Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Bem-vindos ao Imperdíveis. Hoje com Óscar Correia, 51 anos, casado há 27 anos, com dois filhos, a Marta de 25 e o João de 22. Considerado um hospitalitarian. Vamos tentar perceber o que isto é. Ou seja, é alguém que pratica a hospitalidade, mas é também especializado na área da restauração e da hotelaria. Conhece chefs do mundo inteiro, tem uma biografia completamente invulgar e histórias imperdíveis. Aos 17 anos foi para a Irlanda, trabalhar no norte da Irlanda, num hotel. Numa das viagens de Londres-Lisboa, vinha a ler um livro sobre a Irlanda e alguém ao lado meteu conversa e mudou o rumo da sua vida. Vamos falar de tudo isto. Curiosamente, o Óscar Correia raramente se apanha em Portugal, porque viaja muito, passa muito tempo fora, e é a primeira entrevista que dá, tanto quanto julgo saber. Muito obrigada, Óscar.
Obrigado eu.
Pela confiança. Como é que foi essa viagem que mudou o rumo da sua vida, quando vinha de Londres, o que é que aconteceu? Pode contar?
Claro que sim. Desde já agradeço esta oportunidade.
Nós é que agradecemos.
É um orgulho poder partilhar estas histórias. Espero que também possa ser inspirador para quem acredite que tudo pode acontecer, porque efetivamente a minha infância foi muito passada com os meus avós maternos no campo.
Em que campo?
Em Castelo Branco. Se na altura houvesse farm to table, nós éramos ricos. A verdade é que hoje, de facto, isso é uma maneira de estar, de certa forma, que pra mim já foi vivida há bastante tempo. Durante o meu período escolar, era uma criança supernormal e a partir dos 10 anos, por qualquer motivo, comecei a desenhar a fachada de um restaurante que estava em frente à minha casa, da minha janela do quarto. Aos 11 anos, quando os meus pais iam lá tomar café, eu tentava sempre pirar-me pra trás do balcão e queria muito pôr-me ao nível do balcão e tinha, pra isso, pôr uma caixa de Coca-Cola virada ao contrário pra poder servir.
Pra ter a altura.
Exatamente, pra poder servir alguém, pra servir cafés. Esse restaurante foi efetivamente a plataforma onde eu comecei a ter estas pequenas experiências.
Esses contactos também com o público.
Sim. Foi aí que, de certa forma, comecei a perceber que o desconhecido era algo que eu ia abraçar. Até aos meus 15 anos, tive a oportunidade de fazer lá alguns part-times.
Gostava da escola, mas não demais.
Exato. Acho que a escola era muito interessante, mas seguramente a partir dos 15 anos comecei a perceber-
Que havia muitas outras coisas que eram muito mais aventureiras e muito mais estimulantes pra si.
Exatamente. Eu depois fui para um espaço que havia em Paço de Arcos, fazer um part-time, que era a Tarantela, na altura era a Casa dos Cassetes, era um produto emblemático que lá servíamos. Muito perto, entre os 17 e os 18, passei de Paço de Arcos para Cascais, pra Rua Direita. Efetivamente, esse foi o início da minha vida profissional. Até lá, eu tinha uma particularidade, que era: chegava ali às 18h, 19h, deitava-me no chão do quarto e fechava o estore e deitava-me pra sonhar que ia voar. Todos os dias eu fazia isso e os meus pais às vezes até brincavam comigo e achavam que eu andava sempre lunático. O sonho era sempre o mesmo, eu deitava-me, fechava os olhos, de repente adormecia e o sonho começava sempre, eu começava a correr, saía do meu prédio, tinha que correr até uma estrada e na altura, onde hoje é o Moinho das Antas, ali em Oeiras, aquilo era um descampado e depois havia lá ao fundo o mar, onde está o Sizer agora, e sempre lá esteve. E então isso era a rampa de lançamento. Eu começava a sonhar e aí-
Levantava voo.
Levantava voo e eu ia sempre pra todos os sítios que eu achava que eram possíveis naqueles sonhos.
E depois acordava pra noite? Ou seja, isso era uma coisa que fazia ao fim da tarde?
Não, eu depois só acordava no dia a seguir.
Ah, muito bem.
