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Bem-vindos ao Imperdíveis, hoje com o Francisco Mendes, 22 anos, licenciado em Economia, a terminar o mestrado em Gestão. Estuda na Nova SBE, no novo campus de Carcavelos. Foi o presidente da Associação de Estudantes até agora mesmo, terminou o mandato no fim de julho, no ano mais difícil de todos, em plena pandemia. Antes, já tinha sido chefe de missão da Missão País, em Leiria. A Missão País mobiliza vários milhares de estudantes universitários, penso que mais de 6 mil, e o Francisco dá a cara como anfitrião do novo campus para receber os novos alunos, portugueses e estrangeiros. É presidente, ou foi presidente, já não tenho a certeza, do clube de futebol da Nova SBE, que compete com quase profissionais na distrital de Lisboa. Pertencia à tuna, fazia parte do conselho artístico e tocava guitarra. É um verdadeiro animal de palco e é um rapaz de Aveiro, muito mobilizador e a partir de setembro é um dos novos professores assistentes da Nova. E quando se fala do Francisco, nesta gíria muito comum na geração dele, toda a gente diz: "Grande boss". Olá, Francisco. Espero não ter embarraçado.

Este final do grande boss foi um bocadinho surpreendente.

Mas é verdade, é o que dizem. É que mal uma pessoa diz Francisco Mendes, eu vou tratar por tu e por você, é como sei. Mas qualquer pessoa que eu conheça diz: "Grande boss". Portanto, era impossível não dizer isto. Francisco, como é que se consegue fazer tanta coisa ao mesmo tempo, com bons resultados acadêmicos e só com 22 anos?

Eu acho que como todas as pessoas que se calhar fazem bastantes coisas, eu não acho que faça assim tantas coisas. Acho que as coisas vão aparecendo e, acima de tudo, acho que fruto de uma vontade e uma maneira de ser assim um bocadinho bairrista, que eu acho que trago de Aveiro, como a Laurinda falou na muito elogiosa apresentação.

Não, é factual, Francisco.

Mas a verdade é essa, eu acho que sempre tive esta coisa de estar muito envolvido em tudo o que era um projeto, em estar o mais presente possível e se calhar, tinha também um bocadinho um problema em dizer que não às coisas. E quando cheguei a Lisboa também foi um percurso natural. Foram aparecendo as possibilidades, juntar-me à Associação de Estudantes, à tuna, estar o mais envolvido possível na Nova, para tirar o máximo proveito daquilo que era o ambiente da comunidade, porque é um clichê, mas é muito verdade, a ideia de que tudo aquilo que nós podemos ter a mais do que as aulas é muito bem-vindo. E foi muito assim que eu me fui sentindo. Então, essas coisas nunca me foram parecendo muitas. Foi estando com amor à camisola e foi assim que fui abraçando.

Francisco, mas não é fácil chegar de Aveiro para Lisboa e fazer o primeiro ano de uma universidade, pois não?

De todo. Eu digo isto muitas vezes, mas é muito verdade. Foi um primeiro ano de choque, de habituação, não foi de todo fácil e acredito que todas as pessoas que vêm de uma cidade diferente de Lisboa e chegam para estudar, se veem um bocadinho fora da sua zona de conforto, o que é normal. Para já, é a diferença de mudar de ensino secundário para o ensino superior, com todas as diferenças e dificuldades e novidades que isso tem. E a isso acresce, de repente termos que chegar a casa e termos que nos lembrar dos bifes a descongelar.

Tratar da roupa, ir ao supermercado.

Exatamente.

Arrumar, limpar e estudar.

Exatamente. De repente, as nossas mães e os nossos pais ganham uma dimensão de heróis que nós até aí não tínhamos. Porque eu pensava, se eu tenho que fazer esta gestão para mim, eu imagino os meus pais com três filhos em casa, mais a vida deles. Portanto, ter que chegar a Lisboa e ter essa diferença de ritmo foi uma dificuldade, mas também foi uma grande ferramenta, porque senti que a partir daí estava habituado, estava muito mais preparado para o que desse e viesse.

Francisco, mas não é só esse impacto ou esse choque de ter que passar a gerir-se a si próprio, mas também chegar a uma das melhores universidades, uma universidade de topo, e perceber que uma pessoa que era muito bom aluno e se calhar o melhor ou um dos melhores da turma, chega ali e às vezes quase que se sente na cauda ou quase que se sente que afinal não é assim tão bom. Isso também é um choque, ou não?

