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Bem-vindos ao Imperdíveis hoje com Janeiro. E hoje, pela primeira vez, eu vou pedir para ser o próprio Henrique Janeiro que se apresenta e que diz qual é o estado da arte na sua vida, na sua música, neste momento.

Como é que eu ando, não é?

Exatamente.

Olá, linda. Obrigado.

Obrigada eu.

Obrigado pelo convite, que já estava para acontecer há algum tempo.

Henrique, nós gravamos um vídeo para a entrevista que íamos gravar antes da pandemia, e portanto, estamos há uma pandemia, há um ano e meio com esta conversa suspensa.

Eu até levei um teclado e uma bola de tênis para o estúdio. Lembras? Tu achaste estranhíssimo. Uma bola de tênis?

Para que era a bola de tênis?

Já não sei, achava que fazia sentido com aquele indumentário, porque eu parecia que me ia jogar tênis.

Então, qual é o estado da arte e como é que te apresentas agora?

O estado da arte. Olha, eu acho que a palavra é serenidade, porque decidi afastar-me um bocadinho. Eu costumo dizer que isto é um afastar para parar, para ver de fora sem lá dentro ficar. E realmente foi, porque eu sou de Coimbra e até aos meus 18 anos sempre vivi com esta vida bairrista, de bicicleta, e não sei o quê. Tentei levar isso ainda para Lisboa, dos 18 até aos 26, 27. Só que já não estava a aguentar.

Mas 26, 27 é o que tens agora, não é?

Sim. Tentei levar a bicicleta e vivi bem lá. Não estou a dizer que vivi mal em Lisboa, mas estava a sentir um chamamento não só da natureza, como também a minha estrutura. Eu estava numa vida dupla, porque já estava a andar com a Dani, ao mesmo tempo, tive que voltar para a casa dos meus pais por causa da pandemia, porque nenhum músico tinha nenhum concerto. E eu de repente volto para a casa deles e estou lá, não sei o quê. Ao mesmo tempo, estou a lançar o "Com Tempo, Sem Tempo" e a acabar a Janeiro Sessions Live Tour.

Que foi pelo país inteiro.

É verdade, foi pelo país inteiro e juntou músicos desde o Zambujeiro até ao Araujo, até ao Nacarato, foi muito giro. E tenho andado um bocado nesta coisa, nesta luta pelo cortar dos intermediários, ou seja, pela luta pela independência. E luta também por esta estrutura mais material, ou seja, fundei uma produtora e montei um estúdio de áudio e de vídeo aqui em Emelito.

E isto está dentro de um contentor?

Não, é tipo uma casa pré-fabricada, tipo um módulo. Uma espécie de módulo que nós alugámos aqui no campo e estamos a ver se realmente esta vida faz sentido para nós, para depois comprarmos mesmo um terreno e comprarmos um módulo.

Então vamos por partes, porque já houve aqui um enunciado de tanta coisa.

Foi muita coisa.

Se calhar começamos pelo fim. Começamos por agora mesmo. Então, esta Dalia ao quadrado. Por que Dalia ao quadrado? Já se percebeu que é para queimar aqui as etapas dos intermediários, mas também ao mesmo tempo, há aqui uma vocação.

Há uma nova paixão. Eu aproveitei a pandemia não só para investir, mas também para investir em mim próprio e em mais formas de expressão. E a Daniela Genta também me está a ajudar muito, para aprender a fotografar e a filmar. E também a olhar para a música, se calhar, de uma forma, de uma perspectiva mais sinestésica, mais visual e mais pelas cores, e não tanto pelas frequências ou pelas notas. E no fundo, é um bocadinho isso, é um bocadinho essa tentativa de ela estar aqui ao meu lado a mandar-me um coração.

Vocês apaixonaram-se antes ou durante a pandemia?

Olha, nós apaixonamo-nos exatamente quando eu estava a gravar em Coimbra o Protocolar volume um, que é um EP que eu lancei, que faz parte de um LP com o Paulo Novais, um sambista de São Paulo.

Como é que se cruzaram?

