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Bem-vindos ao Imperdíveis. Hoje com João Gonçalo Soutinho, 25 anos, biólogo e abraçador de árvores. Criou o projeto Gigantes Verdes e mapeou sozinho, ou quase, com a ajuda de voluntários, mas também com a sua fita métrica, muita paciência, muitas horas de caminho e de estudo, mais de 7500 grandes árvores. Isto só no Conselho de Lousada. Esta georreferência captou as atenções nacionais e internacionais de tal maneira que a revista National Geographic se interessou pelo projeto Gigantes Verdes. O João Soutinho tem feito um trabalho incrível na preservação e conservação de árvores de grande porte e esta iniciativa de dar a conhecer e proteger os Gigantes Verdes faz dele uma pessoa verdadeiramente imperdível, não apenas para este programa, mas eu diria a uma escala global, pois a sua ciência, a sua experiência e as suas iniciativas contribuem para preservar não só as maiores árvores, mas também ajudam a salvar o planeta. Bem-vindo, João. Muito obrigada por ter aceite este convite. Para além de tudo isto que faz, com apenas 25 anos já fez o seu mestrado e já está a fazer o doutoramento. É incrível. Eu olho para si com esse ar tão descontraído, como é que consegue isto tudo?
Muitas horas de trabalho e de dedicação a estas temáticas que me apaixonam. Não sou sozinho a fazer isto tudo. Trabalho com muitas pessoas com muita capacidade e tenho tido a oportunidade de ter também vários voluntários a colaborar nos projetos que tenho em curso, que é sempre uma forma importante de passar testemunho e de replicar depois noutras áreas estes trabalhos. Mas é, acima de tudo, muitas horas de dedicação, às vezes deixando outras coisas para trás.
O que é que deixa para trás?
Família, amigos, um bocadinho. Deixa-se quando se mete tempo inteiro, quase, nestas coisas todas. Às vezes outras coisas vão ficando para trás, mas vamos tentando conciliar tudo.
E também ninguém lhe leva a mal, porque isto é tudo por um bem maior e somos todos beneficiados.
Exatamente. E muitas vezes tento incluí-los nestas iniciativas, que assim passamos tempo, seja em trabalho semilazer, mas vamos passando tempo juntos.
João, se calhar vou voltar aqui aos Gigantes Verdes e só tentar perceber exatamente, primeiro, como é que começou esta sua paixão por abraçar árvores. O que acontece quando se abraçam árvores? Não só há esse contacto físico, como há a vontade de as proteger, vontade de as preservar. Como é que criou isto dos Gigantes Verdes e qual é o objetivo?
Os Gigantes Verdes vêm de outras andanças que comecei antes. Eu tive a sorte de muito cedo na licenciatura descobrir uma paixão, o que é que estava a trabalhar e que na realidade foi um nicho que não tem assim muitas pessoas a trabalhar em Portugal. Eu gosto muito de invertebrados, trabalho com invertebrados, sou biólogo, trabalho na vertente mais de conservação e trabalho particularmente com o escaravelho, que é a vacaloura. Algumas pessoas conhecem, é o maior escaravelho que existe em Portugal e é uma espécie que durante parte da sua vida precisa de árvores de grande dimensão para sobreviver. E rapidamente também percebi que para fazer conservação, é engraçado trabalhar as espécies, conhecê-las, mas é muito importante focar-me bastante nos habitats, numa escala um bocadinho maior e perceber como é que podemos realmente, a longo prazo, preservar os organismos. E rapidamente percebi então, para esta espécie e muitas outras, as árvores de grande porte têm uma importância singular. E então, quando acabei a minha licenciatura e depois de ter estado um ano na Alemanha e perceber ainda mais a importância de tudo isto, quando cheguei descobri que o município de Lousada tinha uma oportunidade para jovens, desde o pré-primário ao universitário, para fazerem projetos do ponto de vista ambiental e sustentabilidade no Conselho, que é o fundamental de sustentabilidade no município de Lousada, e que todos os anos dão alguns prémios. E eu em 2017 candidatei-me a este projeto para fazer o levantamento dos conhecidos gigantes, saber onde é que eles estavam, e ganhei este projeto. Implementei-o no início de 2018 e na altura estava a fazer o meu mestrado, também aqui em Lisboa, e decidi adaptar o projeto como a minha tese de mestrado. Então durante esse ano, o primeiro ano do mestrado, ia aos fins de semanas, ia conhecendo aos pouquinhos. No ano da tese, mudei-me para Lousada e fiz o conselho todo a pé.
Impressionante.
Literalmente, foi engraçado. Perdi uns quilinhos, foi ótimo. Entretanto, já voltaram. E durante esse ano também tive a oportunidade de ter os voluntários comigo no campo e ter sempre companhia, que foi ótimo.
E o que é que fez aí? Foi de árvore em árvore, medi-las, medir o perímetro.
Isso é um processo que ainda está contínuo, ou seja, durante esse ano, a primeira fase foi simplesmente saber onde é que elas estavam, ou seja, marcá-las com o GPS. E aí conhecemos 7500, não fazíamos ideia.
Tinha ideia que eram 7500?
Não, no início pensava que iam ser 1500, uma coisa assim.
Mesmo assim, para nós, leigos, acharíamos que 1500 só no Conselho de Lousada, destas árvores de grande porte, já seriam muitas.
Sim.
7500 é um tesouro.