Claro. Para mim foi, mas eu acredito que não seja para toda a gente. Foi também um processo de me aperceber que não ia ser o maior da minha aldeia, como se diz também por aí. Mas perceber que podia crescer muito mais estando na piscina dos grandes. Eu acho que isso também faz parte, é um choque, se calhar é uma desilusão inicial, mas para mim também foi rápida a percepção de que podia crescer muito mais estando com pessoas que têm muito valor. E foi também uma das coisas que eu fui tirando da Nova, foi estar no meio de pessoas que são tão interessantes e tão intelectualmente desenvolvidas. Foi também uma aprendizagem para mim, eu sinto que sou melhor do que se tivesse sido sempre o melhor num sítio mais pequeno.

Francisco, mas em todo o caso, estamos a falar de um período de tempo que são quatro anos de vida, não é? Penso que estamos a falar de quatro, talvez quatro para quase chegar a cinco anos, ou não?

Sim.

E nestes quatro anos a aprendizagem foi enorme, mas também conseguiu fazer mil coisas para além dessa dupla, tripla adaptação. E quando uma pessoa chega e começa a ser responsável por isto, responsável por aquilo, presidente isto, presidente aquilo, é impressionante ver como é que uma pessoa se adapta e consegue entrar e chegar a esse ponto de influenciar os pares, de representar os pares, mas também do desafio do futebol, porque o clube de futebol da Nova SBE não compete entre universitárias. Penso que compete com classes profissionais na distrital de Lisboa. Como é que se consegue isso tudo? Eu acho que isso é que é verdadeiramente imperdível. Além de tudo que faz, eu acho que esta capacidade de fazer tanta coisa é imperdível e ajuda-nos também a perceber.

Sim, eu acho que foi um processo natural. Um pouquinho dessa situação de estar fora da minha zona de conforto, passar para procurar tudo aquilo que me pudesse ajudar a ter um gosto maior por estar na faculdade, e por estar em Lisboa. Isso foi me meter nestes projetos e depois, se calhar, a dedicação que fui pondo e o gosto que fui tendo, também me levaram a essas posições de liderança, como é normal, acho eu. E o caso específico do clube de futebol foi uma experiência nova e muito engraçada, porque foi um desafio novo. Eu não era propriamente o rapaz que desde sempre jogou futebol. Não sou propriamente um menino das escolinhas do Beira-Mar, mas o clube de futebol foi um desafio muito engraçado, porque as associações de estudantes têm todas equipas desportivas, que normalmente competem no desporto universitário. E faz agora dois anos e pouco, o clube tem dois anos, surgiu dentro da associação de estudantes da Nova SBE. Nós temos aqui jogadores com tanto valor, com tanto gosto, por que não vamos levar um pouquinho este projeto mais longe e vamos pô-los também a competir no campeonato distrital? E assim foi. Portanto, a equipe tem dois anos, este ano foi um ano ótimo, ganhamos os campeonatos universitários de Lisboa, subimos para a segunda distrital. Foi um ano ótimo e é um projeto que só tem alunos da Nova SBE, portanto alunos e ex-alunos, que é um requisito que nós temos, é como se fôssemos a seleção da Nova, e que podia ser uma limitação, mas que é também uma força enorme para a equipe, porque são ótimos jogadores e dão tudo com ainda mais gosto por terem um objetivo comum.

Todos português ou também há contratações internacionais?

Também há contratações internacionais.

Quantas nacionalidades?

Este ano tivemos um pouquinho menos, porque como são alunos que ficam só um ano na faculdade ou às vezes seis meses, tivemos um alemão e penso que um francês este ano. Sim, esta época foi um pouquinho menos internacional.

Francisco, andando aqui um pouquinho para trás neste ano de pandemia, neste tempo tão erosivo, de distanciamento, de medidas sanitárias, de esvaziamento do campus. É como se aquilo parecesse um lugar fantasma e que é extraordinariamente difícil de viver esta realidade para quem está deslocado, quem está fora da sua zona de conforto, da sua cidade. Como é que se representa aos alunos, de que os alunos se queixam, o que foi possível fazer pelos alunos neste ano com a associação?