Por acaso foi curioso, nós conhecemo-nos de uma forma curiosa, porque ela tinha acabado de ver a minha música ou de ouvir a minha música e de conhecer-me enquanto artista no YouTube, e viu-me nessa noite no Pérola Negra no Porto. E foi estranhíssimo, porque de repente ela mandou uma mensagem, não sei o quê, depois encontrámo-nos e depois foi tipo almas gêmeas. É difícil de explicar.

Que música era essa? Podemos ouvir essa música que ela ouviu?

Claro que podemos, é a "Solidão". Queres que eu te cante?

Quero.

Posso cantar aqui um bocadinho. Ela ouviu esta música. Espera aí.

Ainda por cima esta praia ao lado.

Sai. Sai da minha vida, nunca mais te quero ver. Sai da minha vida, nunca mais te quero sentir. Não foi culpa minha, não pude prever. Sai. Um de nós que fuja, eu não quero sofrer. Um de nós que diga o que o outro não quer dizer. Discursos confusos que acabam num clichê. Calado, com gente à minha volta. Não, não sinto nada na multidão. Mas algo terei na mão, para entender esta minha solidão. Calado, com gente à minha volta. Não, não sinto nada na multidão

Esta minha solidão.

Continua, mas é só para ti chegar ao refrão.

E foi esta música que, de certa forma, foi a esteira para se conhecer, para se aproximar.

Foi muito curioso, porque ela tinha ouvido e tinha se deixado influenciar, identificou-se pela estética e pela estética musical também. E de repente estava me a ver ali a brindar com uns amigos no Porto, no Pérola Negra, na cidade dela. E foi uma coincidência gigante. E a partir daí construiu-se uma história, e só depois, em 2020, é que nos apaixonamos mesmo, quando eu estava a gravar este LP, o "Protocolar Volume 1", com o Paulinho Novais. E estávamos em casa de um grande amigo, do Pedro Quintal, e a mãe do Pedro abriu-nos a casa, imagina isso, para nós irmos gravar na minha terra natal, porque eu não tinha lá nenhum estúdio para ir. Então nós montamos, eu e o Paulinho Novais fomos de Lisboa para Coimbra e montamos um estúdio em casa de um amigo, no meio da floresta, e ela veio lá ter também e acabou a fotografar e a filmar. Não inclusive ideia que ela ia levar a câmera e do nada estávamos ali numa simbiose artística que chegou até aqui.

Muito bonito. Henrique, agora andando um pouquinho para trás, como é que foi esta tour de Portugal, norte a sul, feita com outros músicos? Como é que nasceu a ideia? Como é que conseguiram levar tudo? Acho que já apanharam a pandemia, ou não?

Sim, ainda fizemos algumas coisas antes, mas depois apanhámos a pandemia. A pandemia lixou o concerto da Casa da Música, com o Miguel Araújo, que íamos fazer a sala um, ia ser épico. E depois lixou alguns concertos, o MIL, que é aquele festival. Mas a maioria dos concertos ainda conseguimos fazer, mas já com 50%. Mas houve alguns concertos antes da pandemia. Por exemplo, estive em Londres a tocar com um grande amigo. Só para voltar um bocadinho atrás, a ideia nasce em casa ainda, no YouTube, a ideia surge online, de eu convidar artistas para virem à minha casa e fazermos canções com alguém a filmar. E depois eu pus no YouTube, comecei a pôr as sessões no YouTube e surgiu esta ideia. Depois, em parceria com a Primeira Linha, esta agência com quem eu tive, de levar isto para as salas de espetáculos. E esta era a ideia primordial, que era começar em casa e depois seguir para as salas de espetáculos. Mas seguiu com uma coisa curiosa, com uma particularidade curiosa, que é: a ideia seguiu, mas com improviso. Ou seja, eu estava um bocado aborrecido, para ser sincero, da má vida do músico. Ou seja, aquela coisa de tocar, repetir a mesma música. E a ideia nasce porque eu queria ter mais pica em palco. E poder improvisar um bocadinho mais, poder não saber o que é que ia acontecer a seguir, poder querer reagir a isso, ou seja, um bocadinho mais de jazz, mas a cantar pop. Ou bossa nova, ou o que for, ou pop brasileira, ou o que for. Mas assim nascem as sessões. E de repente, em parceria com a Rádio Comercial e com os Vinhos Ermelinda, conseguimos marcar umas 20 e tal sessões. Nem todas aconteceram, mas foram mesmo bonitas. Passei pelo Tivoli com o Tiago Nacarato, com a Carolina Deslandes lá em cima. Acho que foi em Vila Real, ainda vai ser em Vila Real outra vez. Uma série de concertos, uma jornada de concertos que foi incrível mesmo.

