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Bem-vindos ao Imperdíveis. Hoje com Joana Matos, 30 anos, artista de artes performativas. É bailarina, é professora, vive entre Nova Iorque e Lisboa. Em Nova Iorque viveu permanentemente entre 2010 e 2015, e de 2015 para cá, ou está lá ou está cá, mas sempre a fazer as mesmas coisas, seja em Lisboa ou Nova Iorque, dá aulas de dança, dá espetáculos, cria projetos. Não sei se se pode aplicar aqui o site specific, como se faz com as instalações, se neste tipo de dança, neste tipo de artes, também se aplica. Bem-vinda, Joana. Conheci há muito pouco tempo e gostei muito de a ouvir. Gostei muito da maneira como contou a sua história, achei que era verdadeiramente imperdível. Bem-vinda.
Olá.
Olá, Joana. Podemos se calhar começar com a história de como é que isto tudo começou, como é que a dança começou, com a história de uma avó.
Exatamente. Eu sempre fui uma pessoa muito ligada ao corpo. Eu, enquanto criança, aprendi a andar de bicicleta sozinha. Sou uma pessoa que sempre adorou movimento e sempre foi uma coisa muito natural para mim.
Fez alpinismo, não foi?
Sim, fazia mil coisas. Escalada. Fazia bicicleta.
Alpinismo, não, escalada.
Escalada mesmo. Mas adorava. Aliás, sempre que eu punha uma coisa na cabeça de movimento, eu tinha que fazer aquilo o melhor possível. Não a competir especificamente, mas a competir comigo mesma. Sempre foi assim.
A descobrir a si própria e os seus limites.
E também um bocadinho porque o próprio movimento sempre me fez sentir bem. Era uma coisa que quanto mais eu descobria, era quase como eu me ligar a mim e encontrar silêncio. Isto foi sempre um movimento, sempre quis dizer silêncio pra mim.
Engraçado, porque estamos em rádio, não se vê, mas só a explicação que acabou de dar e os movimentos que fez com os braços, percebe-se tudo, mas infelizmente as pessoas não veem.
Por outra oportunidade.
Eu posso traduzir.
Eu sempre fui muito ativa e houve uma certa altura que eu era muito ativa, mas ao mesmo tempo muito ambiciosa. E eu sempre era uma pessoa que puxava o meu corpo até o limite. E por causa disso, criei vários tipos de lesão. Eu também fiz equitação de competição e caí várias vezes. Tive várias lesões durante a minha vida anterior, antes da dança.
Que seria até quê? Aos 16 anos?
Foi até aos 16 anos, mais ou menos. E a partir daí, fiquei mesmo lesionada. A uma certa altura, estava a fazer escalada, fiquei muito lesionada e já não conseguia levantar os braços, não conseguia pôr os braços em cima da mesa, porque fiquei mesmo com uma tendinite brutal no braço esquerdo. Acho que foi o primeiro. E depois o que é que eu disse? "Olha, eu vou escalar só com o direito". Então lá fui eu.
Uma louca.
Sim, era louca, completamente. A verdade é que era louca.
O que os seus pais diriam, pensariam ou pensam disso?
Se calhar, eu acho que eles sempre aceitaram que eu era assim. Nunca foi uma coisa que eu sei.
Não era deixada de ser como é.
Exatamente, deixada de ser como é. Ela é mesmo assim. E eu fazia as coisas, fazia mesmo assim.
Mas ó Joana, e chegou a atirar-se a uma escalada só com o braço direito, ou não?
Claro, treinava assim. Claro que não ia para as coisas mais difíceis, mas estava determinada a não perder a cadência do meu treino. Porque queria ser absolutamente fantástica. Isto era muito importante pra mim, eu aos 16 anos. A partir daí, claro que lesionei também o braço direito.
Se calhar duplamente, não é?
Obviamente, não sei, mas não estava bem. E a partir dessa altura, foi o primeiro momento da minha vida que eu não fiz desporto nenhum, durante um compasso mais ou menos de um ano.
O que é uma brutalidade pra alguém.
Para mim, era completamente impossível. Aquilo foi uma coisa muito estranha.
Deve ter sido mais difícil para os seus pais lidar consigo nessa fase do que se calhar com a fase da escalada.
Eu acho que eles até estavam mais ou menos, não estavam mal, mas eu própria é que por dentro já não estava assim tão bem. Ainda por cima àquela altura da puberdade, a pessoa tem as hormonas, o corpo está a mudar. Então o meu corpo, comecei a ganhar peso, ganhei quase oito quilos mais do que tinha e às tantas. Depois a minha avó precisava de companhia pra ir pra ginástica da terceira idade.
A sua avó tinha quantos anos?
A minha avó, não sei que idade é que ela tinha na altura, já não me lembro, ela faleceu.
Mas era uma avó.
Mas era uma avó. Mas ela foi mãe muito cedo. Ela aos 23 anos já tinha três filhos. Portanto, a minha mãe teve-me mais tarde, mais ou menos aos 32. Mas a minha avó era uma avó jovem.
Pelo menos de espírito, também.
De espírito completamente jovem, absolutamente jovem. Mas de fisionomia e da sua própria expressão física, também. Era uma pessoa que sempre foi muito ligada ao físico e sempre gostou muito de ginástica.
Portanto, it runs in the family.
Exatamente, de alguma forma.
A genética importa mesmo.
Eu, por acaso, acho que importa imenso.
Nature versus nurture.
Sim. Isto é verdadeiro, mesmo.
Completamente.