É uma ótima questão, porque foi de facto um ano que mesmo nas expectativas, não se esperava que fosse tão distante. Nós quando começamos a preparar este novo ano, este ano que agora acabou, 2020/2021, na Associação de Estudantes, ali por final de abril, maio, antevíamos que fosse um início complicado com a pandemia, mas até se calhar de uma forma otimista pensámos: "Ah, mas a partir de janeiro, fevereiro, o segundo semestre, vai ser tudo muito mais aberto e vamos já estar todos prontos", achávamos nós, mais soltos. E foi exatamente o oposto, porque acabamos nessa altura por ter que voltar para confinamento. Mas foi um ano de grandes desafios, logo à partida com o começo do ano, porque óbvio, não quero estar aqui a chorar, houve pessoas que passaram mesmo muito mal e foi um ano mesmo difícil para muita gente.

Não, mas é para isso que estamos a falar, é para isso que estamos a gravar, porque eu acho que de certa forma não é só representar uma associação de estudantes na universidade, neste caso na Nova, mas é também ser uma voz de todos os estudantes universitários e não universitários, que têm passado tempos muitíssimo difíceis.

Sim, e essa foi exatamente a nossa preocupação e um dos pontos que nós tínhamos na cabeça, que era esta componente acadêmica e social, dos alunos, que podia ser comprometida. E acima de tudo, e essa também era uma grande preocupação, a integração das pessoas que acabavam por chegar. Porque se é mau para os alunos que querem estar com os seus colegas na faculdade, e se calhar é um pouquinho mais difícil, mais difícil é para quem chega, quer conhecer pessoas novas e tem uma máscara a dificultar essa interação.

Uma máscara e um distanciamento obrigatório.

Exato, e tudo aquilo que isso implica.

No concreto, daquilo que observou, da proximidade que tem Com os seus pares. O que sente as pessoas? Às vezes falamos em depressão, em burnout, em grande tristeza, em abatimento, em um isolamento, numa apatia, numa certa perturbação da saúde mental. Verificou e observou tudo isto?

Observamos, naturalmente. É muito engraçado, porque um dos projetos que nós tínhamos quando começamos o ano era: e se nós documentássemos, fizéssemos umas filmagens e depois editássemos esta coisa de ser aluno da Nova? Isto antes até da pandemia ser uma realidade tão concreta. Ainda estávamos em quarentena. E era uma das ideias que tínhamos para o começo do ano seguinte. E o começo do ano seguinte veio exatamente com esta realidade do Covid, portanto, este documentário, se quisermos, que nós acabamos por fazer, acabou por estar muito aliado àquilo que era a experiência dos novos alunos com os tempos de Covid e, portanto, temos isso tudo gravado com o núcleo de alunos que fomos escolhendo ao longo do tempo. Temos mais ou menos em vídeo, está documentado, essa dificuldade que eles foram ter.

Isso pode-se ver?

Pode-se ver, o primeiro episódio já está disponível no YouTube, chama-se "Ser Novo na Nova", e vai sendo lançado ao longo do ano os episódios subsequentes. O episódio que está disponível neste momento é o primeiro impacto dos alunos e um comparativo com aquilo que foi o final do ano. Portanto, esse primeiro episódio está disponível no YouTube, até convidamos todos a ir ver.

O que os alunos se queixam? O que é o mais frequente?

Era exatamente onde eu ia chegar. Numa parte mais triste e de queixas dos alunos, era claramente a dificuldade de conhecerem pessoas, de não terem plataformas para conhecerem os pares. Ou seja, porque muita gente se queixava: "Eu venho para as aulas, mesmo que elas sejam presenciais, mas depois não posso propriamente estar com os meus colegas em segurança e, portanto, tenho que ir pra casa", ou é o que muita gente faz, ou se eu não quiser ir pra casa e estiver um bocadinho mais disposto a correr esse risco, a maioria das pessoas vai pra casa. Esse foi o primeiro ponto complicado.

Vai pra casa sozinho, pra um quarto, pra um sítio isolado, segundo as condições.