Henrique, isto é uma espécie de um new you, é um novo eu, um novo tu. Neste caso.

Completamente.

O que deixaste para trás? O que já não te vês a fazer ou já não te vês a cantar?

O que eu não me vejo a fazer é coisas sem intenção.

Mas alguma vez fizeste coisas sem intenção?

Sim, bloqueei um bocadinho essa ideia de de repente ter que fazer uma tour e não acreditar no conceito da tour ou não acreditar que quero repetir 30 vezes pelo país o mesmo disco. E deixar cair esses conceitos, deixar cair essa "bullshit", entre aspas, como eu lhe chamo. Eu sou viciado no processo. Sei que isto pode soar um bocadinho egoísta, mas é para poder chegar às pessoas de forma mais orgânica e não tão robótica. Robótica e previsível para o músico.

Mas um músico, por definição, vai repetir, se for compositor, as suas composições, se for só cantor. Quer dizer, vai ser uma vida de repetição sempre, não é? À partida. E para ti, há uma disrupção nessa previsibilidade, nessa robótica, como tu dizes. Tu não queres fazer isso.

Sim, não quero, mas repare que eu não deixo de fazer as canções a mesma. Ou seja, eu sei que no final vou ter que acabar com um single e que a meio vou ter que dar outro single. Ou seja, eu vou gerindo o público também. Mas vou gerindo dentro dessa capacidade de improviso. Ou seja, se de repente ao Miguel Araújo apetece estar a solar quatro minutos, por que não? E ele poder ir para um solo. E depois ele próprio sente: "Olha, já estou a cansar o público com este solo, vou para outra coisa". E há essa sensibilidade, porque estamos os dois ali a levar as pessoas e a guiá-las, e elas estão conosco também. Elas de repente gritam: "Epá, mas podias é tocar aquelas, não sei o quê". E o Miguel até ouviu Estás a ver? E de repente ele pegou na música e foi para outra música. Há momentos espetaculares. Aliás, há duas sessões das "Janela Sessions" que já estão no YouTube na íntegra, a do Araújo e com os Zambujo também, e que já dá para ouvir em casa. Se quiserem ouvir em casa, acho que para um serão é ótimo. Nem precisam estar a ver a imagem.

E não é funcionar demasiado sem rede no arame?

Eu gosto, particularmente. É isso que me diverte na arte, essa desconstrução da forma para procurar novas abordagens e novas formas de fazer, que nos levem também a nós, artistas, a um momento imprevisível com as pessoas e realmente no momento presente. É isso que eu estou a começar a compreender, que eu gosto mesmo é do momento presente. E este trabalho de vir para aqui pro campo e de montar aqui um estúdio, não é só uma coisa financeira, não é só por causa de cortar os intermediários. É também um movimento em prol de não acabar-

A sustentabilidade artística, a sustentabilidade criativa, digamos assim.

Exato, em prol de não acabar esse movimento, de ser uma coisa perpétua e não ser uma coisa só: "Ah, ok, fui ali porque quis ganhar dinheiro". Não ser uma coisa motivada por isso, só. Também pode estar isso envolvido, mas não ser só esse o propósito.

Henrique, nós conhecemo-nos ainda antes do Salvador Sobral ser operado, vocês eram muito amigos, cantavam juntos, parecia que tinham nascido na mesma barriga, porque a conjugação das vossas vozes é absolutamente extraordinária. Havia uma bondade enorme na vossa amizade que nos tocava a todos, às pessoas. Tu empurravas o Salvador, que não podia subir nem dois degraus sozinho, e tu levava-lo, eras assim uma espécie de um anjo protetor, mas também muito amigo e sem nenhum paternalismo. Isso eram cenas muito bonitas. Continuam amigos, continuam a ver-se, continuariam a cantar juntos?