E, por exemplo, no caso da minha mãe, que é uma pessoa muito ligada naturalmente à música, também se vê muito como essa ligação visceral à música também passou pra mim. Mas a minha avó precisava de uma companhia pra ir à ginástica com ela, da terceira idade, que aquilo era às terças e quintas de manhã. E basicamente pagou-me um livre-trânsito no Ginásio Clube Português, onde ela era sócia, pra eu ir com ela à ginástica. E eu fui e estava numa péssima forma física, em que eu estava a pior da aula dos 70 e tal anos, da terceira idade, o que era uma vergonha. Eu vi que era uma vergonha. E pensei: "Isto não pode ser. Tenho que continuar a vir à ginástica da terceira idade", e eles ali com os seus tênis a fazer a sua aeróbica e eu ali atrás a tentar fazer os abdominais e não conseguia fazer nada. Terrível. Mas a partir daí vi que havia aulas de dança também no Ginásio Clube Português. Então o que eu fazia? Fazia a aula de terceira idade com a minha avó e depois já que tinha o livre-trânsito, ia fazer as outras aulas que eu queria. E foi assim que a dança começou, basicamente.
Engraçado. E que dança é que fazia?
Aquilo era hip-hop na altura. Era danças urbanas. Eu acho que aquilo não era bem específico hip-hop, eles faziam vários estilos. As pessoas às vezes chamam hip-hop pra falar sobre um grande grupo de danças que vem da diáspora afro e latino-americana. Mas de facto, as danças têm todas nomes diferentes e fazem parte de subculturas diferentes.
E tem alguma ligação com essa cultura?
Completa.
É?
Absoluta.
Porque a Joana, como rapa o cabelo, que lhe fica muito bem, é muito difícil uma rapariga desta idade ou qualquer idade rapar o cabelo e ficar bem, e isso lhe dá imensa expressão, imensa pinta, como se costuma dizer. E como é uma pessoa clara, não consigo perceber se tem ligação, mas pelos vistos tem.
Tem ligação, mas é uma ligação aprendida.
É que eu não sabia como é que era o seu cabelo. Às vezes nós vemos as culturas e as ascendentes.
Podia ser étnico, não é? Não, mas por acaso o meu bisavô era indiano. Aliás, a minha avó, do lado paterno, cresceu na Índia, em Goa. Só veio para cá aos 18 anos, ainda de barco.
O seu tom de pele tem qualquer coisa.
O meu tom de pele já tem a ver com isso. Não a ver com África, mas na Índia. Até porque muitas vezes eu, como estou na cultura africana, as pessoas pensam mesmo que eu tenho raízes africanas, mas não tenho. Também não conseguem ver pelo cabelo. Não, muita gente. Mas neste caso, estas raízes com esta cultura hip-hop são aprendidas, mas tenho uma ligação muito forte.
E isso começou como?
Com esse interesse. Assim que eu fui a estas aulas de dança, comecei sempre a interessar-me cada vez mais e a ligar-me cada vez mais. Sempre gostei do movimento. Eu mesma quando fazia escalada, é engraçado, as pessoas pensam assim: "Ah, não, eu gosto é de ter contato com a natureza, ou gosto daquele desafio de chegar ao topo". Pra mim nunca foi isso. Nada.
Era superação própria.
Não, queria dizer a graciosidade do movimento. Então o meu objetivo era, em cada movimento, ser o mais gracioso possível e o mais suave, com o mínimo de energia possível, conseguir executar os movimentos de uma forma graciosa. Isso é dança. Portanto, pra mim já era uma dança na parede, é engraçado como as coisas fluem. A partir daí, a dança e depois a música. Eu gosto tanto de música como eu gosto de dança. Eu sou daquelas pessoas que, como bailarina, danço sempre ao som da música, eu vou dizer 90% das vezes. E então essa paixão pela música associada ao movimento, a dança era uma coisa realmente excelente pra mim e essa cultura foi a cultura à qual eu fui primeiramente exposta. E então a partir daí causou-me interesse, interesse em viajar, aprender mais, fui pra vários países.
E aí foi pra onde?
A partir daí, comecei a fazer aulas, tipo workshops, externamente na Europa, nomeadamente em Paris, na Alemanha. Acho que esses cá foram os dois sítios em que eu estive mais vezes. E aquilo era workshops ou então competições de dança. Mesmo aqui em Portugal havia várias pessoas já a trazerem pessoas estrangeiras.
E sempre no hip-hop.
Sempre nas danças urbanas, o que se chama danças urbanas, não necessariamente o hip-hop, porque depois dentro das danças urbanas, do que se chama danças urbanas, que há muita gente, atenção, que nos Estados Unidos não concorda com este termo, e eu tenho que representar estas pessoas também. Existem várias subculturas, portanto, existe locking, existe popping, existe o que nós chamamos hip-hop, depois existe house, depois existe freestyle, breakdance, mas antes do breakdance ainda existe rocking, depois existe waacking, existe vogue, existe hustle, existe muita coisa.
E a Joana hoje em dia domina tudo isso?
Não, não domino tudo isso. Há algumas que eu favoreci. Eu estudei vários. Provavelmente esses estilos todos eu já toquei, e já me tocaram pessoas que são especialistas nestes estilos, porque eu também vivi em Nova Iorque durante muitos anos, então foi fácil esse contato com pessoas que verdadeiramente faziam parte daquela cultura. Mas as que me mexeram mais e que captaram mais o meu interesse foram danças, estilos de dança e subculturas que vêm da cultura gay, de Nova Iorque, dos anos 70, ao som de música disco e que eventualmente depois passou pra house.
Onde é que nós nos podemos situar?
Essas são três danças, que são todas mais ou menos contemporâneas. A primeira delas é vogue, a segunda é o que agora as pessoas chamam house, mas que anteriormente se chamava clubbing, ou que se chamaria, dependendo do sítio, freestyle, e a terceira é a hustle, que é uma dança a par. Dança a pares.