Exatamente. E chega à casa, tem as aulas, porque muitas aulas também eram online, tem as aulas online, está sozinho e, portanto, toda a vida de uma pessoa passa por um computador e havia esse burnout que falávamos. Eu falei com uma rapariga nesse documentário, ali por janeiro, fevereiro, acho eu, em que voltámos às aulas e as aulas estavam a ser totalmente online, e a rapariga estava sem expressão, nem conseguia dizer muito bem como é que estava a lidar com a situação, claramente com a sua situação mesmo descontrolada. E havia várias situações destas. Assim, numa tônica mais negativa. Porque depois temos surpresas, claro, e as pessoas adaptam-se de alguma forma, e há muitos casos positivos de pessoas, e de alunos do primeiro ano, nomeadamente, que apesar de tudo isso, conseguiram construir o seu núcleo, o seu grupo de amigos e adaptaram-se à situação. Mas tem sempre estes lados negativos que os alunos-

Não deixa de ser irônico uma pessoa dizer: "há muitos casos positivos". Uma pessoa hoje em dia ouve casos que são casos positivos e tornou-se uma má notícia. Mas aqui era casos positivos de boas notícias.

Exatamente.

Francisco, ainda não passaram cinco anos desde que chegou à universidade como aluno e já vai ser professor, professor assistente. Isto é um salto, é alguma coisa que sempre desejou, é uma aposta, é um desafio porque gosta de desafios, ou é tudo?

É tudo. É exatamente tudo. Eu sou de uma casa de professores, o meu pai e a minha mãe são professores e eu já ia à escola muito antes de ir por mim à escola, já entrava na sala dos professores antes de sequer ir à escola. E é naturalmente um lugar que dá um quentinho, como eu costumo dizer. E, portanto, ser professor acaba por ser um seguir as pisadas.

É estar em casa.

É estar em casa. E ao mesmo tempo, também é um desafio muito grande, porque vou claramente estar numa posição que até agora não estive, estava exatamente do outro lado. Vai ser um desafio porque é novo e porque não sei como é que as pessoas do outro lado vão reagir, porque esse contacto com os alunos é uma coisa que me deixa com algum entusiasmo, mas sempre com aquele receio que todos temos de: "Será que eu estou preparado, será que vou estar à altura?" Mas é um desafio no qual eu embarco com muito gosto, porque é mais uma oportunidade de estar envolvido na comunidade da Nova, que me diz muito e que sempre me disse nestes últimos quase cinco anos. Portanto, vai ser um desafio para o qual eu olho com muito gosto e com muita vontade.

O que os seus pais disseram? Também acharam normal?

Ficaram muito contentes, como é óbvio. Mas o mais engraçado foi que o meu pai começou a me fazer imensas perguntas. Como se fosse ele que estivesse a viver tudo desde o início, eu começo olhar assim um bocadinho de forma: "Mas pai, estás a me fazer imensas perguntas". E ele assim: "Estou muito entusiasmado, tu vais ver quando tu começares e começares a dar aulas".

Aqui é verdadeiramente um professor apaixonado pela sua missão, pela sua profissão, pela sua vocação.

Completamente.

O seu pai é professor de quê?

É professor de Português, Latim e Grego.

E a sua mãe?

E a minha mãe é professora de Educação Especial.

Muito interessante isso. E os seus irmãos estão nestas áreas de Economia e Gestão?

Não, a minha irmã está no secundário em Economia, sim, e o meu irmão está em Engenharia Mecânica na Universidade de Aveiro. É um meio diferente, mas sim, somos assim nesta diversidade Foi uma coisa que foi muito engraçada lá em casa, esta mudança para ser professor, mas também encarei-a com muita expectativa e muito-

E muito entusiasmo

...e muito entusiasmo.

Francisco, de que tem mais saudades quando está em Lisboa? De que tem mais saudades relativamente a casa, mas neste caso, se calhar, mais em relação a Aveiro cidade.

Aveiro é uma cidade, mas no fundo é uma aldeia em ponto grande. Toda a gente se conhece, que tem os seus lados mais chatos para alguns. Eu tenho muitos amigos de Aveiro, que também vieram para Lisboa, que têm sempre aquela frase: "É pá, são sempre as mesmas pessoas." Mas foi uma coisa à qual eu me fui habituando e que gosto muito, que é estarmos todos em casa e conhecermo-nos todos. E acho que isso de Aveiro é uma coisa que também gosto muito e que sinto falta, porque para as pessoas terem noção, são quatro escolas secundárias, duas delas separadas por um quarteirão, toda a gente de facto se conhece mesmo. Quando vamos sair, vamos sair exatamente para o mesmo sítio e, portanto, há esta proximidade. Sinto, como é natural, muita falta da ria e de estar muito próximo do mar. Se bem que Carcavelos ajuda e o Rio Tejo também é ali ao fundo. Portanto, acabo por estar parecido.