É um tesouro, mas é um tesouro que há em todo lado, simplesmente não estamos a par da sua existência. Para nós, um gigante verde, uma árvore de grande porte e qualquer árvore, nós costumamos dizer que uma pessoa sozinha já não consegue abraçar, que tenha mais ou menos um metro e meio de perímetro de tronco, medida à altura do peito.
Aqui em Lisboa, nós temos na Fundação Calouste Gulbenkian, por exemplo.
No arruamento, em todo lado. Uma árvore com um metro e meio de perímetro não é uma árvore que se destaque, por assim dizer, mas é uma árvore adulta já e que no ponto de vista de proteção a nível nacional e quem se preocupa com conservação, normalmente preocupamo-nos com as pequeninas que acabamos de plantar, com aquelas já muito grandes, que são protegidas, e tudo no meio fica um bocado esquecido.
Mas no fundo, estas são grandes. Quando são classificadas como gigantes verdes, ser gigante quer dizer que têm um impacto gigante no ambiente.
Exatamente. E vamos desde árvores com um metro e meio de perímetro, a maior que temos tem cerca de seis, precisamos de quatro pessoas para abraçar. E não há assim tantas no país com estas dimensões.
Maravilha!
E foi engraçado também perceber, começámos a saber onde é que elas estavam E depois, durante a minha tese de mestrado, houve um processo contínuo de medir cada uma delas. Vamos mais ou menos a meio, é um processo chato.
Portanto, vão em 3500.
3500, 3600, mais ou menos.
Já caracterizadas.
Já caracterizadas.
Já sabem onde é que crescem, onde é que são as cavidades, como é que são os ramos.
Exatamente.
As estruturas de suporte e o impacto na biodiversidade.
Sim, e sabemos agora também o seu papel no sequestro de carbono, na produção de oxigénio e todos os outros serviços que dá o sistema.
Os leigos gostam imenso de alguns verbos, alguma conjugação verbal, que é sequestrar o carbono.
Sequestrar carbono. Eu já posso explicar muito bem esse processo. E tem sido engraçado, porque entretanto percebemos que para preservar estas árvores não bastava saber onde é que estavam, é preciso fazer mais do que isso. Nasceu um regulamento municipal de gestão do arvoredo, no município, que integrou a informação que veio da minha tese de mestrado.
Ia perguntar se tinha tido influência nisso.
Sim. A ideia da minha tese de mestrado foi perceber o que é que levava as árvores a serem mais ou menos importantes para os seres vivos, se tinham mais ou menos estruturas.
E a conclusão é?
As conclusões gerais é: se forem árvores nativas, e em Lousada, em particular, o carvalho, que é a espécie mais local, são mais importantes que todas as outras, principalmente as exóticas, o eucalipto, os sopos, tudo isso está no final da lista. Quanto maiores forem, mais importantes são. Isto é igual para todas as espécies. E também consoante o sítio onde estiverem e a gestão que for feita a cada árvore, ou seja, se estiverem num sítio mais naturalizado, uma floresta, em vez de uma zona urbana, normalmente também são mais importantes. E se tiverem menos influência humana, ou seja, menos podas, menos ação sobre estas árvores, também são mais importantes. Tudo isto foi informação, entre outras coisas, que foi passada, vertida para o regulamento que está agora em vigor, mas não ficámos por aí, agora estamos a fazer outras coisas.
Se calhar esse regulamento já veio a meio de um tempo, portanto, quando sai, 500 destas árvores foram abatidas nos últimos tempos. Isso é um luto para si, para todos nós, mas para si, especialmente.
Sim. Destas 7400 árvores que existem agora, eram bastantes mais, têm vindo a desaparecer, e é algo que simplesmente sabemos que em Lousada está a acontecer porque estamos a monitorizar este processo. Ou seja, sabemos onde é que elas estão e sabemos quando desaparecem.
E estas 500 que foram abatidas nos últimos dois anos, foi por intensificação agrícola, por urbanização, foi por quê?
Sim, exatamente.
Ou pelas duas razões?
São mais algumas, mas as duas principais são exatamente a intensificação agrícola e urbanização. Vemos que há diferentes pressões, depois temos questões de segurança, questões de quedas naturais com tempestades, mas 50% destas 500, ou seja, 250 árvores, desapareceram por estas duas questões, por não haver proteção. O regulamento veio trazer alguma, não é a solução ideal, porque não resolve tudo.
João, mas é um trabalho incrível o que está a fazer.
É engraçado.
Ou seja, não conseguiu sequestrar os que abatem. Não conseguimos parar, não vamos fazer esse sequestro, salvo seja.
Sim. E elas vão desaparecendo. E só uma coisinha, é interessante pensarmos: nós sabemos que isto está a acontecer em Lousada, mas Lousada é igual a metade do país, senão o país inteiro.
Portanto, importava replicar.
As árvores desaparecem em todo o lado, a uma velocidade extrema, não havendo proteção. Há muita pressão, mais nas zonas urbanas, que onde as pessoas estão, veem as árvores desaparecerem em frente às casas. Aqui em Lisboa há muita preocupação sobre esta questão, mas isto é algo que deve estar a acontecer em todo o país. E é impossível substituir uma árvore, mesmo que se corte uma e plante outra, só daqui a 50 anos é que voltamos a ter os mesmos serviços. E é importante isto.
Eu não sei se isto é um equívoco, mas eu penso que no Conselho Consultivo dos Gigantes Verdes estão fundações como a Fundação Calouste Gulbenkian, está a PT, estão universidades, há oficinas.