Em pares, exato.
Em pares. Portanto, são essas três.
Nessa altura em que viveu em Nova Iorque e nestas suas idas, conhece muitas pessoas e muitos coreógrafos, músicos e bailarinos, e alguns que dançaram com o Michael Jackson e não só. Podemos falar um pouquinho dessa trupe, desse networking, dessa maneira como as coisas acontecem ali noutra escala, com outro impacto. Foi fácil chegar lá e começar a conhecer estas pessoas todas?
Facílimo.
Por quê?
Facílimo. Eu parecia que nasci pra aquilo. É incrível. Eu cheguei e as pessoas todas receberam-me não só de braços abertos, mas toda gente olhava pra mim e pensava que eu era de lá, que eu era local. E diziam-me assim: "Ah, mas de onde é que tu és?" Eu dizia: "Sou portuguesa". Eles assim: "O quê? Então e já estás cá há muito tempo?" Eu assim: "Não, acabei de chegar". "O quê? Parece que tu sempre aqui estiveste. Nós até pensávamos que tu eras de New Jersey", ou assim uma coisa. E depois eu sempre falei bem inglês. Aliás, eu aprendi inglês através da música, essa é outra curiosidade. Eu ia estudar as letras das músicas à capa dos CDs, aquelas CDs que a pessoa lia as letras, decorava a letra toda, depois ia pra os testes de inglês e é assim que passava.
Ah, é?
É. Eu aprendi inglês assim.
Isso é muito bom.
Pronto, então foi nessa base.
Mas tem que haver um talento, pra além do talento pra língua, tem que haver qualquer coisa que estas pessoas dizem: "Tu és uma dos nossos".
É a minha postura A minha postura.
O que é isso? É uma abertura total?
Ambição.
Ambição?
Ambição, ponto número um. Ponto número dois, a abertura. Abertura mental, abertura de expressão, abertura sem restrição em que eu chego e eu sou.
Sem julgamento.
E o julgamento nem é externo, o julgamento começa sempre em nós, portanto, nós não nos podemos é julgar a nós. Se nós cultivarmos o não julgamento interno, depois isso propaga-se para o exterior. E eu acho que as pessoas sentem isso. E mais, a pureza da pessoa querer expressar por expressar, não por ganhar alguma coisa com isso, mas porque adora aquilo. Isso é o que tem ressonância.
Paixão.
Sim.
E o que estas pessoas, quando olham para si, o que é que elas veem? Veem uma pessoa cujo movimento é muito original, cujo movimento é muito fácil, muito flexível. Não posso perguntar a ninguém qual é a sua marca, mas posso perguntar a si.
Duas específicas que eu já recebi. Eu recebo feedback e que as pessoas geralmente me dizem. Eu vou me basear mais no que as pessoas me dizem em Nova York, porque acho que é mais—
Profissional, talvez. Ou pelo menos estão mais habituadas.
Não sei se é profissional, mas acho que é um sítio em que eu realmente posso exprimir aquilo que eu verdadeiramente sou, enquanto aqui às vezes é um bocadinho mais complicado. Porque não abrem espaços para as pessoas expressarem aquilo que verdadeiramente é aqui, na dança, pelo menos que eu faço.
Não abrem espaços no sentido em que as pessoas não dão essa margem ou não há público para esse tipo de arte?
Eu acho que os espaços, para já, são feitos de pessoas. Se as próprias pessoas já não têm esse espaço, torna-se difícil uma pessoa poder chegar e expressar aquilo que verdadeiramente é. Não que eu não o faça. Eu estou aqui vestida de uma certa forma, com o meu chapéu, com o meu cabelo rapado, eu sou o que eu sou, isto é inegável. Mas ao mesmo tempo, eu chegar a um espaço e elevar a minha expressão onde ela realmente tem a potencialidade de ir, isso é facilitado pelas pessoas que estão à nossa volta. Aqui em Portugal, muitas pessoas não estão confortáveis com a expressão livre. Isto é uma coisa cultural. E eu posso especular por que eu acho que isso acontece, mas acho que não é bem o foco aqui. Acho que, se calhar, aqui o foco é um bocadinho perceber: "Ok, então se eu vou tentar perceber quem eu verdadeiramente sou, eu vou tentar perceber, se eu não tiver restrição, onde é que eu me encontro. E se eu consigo ver melhor no feedback das pessoas nos Estados Unidos, em Nova York, especificamente, do que aqui."
Então voltamos lá e vemos.
Exato. E então, as duas coisas que eu já recebi de feedback, que eu acho que fazem sentido falar aqui. Primeira: presença. Esta é a primeira coisa que as pessoas notam em mim. Há qualquer coisa em mim que move as pessoas. Sim, houve um bailarino, que é um bailarino de Nova York.
Isso deve ser verdade, porque eu conheci a Joana há dois dias. Literalmente falando, não estou a dizer há um par de dias como se fosse uma metáfora. E estávamos, de facto, num espaço, no Jair Sound, estávamos com o músico Jair, estávamos com outra pessoa que nos apresentou. E esta pessoa que nos apresentou, que é o Felipe Nacoreta Correia, disse-me: "Tens que conhecer, porque passas a vida a entrevistar pessoas que são imperdíveis. A Joana Matos é imperdível". E de facto, estivemos à conversa um par de horas e eu achei que sim, e também não deixa de ser extraordinário, que a Joana em dois dias me digam assim e esteja aqui. Portanto, também lhe agradeço isso.
Claro. Eu é que tenho de agradecer.
Deve ser verdade, porque eu própria também sinto isso. Então, e a outra coisa?