Vou ter que, noutra escala e noutra latitude, fazermos aqui uma pausa e voltamos já a seguir, pode ser?

Claro.

Até já. Bem-vindos à segunda parte do programa "Imperdíveis". Estamos à conversa com o Francisco Mendes, 22 anos, licenciado em Economia, a terminar o mestrado em Gestão. É um mobilizador nato, foi presidente da Associação de Estudantes, levou a equipa de futebol ao campeonato distrital, embora sejam estudantes universitários, e estávamos a falar deste gosto de ser de Aveiro. Mas eu gostava agora de sair de Aveiro e de lhe perguntar e de falar consigo sobre a Missão País. A Missão País é um fenómeno entre estudantes universitários porque mobiliza milhares de estudantes universitários que tiram um tempo do seu tempo livre e vão para aldeias remotas ou para comunidades vulneráveis, ou para lugares onde as pessoas estão muito isoladas e fazem a diferença nessa comunidade. Gostava de saber como é que começou a Missão País para si e como é que também aí entrou se calhar como missionário e passou logo a chefe de missão.

É uma história um bocadinho engraçada e as pessoas vão-me desculpar os termos em que eu vou contá-la. Eu quando cheguei à universidade, no primeiro ano, tive alguns colegas, e muitos já terão ouvido falar da Nova SBE, que é conhecida como uma faculdade de betos. Eu, como rapaz de Aveiro, não sabia muito bem o que eram betos. Entretanto, fui-me apercebendo e já estou mais ou menos documentado no assunto.

Então o que são os betos? Para quem não é de Aveiro. O que são hoje em dia, verdadeiramente, os betos? Isso tem muito que se lhe diga.

Pois tem. Eu não queria entrar em detalhes para também não-

Para não ferir suscetibilidades

...não ferir suscetibilidades, mas eles sabem quem são. Mas estava a dizer, e apesar de tudo, há assim um bocadinho dentro da faculdade, estes grupos, porque muita gente acaba por dizer: "Quem vai à Missão País são só os betinhos", e não sei o quê. E eu até no primeiro ano, um bocadinho movido por este diz que disse, e apesar de ter pessoas que conhecia que foram à Missão País, eu disse: "Se calhar, não sei muito bem, se calhar não vou." Resguardei-me um bocadinho. E não fui nesse primeiro ano. E no segundo voltaram a insistir comigo: "Tens que vir, aquilo foi mesmo fixe no ano passado." "Então, mas o que é que se faz lá?" "Fazemos voluntariado durante uma semana, numa comunidade em Portugal, vai mudando de três em três anos." Eu não sabia muito bem o que era, mas como muitas coisas em que me meto, disse: "Olha, pelo menos vou lá e se correr mal, venho a dizer mal e tenho razões para dizer mal disto." E a verdade é que fiz esse meu primeiro ano de Missão País a pensar que vinha de lá a dizer mal dos betos, mas acabou por não ser nada disso e acabou por ser uma grande surpresa. A Missão País foi mesmo muito importante para mim enquanto missionário, como jovem desse grupo de 60 pessoas. Na altura era no Torrão, no Alentejo, e portanto éramos 60 alunos da Nova.

O que fazem, só para quem não conhece, no concreto, o que é que fazem?

Estamos uma semana com uma tripla missão, tentar um bocadinho fomentar as relações entre alunos da faculdade, tentar ter um impacto positivo na comunidade. E portanto, dividimo-nos em diferentes grupos. Uns vão para ajudar na escola, outros vão ajudar no lar, outros vão fazer um mini Just a Change, que é reparações em casas que sejam precisas, pinturas. Há uma equipa que está uma semana inteira a preparar um teatro, prepara um teatro de uma hora numa semana para no final da semana apresentar às pessoas da comunidade. É um projeto com uma componente católica e portanto, é assim, nestes moldes, que durante uma semana, entre o primeiro e o segundo semestre, os alunos acabam por estar e é um projeto que se espraia para o resto do Do semestre. As pessoas estão lá esta semana, mas há interação com a comunidade.