Claro. Aliás, íamos fazer umas "Janela Sessions" em conjunto, só que foram as duas desmarcadas, uma porque não houve promoção em Coimbra, então não se venderam bilhetes suficientes, então não fizemos, que era no Convento de São Francisco. E depois íamos fazer outra que eu tive que desmarcar, e agora estamos à espera para poder remarcar, mas em princípio vamos estar no Centro de Artes e Espetáculos em Portalegre.

Quando?

Não nos temos visto tanto porque cada um está mais na sua vida e a estruturar as suas coisas, mas continuamos com uma amizade mesmo forte e mesmo especial, na minha opinião. Mesmo especial.

O que vocês querem fazer com a Dalí ao Quadrado?

A Dalí ao Quadrado. Há bocado estavas-me a perguntar o porquê do nome. Posso começar por aí. Este nome surge por causa do nosso gosto pelo surrealismo e pelo abstracionismo. E claro, fomos buscar o nome mais clássico, o Salvador Dalí. E em numerologia, nós somos os dois número 11. E nós costumamos dizer que nós os dois somos uma potência ao quadrado. As pessoas quando estão conosco, sentem-se potenciadas. E nós chegamos a esta ideia: "Por que não chamarmos Dalí ao Quadrado? Se nós somos esta potência, por que não sermos o surrealismo ao quadrado?" E eu achei muita piada, a Dani também, e foi assim uma coisa meio sinérgica.

Em que é que se traduz esse vosso surrealismo ao quadrado, no concreto?

Olha, eu espero que se traduza em muitos videoclipes, numa fase posterior, em muitas curtas-metragens e talvez longas. Eu adorava escrever um script, adorava trabalhar com atores, trabalhar mais nesse sentido de filmar a coisa, estar a gerir pessoas nesse sentido, quer em videoclipes com amigos. Já falei com o Salvador que gostava de fazer um videoclipe para ele, fazer um videoclipe pro Tiago, na Carato, ou fazer um videoclipe para os Black Mamba. Acho que isso também fomenta a partilha entre nós aqui nacionalmente. Eu sinto que não há ninguém dos meus pares realmente a fomentar essa união entre os artistas. Por que eu não hei de estar a compor com o Rui Veloso, ao pé dele, ele vir aqui a casa e eu ir à casa dele, sei lá, ou o que for.

Ou seja, no fundo, fazeres um centro cultural, artístico, criativo, performativo, nesse teu Alentejo, que eu nem sei onde é. Onde é?

Exato, em Molides.

Em Molides, que maravilha, que sorte.

É verdade.

E ser assim um centro, um centro criativo, um centro performativo.

Gostava, claro. Não vou mentir que gostava muito de gerar esse movimento.

Esse movimento.

Esse movimento, sim.

E consegue-se viver disso? É sustentável?

Acho que é preciso uma pessoa querer baixar os custos e querer viver com o mínimo possível, que é o que eu faço.

E o que é o mínimo possível e como é que vives?

Ou seja, para poder fazer isto, também estou mais afastado dos sítios onde a renda é mais cara. E estou mais afastado, se calhar, de uma movida lisboeta ou portuense, mas estou mais em contacto comigo próprio. E no fundo, é baixar esses custos, andar mais de bicicleta, que era uma coisa que eu também já fazia muito, mas se calhar eu pego no carro só para ir a Lisboa. Imagina que tu me dizes para ir gravar uma entrevista lá Ou porque eu tenho um concerto, acabo por utilizar o carro muito menos. Fazer compras com muito mais tempo, porque aqui sinto que tenho muito mais tempo pra pensar também na casa e nas coisas, nesta estrutura. E no fundo é isso, acho que é essa cedência de viver com um bocadinho menos. Claro que isso não quer dizer que eu não compre uma guitarra ou que não tenha material de estúdio ou que não invista no estúdio, mas viver com o necessário. Isso interessa-me.

