criar realmente o emprego. E se não o fizermos, se nós não conseguirmos criar as condições para isso acontecer, como foram criadas nos Estados Unidos, por várias razões, não é só por um tema, vai ser muito mais difícil nós conseguirmos realmente voltar a taxas de crescimento grande, porque quem cria o emprego São realmente estas empresas. Não são as BPs e as Shells da vida, são estas, são as Teslas, são as Google, e emprego altamente qualificado, são as Apple. E é isso que nós precisamos. E para isso nós precisamos de empreendedores. E para termos empreendedores precisamos mudar por dois lados. Precisamos também, por um lado, a parte da educação, precisamos que as crianças digam que vale a pena ter aquelas capacidades que são vistas em empreendedores, e não só hoje em dia. Como eu dizia, era o show and tell da comunicação, era fazer a banquinha de limonada, é fazer a feira de ciência para inventarem coisas. É muito importante que isto conte para a nota. E que as crianças digam: "Não, tu vais ter uma boa nota, tu és muito bom, porque realmente fizeste aqui uma comunicação espetacular e conseguiste treinar muito isso."
E aí é mudar um padrão antigo e obsoleto, que é as pessoas serem levadas a acreditar que são a sua nota, quando a sua nota só tem a ver com as competências técnicas.
É isso mesmo.
Mas no dia em que a sua nota tiver a ver com o todo, com todos os seus talentos e todos os seus recursos, aí sim, aí já nos podemos identificar com a nossa nota.
É isso que não faz sentido. Nós, por exemplo, temos um curso de medicina que é muito difícil entrar, porque tem notas realmente altíssimas, em que as crianças têm que estudar e memorizar, porque têm depois que decorar.
E depois não têm competências relacionais.
Por exemplo, no caso do médico, atenção. E hoje em dia nós continuamos a treinar a memória, quando hoje em dia a memória é algo que é praticamente, primeiro, está tudo nos telemóveis. Temos lá a nossa memória toda está lá.
Temos de libertá-la para outras coisas.
Temos de libertá-la para fazer realmente aquilo que a máquina não faz, porque guardar coisas, temos muitos sítios para guardar coisas. Mas para que realmente consigamos trabalhar o próprio raciocínio, a forma de comunicar, todas as soft skills, isso é que é importante nós ocuparmos.
Miguel, é interessante porque na semana passada esteve aqui o Pedro Santa Clara, que trouxe para Portugal a Escola 42, que é método radical de ensino, é o aprender a aprender, uma escola sem professores, sem salas de aula, sem horários. E ele dizia muito também isto de: é preciso mudar o padrão de aprender, de ensinar e também este lado empreendedor. E eu disse-lhe, e agora pergunto-lhe a si também, disse-lhe: "Pedro, mas estamos em anos de eleições, vá bater à porta de todos os candidatos". E digo-lhe o mesmo a si, ainda por cima o Miguel tem o seu lado político de intervenção cívica, vá bater à porta de todos os candidatos. E não digo só em Lisboa, mas fale, porque eu acho que a maneira como fala disto é tão clara, tão óbvia e tão consistente e tão coerente com a sua ação, que só pode dar certo.
Vou levar o repto. Realmente, às vezes é preciso isso, mas acho que sim, acho que realmente temos que fazer alguma coisa no final, porque pelo menos a mim, obviamente, parece-me óbvio, mas acho que se nós formos a ver, nossa sala de aula é igual há 100 anos atrás. Tudo mudou no mundo, sala de aula é igual, carteirinha, tirou o estrado, já não temos o estrado, mas tirando isso, carteirinha, toda a gente leva trabalhos para casa, mochila às costas, o livrozinho manual.
O que é que faria diferente?
Nós temos 12 anos de ensino obrigatório, e tudo se resume a 90 minutos, no exame. Tudo. Pode só dar até o exame, a nota toda. Andamos a estudar 12 anos, se aquilo correr mal, corre tudo mal. Doze anos para 90 minutos. Não faz sentido. Tem que haver um espaço muito superior para haver notas de soft skills. O professor tem que ter um poder maior para dizer: "Este aluno tem uma boa nota, ele devia ir para este curso de jornalismo porque ele é um excelente comunicador. Não se vê assim tão bem no exame, mas funciona". E há uma imagem muito gira, já com muitos anos, que é uma série de animais e que estão a avaliá-los, um elefante, um peixe, um macaco, e estão todos a avaliá-los pela forma como é que eles conseguem subir à árvore. Quem conseguir subir à árvore é o melhor, e obviamente são todos diferentes. E não é o facto de eles não conseguirem todos subir à árvore, não conseguirem todos ter uma memória espetacular, que são melhores ou piores. E é a mesma coisa com as pessoas.