Ficava a dormir durante a noite inteira. Onde é que isto depois teve realmente esta expressão real. Foi que eu, aos 17 anos, estava realmente a trabalhar no Duke of Wellington, que durante o dia era um bar tipicamente britânico, mas que durante o dia servia muitos cafés, chás e tinha um público realmente, já na altura, muito estrangeiro. E eu conheci uns senhores aí durante uma semana, que foi o Frank e a Mary, que estiveram lá todos os dias às 11 da manhã pra tomar uma meia de leite e uma fatia de bolo de cenoura. E entretanto, passado três dias, pra mim foi normal, se eu os via, já tinha metade das coisas preparadas, então perguntava sempre se queriam sentar na mesma mesa e iriam pedir exatamente a mesma coisa. E eles disseram que sim. Chegou ao sábado e eu estava de folga nesse dia, eles foram lá pra se despedir de mim e deixaram-me um envelope. E nesse envelope, quando regressei no dia a seguir, lembro-me de um chefe me ter dito assim: "Olha, aqueles estrangeiros que tiveram aqui toda a semana deixaram-te um envelope, que está aqui, e se for uma gorjeta, tens que pôr no frasco". Está bem, então vamos abrir. E quando abrimos era um bilhete de avião para Belfast.
A sério?
Sim.
Incrível. Isso é mudar o rumo de uma vida, é muito mais do que uma gorjeta.
Sim. E foi aí que tudo realmente começou. Eu lembro-me de ter chegado a casa e ter dito aos meus pais: "Daqui a duas semanas vou para Belfast". Naquela altura, Belfast para mim podia ser na rua abaixo da minha praceta. Nem sequer fazia ideia do que isso era, nem tinha a dimensão geográfica do que estava a dizer.
Nem geográfica, nem política, do que é Belfast, Irlanda, Irlanda do Norte.
Porque no final dos anos 80, não tínhamos internet, não havia telemóvel, não havia toda esta tecnologia e a era da informação que temos hoje.
E as notícias em direto e as redes sociais. E os seus pais olharam para si e disseram?
Olharam para mim e disseram: "Este rapaz está sempre a sonhar".
Ainda por cima quer voar, quer voar alto.
E depois não ligaram muito a isso, na verdade, porque achavam que eu estava a brincar. A verdade é que passadas duas semanas, eu, na altura, tinha uma mochilinha daquelas da escola e levei umas calças e duas t-shirts e umas coisas muito básicas e disse: "Pai, amanhã tens que me levar ao aeroporto". Eu aqui posso arrepiar um bocadinho esta história, porque há cinco, seis anos, eu estava a trabalhar em Santa Lucia, na América Central, e sonhei que o meu pai ia ficar doente. E a verdade é que passadas umas três semanas, ele realmente ficou doente e eu tomei a decisão imediata de querer voltar.
E o seu pai está vivo?
Já partiu, mas deixou-me um sorriso. E então ele na última semana fez dois gestos que realmente foram bastante inspiradores. Por isso é que quando digo isso fico muito feliz. Eu estava a trabalhar na altura no Algarve, consegui entrar no Vila Vita, onde fiz um percurso também de certa forma impecável. Foi seguramente o melhor projeto profissional até hoje da minha vida, adorei. E eu domingos e segundas estava de folga e à segunda à noite ia sempre para baixo. E naquela segunda à noite disse: "Pai, eu para a semana estou cá e vamos estar aqui". E ele naquele dia fez assim.
Pôs as mãos ao alto e fez o quê? Isso quer dizer o quê?
Fez assim.
Deus queira.
Sim.
Deus queira que sim.
E eu olhei para cima e fui, como sempre na minha vida, a tentar pensar que nós somos aquilo que a nossa mente alcança, e fui feliz. Eu depois na quarta-feira ainda consegui ligar, ele ainda me atendeu e disse-me: "Olha, filho, tenho que te dizer uma coisa". Eu disse: "Então, pai?". "Sabes que quando te fomos levar ao aeroporto". Eu disse: "Claro que sei, pai. Sou muito orgulhoso de terem realmente me levado e terem confiado em mim e de me terem ajudado a tornar naquilo que eu hoje me tornei, uma melhor pessoa, seguramente, e uma pessoa que faz aquilo que gosta". Portanto, trabalho para mim é uma palavra que até excluo do meu dia a dia.
É tudo por paixão. Só para não nos perdermos na história, porque nós não conhecemos esse fio da história. Agora fez um flashback, ou seja, o seu pai estava a dizer: "Ainda bem que te levámos quando tinhas aquela idade e te deram um bilhete para Belfast". Estávamos a falar dessa ideia.