Viver com o necessário e viver com a pessoa que se ama.

Exatamente.

Isso é um luxo. Podemos ouvir um bocadinho deste teu single, porque temos aqui dois minutos, mais ou menos, antes de ter que fazer uma pausa.

Bora lá. E se a nossa amizade é pra ir pra frente ou não. Nem sempre damos a mão. Nem sempre é fácil. Nem sempre é refrão. Talvez seja a hora de dar um tempo pra nós. E então voltar pra ser irmão. E renovar a nossa relação não foi nem é em vão. Eu sempre um dia vou voltar. E se eu pedir pra ti um pouco de atenção. Eu sei que você vai estar na mesma pulsação, aberto ao que vier. É isso que nos faz dançar. Pra ser irmão. Pra ser irmão. Pra ser irmão. Tenho andado a pensar em ti. Será que ainda pensas da mesma forma em mim? Nem sempre damos a mão. Nem sempre é fácil. Nem sempre é refrão. Talvez seja a hora de dar um tempo pra nós. E então voltar pra ser irmão. E renovar a nossa relação não foi nem é em vão. Eu sempre um dia vou voltar. E se eu pedir pra ti um pouco de atenção. Eu sei que você vai estar na mesma pulsação, aberto ao que vier. É isso que nos faz dançar. Pra ser irmão. Pra ser irmão. Pra ser irmão. Pra ser irmão. Pra ser irmão. Pra ser irmão. Pra ser irmão. Pra ser irmão. Pra ser irmão. Pra ser irmão. Pra ser irmão. Pra ser irmão.

Bem-vindos à segunda parte do programa Imperdíveis, hoje à conversa com Janeiro, Henrique Janeiro, músico. Henrique, podemos ouvir um bocadinho do "Ó Meu Amor", que é este novo single que acabaste de lançar?

É verdade, este single de avanço ao meu álbum novo, "Fugacidade", que vai sair em 2022.

Então vamos ouvir "Ó Meu Amor" e depois vamos falar sobre o "Fugacidade". Pode ser?

Siga. Ó meu amor, é que eu amo-te tanto. É que eu quero-te tanto. É que eu quero te ver feliz. Ó meu amor, é que eu quero-te tanto. É que eu amo-te tanto. É que eu quero te ver feliz. Baby, mostra-me o teu lado mais leve. Me obriga simplesmente a não pensar em nada. E acontece que a minha mente fugazmente apaga. E finalmente consigo contigo não pensar em nada. Imagino uma estrada sem saída que te leva a casa. Tudo o que eu quero é dar-te asas. Sentir-te descascada. Só pra teres uma noção, tava na solidão Sem saber nada. Vou tudo em vão, que eu amo-me sem saber nada. Celebro o nosso amor com muito calor. Podias viver, viver devagar. Podias viver devagar. Podias viver, viver devagar. Podias viver devagar.

Admito, isto é um hino ao amor, ao vosso amor, presumo.

Completamente. E é a primeira vez que eu componho e que quero expor e que exponho uma declaração de amor, porque eu andava sempre muito em temas de desamor e de temas meio urbano-depressivos. Meio de solidão e de estar no meio de muita gente e não sentir nada, essas coisas que um millennial sente hoje em dia. E esta confusão de estímulos que está à nossa volta, que motiva muito o que eu estava a sentir também e é este parar pra ver de fora sem lá dentro ficar, este olhar pra dentro.

Uhum. É muito bonita esta música. Não sei se a Dani, a quem ela se destina, se continua aqui ao teu lado.