Ligada.

Exatamente.

Francisco, tanto quanto julgo saber, estes milhares de jovens estudantes universitários não são todos crentes nem católicos, não é?

Não. A proposta é católica, claro, mas o convite é feito a todos aqueles que queiram estar para ajudar. E isso é o primeiro passo. Nós, na Nova SBE, tínhamos vários casos de alunos e de colegas nossos que de facto não eram católicos, mas que achavam por bem embarcar neste desafio.

O Francisco é católico?

Eu sou católico, como se diz do Chefe de Estado.

Francisco, o que mudou dentro de si nesta experiência da Missão País?

Em primeiro lugar, se calhar não é aquilo que interessa aos ouvintes em geral, mas num ponto muito particular, esta ideia de que como católico que está deslocado. Porque também um dos pontos deste deslocar que é: eu estou envolvido e integrado numa comunidade, na minha paróquia em Aveiro, e de repente chego a Lisboa e passo a ir à missa sozinho e de repente chego à Missão País e há pares que vivem e acreditam nas mesmas coisas que eu, isso foi importante em termos pessoais. Mas foi igualmente importante estar num projecto, integrar um projeto que tem uma componente de meter as mãos na massa com colegas da faculdade que têm interesse em economia e gestão, sim, mas que também metem as mãos na massa no que for preciso, onde for preciso, e mostrar que se calhar nós achamos que precisamos de fazer voluntariado muito longe, em terras distantes, para ser uma coisa que nos dá valor e acrescenta. E eu apercebi-me que posso ir para um sítio a 40 km de Lisboa.

Ou para o Tram ou para Leiria.

Exatamente.

Francisco, e isso repetiu depois quando foi chefe de missão? Chegar a chefe de missão faz com que depois também parta com o grupo ou fica só a gerir os voluntários, os missionários?

Não, partimos também. Tem a parte toda logística de estarmos a pensar naquela semana durante muito tempo. É um semestre inteiro de preparação para que tudo corra pelo melhor. Tanto para os missionários, mas também para as pessoas que nos recebem lá. Para estarmos a ajudar e não a empatar. Porque é uma preocupação muito grande enquanto chefe de missão, porque a Missão País é uma organização muito grande, tem os chefes nacionais, tem chefes de logística, tem chefes de muitas áreas e nós trabalhamos só naquilo que é a nossa missão para os 60 alunos. No meu caso específico. Quando nós estivemos esses seis meses, foi também fazer o trabalho de casa ao máximo com as pessoas, neste caso da Barreira em Leiria, da melhor forma possível, para que quando chegassem os 60 missionários, já estarem imbuídos do espírito e o processo de aprendizagem e de adaptação fosse o mais rápido possível para que o impacto que tivéssemos não sofresse esse tempo que demora sempre de adaptação.

E tanto quanto sei, esse teatro que preparam nas comunidades durante uma semana, parece pouco tempo, mas para quem vive isto por dentro, e sobretudo as pessoas que vos recebem, falam disto como memórias para a vida. Ficam um ano inteiro à espera que voltem e vocês fazem as missões de três anos na mesma comunidade exatamente por isso, para que a ligação não se perca. Mas os teatros são sempre qualquer coisa que as pessoas se lembram. E é impressionante, porque daquilo que eu conheço, e eu disse isso ao princípio, o Francisco é um animal de palco. Imagino que estar em palco e fazer teatros também é o seu elemento e isso para si também é estar em casa ou não?

Sim, claro. Aliás, o teatro na Missão País é sempre aquilo que as pessoas se conseguirem fugir, ótimo. Nós normalmente fazemos umas opções dos sítios onde gostávamos de servir. Eu acho que pus na terceira opção o teatro e como muito pouca gente queria, acabei por ir lá parar. E claro, foi também uma das coisas que me ajudou a também ter mais gosto pela Missão País, porque estava, como a Laurinda disse, num ambiente que me era muito conhecido. E foi muito engraçado, porque pessoas da Barreira, houve um ano que eu fiz num teatro, fiz de cozinheiro. E no ano a seguir: "Você é o cozinheiro". E eu: "Sou o cozinheiro, sou sim, senhor". Essa proximidade às pessoas também foi feita por uma coisa que lhes ficou na memória.