Essa é a presença. A segunda coisa as pessoas dizem, contam. Vou dar um exemplo muito específico. Há umas semanas atrás, eu estou a preparar outro projeto que eu estou a fazer ao mesmo tempo, é um programa de televisão para os Estados Unidos. Eu estou a criar um programa de televisão para os Estados Unidos, de dança. E houve um amigo meu, que é a pessoa que está a criá-lo comigo, que foi ter com outros bailarinos que nós conhecemos e todos mandaram uma mensagem de voz a dizer: "Ai, temos imensas saudades tuas, quando é que voltas, onde é que estás?" E depois foram jantar e ele diz-me a seguinte coisa, este meu amigo: "Estávamos nós a jantar com os outros bailarinos e eles dizem-me assim: 'Agarra num guardanapo, aqueles guardanapos que estão assim na mesa', e dizem assim: 'Se a Joana estivesse aqui, ela agarrava neste guardanapo e faria qualquer coisa com ele tão especial que nos faria a todos querer comprar o guardanapo a seguir'". Esta é a segunda coisa.
Ou seja, é uma pessoa que tem uma força, uma originalidade, uma autenticidade, que não só capta o interesse dos outros, como tem essa magia de encantar, é encantatório. Pode-se dizer assim? Ou eu estou aqui a interpretar?
Não, eu acho que a interpretação é nossa.
Há imensas pessoas que têm isso, têm uma voz encantatória, têm uma ação encantatória, uma pessoa fica fascinada, hipnotizada e contagiada.
Eu acho que para mim, eu diria que as minhas maiores forças são a presença e a criatividade.
Engraçado, porque também é muito nova, tem 30 anos, e isto poderia soar ou pretensioso, ou presunçoso, ou podia soar estranho, mas também soa autêntico. E, portanto, acho que ninguém leva a mal. Ou aqui sente que gera anticorpos quando tem esta atitude?
Eu, sinceramente, não estou muito preocupada com isso. Não estou preocupada com isso, porque olha, isto é muito simples. A minha mãe está sempre a dizer: "Ai, tu estás sempre a dizer isto". A vida é muito simples, nós é que a complicamos. E então é assim.
O seu mantra, o seu lema.
A minha experiência é tão específica, depois torna-se inegável. Na mesma semana, eu estava em Nova York e saí de minha casa para ir ao supermercado, de chinelos, com umas calças que eu tinha comprado numa loja vintage baratíssimas e com um top preto, simples. Eu cheguei ao meio do supermercado e houve um homem que veio atrás de mim, entrou no supermercado, assim um homem para aí de 70 anos, e que passou o supermercado aos gritos a dizer: "Ai, desculpe, tive que vir atrás de si. Vim atrás de si o quarteirão todo, guiei até o supermercado, parei o carro só para lhe dizer que está maravilhosa, linda e tem uma energia fantástica". Isto é Nova York. Na mesma semana, eu viajo até Portugal, estou na seção dos queijos do Almada Forum, a comprar um queijo, e tenho um senhor da mesma idade a dizer assim: "Olhe, desculpe". É um rapaz.
E?
E a questão aqui para mim é esta: a pessoa leva a mal A vida é uma perspectiva.
Exatamente. Entre aquele que se fascina e aquele que fica a achar.
Eu não estou muito preocupada, na verdade. Se a pessoa acha que eu sou isso.
Não segue um, nem segue outro. Não se deixa encantar por aquele que a endeusa, de certa forma, e também não por aquele que a quer catalogar ou rotular.
Eu não sou um, nem sou outro. Eu sou eu. E a perspectiva e a percepção de cada pessoa vem dela, não vem de mim. É o reflexo. A pessoa vê em mim um reflexo dela mesma, uma parte dela mesma. E cada pessoa, naturalmente, vê coisas diferentes. Isso é uma coisa que eu não julgo. Se me julgam, não está no meu poder decidir quem é que me julga e quem não julga.
Joana, e quando é que decidiu cortar o cabelo? Rapar o cabelo, não é cortar.
Eu já tinha o cabelo curto antes de eu rapar. Não foi de cabelo comprido para rapado. Eu aos 18 anos decidi cortar o cabelo curto. Na minha festa de 18 anos, as pessoas ficaram todas tipo. Alguns nem me reconheceram. Mas os outros ficaram a olhar pra mim, não sei, de uma forma assim um bocado. Já nem me lembro bem, na verdade. Mas aí cortei o cabelo curto. Eu sempre quis ter o cabelo curto, sempre quis rapar o cabelo. Desde sempre. E sempre disse à minha mãe.
Mas sabia que lhe ficava bem, por exemplo?
Não, intuitivamente sempre quis. Não sei por quê.
E se não lhe tivesse ficado bem? Nunca se arrependeu?
Não queria saber. Porque é uma vontade interior, não foi uma coisa que eu fizesse porque eu achei que aquilo me ficasse bem. Era uma vontade que eu tinha, é uma intuição, eu sabia que tinha que fazer aquilo.
E que vem de onde? Vem de uma sua libertação de quê?
Para já, eu nem sequer acho que é libertação, eu acho que é expressão. E eu acho, sinceramente acho, que cada pessoa sabe qual é a sua expressão e conhece-a. Depois pode escolher segui-la ou não.
Exato, ou pode dar asas e liberdade pra isso ou não.
E eu sinceramente acho que a autenticidade é uma necessidade vital para todos nós, é a base da saúde. É uma das bases da saúde, não é a só, mas é uma das. E eu acredito que todos nós sabemos qual é a nossa autenticidade, acho que poucos de nós a exercem.
Então vamos falar sobre isso na segunda parte. Temos que fazer aqui uma pausa e voltamos já a seguir. Pode ser, Joana?
Claro.