Sim, estão algumas entidades. Isto já vem do processo que eu ainda não referi. O município decidiu fazer o regulamento, foi extremamente importante.
E pode ser replicável noutros municípios?
Sim, existem cerca de 37 municípios que estão com regulamentos em vigor neste momento. Neste momento, no Parlamento, está em discussão a criação de uma lei que vai obrigar, vamos ver como é que isto corre, para que todos os municípios tenham um regulamento municipal de gestão do arvoredo, nem que seja para limitar as podas, limitar os abates, mas é muito focado na zona urbana, zonas florestais e agrícolas mais rurais não têm esta implicação. E percebemos rapidamente que tínhamos que fazer mais do que isso. Não bastava proibir as pessoas de fazerem as coisas, porque precisam de gerir o seu território, as suas propriedades, precisam ter alguma forma de riqueza do que vem, não podemos só impedir que isto aconteça. Então há cerca de um ano, convidei um outro colega, o João Rafael Brites, a juntar-se ao projeto.
Outro imperdível, já gravámos.
Uma pessoa maravilhosa.
É verdade.
Que eu conheci numa conferência que ele veio falar de economia regenerativa. Eu sou biólogo, não percebo quase nada de economia, e ele veio falar de como é que a economia pode ajudar a regenerar o planeta. E na altura eu vi a sessão, fiquei maravilhado, enviei-lhe um e-mail logo a seguir, falámos uma semana depois, convidei-o a juntar-se ao projeto e a ideia foi e está a ser encontrar novas soluções para preservar estas árvores. Muitas coisas diferentes, que estão neste momento ainda na gaveta, algumas, outras já saíram cá para fora, e que para começar este processo, uma das primeiras etapas foi criar exatamente o conselho consultivo, em que não queríamos ter apenas duas pessoas a pensar.
Que seja expressivo no sentido da influência.
Exatamente.
Por isso aí estão, então, a influência.
Convidámos várias entidades.
Quem é que está, para além dos que eu disse?
Ok, então está.
Para não deixarmos ninguém de fora.
Vou tentar lembrar-me de todos. Da Gulbenkian estão representantes da Maze, está a NBI, que é uma startup de Natural Business Intelligence, estão as Infraestruturas de Portugal Estão alguns proprietários e empresas locais.
Universidades?
A Universidade de Aveiro, a Nova SBE cá de baixo, a Universidade de Coimbra. Estão a faltar pessoas.
Mas não faz mal, ninguém vai levar a mal.
A ideia foi buscar vários stakeholders, players, que tivessem alguma influência não só na gestão destas árvores, mas também que nos conseguissem trazer soluções do ponto de vista de impacto social ou outras ideias diferentes, fora da caixa, para ajudar a trazer e mudar a maneira de pensar.
A ideia é de criar umas oficinas para desenhar mecanismos de preservação. É muito interessante, porque tudo isto a resultar no concelho de Lousada, se for replicado numa escala nacional e até também replicado fora, porque as boas práticas, as boas práticas, nós não precisamos de inventar a roda. Buscar o que melhor se faz e vir buscar a si o que melhor se está a fazer, é impressionante. Aliás, o WWF, o World Wide Fund, também são parceiros.
A vertente nacional juntou-se a nós num dos mecanismos, num dos projetos que estamos agora a implementar. Estamos agora a estabelecer várias parcerias para criar alguma destas.
Eu nem sei se disse bem.
É WWF.
Não, eu sei, mas depois quando fiz por extenso, não sei se disse bem.
Sim, World Wide Life Fund.
Acho que sim.
Mas é a parte nacional.
João, e realmente voltamos aqui ao facto de ter 25 anos e em cima disto tudo estar a fazer um doutoramento. Qual é o tema do seu doutoramento?
O doutoramento começou agora mesmo e a minha sorte é que também está ligado a Gigantes Verdes.
A sua e a nossa.
Sim. A ideia é trabalhar uma vertente mais tecnológica, que eu não tenho tanto embasement, que é de detecção remota, usar drones, usar satélites e informação que possa ser compilada do ar.
Que poupa imenso trabalho.
Poupamos de um lado, ganhamos no outro. Mas a ideia é utilizar esta tecnologia e até os telemóveis que as pessoas têm nos bolsos, para conseguir compilar o máximo de informação possível sobre as árvores de Lousada ou de outro sítio qualquer. Ou seja, a ideia é encontrar novas soluções, estudá-las, perceber o que é que pode ser implementado. Eu comecei agora em março, comecei agora mesmo o doutoramento, a aprender coisas novas, ver como é que daqui a uns aninhos conseguimos implementar umas coisas diferentes para replicar o projeto também noutras escalas.
É impressionante. Gostava de voltar aqui ao conselho de sequestro. Sequestrar o carbono. Como é que isso se faz? A ideia é feliz para quem, como nós, tem consciência de que estamos em doses massivas, que precisaríamos de sequestrar rapidamente?
Sim. As árvores fazem-no de uma forma muito simples e natural para elas, durante o seu crescimento. Basicamente, quantas mais folhas tiver uma árvore, maior é a sua capacidade de fazer este papel. Tem a ver com a fotossíntese, é um processo normal, não vou entrar com coisas complicadas. Elas capturam o carbono da atmosfera, libertam oxigénio.
Isso é o que aprendemos logo na escola primária.