Estávamos a falar daí, porque depois o meu pai aqui neste final, a única coisa que me disse foi: "Olha, sabes que eu tenho que te dizer uma coisa. Eu e a tua mãe quando te levámos ao aeroporto, achámos que tu só querias ver os aviões".
Não acreditaram que tinha um bilhete para Belfast.
Exatamente. E depois eu fui trabalhar para um sítio lindíssimo. Este hotel, o Saliser Hotel, fez 100 anos em 1996, tinha muita história. Foi um produto que nos anos 20, 30 e 40 era icónico nesta localização. E eu depois de começar a aprender tudo aquilo que era a técnica do saber estar, o saber fazer.
Saber receber.
E o saber ser, tudo isso começou a fazer todo sentido para mim, porque hoje em dia a hospitalidade é um ato de amar. E se nós considerarmos que um restaurant é um hospitality box, então é um banco de emoções onde as pessoas realmente procuram felicidade e onde o palco realmente se dedica a quem nos visita.
Óscar, aí assenta-lhe que nem uma luva isto de ser um hospitalitarian.
Sim, talvez faça sentido.
Ainda por cima com o seu nome.
É verdade.
Parece um azougue. O Óscar da hospitalidade, acho extraordinário.
E isso fez todo sentido. É verdade que depois esse início levou a que eu ficasse irrequieto por conhecimento. Como tinha deixado o décimo ano incompleto e depois me comecei a concentrar em tudo aquilo que tinha a ver com esta área, do receber.
Portanto, a estudar, a preparar-se.
Comecei a tirar cursos, depois fui evoluindo em todas as etapas possíveis dentro deste departamento de food and beverage ou de comidas e bebidas.
Sempre falou bem inglês, ou também teve que aprender?
Isso foi uma coisa muito gira, porque eu sempre percebi que se eu conseguisse rapidamente falar algum idioma, iria ajudar-me a poder deslocar-me com muito mais facilidade.
Claro, o mundo fica muito maior.
Sim. Mas isso no início tinha essa forma de entendimento. Hoje, muitas das vezes, quando giro equipas e equipas mais novas, estou-lhes sempre a dizer que é só dar um passo e querer ir. E olhar para cima, porque um idioma aprende-se sentindo aquilo que as pessoas querem. E se nós estivermos atentos à codificação que o próximo nos dá, então depois as palavras saem de dentro.
É um exercício de empatia, antes de tudo, é o que quer dizer?
Sim, poderei dizer que sim. Acho que há uma determinada aura magnética. Eu hoje considero que tudo é magnético. Nós atraímos energias e depois, de certa forma, conseguimos acompanhar um determinado ritmo e se conseguirmos concretizar tudo isto, volta-nos a dar mais energia e ritmo.
Tudo o que damos fica nosso para sempre e multiplica-se. Oscar, só pra perceber. Foi pra Belfast trabalhar pra este lugar, que percebo que era um lugar deslumbrante e que lhe abriu horizontes que nunca tinha pensado. E depois há esse tal dia em que, apanhando um avião de Londres pra Lisboa e vindo a ler um livro sobre a história da Irlanda, há uma pessoa ao seu lado que mete conversa consigo e muda-lhe mais uma vez a vida. Como é que foi isso?
Fomos falando. Eu, entretanto, fui lhe comentando que tinha aprendido a entender a diferença entre o lado católico e o lado protestante e porque o produto que eu trabalhava era protestante. Tinha uma rua principal em Newcastle e tudo o que era católico estava do lado esquerdo, mais ou menos 90% das coisas era assim, e depois do outro lado era protestante. Se a gente escolhesse, por exemplo, um lado, era muito difícil depois andar a saltar de um lado pro outro. A verdade é que isso, de certa forma, ajudou-me. Todos nós temos uma determinada personalidade e desenvolvemos um determinado caráter.
A saber fazer pontes.
Sim. E isso ajudou-me, porque o IRA estava muito presente na altura, a respeitar e a perceber que criticar é algo que é pequeno. Nós deveríamos ser primeiro-
Primeiro tentar conhecer, compreender e respeitar.
E esta era a conversa que vínhamos a ter. E eu como já tinha feito também alguns trabalhos extras fora do sítio onde estava a trabalhar, porque era uma forma de eu ir conseguir perceber o que é que faziam noutro sítio e o tentar fazer melhor no sítio onde estava, era uma maneira de poder estar sempre à altura dos desafios. Porque efetivamente aquilo que eu naquela altura percebi é que abraçar o desconhecido era realmente algo maravilhoso.