Até já.
Até já.
Voltamos à segunda parte desta conversa com Joana Matos, artista de artes performativas, bailarina e professora, tem 30 anos, vive entre Nova York e Lisboa, faz as mesmas coisas cá e lá, dá aulas de dança, dá espetáculos, cria projetos e estávamos a falar do fato de ter rapado o cabelo, não tem cabelo há quantos anos?
Sete.
Há sete anos, exatamente. Não se arrependeu. E íamos dizer qualquer coisa importante, e que eu tive que cortar pra fazer uma pausa. Não é uma libertação, é uma expressão e não é sequer uma questão de leveza, é uma questão de autenticidade. Autenticidade importa pra si, mesmo.
É extremamente importante e é como eu estava a dizer há bocado, é um dos pilares da saúde. Isso é o que poucas pessoas percebem e muitas pessoas só percebem quando perdem a saúde. Perderam a sua autenticidade, perderam a saúde. Isto é uma coisa que vai par em par.
O fato de se interessar muito pelo corpo, pelo corpo de uma forma dinâmica, de uma forma também artística, faz com que tenha estratégias pra se manter saudável e equilibrada, em forma, porque basta olhar pra si. O que faz?
Uau, muita coisa. Imensa coisa.
Ensine-nos lá.
Então, ponto número um: nem todos nós precisamos das mesmas coisas pra estar em forma. Esta é a primeira coisa que a pessoa tem que se aperceber.
Não há pistas infalíveis, nem truques, nem receitas pra dar a ninguém.
Não, mas existem alguns pilares que são iguais. Ou seja, os pilares são iguais, depois a maneira de nós trabalharmos esses pilares é que pode ser diferente mediante o nosso próprio corpo. Vou só fazer assim um "lá miré" sobre o meu dia a dia.
"Là miré" é ótimo. Pra quem está a pensar em inglês, certeza absoluta, ir buscar as palavras portuguesas e ir buscar essas é genial. A pessoa está à espera que diga overview e vem um "lá miré", que é lindo.
Tudo pode acontecer. Exatamente. É espetacular. Acredito mesmo que a pessoa tem várias expressões disponíveis, tem sempre que usar os melhores termos de cada expressão.
É espetacular.
Fazer um mix and match. Então, a comida, o mais fácil de todos. A comida, a primeira coisa, o valor nutricional é muito mais importante do que as calorias. O valor nutricional é o que nós temos que nos preocupar. E mediante isso, existe toda uma percepção do que é que cada corpo precisa e temos que nos aperceber que cada corpo é um corpo. Existem tipos sanguíneos diferentes, existem necessidades diferentes pra cada corpo, então nós temos que perceber o nosso corpo.
Então, o que percebeu sobre si?
O que me leva, eu especificamente, o meu próprio corpo. Ponto número um, eu não sou vegetariana, mas eu também não como muita carne, nem muito peixe.
Agora disse: "Eu não sou vegetariana" e de repente podia parecer um monge budista. Alguém lhe disse já que também pode parecer um monge budista?
Num restaurante que eu adoro, que se chama Como é Prima, não sei se conhece, na Lapa.
Não.
Excelente. Um restaurante italiano do chef Tanca. E o chef Tanca está sempre a passear pelas mesas e já me disse aí três vezes que eu pareço um monge budista.
Então não é.
Tipo à semana passada. "É budista?" Uns perguntam se eu sou rapaz, outro é budista, outro assim. Isso diz mesmo que a percepção das pessoas vai mudando.
Claro. Mas então, o que você percebeu sobre si? Imagine.
O que eu percebi sobre mim. Esta é a primeira. Eu não sou uma pessoa vegetariana, mas também não sou uma pessoa que come sempre carne e peixe todos os dias. E mais, eu sou uma pessoa que quanto mais cru que eu possa comer possível, melhor. Eu como imenso à base de saladas, à base de coisas cruas, porque o meu corpo gosta disso, digere bem isso. Sou uma pessoa que se come coisas muito pesadas, não se sente bem, perco a energia porque não está em coerência com o meu próprio corpo. A segunda coisa, eu sou uma pessoa hipersensível E essa hipersensibilidade é um pau de dois bicos. Ponto número um: sou uma pessoa que tem uma sensibilidade específica para perceber quem as pessoas são. Isto ajuda-me muito enquanto professora, mas também me ajuda muito numa conversa, a estabelecer-me energeticamente numa frequência que a outra pessoa consegue sentir quem eu sou.
Mas isso não é só sensibilidade, isso tem a ver com a intuição, que é muito poderosa.
Eu acho que a intuição está de alguma forma ligada à sensibilidade. Eu acho que quanto mais sensibilidade a pessoa tem, mais ligada está à sua intuição. E mais se consegue ligar aos outros. Consegue até ter perspetivas sobre o que os outros estão a pensar. Essa é a outra faceta em relação a mim, mas isso também acarreta bastantes problemas.
Tais como?
Tais como a volatilidade emocional. Isto é uma coisa extremamente difícil de gerir. Aliás, nós vemos perfeitamente quantas pessoas andam no psicólogo.
E ainda bem que andam.
Pois, andam a tentar fazer qualquer coisa. Só que a questão é que existem mecanismos para nós próprios conseguirmos gerir as nossas próprias emoções. E esses são os mecanismos que ninguém nos ensina, o que eu acho uma pena, e que eu própria tive que ir à procura para mim mesma. Mas isso já é outra temática, tem a ver com o funcionamento do ser humano, que eu podia estar aqui a falar durante horas, porque é uma das áreas do meu interesse.
Porque faz parte também, certamente, da sua pedagogia com os seus alunos.