Francisco, e há histórias marcantes, encontros marcantes, pessoas que nunca mais se vão apagar da nossa memória nesses encontros na missão. Sobretudo as pessoas que se encontram lá. Estas pessoas que moram sozinhas ou as pessoas do lar. Quem vos recebe. Tem alguma história?

Eu tenho uma história muito engraçada, que para mim também foi um ensinamento. Uma das vertentes da Missão País que eu acho que tem muito valor e acho mesmo interessante, é em pequenos grupos, dois, três Os jovens são desafiados a percorrer a aldeia ou a vila, o que quer que seja, e bater às portas, perguntar se é preciso alguma coisa, fazer companhia, o que quer que seja. O desafio não é andar de casa em casa, mas é estar com as pessoas. E eu, num desses desafios, também fui fazer esse porta a porta e bati à porta de uma senhora. Agora não me recordo ao certo do nome dela, mas entramos. E nós perguntamos: "O que é que precisa? Precisa de alguma coisa? Nós ajudamos." E ela: "Olha, preciso que estejam." Este "preciso que estejam" é frase de livro. E para nós foi um murro no estômago. Que na nossa vida atarefada, acharmos que nós é que íamos fazer ali a diferença e se calhar tínhamos é que ter calma e só estar, falar e fazer companhia. E isso foi uma das histórias que eu guardo e que nunca mais me fugiu da memória, porque é isso. Nós falamos muito, em Portugal, da solidão dos mais idosos, do quão envelhecidas estão as aldeias e mesmo as cidades do nosso país. E quão importante é estar presente, falar e conversar. E isso às vezes é aquilo que faz a diferença. E para mim foi um acordar para uma realidade que estava distante.

Francisco, este estar ao serviço, já percebi que ser professor é um caldo de família. É o caldeirão onde mergulhou desde pequeno, até antes de ir pra escola. Mas esta cultura de estar ao serviço, de ajudar, de estar, isso também vem de família?

Sim, os meus pais, como bons paroquianos, estavam sempre envolvidos em tudo o que era da comunidade paroquial, neste caso. Muito de fazer o que for preciso, "é preciso agora ir este fim de semana para ajudar na comissão de festas, é isto que nós vamos fazer e é assim que fazemos." E não cobrar horas, não estar agarrado ao relógio, este estar ao serviço pra mim sempre foi exemplo, mais do que uma coisa que me foram sempre dizendo. Este correr por gosto pelas coisas, foi uma coisa que eu tenho de casa mais por ver do que propriamente de ser dita.

Nada mais forte que o exemplo, não é?

Claro.

Francisco, quem é que são as pessoas que mais admira? Agora, para além da sua família, quem são as pessoas ou que segue, ou que admira, ou que o inspiram? Ou se não quiser personificar, que tipo de pessoas ou com que valores?

Gostava mesmo de a ter preparado, porque a seguir a esta entrevista eu vou me lembrar de 30 pessoas que eu podia ter dito.

Então, mas não faz mal.

Mas eu, em primeiro lugar, gosto de-

O que é que admira nas pessoas?

Exato. Correndo o risco de me repetir, gosto de lideranças fortes pelo exemplo. Gosto muito de pessoas, e fui tendo algumas ao longo da vida, que me ensinaram muito sem ter que dizer muitas coisas. Eu acho que isso, às vezes, é uma coisa que eu procuro desesperadamente, essa fórmula de como é que estas pessoas conseguem isto, de passar tanto sem estar aqui a dar grandes lições. Portanto, essa liderança, por exemplo, é uma coisa que sempre me fascinou nas pessoas e é muito importante pra mim e dou muito valor.

E onde é que vai buscar a alegria? A alegria é uma marca, é muito expressiva em si. Parece que é uma pessoa que está sempre alegre, sempre disponível, e parece que as crises e os problemas são pra atravessar, mas sempre com bom espírito. Isso é muito impressionante em si. Por isso é que eu acho que vive sempre em si essa história do "ganda boss".