Era o seu desígnio.
Sim, e então este senhor, quando nós chegamos a Lisboa, realmente deu-me o cartão e eu disse ao meu pai que no dia a seguir íamos à Quinta do Convento da Trindade.
Ou seja, esta pessoa disse-lhe: "Olha, amanhã venha ter comigo à Quinta do Convento".
Às 10:00 da manhã.
Às 10:00. E portanto, o seu pai habituado à sua capacidade de sonhar e de concretizar, deve ter dito: "Pronto, lá vai este".
Lá foi.
O que o seu pai disse?
Íamos a falar.
"Lá está este rapaz a sonhar outra vez".
Sim, ele achou sempre muita piada pelo fato de eu ter ido. E a verdade é que eu os habituei também, desde sempre, todas as sextas-feiras ligava pra cá e portanto tive sempre uma-
Uma relação muito próxima.
Muito próxima.
Um bom filho, chamado bom filho.
Sim, digamos, eu também tenho um irmão e a minha mãe ainda hoje, a força que ela tem de superar a solidão é de cozinhar, então tudo aquilo que ela faz tem um sabor imperdível, se assim puder dizer. Ela ainda hoje fez um molotof que muito poucos chefs conseguem fazer tão bem, porque é uma receita super difícil de ter no ponto. No dia a seguir, lá fui então à Quinta do Convento da Trindade, fui recebido por um senhor. Eu tinha, na altura, 22 anos e quando entro vejo aquela exponência de tudo o que é um conto de fadas, com motorista, com uma senhora da casa, com um chefe, com uma secretária.
Parece um Downton Abbey de Sintra. Noutra escala.
Puseram-me então numa salinha, que eu fiquei atento a todos os pormenores, que era a salinha do café. E então quando regressaram, começaram a falar comigo e a perguntar o que eu gostaria de fazer. E eu pensei: "Eu vou voltar pra Irlanda" e se assim acontecer, até na altura estava pra transitar para um outro hotel no sul da Irlanda, que era o Ashford Castle, que era um dos melhores hotéis da Irlanda. E eles quando me iniciaram: "Então não gostavas de vir trabalhar conosco?" E o salário era fabuloso pra aquela altura. Era o equivalente quase a € 1.000 de hoje. E portanto, era um salário-
Aos 22 anos e nessa altura.
Era uma coisa impressionante.
Disseram pra fazer o quê?
Pra fazer mordomo.
Pra ser mordomo?
Sim.
E pensou, respondeu logo?
Não, fui logo e disse: "Acho que sim". Eu tudo na vida, eu também casei ao fim de três meses.
E está casado há 27 anos. E tanto quanto julgo perceber, muito feliz.
Muito feliz. É a mulher da minha vida.
A mulher da sua vida. Como é que se chama?
Carla.
Carla, e com os seus filhos, Marta e João, que devem atestar esta felicidade e devem refleti-la.
Eles quando nasceram, a maneira que eu tinha de os entreter era contar a história do Bardanas, que eu era um bocadinho gordinho quando era mais jovem. Agora continuo um bocadinho cheinho, mas também já estive mais atlético. E então contava sempre as histórias do Bardanas, que foi um personagem que entretanto criei, que era pra termos tema de brincar às horas das refeições. Mas voltando um bocadinho à Quinta do Convento da Trindade.
Então aí disse um sim.
Sim, começámos.
Já não volta pra Irlanda e começa uma nova etapa da sua vida. Que durou, tanto quanto sei, 10 anos.
Não, tive praticamente dois anos, só se estendeu até A esses 10 anos, porque cada vez que vinham cá a Portugal, e tive também a sorte de ter ido a Paris, porque organizavam a Orquestra Metropolitana de Paris, e então eu quase ficava só de lado para dizer: "Agora podem servir".
Mas eu quero imenso saber, até porque hoje em dia as séries de televisão, tudo o que é os "Belgravia", os "Downton Abbey" ou o "Upstairs, Downstairs", que também já antes destes, há sempre esta figura mítica do mordomo. E há grandes atores que fizeram esse papel no cinema. Estou a pensar no Anthony Hopkins e não só. E portanto, é um papel que é de facto de uma complexidade e de uma exigência, porque é a hospitalidade, mas ao mesmo tempo o rigor, a ética, a responsabilidade.
E é muito personalizado.
E é muito personalizado.