Faz e comigo própria. A pessoa diz assim: "Os artistas são sempre desorganizados, os artistas são emocionais, uns ficam viciados em álcool, os outros droga". Sim, mas isso acontece por uma razão. As pessoas não querem estar mal, não querem estar viciadas, não querem não ter trabalho porque estão deprimidos. Não é uma escolha que as pessoas estão a fazer.
Isso que se está a dizer, porque eu lembro-me de uma vez ouvir o Luís Montes, que é de facto uma pessoa que faz muito pela música neste país e pelos concertos e tudo isto. Uma vez disse: "Como é que é possível uma pessoa ser a Amy Winehouse e continuar a ser uma pessoa normal, autêntica e ser quem é?" Isto era a propósito dos problemas que ela tinha e por ter morrido, e aquilo ficou sempre comigo. É dificílimo fazer esse equilíbrio e manter esse equilíbrio. Sobretudo quando o foco é total, quando se está debaixo dos holofotes.
A primeira coisa que eu vou dizer em relação a isto é que eu aprendi há muito tempo e com pessoas muito sábias, que quanto mais alto a pessoa sobe, mais para baixo a pessoa tem que se pôr, portanto, mais grounded a pessoa tem que estar.
Tem a ver com a humildade, com a simplicidade.
E não se pode esquecer que, tal como esta pessoa que me disse que eu era maravilhosa e uma deusa, eu continuo a não ser uma deusa, mas também quando alguém diz que eu sou terrível, eu também não sou terrível.
Ou sou uma coisa e outra, sou isto e mais aquilo.
Ou então eu não tenho nada a ver com o que os outros veem de mim. Eu sou eu e eu tenho que perceber que eu sou suficiente no que eu sou e não na perspetiva que os outros têm de mim.
A isso chama-se liberdade interior. E a liberdade interior cultiva-se, treina-se e trabalha-se. Como é que faz? Faz retiros? O que é que faz?
Muita coisa. A primeira coisa foi: tive que estudar anos sobre emoções, sobre a construção do ser humano, sobre por que nós pensamos da maneira que pensamos, sobre por que nós fazemos certas escolhas.
Isso tem a ver com o seu lado performativo, de artes performativas, do estar em palco.
Não, isso teve a ver mesmo porque a minha saúde falhou completamente e eu tive que analisar-me a um nível que, se calhar, muita gente não teve que o fazer e felizmente que não teve, porque eu não invejo, o meu caminho não foi fácil. E não tem sido fácil, mas não é uma coisa que eu me arrependa e que eu ache que seja mau, mas efetivamente tive mesmo que perceber como funciona o ser humano. E depois tive que perceber, dentro dessa perceção, pois é uma coisa um bocadinho intelectual, como é que eu trago isto pra vida no dia a dia. Como eu estava a dizer, voltamos ao início. Comida, o que nós pomos no nosso corpo tem que estar em coerência.
O movimento físico.
Com a nossa frequência energética. Isto é muitíssimo importante para o nosso bem-estar emocional, até porque existe um documentário fantástico que se chama "Broken Brains". Não é a primeira versão que existiu, que foi acho que há dois anos. É absolutamente excelente e que as pessoas deviam ver, e fala sobre a saúde cerebral e como muitas vezes as nossas emoções têm a ver com o gut. Portanto, tudo o que nós estamos a comer tem influência nas nossas emoções. Para o equilíbrio ou para o desequilíbrio. Eu não gosto muito da palavra desequilíbrio, mas para equilíbrios diferentes, que depois têm resultados diferentes. A segunda coisa que eu faço todos os dias é meditação. Uma hora e meia, se calhar.
Guiada, orientada?
Freestyle.
Freestyle. É tudo freestyle. É muito bom.
Eu sou mesmo assim.
Autêntica e genuína.
E acho mesmo que a maioria das pessoas deve seguir aquilo que elas sentem que é bom para elas. Algumas gostam de ser guiadas, outras não. O que é a base que eu comecei a fazer? É um tipo de meditação, eu nem sei se eles vão chamar meditação, mas chama-se heart brain coherence, que é a coerência entre o coração e o cérebro.
E a cabeça, e a razão.
E o cérebro. Portanto, é para restabelecer a ligação direta entre o coração e o cérebro. Existe uma senhora em Portugal que já fez este curso, que eu sei, porque já fui a um site que se chama Heart Math, do Heart Math Institute, que é nos Estados Unidos. E ela é uma das únicas pessoas portuguesas que fez este curso. Ela já existe, já está a dar cursos, eu sei, pelo menos na Católica, e faz coisas giras. Eu baseio-me um bocado nisso. É um tipo de meditação muito específica, muito fácil, que toda gente pode fazer. Nem é uma coisa para a pessoa estar deitada, a pensar naquilo. Eu posso estar agora a falar e posso estar a tentar fazer esse tipo de meditação.
Sim, interessante.
Eu geralmente começo aí e depois a partir daí o meu objetivo é clarificação energética. Eu quando estou neste espaço, eu estou ligada. Nós estamos todos ligados, é física quântica. Eu ligo-me a si, aqui, ao espaço, à Beatriz, ao espaço.
Aos ouvintes.
Sim, a tudo.
À parte tecnológica.
A tudo. E tudo tem uma energia, tudo tem uma frequência. O que acontece quando as pessoas são muito sensíveis e estão muito sensíveis a esta ligação, muitas vezes nós acabamos por receber e conter a energia das outras ou daquilo que nos rodeia, o que causa uma tremenda sensação de caos
E às vezes uma sensação de ficar drenado ou intoxicado.
Depois isso é que leva as pessoas a terem que ir ao psicólogo, porque sentem-se mal, não percebem muitas vezes o que se passa. Ficam muito ansiosas, ficam caóticas, nem sabem bem o que sentem.