Sim, continua aqui ao meu lado, só que está com fones, não ouve nada que eu estou a dizer. Ai, não, afinal está a ouvir. Não, e é curioso, porque a canção surge também muito porque ela estava sempre a dizer: "Isto é o meu humor, eu ando tanto". Ainda por cima é do norte, ela diz: "É o meu humor, eu ando tanto". E eu peguei nessa parte e foi curioso, porque nós quando chegamos aqui a Molitos, o primeiro restaurante que nós fomos chama-se Molitense, onde está uma pessoa superprofética, que é dona do restaurante, que é o Carlos Pereira. E foi muito curioso porque ele virou-se para mim e disse assim: "Tu e a Daniela, vocês vão ser muito felizes em Molitos". Disse com um tom superprofético e eu: "Obrigado, Carlos, não sei o quê, muito prazer". E ele: "Mas tu tens que fazer uma música pra ela". E ele fica assim a olhar pra mim: "Levas isto a sério, tens que fazer uma música pra ela". E eu levei a sério e fiz uma música pra ela e agora já está no ar.

E é a primeira música que podemos ouvir do "Fugacidades". Tanto quanto-

"Fugacidade".

Ah, fugacidade, exatamente. Pensava que não dava em plural. Mas tanto quanto julgo saber, é um trocadilho, não é? É fugacidade e é fuga da cidade.

Exatamente. Este jogo com o exílio urbano, o contrário, quando já não é exílio rural, agora é exílio urbano.

Sim.

E fugir desta fugacidade, deste modo de vida fugaz que se vive na cidade. É um bocado o retratar e jogar com as palavras com essas duas coisas.

Achas que este disco vai arder?

Acho que sim.

Por quê?

Primeiro porque é mais uma vez um hino à partilha e eu vou convidar imensa gente. Já está muita gente confirmada, um músico que eu adoro, o André Viamonte, cantor e compositor. O Édo Mundo também vai entrar neste, dos Cordel, não sei se conheces Cordel. Vai entrar também. Já está confirmada também a Artéria FM, que é uma cantora incrível do Brasil, que eu admiro muito também, que vai cantar comigo um tema, um cover, que se chama "Pequena Flor", neste novo disco. Não sei se conheces essa música dos Entre Aspas. Uma flor, uma pequena flor. Sabes?

Não, mas é bonito. Queres cantar mais um bocadinho, assim à capela?

Uma flor, uma pequena flor que eu colhi só a pensar em ti. Uma flor, uma pequena flor que eu colhi só a pensar em ti.

Tu tens uma ligação muito forte com alguns músicos brasileiros. Tens assim também um desígnio, parece um desígnio teu, a lusofonia. Isto é uma realidade, uma paisagem que te diz muito.

Muito. Até porque foi muito curioso a organicidade dos acontecimentos, porque houve uma série de músicos como o Léo Midéo, como o Paulo Novais, como o Tomás Lenz, músicos incríveis brasileiros que vieram pra cá também muito por causa da questão social lá. O Bolsonaro e o problema da segurança, então são pessoas que decidiram vir pra cá, e estavam cá, de repente a chillar conosco, portugueses, e a partilhar músicas e a fazer álbuns conosco e não sei o quê, e a partilhar, no fundo, a vida, porque eu fiz grandes amigos, mais do que tudo. E de repente estou a fazer versos com eles e estamos a ter projetos juntos. E o Cau Nardi, a Nati Vali, o Gabriel Marim também, eu tenho que falar deles em todas as entrevistas, são pessoas que me influenciam muito e espero também influenciá-los a eles. E acho que esta troca, tu estavas a falar de lusofonia, esta troca é muito necessária entre países também. E também nos abre aqui mercado, pra poder tocar lá fora e eles tocarem aqui. Acho que é mesmo positivo.

Sentes-te um privilegiado ou não?

Muito. Claro. Sinto que fiz escolhas que me levaram a um sítio mesmo, ou que me estão a levar a um sítio mesmo de serenidade comigo próprio, que é uma coisa mesmo agradável.

Engraçado, porque há bocado tu disseste que antes de conheceres a Daniela, tu estavas naquela fase em que até a composição das letras, aquilo que tocavas, aquilo que cantavas, eventualmente aquilo que sentias era: "Estou aqui, mas não sou daqui", um bocadinho fora de ti, observador do mundo, observador dos outros. E de repente, é como se tu tivesses ganho uma unidade interior, e a partir dessa unidade interior tudo mudou e tudo parece novo, não?