Cada casa tem uma maneira de estar e tem uma cultura muito própria e tem os seus próprios valores, das pessoas que efectivamente ali habitam. E nós temos que nos adaptar também, de certa forma, àquilo que é o seu ritmo de vida.
Portanto, uma sensibilidade apuradíssima para antecipar coisas, calar outras, dizer aquilo que é preciso na medida certa, tudo na medida justa. Fazemos aqui uma pausa, voltamos já a seguir e conta-nos algumas histórias que viveu quando era mordomo desta família. Até já.
Até já.
Bem-vindos à segunda parte do programa "Imperdíveis". Hoje à conversa com Óscar Correia, 51 anos, casado, com dois filhos, considerado um hospitalitarian, que é a pessoa que pratica a hospitalidade, é especialista nas áreas de restauração e hotelaria e foi mordomo de uma família durante um longo período da sua vida, quando era muito novo. Estávamos a falar deste seu papel. O que teve que aprender? Ou seja, estas pessoas confiaram em si à partida. Houve uma confiança mútua. O Óscar também disse um sim imediato, que é muito seu. E depois, o que era a substância do seu dia a dia, as viagens que fez, as pessoas que conheceu?
Nós na casa somos responsáveis do ponto de vista de alimentação, de preparar o pequeno-almoço, o almoço e o jantar, ou seja, servir, porque o chefe teria que preparar. E então, esta experiência, de certa forma, mudou a minha forma de poder interpretar tudo aquilo que eu um dia vinha pensando ou vinha sonhando em fazer e que hoje, efetivamente, me dá bastante vantagem, porque percebo o que é o detalhe do luxo. O luxo é tudo aquilo que não se pode comprar. É um abraço, é um sorriso, é um gesto, é uma disponibilidade. E naquela altura, por exemplo, lembro-me de uma pintora africana, maluda, que estava a pintar o teto para fazer os frescos. E ia combinar com a toalha, porque a toalha tinha exatamente o mesmo padrão. E portanto, esse tipo de detalhe era um detalhe que tudo tinha que ter esta emoção e esta ligação emocional a tudo aquilo que era feito na casa. Eles tinham comprado um faqueiro que tinha pertencido ao Luís XIV, o Rei do Sol, e então tive que aprender a manusear todos estes elementos destes facais.
É verdade que existem aquelas réguas e que a distância é milimetricamente medida, tudo aquilo que vemos no cinema, nos filmes.
Tudo tem um detalhe e é medido. Nós temos que ter dois centímetros para colocar o início dos talheres, temos que colocar a cerca de 25 cm o copo, temos que deixar espaço, tudo é simetricamente colocado em cima da mesa, o manuseamento das peças são todas polidas atempadamente, o ritual do dia a dia, desde preparar tudo o que são as velas, o cocktail, as almofadas, as janelas. Por exemplo, tínhamos um Rolls-Royce que tinha sido feito em Chicago, que era para levar os convidados da porta da entrada à casa da piscina. Tudo isso tinha que estar imaculadamente perfeito. O preparar um chá caseiro com as ervas que havia na altura no jardim. O jardim desta casa tinha sido desenhado pelo Mr. Hagen, que foi alguém que desenhou também o jardim da Rainha Isabel Inglesa. E portanto, nós tínhamos ali um conjunto de situações para o qual era tudo meticulosamente preparado. Lembro-me de um dia me dizerem assim: "Hoje às 17h vamos servir o chá", como normalmente servíamos. Ela tinha um Picasso numa das-
Das paredes?
Sim, mas aquilo era um balcony, porque o convento tinha uns claustros e então era o lugar preferido para tomar chá. E entretanto disse-me para ficar atento, e eu pensei que ia receber alguém, mas não me disse quem. Lembro-me de ser 16h55 e ouvir alguém conversar. E eu pensei: "Se calhar já entrou". Eu nem sequer abri a porta Tenho que ver o que se passa rápido. Em vez de ter ido ao balcão ver se já lá estava, fui antes pegar no serviço de chá para trazer este serviço para duas pessoas e para conseguir chegar às 17h, porque tinha que ser tudo dentro daqueles tempos. Eu lembro-me, estava um cadeirão de costas para mim e estava a haver praticamente um diálogo, e eu quando chego com a bandeja, com o serviço de chá para dois, fiz discretamente assim e vi um rinoceronte pequenininho de marfim e prata em que ela me disse: "Este é o George". Eu disse: "Hi, George. Pleased to meet you". Eu achei isso fantástico, como também, por exemplo, lembro-me de uns jardineiros um dia.