Claro, é uma observação e uma identificação muito precoce do potencial dos recursos de cada um, de forma individualizada, só que isso é exigente. Alguns de nós podemos ter esse privilégio, poder fazer isso com os nossos alunos, os nossos filhos, mas nem todos conseguimos. Mas é bom que haja estes alertas, é uma urgência.
A grande questão é que nós temos que conseguir passar à comunidade educativa como é que uma pessoa recebe os parabéns por ter boas notas. As notas dizem muito, mas as notas, na realidade, não têm nada a ver com o sucesso que depois as pessoas podem ter ou deixar de ter, porque nós precisamos é de pessoas que inventem coisas, que sejam extrovertidas. A participação na EAL, lembro da participação na EAL, dá 10, 15%. A participação é importantíssima. Participar, dizer, perguntar, desafiar, isso é importante.
Há professores que não gostam que os alunos perguntem e não gostam de ir ao básico.
É muito mais importante isso do que propriamente, às vezes, um próprio teste que é feito e que depois há pessoas, por exemplo, há sempre o exemplo do Richard Branson, que é disléxico e sempre o assumiu, um dos maiores empreendedores do mundo, e que foi expulso de escolas. Não conseguia, chumbava. Não passava, porque tinha problema de dislexia. Obviamente, já foi ainda há mais anos, hoje em dia há uma tolerância um bocadinho maior. Diziam-lhe: "Olha, tu és burro. Desculpa lá, és burro, não vais conseguir, tens que arranjar aqui outra coisa qualquer para fazer, porque tu tens aqui muita dificuldade em escrever". Isto não faz sentido absolutamente nenhum Nós não podemos dizer. O ego que aquela criança fica, como é que ela fica? A automotivação, como é que ela fica depois de alguém lhe dizer? E ele não é, tanto que dá para ver, quem me dera ter 5%, 1%. O que a sociedade lhe disse durante não sei quantos anos foi: "Tu és muito bom."
É limitado.
É limitado. E é isso que, no meu entender, nós temos que conseguir mudar. As pessoas que são os bons delegados de turma têm que ter reconhecimento por isso, porque querem representar os outros, porque isso é fundamental na nossa democracia.
Miguel, para além da sua empresa, agora tem uma empresa maior, que é ser pai de três filhos, dois gêmeos de cinco anos e o Afonso de dois anos. Como pai de três filhos, o que é essencial para si na educação, que o Miguel e a sua mulher dão aos vossos filhos?
Em primeiro lugar, que sejam felizes. Eu acho que esse é o grande tema.
O que é ser felizes? Realizados?
Serem realizados, estarem bem.
Poderem ser quem são, autenticamente quem são.
Apesar de não ser depois um tema muito fácil mais à frente, quando tiverem que escolher o que é que vão fazer, porque temos que fazer escolhas também economicamente que sejam viáveis. Mas acho que há uma importância grande hoje em dia que eles sejam felizes, que eles gostem do que fazem, que eles vão contentes, que eles estejam bem, do que propriamente impor muitas regras, que muitas vezes acabam depois fazê-los um pouquinho mais infelizes ou não tão felizes.
Ou formatados.
Eu acho que esse é o primeiro tema grande, é que eles sejam felizes. Eles estão agora a acabar a boa vida. Vão entrar no primeiro ano, vão começar os testes, e os trabalhos de casa, portanto, estão aqui a acabar a boa vida, mas há uma preocupação grande que nós temos, realmente, em que eles sejam felizes, que eles possam fazer o que eles gostam, possam brincar.
Miguel, só para esclarecer o conceito de felicidade, porque eu acho que todos nós queremos ser felizes e todos nós queremos que os nossos sejam felizes. Gostava só de perceber. Essa felicidade tem a ver com realização pessoal e tem a ver com que possam explorar o seu potencial, os seus recursos, independentemente das expectativas dos outros, ou seja, que sejam fiéis a si próprios e numa lógica de bem e melhor, digamos assim.