Exatamente.
Ou até na pré.
Este carbono é depois armazenado nas suas células, na madeira, basicamente, mas também algum deles transportado para o solo, através dos fungos, depois cria relações entre as árvores e sequestra parte deste carbono no solo. Mas isto é um processo muito simples.
E ficando sequestrado, fica para sempre.
Mais ou menos. É um pouquinho mais complexo do que isso. Depende do que acontece à árvore no final do ciclo. Por exemplo, uma floresta de produção, por exemplo, de eucalipto, o que é que vamos fazer a madeira depois? Se for queimada, o carbono é todo libertado novamente. Se for transformada em papel, parte dele fica sequestrado, nem que seja nas células, nas folhas, em si. Mas durante o processo também há a parte de libertação. O que nós tentamos fazer é que estas árvores, os gigantes, enquanto estão vivas, estão a fazer este papel. Quando morrem, elas vão decompor, é um processo normal, lento, dura bastantes anos a cumprir.
Quantos anos, por exemplo?
Depende de imensas variáveis.
Uma destas árvores de perímetro de seis metros.
Pode demorar uns 20, 30 anos a desaparecer. E durante este processo, o carbono, parte dele é libertado, de várias formas diferentes, mas uma das formas que eu gosto muito de falar é o ponto de vista que estas árvores depois têm ligada à biodiversidade e à minha componente da conservação. É que quando uma árvore está a decompor, é abrigo para cerca de 30% dos seres vivos que vivem nas florestas a nível mundial, e que durante a sua fase, à medida que se vão alimentando, vão também incorporando carbono no seu corpo. Quantos mais, por exemplo, os caravelhos saem destas árvores mortas, mais carbono está transformado noutros seres vivos, que depois vão entrar numa cadeia, ou seja, vão ser comidos pelas aves e vão entrar numa cadeia alimentar e o carbono vai-se mantendo no planeta de formas diferentes do que vai para a terra.
De forma mais orgânica.
Mais orgânica, exatamente. São ciclos diferentes, são possíveis de trabalhar. Parte dele fica mesmo sequestrado depois no solo, porque há madeira que fica mesmo depois lá integrada. É tudo um ciclo que não nos podemos esquecer que existe e que é importante manter. Mas o que importa, e a curto prazo e na escala humana, é que uma árvore, mesmo já sendo gigante, pode viver mais 40, 50, 100 anos, se for preservada de forma correta e estamos a encontrar soluções ou a procurar para que isto aconteça durante os próximos anos.
Muito interessante. Quem é que está consigo no terreno? Quem é que são estas pessoas que são voluntárias, que são ambientalistas, são pessoas avulsas?
Uma mistura, muita coisa. O projeto nasceu no município de Lousada. Neste momento somos, eu faço parte, uma equipa de 13, 14 técnicos de conservação de natureza em muitos projetos.
De todas as idades?
Um bocadinho de várias idades, muito ligados a educação ambiental, à conservação dos rios, das florestas, das árvores, um bocadinho de tudo. Já está uma equipa incrível. Temos feito imensas coisas novas e ajudamo-nos muito uns aos outros no dia a dia.
Não há competição como às vezes há competição noutras áreas da ciência e do conhecimento.
Sim, há sempre algum tipo de competição, mas ali sabemos que-
É uma conjugação de talentos.
É uma conjugação de talentos com diferentes áreas de atuação que se complementam para levar o município e a conservação do município a outro nível. E neste momento o município é uma referência à escala nacional do ponto de vista da gestão pública dos espaços naturais e do que pode ser feito nesta vertente. E além disso, depois temos voluntários, estudantes das universidades, que estão conosco, às vezes durante o verão, duas, três semanas.
Mas se alguém quiser ser voluntário, por exemplo, o que faz? Vai a que site?
Podem procurar, neste momento, as páginas do município, temos sempre lá atividades. Durante o inverno temos imensas plantações, em breve vamos lançar o voluntariado de longa duração. No verão temos sempre campos de trabalho, durante duas semanas temos pessoal de todo o mundo.
Mesmo agora na pandemia?
Sim. Temos conseguido fazer na mesma, com muitas mais restrições, mas temos feito e estão abertas neste momento vagas para se juntarem a nós.
Mas trabalham de máscara ou conseguem manter uma distância?
Trabalhamos de máscara, se houver mais distância conseguimos tirar, são duas semanas, mas sim, tentamos manter todas as regras sempre que possível.
Isso é extraordinário. João, isto é um tema que nos encanta e que nos fascina, ao mesmo tempo também que nos assusta quando uma pessoa percebe o abate das árvores, tudo aquilo que afeta os ecossistemas. Estamos encantados e fascinados a ouvi-lo, mas vamos ter que fazer uma pausa para as notícias e voltamos já a seguir. Pode ser? Até já.
Perfeito.
Voltamos à conversa com o João Gonçalo Soutinho, 25 anos, biólogo, abraçador de árvores, criou o projeto Gigantes Verdes. E há outros projetos, um deles é o Carbono Biodiverso, outro é a Associação Verde. Acho extraordinário que Verde Associação ainda seja um nome livre para se poder registar.
Já não é.
Sim, mas ainda era.
Sim.
Então podemos falar um pouquinho do Carbono Biodiverso e depois da Associação Verde?