Ou seja, não havia nenhuma visita, era só um tempo de descontração ao pé de uma peça que ela-
Exatamente. Que tinha um determinado carinho.
Que despertava memórias, certamente.
E houve esse momento em que eu fiquei: "Devo dizer agora o quê? Só muito prazer?" E deixei aí o serviço de chá.
Um verdadeiro butler. E diga-me uma coisa, eu vejo pela sua personalidade, embora é a primeira vez que eu o vejo, que falo consigo, que o contacto, depois do contacto que fizemos para esta entrevista, mas vejo que é uma pessoa que não se tornou nem julgamentosa. Não é uma pessoa crítica, é uma pessoa fascinada, de coração e espírito aberto a outras realidades diferentes. Pode ser esta ou pode ser outra completamente diferente. Ou seja, o conhecer pessoas que se calhar normalmente não se conhecem e pessoas que têm a ver, sejam reis, príncipes, governantes, presidentes, o que quer que seja, a si e para si, que é um mestre da hospitalidade, que é conhecido e reconhecido por isso, só o fascinava e só lhe trazia alegria e nunca lhe trouxe aquela maneira empedregada que às vezes vemos muitas pessoas.
Acho que faz parte do saber ser e do saber estar, mais do que o saber fazer, perceber que a discrição é algo que muitas pessoas têm dificuldade em compreender, porque eu lembro perfeitamente, o Sean Connery era visita assídua da casa, os familiares Miterrand na altura também, e fazia parte de nós sermos discretos e fazia parte de nós sabermos estar. E na altura não havia efetivamente a realidade que há hoje do social media, mas, por exemplo, no Vila Vita Park, onde estive praticamente seis anos. As celebridades são-
Constantes.
Constantes. E nós temos que saber estar. Eu acho que hoje em dia quem está neste palco tem de ser discreto e, na verdade, aprende-se que depois o ser humano, independentemente do seu status ou da sua capacidade financeira, eu acho que a única coisa que nos motiva e que de certa forma nos abre portas é porque transporta um conhecimento. E se nós soubermos aproveitar esse conhecimento e perceber quando é que nos dão a oportunidade de interagir e realmente participar, eles saberão o fazer melhor do que ninguém, porque nós, na nossa essência, estamos ao dispor de quem nos visita. Isso hoje em dia é muito importante e é difícil de ensinar. As escolas hoje em dia, por mais cursos que façam, acho que a hospitalidade era algo que deveriam incluir, porque a parte da hospitalidade é transformar um produto em experiência. E transformar um produto em experiência através de pessoas, com pessoas e através de pessoas, requer uma forma de compreender a maneira de estar destas pessoas, independentemente se são ricos ou são aquilo.
Exato. E por isso, a si deslumbram-o as realidades humanas, as paisagens, o que for, mas não é um deslumbrado com a riqueza dos outros. Isso é extraordinário.
Eu tive acesso naquela altura.
Isso são os seus pais.
Sim, é verdade.
São belas raízes.
É verdade. Eu posso aqui, de certa forma, partilhar algo que para mim foi também uma etapa da minha vida muito rica emocionalmente. Eu depois, com este percurso e com acesso não só a vinhos.
Este networking.
Sim, mas a produtos e a estilos de maneiras de estar com serviços muito próprios, com coisas que careciam muita organização.
E uma grande dedicação.
Sim, e muito emocional, porque muitas das vezes eram horas bastante longas. Mas tive a oportunidade um dia de ter acesso a um livro do Danny Meyer, onde li este livro com uma paixão que ainda hoje me emociono quando falo disso, porque naquela altura, eu quando acabei de ler esse livro, pensei: "Tenho que ir a Nova Iorque visitar todos estes restaurantes". A minha mulher, de certa forma, foi sempre também uma companheira neste sentido, porque sempre me deu esta oportunidade de continuar a sonhar. E então eu andei a juntar dinheiro uma data de tempo para conseguir fazermos esta viagem. Isto cerca do ano 2000. Ou um bocadinho antes, talvez. Já não posso recordar efetivamente a data. A verdade é que quando lemos isto, eu entretanto comecei a pensar: "Tenho que conhecer este senhor e falar com ele e dizer que realmente aquilo mudou a minha maneira de compreender".
Ele é um expert em restauração.