Agradeço. Óbvio, todos temos os nossos momentos mais soturnos. Não quero estar aqui a jogar a carta do "estou sempre alegre" e temos que estar sempre muito alegres. E acho que é uma corrente dos dias de hoje, em que ouvimos cada vez mais de "é normal não estar bem". Eu acho que isso também é uma coisa que nós temos que ter consciência. Mas, de facto, pra mim, essa alegria é uma consequência natural do gosto que eu tenho por abraçar tantos projetos e dar o melhor de mim em tudo aquilo que abraço, porque, de facto, é neste gosto, é neste tirar o maior proveito deste serviço. Pra mim foi e é sempre uma alegria. Não é muito pensar.

Quando é que estuda? Quando estuda, também estuda com a mesma alegria?

Também. Acho que aí, às vezes, com mais momentos de suspiros, mas tem que estudar com alegria. Eu acho que é um privilégio poder estudar, poder estar na Nova e, portanto, conhecer e aprender. Como é um privilégio, não podia ser encarado com outra coisa que não a alegria.

Francisco, temos aqui três minutos, mais ou menos. Queria perguntar: como é que se imagina no futuro ou no futuro próximo, se pensássemos daqui 10 anos, o Francisco tem 22, já fez tanta coisa e ainda só tem 22 anos. Consegue imaginar-se com 30 anos? E se sim, o que é que gostaria de estar a fazer?

Não me imagino de todo com 30 anos Especialmente, não quero comprometer-me assim muito, porque estou a ver o Francisco de 30 anos olhar para esta entrevista e dizer: "Onde é que tu estavas? Porque raio achavas que ias dizer isto?" Mas tenho algumas coisas que gostava muito de ter feito até esses 30 anos. Em primeiro lugar, gostava muito de fazer um bom tempo de voluntariado. Ou seja, a Missão País tem o seu valor e é uma semana, mas gostava de um tempo de voluntariado mais continuado e mais longo. Isso é uma coisa que eu gostava de ter até aos 30 anos. Eu tenho sempre algumas diferenças entre aquilo que são os meus hobbies e aquilo que eu gostava profissionalmente. Mas se elas se pudessem confundir, nomeadamente um gosto enorme que eu tenho pela comunicação, que tenho por esta coisa de liderar pessoas, de estar onde as decisões são tomadas e estar na ação, isso para mim é uma coisa que dá muito valor. E será que a área é assim tão importante? Se calhar acho que neste momento não tenho assim tão definida, é nesta área. Mas daqui a 30 anos gostava que estes requisitos fossem cumpridos.

Daqui a 30 não, aos 30.

Aos 30, peço desculpa.

Daqui a 30, espero que tenha muito mais.

Exato, mas daqui a 10 anos, sim, eram esses dois pontos que eu gostava de ter um certinho.

Francisco, o que gostava que fosse a sua marca no mundo?

Por mais que eu quisesse dizer e soar apaixonante, como todos os imperdíveis que já passaram aqui até hoje, eu acho que nunca poderia dizer o suficiente. O que eu acho, e disso tenho a certeza, é que a alegria, que falávamos durante esta conversa, de levar as coisas com paixão, com gosto, é isso que eu gostava mesmo que fosse a minha marca. Não ambiciono de todo resolver o conflito Israel ou árabe, ter o maior impacto no mundo. Se isso acontecer, ótimo.

Ser rico.

Ser rico. Se vier também ótimo, mas não é propriamente uma prioridade.

Uma consequência.

Mais do que o Francisco é um grande boss, gostava que quando as pessoas falassem do Francisco, dissessem: "Olha, sim senhor, é um gajo porreiro." Isso é o que se calhar eu gostava.

E gostava de ter sido este rapaz que foi com o Bezos ao espaço.

Ninguém diz que não. Eu acho que se o Bezos tivesse chegado ao pé de mim e me dissesse: "Olha, és menino para vir ao espaço?", não diria que não. Agora, se aqueles 23 milhões que custou a viagem ao espaço não davam para duas ou três coisas mais bem empregues, se calhar acho que sim. Mas isso também acho que se faz parte e são realidades que são tão longe, pelo menos da minha, que para mim é muito fácil falar.

Muito bem, Francisco. Estaríamos muito bem representados consigo naquela cápsula, apesar dos custos. Obrigada, Francisco. Muitas felicidades e espero que mantenha sempre essa que já é a sua marca, que é a marca da alegria de alguém que faz as coisas com paixão, que mobiliza os outros e que faz a diferença. Obrigada. Muitas felicidades também para esta nova vida de professor.

Obrigado.

Obrigada.