Mas secalhar também não têm estes recursos. Não só não têm nem tempo, nem espaço mental para ir à procura disto, e não têm outros recursos, nem financeiros, nem de tempo.
E este é um recurso, por exemplo, que eu acho que a pessoa, eu não paguei nada por isto, só a internet. A pessoa tem é que gastar tempo.
E apostar em si própria, apostar no seu próprio equilíbrio, na descoberta de si própria.
Mas eu acho que quando a pessoa vai ao psicólogo tenta fazer isso.
Claro, com apoio. Mas há bocadinho disse uma coisa, não sei se se importa que eu explore, mas no fundo eu percebo que passou por muito. Eu não sei se esse passar por muito fisicamente foi ainda as lesões quando era escaladora ou se houve consequências, ou se houve outro tipo de situação.
Houve imensas consequências. Aliás, eu voltei para Portugal em 2015.
E acha que é invasivo perguntar?
Nada.
Não?
Nada, completamente.
Só porque eu acho que há muitas pessoas que passam por muito e ouvindo-a a si, se calhar podem encontrar também-
Sem dúvida, absolutamente nada. Não me importa nada.
O que foram limites que não esperava passar, fronteiras que não esperava atravessar?
Imensas. Nunca esperei. Aliás, nem eu nunca esperei esta parte, por acaso. Mais do que isso, o que eu gosto de dizer sobre isto, acho que é importante, é que realmente a minha saúde falhou quase 100%, ao ponto de eu ter chegado mesmo ao fim.
Mas isso quer dizer um burnout, quer dizer um cancro, quer dizer o quê?
Não, quer dizer, a pessoa vai dizer um tipo-
Uma depressão?
Não. Depressão está sempre associada a estas coisas, porque quando uma pessoa está doente, a pessoa pensa que a doença é uma coisa física e depois existe esta ideia que existe a saúde física e a saúde mental, mas é que, na verdade, elas estão mesmo é ligadas. E uma sem a outra, não. Portanto, se uma está baixa, quer dizer que a depressão também está ali. No meu caso foi vários tipos. Devido realmente a estas quedas que eu dei inicialmente, o meu corpo enquanto criança transformou-se num corpo adulto, como diria a minha maravilhosa médica, que é absolutamente estrondosa, como a Torre de Pisa.
Ou seja, começou a crescer inclinado.
Cresceu inclinado, cresceu em torção e quando realmente se tornou um adulto, qualquer pressão que eu fosse exercer sobre esta Torre de Pisa, claro que aquilo ia quebrar. Só que isto é uma coisa que é muito fácil dizer, mas que a sabedoria geral das pessoas, dos médicos em geral, não chega para depois solucionar este problema. Eu, quando cheguei a Nova Iorque e no segundo dia de aulas eu deixei tudo, abandonei tudo. Segundo dia de aulas que comecei em Nova Iorque, eu parei de conseguir mexer o pé esquerdo. Não conseguia mexê-lo.
Porque um corpo que cresce em torção quer dizer que há uma espécie de parafuso interior, em que as coisas estão desligadas.
Ou estão deslocalizadas. Estão descentradas e depois uma coisa puxa a outra, um órgão puxa um ligamento, o outro ligamento faz não sei o quê. Toda essa adaptação, depois com qualquer tipo de pressão, o corpo cede.
Mas então é absolutamente extraordinário. Quer dizer, quem não sabe isto e olha para si e vê a dançar e vê o que faz, fica com admiração. Mas se ainda por cima souber que isto parte de uma desvantagem competitiva, vamos pôr isto assim, desta forma, brutal, ainda é mais extraordinário, não só porque é uma superação permanente, como também é uma prova viva de que outras pessoas com outro tipo de problemas são capazes, de facto, de dar a volta. Eu vi há pouco tempo uma destas coisas virais que nos passam por WhatsApp, de uma rapariga com 30 anos que teve cancro e que lhe disseram: "Tens 2% de hipóteses de viver." Ela canta e no fim ela dizia, cantou maravilhosamente, e no fim ela dizia: "A mim disseram-me 2%, mas 2% não é 0%." E ela está ali e é extraordinário. Portanto, isto para si também funciona muito como superação.
Nada como superação. Para mim nem foi nada disso. É uma coisa que eu não tive escolha. Eu cheguei a um ponto, primeiro começou no meu pé, depois já tinha o joelho todo torcido também, depois dormia com joelheiras, não conseguia andar, quase. Eu com 23 anos, ir ao supermercado e voltar, ficava com os joelhos tão inchados, que era dificílimo eu fazer isso. Eu não conseguia ir a um concerto. Eu cheguei a um ponto em que todo aquele estresse da dor constante, todos os dias, e de ir a médicos após médico, em Nova Iorque, os melhores médicos, Harkness Center for Dance Injuries. Fiz inúmeras coisas e não havia solução. Não havia aquela pessoa que me dizia: "Olha, este é o problema." Ninguém sabia. Então mandavam-me para um sítio, para outro.
Faz com que a própria pessoa possa ir procurar o seu caminho.
Exatamente, porque não havia soluções. Não havia ninguém que me dissesse: "Olha, é este o teu problema, tens não sei quantos por cento de vida", ou que seja. Isto nem sequer apareceu para mim. E a uma certa altura, um dia eu acordei e olhei para o meu polegar esquerdo e não conseguia mexer a articulação. Tinha a articulação toda vermelha e não conseguia mexê-la. Então, aquilo deve ter sido um processo qualquer inflamatório que começou. Depois cheguei ao ponto que não conseguia quase mexer os dedos das mãos, não conseguia escrever uma mensagem de texto, não conseguia digerir comida, ficava com a cara toda vermelha, mediante tudo aquilo que eu pudesse comer. E isso, mais todo o resto, faz com que a pessoa chegue a um ponto de...