Sim, ele é o melhor restaurador do mundo. Bem Quando fomos, fomos realmente a quase todos os restaurantes dele e após muita insistência, vim frustrado por não o conhecer. É verdade que agora, anos mais tarde, o Paulo Amado, que também está nas Edições do Gosto, é uma pessoa que anda no meio dos cozinheiros, nós fizemos um evento onde estivemos presentes no Portuguese Chefs Worldwide. E então, neste momento, estávamos a falar com este senhor, o Bob Grimes, que é o co-president do Citymeals on Wheels, que é uma entidade que alimenta 70 mil pessoas sem abrigo na cidade de Nova York. Estávamos a conversar e eu estava a lhe comentar esta minha paixão pela hospitalidade e que tinha lido este livro e que já tinha estado a visitar aqueles restaurantes. A verdade é que ele de repente disse: "Então amanhã vais tomar o pequeno-almoço com ele".
A sério?
Eu disse: "Não, isso não vai acontecer". A verdade é que isso aconteceu e tivemos a oportunidade de tomar.
E esse encontro foi melhor do que esperava? Foi épico.
Eu entretanto aprendi que a minha expectativa é sempre zero agora. Eu há muitos anos que, com esta simplicidade e com estas vivências e dos países onde eu fui tendo a oportunidade também de trabalhar, porque depois, na verdade, tudo aquilo que me motivou e me levou a vários hotéis e a várias cadeias, foi sempre na perspectiva cultural, foi sempre no veículo de querer ir aproveitar o ADN cultural de um determinado espaço para continuar a ir à procura.
Para se enriquecer e para se cultivar.
Sim.
Isso é muito interessante, porque eu acho que eu o oiço falar e acho que quem o está a ouvir está, de certa forma, fascinado também com a sua humildade, com a sua simplicidade, com tudo isto que estamos aqui a contar por alto, tudo isto traduzido em pequenas experiências, grandes momentos, encontros extraordinários com pessoas extraordinárias. E não estou a falar de celebridades, estou a falar de pessoas com quem se aprende muito.
Sim.
E o Óscar faz muita questão de dizer isso, pessoas que acrescentam valor, independentemente se são mais ou menos ricas.
São seres humanos.
Exatamente. E isso, de facto, é muito encantatório, a maneira como conta a sua história é encantatória.
Sim.
Queria só perguntar-lhe, depois destes encontros todos, depois de correr não só os restaurantes, mas também as cozinhas. Porque o Óscar também tornou-se um grande expert e conhece, de facto, as pessoas, os melhores do mundo que estão na área da restauração. O que isso lhe trouxe na vida profissional?
A mim trouxe-me, mais do que aprender, um enorme respeito por perceber que cada ser humano tem talento e eu, desde há muito tempo, como comecei como empregado de mesa, disse sempre que o conceito do melhor empregado de mesa do mundo era que ele conhecesse o seu chefe. Então percebendo esta analogia de que não há restaurante sem um chefe, o mais fácil é tentar perceber a cabeça desse chefe e saber como é que vamos desenhar a experiência no serviço. Efetivamente, todas estas pessoas, como chefes, como o Daniel Boulud ou o Éric Ripert, são chefes sobejamente conhecidos e com histórias de vida também realmente incríveis. A verdade é que todos estes atores e profissionais, todos eles são humanos e muitas das vezes, fora do palco destas luzes, são pessoas tão simples como nós. Nós que estamos muitas das vezes no serviço, se a nossa essência, porque isto ao longo da minha vida, depois também fui aprendendo, por exemplo, que na cultura japonesa, o omotenashi, aplicado à hospitalidade, é a intenção por trás da ação. Então se a intenção é boa, a ação já é só uma materialização do nosso pensamento e da nossa forma de querer agradar ou receber, ou de estar disponível para alguém.
Fazer o outro sentir-se em casa.
No caso aqui, por exemplo, do Nelson Mandela, o ubuntu também quer dizer a essência humana. E eu acho que, de certa forma, hoje, todas estas pessoas contribuíram para que eu percebesse que primeiro tem que haver nos três Hs, o humanity, depois hospitality e depois heartist. E o heartist é de coração, mas de certa forma, especialistas das emoções. E para nós podermos fazer isso, às vezes, basta o mais simples de qualquer pessoa dizer ou tentar, de certa forma, aproximar-se e nós conseguimos antecipar a mente.
Encontrar um chão comum ou antecipar. Temos aqui quatro minutos, Óscar, mas gostava de saber o que é que faz questão de passar para os seus filhos, que hoje em dia já estão bem formados e bem criados, mas o que fez questão ou como é que gostava que eles o lembrassem?