Sim. Isto já vem da ideia do conselho consultivo destas oficinas, que foi necessário para encontrar as novas soluções. Também uma das coisas que se tinha discutido, se calhar pego pela Verde e depois vou ao Carbono, foi criar uma nova entidade, que conseguisse, na escala do conselho, implementar novas ideias para conservar estes gigantes, que fosse independente de questões políticas, de questões partidárias. A ideia fosse mesmo trabalhar com os proprietários, com entidades exteriores e então mediar aqui processos e encontrar estas soluções. Uma delas é o projeto Carbono Biodiverso, em que a ideia é utilizar todos estes serviços que as árvores prestam, inclusive o sequestro de carbono, que acabamos de falar, para mostrar que estas árvores são um bocadinho mais importantes, ou valem bastante mais do que a madeira que têm. São mais importantes em pé do que cortadas.
A sua beleza, a sua sombra e os seus frutos.
A sua beleza, tudo isso. Então o Carbono Biodiverso é uma iniciativa que está neste momento num processo de crowdfunding, até dia 11 de junho, que queremos preservar estas árvores através da compensação da pegada carbônica que cada um de nós tem como indivíduos. No nosso dia a dia fazemos diversas opções, o que comemos, como nos deslocamos, etc. E a nossa pegada varia bastante, mas em média, um português tem uma pegada de cerca de cinco toneladas de carbono emitido por ano, que é muito.
É uma brutalidade.
São muitos gigantes juntos. Claro que isto é o valor médio, e varia imenso de pessoa para pessoa.
Da consciência de cada um.
Da consciência de cada um. E também da disponibilidade e capacidade para reduzir a sua pegada, porque normalmente ter um bocadinho de menor pegada implica também termos uma carteira um bocadinho mais avultada.
Mais cheia. Uns bolsos mais fundos.
Sim. Que infelizmente o mercado mais sustentável não está disponível para todos. Mas mesmo assim, quem conseguir reduzir a sua pegada, é ótimo, mas há sempre pequenas partes que não conseguimos. E o que nós estamos a tentar fazer, e estamos a tentar implementar, é ter um processo de subscrição mensal de compensação de carbono, para qualquer pessoa que queira subscrever, quase um Netflix, mas que esse dinheiro é revertido para preservar estes gigantes.
E isso só está aberto até daqui a uma semana?
Não. O processo de crowdfunding está aberto até dia 11 de junho.
Portanto, ainda há uma semana, as pessoas ainda podem.
Sim, ainda há uma semana. Perfeito.
Tenho pena não ter chegado antes, não ter sabido de si, deste projeto antes.
Não há problema. Também só teve durante um mês, este primeiro mês de lançamento. Lançamos o crowdfunding, porque a ideia foi criarmos uma comunidade de base, para estabelecer esta subscrição mensal, ter um valor mínimo para conseguirmos implementar também as iniciativas e esperamos em julho conseguir criar então esta plataforma, com este investimento também e este apoio que tivemos, para que todos os meses uma pessoa possa então subscrever, e ajudar-nos mensalmente, sendo sócios da Verde, mas também depois sabendo que árvores estão a preservar, por cada mês que alguém se manter connosco.
Ou seja, cada um ser um padrinho, um amigo.
Uma espécie de um padrinho, um amigo de um gigante.
Daquele árvore e saber que a minha árvore é esta. Isso é muito interessante. E liga-nos.
Exatamente. E a conservação da natureza tem sempre estas três vertentes. Já falámos da conservação da biodiversidade, é extremamente importante para os seres vivos. Estamos agora a falar da parte econômica, ou seja, temos de encontrar formas também financeiras de as preservar. E a seguir vem a questão social, que é isto de nos ligarmos às árvores, de as conhecermos e que são outros mecanismos que estamos a tentar implementar a seguir. Mas nesta parte mais financeira, a ideia é que esta subscrição mensal, uma grande parte desta percentagem do valor que recebemos, seja posteriormente dado aos proprietários destas árvores como um subsídio para a gestão sustentável destas árvores, para que tenham um fundo de maneio para contratar especialistas para as podar, para não fazerem asneiras, para trabalhar melhor a sua envolvência e assim esperar que a árvore consiga crescer e continuar saudável durante muitos anos Por cada mês que alguém estiver connosco, vamos plantar uma ou mais árvores. Ou seja, cada mês que alguém estiver connosco, vamos investir no futuro. E essas árvores também contam para a questão da compensação de carbono. E vamos ainda depois trabalhar tudo que é voluntariados e ações de restauro destas árvores. Isto é o Carbon Bioverse.
João, deixe-me só aqui perguntar, porque acho que todos ficamos a pensar nesta pegada, ficamos esmagados quando vemos isto traduzido em toneladas/ano. Porque se fossem estas toneladas, numa década. Como é que uma pessoa pode, no imediato, no dia a dia, o que está ao alcance de todos para reduzir ainda mais, para além do lixo que reciclamos, da água que poupamos, do optar por trotinetes, bicicletas elétricas, andar a pé, o que podemos fazer mais que esteja ao nosso alcance?
É uma ótima questão. Excluindo todas essas pequenas coisas, vem muito das opções do dia a dia, de onde vêm os produtos que consumimos. A questão dos transportes é vital. A questão dos carros, estar parado no trânsito aqui em Lisboa é-
É brutal.
Eu vivi cá um ano e felizmente vivia perto do sítio onde estava a estudar e andava a pé para todo lado, mas ficava logo pela manhã com uma neura impossível. É um estresse brutal.