Ou mata ou morre, aquilo que se costuma dizer.
Pois, e depois a pessoa: "Ah, isto aqui." Uns diziam: "Ah, isto é uma doença autoimune." Depois eu ia ver alguém que me dizia: "Ah, pois é isto, mas não se sabe bem qual é." E depois eu realmente abandonei esta situação toda, porque vi que a resposta não estava aí e felizmente não esteve, porque foi assim que eu consegui encontrar as pessoas certas.
E estar com uma forma física e ser capaz de fazer movimento incrível.
A primeira coisa que eu vou dizer, que é muito importante, é que independentemente de onde a pessoa está, quão baixo a pessoa se sente, pode sempre chegar Outra vez à normalidade. Sempre. Isto faz parte de vários elementos, um deles é a escolha. A pessoa tem que fazer a primeira escolha, mas depois a pessoa tem que escolher aquilo todos os dias e que custe o que custar, tem que continuar a trabalhar para esse objetivo. E isto é muito importante. A outra coisa que é muito importante é encontrar a equipa certa de pessoas que nos vão ajudar. E isto é baseado na pessoa que eu sou, em que eu acredito. Se eu sou uma pessoa que funciona à base espiritual, em coisas holísticas e acredito na ciência, como eu acredito, eu acredito nas duas coisas, tenho que encontrar alguém que se calhar acredita nas duas coisas e que é especialista naquele tipo de ligação. Mas também na cura, a coisa mais importante somos nós próprios, porque as pessoas podem nos ajudar e fazer coisas por nós, mas se nós próprios não andarmos os passos que temos que andar e que isso assuma forma de decisões diárias, uma delas é pararmos de pensar no que os outros pensam de nós. Porque isso está a poluir a nossa capacidade de sermos nós próprios e isso muitas vezes está a bloquear a cura.
O sinal de rapar o cabelo pode ter sido aí. É quando uma pessoa deixa de se preocupar com o que os outros pensam.
Por acaso eu acho que não. Nessa altura, eu não estava sequer nessa viagem. Aliás, quando eu rapei o cabelo, eu tinha acabado de vir do Senegal. Eu ganhei uma competição enorme nos Estados Unidos, em Nova York, que se chama House Dance International.
Nem falámos disso. Nem falámos das competições e dos prémios.
Não faz mal.
Não, mas acho que interessa imensíssimo, ou talvez muitíssimo mais este caminho. Que todos, em algum dia ou alguma situação, ou se calhar temos pessoas à nossa volta que precisam desta força, desta lucidez, deste discernimento.
Sem dúvida. Eu estou aqui para dizer a sério a toda a gente: eu sei que é possível. O corpo tem capacidade de autocura e nós temos a capacidade de nos ajudar a nós, mas também temos a capacidade de contribuir para a cura dos outros, para o bem-estar dos outros.
E de ir buscar as ajudas certas, e de ir buscar as coisas certas, a alimentação certa, a nutrição, porque nos nutrimos de muitas coisas, os especialistas certos, se calhar estes que misturam a ciência e são holísticos e também ciência pura e dura. Portanto, isso é muito interessante, porque isso também é um caminho que se calhar sossega muitas pessoas e que dá realmente muita esperança. Mas voltando, já não sei se quer ir ao Senegal, ao corte de cabelo, aos prémios, prémios ou essas competições.
Vou ser completamente o que eu sou. As competições para mim não significaram nada. Zero. O ganhar uma competição foi aqueles momentos em que eu me senti vazia. Eu não me senti bem. Quando é que eu me sinto bem? E esta é a parte mais importante. Quando faço alguma coisa boa pelos outros. Quando faço qualquer coisa que sinto que avançou o processo, o meu próprio processo, o processo de autenticidade, de partilhar uma mensagem de comunidade, de bem-estar, de força, de verdade, de esperança, isso aí eu sinto-me bem. Qualquer iniciativa que seja essa. Quando eu ganho um prémio e sinto que ganhei uma competição porque alguém me jurou e eu cheguei lá, sim, eu ganhei esta competição. É excelente, é verdade. Mas eu ganhei por quê? Porque se calhar eu era a melhor naquele dia. Mas será que eu era realmente excelente? Eu não considero que era excelente. E ganhei, ganhei mil dólares na altura. Ainda hoje nem sequer paguei para entrar naquela competição, porque alguém me pagou a entrada, porque queria que eu lá estivesse, no meio de Nova York. E depois agarrei naquele dinheiro e decidi: "Isto aqui não faz sentido, o que eu tenho é que agarrar neste dinheiro e investir em dança". Então fui para o Senegal sozinha, com 23 anos. E fui estudar mais dança, aprofundar um conhecimento de dança que eu já fazia, que era dança africana em Nova York.
Que pena, não podemos continuar a falar. Gostava imenso de perguntar o que é que os seus pais acham disto tudo, a sua irmã, mas já percebi que eles acham tudo muito bem. Porque também há aqui uma parte que o brilho dos seus olhos, a sua atitude, acho que tem que contagiar os que estão à sua volta, porque a mim contagiaram-me. Espero que tenham contagiado as pessoas que nos ouviram e queria agradecer, sobretudo, queria agradecer esta generosidade de um dia para o outro, dizer a uma pessoa completamente desconhecida "sim". E eu acho que isto está no seu DNA e no seu ADN e queria agradecer. Obrigada, Joana. Muitas felicidades e sempre que passar cá por Portugal, por Lisboa, diga alguma coisa, está bem?
Claro.
Obrigada.
Obrigada eu.