Essa é uma pergunta muito interessante. O ano passado e fruto de toda esta envolvência vivida nestes últimos anos, o meu filho, no dia que o meu pai realmente partiu, eu estava triste, obviamente, e o meu filho teve a capacidade de me dizer: "Olha, pai, vou te dizer uma coisa. O avô foi, mas ele não foi, ele está aqui". E eu, tipo, ok. Em vez de ser eu a ter que lhe dar este conforto, foi ele a dar-me este conforto. Isto para dizer que em março do ano passado Eu, entretanto, também fui tendo a oportunidade de ir ao Ritz-Carlton, a Nova York, para apoiar na parte do F&B. Fez com que o ano passado isso proporcionasse.
Food and Beverage, F&B.
Sim. E eu então disse ao meu filho que gostava muito que ele, um dia, quando fechasse os olhos, se lembrasse desta boa energia, que ele também me tinha dado naquele dia, e o sonho dele era ir ver um jogo da NBA. Então nós fomos os dois ver um jogo da NBA, esse sonho concretizou-se, e o que eu lhe queria deixar era que ele acreditasse sempre, independentemente daquilo que-
No sonho. Acreditar sempre no sonho.
É acreditar.
E a sua filha Marta?
A minha filha Marta é um bocadinho como eu. Ela, na verdade, é muito mais expressiva do que o João. Ela também fez parte desta viagem. Tiveram outros interesses. A minha mulher foi com ela-
Às lojas, se calhar.
...fazer outras coisas, exatamente. Mas eu acho que depois tudo isto marca. E eu acho que este legado que nós podemos deixar e que eu tento deixar para eles, primeiro, é de imenso respeito por toda a gente. Segundo, é resistirem a criticar seja aquilo que for. E se tiverem a possibilidade de estender um abraço invisível a alguém, façam-no, porque o copo pode encher aqui, nós nunca recebemos no sítio onde damos, e se nós continuarmos sempre a querer dar, o copo um dia enche por outro lado qualquer. Isso, do ponto de vista humano, é compreender que a nossa estrutura nem sempre é aquela que nós queremos. Aliás, eu digo-lhes muitas das vezes que hoje em dia consigo perceber que quando nós nascemos, descendemos de uma família, depois crescemos e procuramos uma família e entretanto quando os nossos começarem a procurar a família deles, nós temos que encontrar uma família. Então é importante que a gente perceba que todos os seres humanos que gravitarem à nossa volta são todos muito importantes.
E que nos unem e que estão unidos pelos valores. A sua mulher, já percebi que é não só a mulher da sua vida, mas uma grande aventureira e uma grande sonhadora também, como o Óscar. Agora já não usa farda, não é? Quando era mordomo usava o quê? Casaca? Usava várias?
Havia dias que usava luva branca, havia dias que usava asa de grilo, outras vezes usava só um casaco branco. Na verdade, todo esse uniforme faz parte realmente da ocasião, mas é importante é a nossa forma de aceitar.
Portanto, nunca se sentiu pouco livre por ter que usar uma asa de grilo, uma casaca ou um casaco. Sempre se sentiu livre e a fazer as coisas que gostava.
Eu já tive um cliente, aqui há uns anos, que me disse que eu era um colibri, que era um espalha-amor. Então, nesta área, cada vez que nós podemos ter a oportunidade de interagir com alguém, deveríamos espalhar esta magia. É como se, de repente, tentasse ter umas miniférias agora aqui à mesa. E se a gente conseguir transformar isso-
Transformar tudo numa experiência, numa boa memória, numa boa experiência.
É verdade.
Muito bem, muito obrigada. Uma grande lição de vida e tenho a certeza de que as pessoas que acolhe se sentem verdadeiramente acolhidas.
Obrigado.
Obrigada por partilhar a sua experiência. Muitas felicidades para si, para a sua mulher, para a Carla, e para os seus filhos.
Espero poder receber-vos um dia.
E para a sua mãe. Como é que se chama a sua mãe?
Maria Emília.
Maria Emília, que cozinha maravilhosamente.
Excelente.
Tudo no ponto.
É verdade, tudo tem um sabor que é imperdível.
Como é que se chamava o seu pai?
Óscar Correia.
Óscar Correia, exatamente, como o filho. Olhe, verdadeiramente imperdível é ouvir uma pessoa como o Óscar. Muito obrigada.
Obrigado.