Completamente. Estás a ler da melhor forma possível. Foi completamente isso que aconteceu. Foi um olhar para dentro e mudar uma série de hábitos que também me estavam a bloquear. E eu que sempre tentei cortar os intermediários e me tornar independente, no fundo, pesquisar ou procurar por essa liberdade humana, e de repente estava sempre a bloquear e percebi que tinha que parar um bocadinho também. O meu álbum "Com Tempo Sem Tempo", que eu lancei o ano passado em 2020, fala muito sobre isso, sobre o ritmo, sobre estarmos a viver sem tempo para nós, sem tempo para os outros. Sinto que ninguém rega as amizades como deve ser. Hoje em dia já nem nos podemos ver. É quase ilegal vermo-nos uns aos outros. E parece um bocado que estamos a voltar quase a uma guerra, a voltar, porque já existiram, mas quase uma guerra fria onde uma pessoa nem se percebe de onde é que vem este vírus, se é orgânico, se é artificial. Não se percebe nada e ninguém nos conta a verdade dos factos, porque parece que as notícias estão todas meio minadas. Não sei se concordas comigo neste ponto ou se achas que isto é teoria da conspiração.

Não, eu estou habituada a ler e a ouvir para ponderar mais do que para concordar e por isso nem sequer estava a pensar agora, nem era esse o caminho que eu queria tomar, mas interessa-me mais perceber o caminho que tu estás a tomar. E, portanto, acho a tua opinião, a tua partilha, a tua experiência muito mais interessante do que qualquer coisa que eu possa achar. Mas é interessante isto de mudar de rumo, porque a pandemia chegou, porque veio este tempo contra natura, contra a natureza humana.

Dilatado.

Por isso é que eu há bocado perguntava também se te sentes um privilegiado. Quando pergunto se te sentes tão privilegiado ou não, é por isso mesmo, porque de certa forma, uma pessoa é forçada a mudar, mas depois na mudança, de facto, encontra um horizonte completamente novo e paz.

Completamente.

O que mais valorizas na vida?

Aquele momento em que consegues sentir uma empatia total com o outro. Aquele momento em que tu dizes assim: "Agora estou mesmo com a outra pessoa".

Independentemente se é uma pessoa amorosa ou não.

Independentemente de tudo que está a acontecer. Exatamente. Independentemente da nossa representação social, independentemente dos papéis, estou mesmo aqui contigo e falámos isto os dois, e vimos isto, sentimos isto. E no fundo eu sou um bocado viciado nisto de levar pessoas ou de ser levado também em viagens, seja literais de carro ou até viagens mágicas dentro da nossa cabeça que nos levam a melodias e que nos levam a cores e a espectros que uma pessoa nunca imaginou. E no fundo é esta expansão da imaginação que me interessa e esta gratidão que me acompanha sempre por saber também o privilégio que tenho em poder fazê-lo.

Engraçado falares na gratidão, que eu acho que é daquilo que eu conheço em ti, acho que é, de facto, é fundante em ti. Mas quando foi aquela experiência do Festival da Canção, parecias pouco grato. Dás-te conta disso? Aquela história de comer a banana, descascar a banana, estou-me nas tintas e parecia uma coisa. Ainda te consegues rever nisso, nessa atitude, nessa profissão?

Vejo. Sim, porque continuo muito desconstruído nesse sentido. Ou seja, a banana não é suposto ser uma coisa arrogante nem prepotente. A banana é suposto ser uma crítica, é uma crítica provocatória performática. E acho que as pessoas depois escolheriam compreender o que é o boneco e o que é depois a minha pessoa.

E qual era a mensagem, se pudermos resumir para leigos ou mesmo para crianças, no modo infantil, era para dizer o quê?

Que não acredito na seriedade que é dada a determinadas coisas.

Tu tens uma fotografia também aquática com imensas bananas a flutuar. E eu fiquei a pensar que-

Sim, é uma referência.

Isso sim, é uma coisa surrealista. Uma coisa daliniana.

Mas sempre foi. Aliás, eu apresento-me ao público português dessa forma, a comer uma banana. E eu acho que também há qualquer coisa de irônico aí. As pessoas de repente estão-me a ver e estão a dizer: "Aquele ali tem uma deficiência mental". E eu acho piada a isso, a criar essa personagem, criar essa relação dantesca com o público, meio modernista.