Se fosse presidente da câmara, em ano de autárquicas, ou então o que pode dizer a quem se candidata, a quem lá está, qual seria uma medida, numa cidade perfeita, seja Porto, seja Lisboa, sejam as grandes cidades onde isto acontece.
Sinceramente, não sei dizer. O exemplo de Lousada-
Atapetar as cidades de ciclovias.
Não sei. Não, porque também não dá para toda a gente. Não há uma solução única. É preciso ter um pensamento mais holístico, mais estratégico, encontrar novas soluções, se calhar, mas talvez melhorar as já existentes.
E melhorar, certamente, os transportes públicos.
Sem dúvida. A realidade onde eu vivo neste momento, Lousada, é completamente diferente. As pessoas andam de carro porque não há transportes públicos, é uma escala muito mais pequena, completamente descentralizado. São 50 mil pessoas em 100 km quadrados, nada a ver com Lisboa. Mesmo assim, há muita pressão. E lá é um ótimo exemplo, a aposta tem sido feita na educação ambiental, em conhecer o território e valorizar o património existente. Por exemplo, uma das outras coisas que vamos fazer é lançar uma rota dos gigantes verdes, em que selecionamos as 65 maiores e mais interessantes árvores destas 7500 para serem visitadas. Vamos lançar um guia, rotas, ou seja, é usar o património natural também como uma espécie de emblema turístico.
Como se fazem com os passadiços aqui e ali.
Exatamente. Não vamos fazer nada disso por aqui.
E as pontes e tudo isso.
Exatamente.
Mas, João, isto também leva-me aqui, instintivamente, a esta nova consciência das novas gerações e que há os que são mais adeptos das Gretas Thunbergs ou há outros ativistas ambientais, não há só a Greta, mas gostava de saber como é que isto começou em si, também onde é que se situa. Quer dizer, o João é um biólogo e é um grande ativista, é um grande influenciador, portanto, o João já é noutro patamar.
Mais ou menos.
Não. Eu diria que é muito. Olhando aqui para tudo aquilo que já faz, tudo aquilo que pensa, tudo que faz acontecer, meu Deus. Mas alinha por alguma tendência?
Mais ou menos. Como é que eu vou explicar isto? Já tive posições mais vincadas sobre esta temática.
Mais vincadas ou mais radicais?
Não sei, um misto dos dois. Eu tento não ser radical. Conservação da natureza, eu costumo dizer que é um sinônimo de gestão de muita coisa, gestão de territórios, gestão de paisagens, gestão de pessoas.
Expectativas.
Expectativas. Gestão é sempre encontrar meios-termos. E por isso tento conciliar as coisas todas. Até porque gosto muito, e desculpe pegar nestas, já estou a ser nerd, gosto muito de fazer conservação em sítios onde normalmente não se pensa que se pode fazer conservação. Zonas de produção florestal, zonas de produção agrícola, centros urbanos. É possível fazer imensa coisa e ter um impacto brutal nestes sítios, envolvendo as pessoas. E é sempre interessante.
Então, o que é possível fazer nas grandes cidades?
Nas grandes cidades, ligado às árvores, por exemplo, e Lisboa está a fazer isso, que é ótimo: saber onde é que elas estão, ser transparente em relação à sua gestão e aos seus valores, informar, ter em consideração as pessoas, trabalhar, por exemplo, os jardins disponibilizadores, disponibilizar casas-ninho para as aves, entre muitas outras coisas. Lisboa, por acaso, desse ponto de vista, no último ano, agora também com a Capital Verde, tem feito bastantes coisas muito interessantes que podem ser replicadas.
E o Porto?
O Porto também, algumas. Eu não estou assim tão dentro. A comunicação em Lisboa sobre esta questão é ótima e vou mantendo mais à par. No Porto, tem pessoas incríveis à frente dos projetos. Por exemplo, nos últimos 10 anos, plantaram mais de 100 mil árvores em toda a área metropolitana, também foi algo brutal. Conhecem todas as árvores de grande porte.
As pessoas que estão envolvidas são pessoas que são verdadeiramente apaixonadas por aquilo que fazem, não é?
São umas fontes de inspiração.
Ninguém vai fazer isto para ter um posto de trabalho, para ter um emprego.
É um conjunto de pessoas.
Um sacerdócio, não é?
Sim. Felizmente, as pessoas que trabalham nesta área até vão se conhecendo e vão partilhando muito feedback e tirando ideias uns para os outros.
Como é que isto começou na sua vida, já agora? Eu lembro que o João tem 25 anos.
Sim.
O João Soutinho tem 25 anos e, portanto, estamos a falar com uma pessoa que se não soubéssemos a sua idade, se calhar dávamos, no mínimo, 40, com toda a experiência e com tudo o que tem feito e tem feito acontecer.
Então, como é que isto começou na minha vida? Os meus pais tinham ambos formação em áreas naturais. Minha mãe era engenheira zootécnica, meu pai engenheiro agrícola.
A sua mãe já não está viva?
A minha mãe já faleceu, sim, quando eu tinha 15 anos. E quando eu era pequeno, andava por todo lado com eles. Até chegar à universidade, não tinha noção desta paixão que eu tinha. Felizmente, decidi estudar Biologia. Quando entrei na faculdade, gostava muito de Biologia Marinha. Acho que quase toda gente que entra em Biologia gosta de Biologia Marinha. E como já tinha dito, tive sorte de muito rapidamente encontrar uma paixão diferente
Pelos escaravelhos.