E que possam fazer, de certa maneira, eles as escolhas do que é que gostam de fazer, o que é que querem fazer, nesta altura, não sei falar o que é que vai acontecer daqui a 10 anos.
É um pai que orienta, mas que não põe as suas expectativas nos filhos.
Esse é o tema. Ou seja, deixá-los ir. O que é que queres fazer? Como é que queres fazer? Obviamente, tem que haver certas regras.
Perceber onde é que eles são melhores, onde é que podem ser ajudados nas fraquezas.
E tentar realmente que eles possam realmente estar bem com eles próprios, gostarem deles próprios. É fundamental que se sintam bem com eles, do que propriamente pôr-lhes metas agressivas e que eles depois possam não cumprir e de certa maneira se sintam tristes com eles próprios por não conseguirem.
Também não fizeram isso consigo.
Não.
Os seus pais também não fizeram isso consigo.
Pelo contrário, a minha mãe e o meu pai tiveram sempre essa preocupação de fazermos aquilo que gostávamos.
E vê-se o resultado.
Até agora não correu mal, não sabemos o que é que vem daqui para frente.
Miguel, mas é bom, não é? Porque essa confiança que os seus pais depositaram em si gerou a si muita confiança, que dá para projetar a confiança nos outros. Portanto, parece-me um método bastante infalível.
Sim, pelo menos acho que tem. Por exemplo, quando fui abrir a Science 4 You, eles nunca puseram barreiras, apesar de terem sido os dois funcionários públicos, mas disseram: "Tens tempo." Fiz a escola toda, nunca chumbei, fiz o curso todo, era novo.
Acreditaram em si.
E disseram: "Tenta." Estava a fazer o mestrado ao mesmo tempo. Disseram: "Tenta, experimenta, vamos ver o que é que dá."
Não disseram primeiro: "Acaba o mestrado, tira boa nota e depois vai fazendo aquilo que quiser."
Sim, disseram: "Tenta, experimenta, vamos ver o que é que dá." E pronto, e depois as coisas foram sempre avançando.
É importante esse testemunho, Miguel, porque muitos de nós, enquanto pais ou professores, temos um bocadinho esse medo da competição feroz do mundo e dizemos: "Primeiro vai estudar, primeiro vai acabar os cursos, primeiro vai fazer aquilo que é o suposto e depois tenta", assim como se fosse um hobby. E conjugar, poder fazer uma coisa e outra. Ou seja, em vez de ser o "ou", ou fazes isto ou fazes aquilo, começar a conjugar mais o "e". Podes fazer isto e aquilo e aquilo. Muito bem. Se pudesse desejar alguma coisa para daqui a 10 anos, em termos profissionais, como é que gostaria de estar?
Em primeiro lugar, que acabe o Covid. Ninguém pode com isto, isto tem que acabar, as pessoas têm que voltar ao normal. Isso é o primeiro desejo que me aparece logo na cabeça. Depois, nos próximos 10 anos, eu espero realmente que a Science 4 You cresça, que possamos sair deste momento Covid. E que consigamos voltar todos ao normal e tudo florescer e tudo a correr bem, porque neste momento, obviamente, é o foco. Não só aí, pois também tenho a associação do retalho.
Esquecemos de falar do seu livro, rapidamente. Este seu livro é um livro pedagógico?
Eu tenho dois livros, ou seja, um sobre a Science 4 You e outro que escrevi com um grupo de amigos grande do CPO, que é o Chief Portugal Officers, que é um bocadinho o futuro de Portugal e que no meu caso falei de educação, que também tivemos muita oportunidade de falar aqui. Mas do que eu falo acima de tudo é estes temas, é realmente conseguirmos dar mais soft skills e mudar um bocadinho o tema do ensino na escola para potenciar mais isto.
Como é que se chamam os livros agora? Eu perdí-tens-me, porque a conversa interessou-me e eu esqueci-me. Peço desculpa.
"A Ciência de Brincar", que já tem três anos, e depois "O Futuro é Hoje", que é escrito por vários autores, que é agora mais recente, tem quatro meses.
Muito bem. Muitos parabéns, muitas felicidades e muito obrigada.
Eu é que agradeço.