Ou pós-modernista.

Exato. Hoje em dia já é pós, mas estou dizendo modernista pra me lembrar. Exato, hoje em dia já é pós, pós. Eu estava me lembrado das performances do Pessoa e do Mário de Sá-Carneiro e do Amadeu de Souza-Cardoso, e a malta toda a juntar-se e todo aquele movimento Orfeu, isso influenciou-me imenso. E eu acho piada a essas coisas, de repente andar na cidade, ir à cidade e combinar com um amigo e ir sempre em frente na cidade. Adorava fazer isso, ir sempre em frente. E são tudo momentos de desconstrução. Nunca são momentos para serem levados totalmente a sério.

Henrique, como não temos muito tempo, ainda queria ouvir o "Amor", que é uma música tua, que eu gostava de ouvir e gostava de passar. Achas que podemos ouvir agora?

Claro que sim. Vamos lá. "Amor", do disco "Sem Tempo", que está disponível também do lado com tempo. Ou seja, é um disco duplo, um LP, que se chama "Com Tempo Sem Tempo", em que as 12 músicas são as mesmas, mas o arranjo é diferente Ou seja, o lado sem tempo é um lado mais rádio, mais comprimido, mais eletrónico, e o lado com tempo sou eu despido, nu. É um lado mais à guitarra, à voz, piano, mais acústico. Eu tenho muito esses dois lados.

Henrique, então podemos ouvir os dois lados e depois voltar aqui só para nos despedirmos.

Bora. Amor, já se passou tanto tempo. Se é este o momento eu não sei. Para te dizer se fui eu que errei. Amor, pede tu ao vento. Que o clima anda pesado. Não fui eu que estraguei o teu fado. Amor, como estão os teus dias? Tenho andado perdido a pensar em sei lá o quê. Amor, perdi-me no verso da vida. No universo e na sua medida. Eu que achava ter tudo tão organizado. Afinal, fui eu que rompi com o meu fado. Talvez nunca vás entender a prosa de interrogação. E em palavras te digo que não basta só querer, tens que ter intenção. E no dia em que abrires as portas da perceção. Conta-me, por favor, como é que eu sou só de imaginação. Tenho andado perdido a pensar em sei lá o quê. Amor, já se passou tanto tempo. Se é este o momento eu não sei. Para te dizer se fui eu que errei. Amor, pede tu ao vento. Que o clima anda pesado. Não fui eu que estraguei o teu fado. Amor, como estão os teus dias? Tenho andado perdido a pensar em sei lá o quê. Amor, é que perdi-me no verso da vida. No universo e na sua medida e nisso me fazer. Não fui eu que estraguei o teu fado. Não fui eu que estraguei o teu fado. Entende que não fui eu que estraguei o teu fado. Será que estraguei o teu fado? Não fui eu que estraguei o teu fado. Não fui eu que estraguei o teu fado. Não fui eu que estraguei o teu fado. Não fui eu que estraguei o teu fado.

Henrique, adorei. É sempre bom falar contigo, porque tu realmente rasgas a paisagem e dizes coisas que mais ninguém diz e essa tua criatividade, essa originalidade é mesmo completamente fora, imprevisível e bonita por isso. Encantatória por isso. Obrigada, Henrique. Muitas felicidades e espero que esta fugacidade, este disco, seja de facto um disco que vai arder e fazer arder. Obrigada.

Espero que sim. E quero te agradecer também, porque é um prazer enorme poder também chamar-te de amiga e ao mesmo tempo estar a ser entrevistado por uma amiga. É mesmo um privilégio enorme. Por isso, obrigado.

É bom disso, sem nos vermos.

É verdade, sem nos vermos e cheios de intenção.

O ritmo fica sempre alterado, fica estranho. Uma pessoa estar não fora onde vemos, está cada um no seu espaço, mas é contemporâneo. Obrigada, Henrique. Muitas felicidades pra ti e pra Daniela.

Igualmente, obrigado.