Pelos invertebrados. Foi no primeiro semestre, primeiro ano, numa cadeira.
Podia ser, por exemplo, em invertebrados, podia ser as lesmas?
Podia. Há lesmas interessantíssimas, é outro mundo a explorar.
E há outra coisa que é: nós ouvimos o Ricardo Araújo Pereira brincar com o estudo das moscas, mas de facto, na Fundação Champalimaud, há grandes investigadores e que fazem estudos das moscas.
Muita gente em Portugal, na escala das pessoas que trabalham com insetos, há algumas pessoas muito interessantes a trabalhar com moscas.
Mas eu interrompi-o.
Sim. E que veio um bocadinho daí. Andava muito de um lado para o outro. Tenho família também em zonas mais rurais e tive sorte em criança de passear muito, conhecer muitas coisas diferentes. E quando comecei então a estudar Biologia, apaixonei-me por este mundo dos insetos. Estava a estudar no Porto, queria trabalhar nesta componente. No Porto não havia muita gente a trabalhar com isto e descobri que a Universidade de Aveiro, que é pertíssimo do Porto, estava a trabalhar com um projeto superinteressante na Mata Nacional do Bussaco. E que um dos projetos era conhecer os invertebrados que lá andavam. Juntei-me a eles como voluntário, com os meus 18 anos. Parece que foi há uma vida, foi só há sete anos.
Ainda faz uma cara quando eu digo que parece que tem um currículo de 40 anos. Há pessoas com 40 anos que ainda não conseguiram fazer metade do que o João fez.
Eu tive bastante sorte também de ter disponibilidade, não ter de trabalhar enquanto estava a fazer a licenciatura, ter possibilidade de ir a conferências, ir a workshops e fazer imensa coisa.
João, há uma metáfora que é: "Pelos frutos se conhecem as árvores". E já que estamos a falar de árvores e que falou da sua mãe, que eu não sabia, que já não está para cá, mas que foi uma grande influenciadora. De facto, se a sua mãe estivesse presente e visse o João fazer o que faz com esta idade, devia ser um orgulho incrível.
Espero que sim.
Ela percebeu que isto seria a sua vida?
Na altura, eu estava ainda no início do secundário. Não tinha esta veia tão forte em mim. Ela trabalhava nesta vertente, eu gostava muito, acompanhava muitas vezes. Talvez sim, não sei.
A sua mãe morreu por estar doente?
Cancro.
E, portanto, também foi um tempo, de certeza.
Foram dois aninhos um bocadinho chatos.
Naquela escola?
Olímpia.
Olímpia. E sente que, de alguma forma, aquilo que faz também tem a ver com alguma possibilidade de homenagem?
Eu espero que sim. Por muito gosto, tanto à minha mãe, como ao resto da família toda. Eu sempre disse e volto a dizer que tinha muita sorte nisso. Eu decidi que ia trabalhar no que gostava e ia tentar ser o melhor possível nessa componente. Também na minha perspectiva, se conseguirmos fazer o que gostamos e formos muito bons nisso, rapidamente encontramos trabalho, encontramos oportunidades, encontramos pessoas similares. Tem-se provado verdade. Espero que assim continue.
E nunca falta o trabalho.
Não falta trabalho.
Às vezes pode faltar dinheiro.
Não falta trabalho.
Mas trabalho, não falta.
Basta estar atento, conhecer as pessoas, perceber a realidade que está à nossa volta e rapidamente encontra-se ideias novas, encontra-se pessoas superinteressantes para as concretizar. E daí nascem e concretizam-se sonhos.
João, tem irmãos ou irmãs?
Tenho uma irmã, mais velha.
Mais velha. E ela está nesta área?
Ela é designer.
Ela é designer. Isso agora também ajuda.
Agora está na Verde comigo. Consegui trazê-la para o mundo da conservação da natureza.
Voltando à Verde, como é que se consegue, no século XXI, com tanta consciência ambiental, com tantos verdes, como é que conseguem ter o nome disponível? Associação Verde.
Sim, porque não é só o Verde, é o nome completo da associação que foi possível registar. O Verde é impossível, vem daí, mas nós usámos o Verde, que é Verde Associação para a Conservação Integrada da Natureza. O integrado vem desta componente de trabalhar a conservação nos espaços onde normalmente não é pensada fazer. Ou à escala, por exemplo, de um gigante. Conservar um gigante já tem um impacto brutal a uma escala muito mais larga que a árvore em si.
Incrível. Eu tanto quanto percebo, o João não tem nada a ver com Lousada, no sentido, não é a sua raiz, não tem família lá. Foi só este encontro acadêmico ou profissional?
Foi um encontro acadêmico ou profissional, que veio também de uma relação que não veio de mim. Eu depois não acabei ao bocado da história. Quando comecei a trabalhar no Bussaco, fazer voluntariado no Bussaco, isso cresceu para um estágio. Fiz o meu projeto final da licenciatura lá e na altura a minha orientadora, a doutora Milene Matos, uma pessoa excelente, uma das maiores influências que tenho e tive nos últimos anos, deste ponto de vista de conservação da natureza. Quando eu acabei este processo, fundou a associação BioLiving, que me convidou na altura para fazer também parte. Daí nasceu um projeto também dedicado à vacaloura, aquele escaravelho grande. E depois de várias parcerias, uma delas foi estabelecida com o município de Lousada, lançou-se este projeto, tive conhecimento dele. Ou seja, veio de uma parceria institucional, que depois eu fiz uma parceria individual com a oportunidade que surgiu e agora mudei-me para Lousada e a minha doutora está lá também.
Eles devem estar felizes.
Espero que sim.
Tenho a certeza que sim. E tudo isto que tem também muita burocracia, tem uma parte administrativa, isto nunca o desfoca, consegue fazer isto tudo?
Tem dias que sim, tem dias que não. É normal. Há dias que é mais fácil. Estes confinamentos vieram trocar as voltas completas. Antes de tudo, era mais ou menos fácil gerir tudo. Com o confinamento, virámos para o mundo virtual e foi possível gerir as coisas de forma diferente. O desconfinamento, para mim e para vários meus colegas, tem sido bastante complicado, porque agora temos dois mundos. Temos um mundo virtual, que são oito horas de trabalho, e depois há um mundo no dia a dia, que temos de estar no campo com as pessoas, e estão quase em sobreposição. Tem sido mais ou menos complicado gerir tudo, mas tudo se faz com as pessoas certas.
Acredito que sim. João, é incrível, não sei como é com os outros, mas eu acho que pelo menos as crianças e muitas mulheres fogem desses escaravelhos, que ainda por cima são grandes e às vezes parece que atacam. Essa vaca loura não tem grande fascínio para um cidadão comum, pelo menos eu vejo por mim e por pessoas que conheço.
Mais ou menos.
É?
Sim.
As pessoas param para ver esse escaravelho?
Páram. Este escaravelho em particular.
Não é daqueles que voa à nossa volta e que parece que nos ataca?
Não, é um bicho bastante grande. Normalmente está mais ou menos parado.
Que horror, ainda pior.
Não, é um bicho lindíssimo, na realidade. Há um projeto que é o vacaloura.pt, que nasceu em 2016.
Consigo também.
Comigo também. Sou o fundador desse projeto, na altura que nasceu a Bioliving, que está sediada na associação. A ideia é que as pessoas possam ser cidadãos cientistas e ajudar a conhecer melhor esta espécie. Trabalhamos com ela, em particular, por várias questões. É uma espécie protegida por leis europeias, está quase em risco de extinção e tem uma vertente social extremamente interessante, que na geração dos meus avós se brincava muito com este escaravelho. Ele tem umas mandíbulas enormes, parecem umas antenas de um veado, com dois, três, quatro centímetros.
Eu acho que sei quais são.
Eram retirados dos escaravelhos e faziam-se amuletos, que eram contra o mau-olhado, de boa sorte ou oferendas de namoricos, uma coisa assim do gênero. Então há aqui uma vertente cultural que nos permite trabalhar a conservação, ou seja, falamos com as pessoas, elas lembram-se de as ver há 20, 30 anos.
Sabem o que é.
Sabem o que é.
Por isso sabem identificar, sabem localizar.
Sabem onde é que eles apareciam. E conseguimos muito rapidamente fazer uma ponte de: "Este bicho existia, já não o vejo há 20 anos, o que é que mudou aqui à volta e como é que podemos, se calhar, voltar".
É muito mais fácil fazer ou essa reciclagem de conhecimentos, ou informar.
Exatamente. Semana passada foi muito engraçado, tivemos uma atividade com uma senhora de 86 anos, lá em Lousada, que não via uma desde os 16 anos e pensou que ia morrer sem voltar a ver uma. Felizmente conseguiu ver, ficou felicíssima. Para muita gente foi vacas louras. Este fim de semana tivemos 25 atividades em todo o país, mais de 200 participantes e foram vistas quase 200 vacas louras também por estas pessoas todas. Foram várias atividades interessantes.
Engraçado, porque pelo que percebo, estas pessoas associam a boa sorte ou a qualquer coisa boa, mesmo sem saber que está associada à preservação das árvores e do ambiente.
E dos gigantes.
E dos gigantes.
Ondais gigantes, alguns deles, a vaca loura vai aparecendo.
Maravilha. Muito rapidamente, daqui a cinco anos, já nem te pergunto 10, daqui a cinco anos, onde é que gostaria de estar?
Espero ter conseguido finalizar o meu doutoramento sem ter um burnout.
Mas tem um ar tão descontraído, tanto podia ser um surfista.
Está a ser um dia calminho. E de resto, não sei. Acho que é o meu goal local. Tento manter-me com os pés na Terra. Espero que a verde esteja saudável, que não desapareçam mais 500 árvores até lá.
E que o crowdfunding, já agora, deixe-me fazer a minha parte, que o crowdfunding, porque sou cidadã e nós queremos o melhor para nós todos, e que o crowdfunding funcione. Não é?
Esperemos que sim.
Temos uma semana.
Estamos quase lá.
O que as pessoas têm que fazer, já agora?
Têm de ir ao site do PPL ou às páginas da Verde, Verde Associação, e subscrever o seu apoio e a partir daí vamos lançar isto tudo e mudar a forma como preservamos as áreas em Portugal.
Obrigada pelo trabalho que faz, também por nos deixar envolver. É um privilégio que temos e é um imperativo. Acho que é um imperativo humano, ecológico, humano, de todos nós. Muito obrigada, muitos parabéns.
Obrigado.
E obrigada pelo seu entusiasmo e por esta capacidade de ter que fazer tanta coisa ao mesmo tempo com este ar tão descontraído. Obrigada.
Obrigado.