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Bem-vindos ao programa "Imperdíveis". Hoje com Pedro Santa Clara, 55 anos, casado, pai de três filhos e avô de um neto que acabou de nascer, tem três meses, o Mateus. É professor de Finanças, doutorado no INSEAD, fez uma carreira internacional, sempre professor na UCLA, a Universidade da Califórnia, de Los Angeles. Em 2008, passados 16 anos fora, voltou pra Nova, onde se formou, se licenciou. Voltou pra Nova e, como ele diz com muito humor, dedicou-se à construção civil, ou seja, ele é o responsável pelo novo campus de Carcavelos, é um dos grandes responsáveis. Em 2019, já estava a fundar outra empresa, a Shaken not Stirred, uma célebre frase, uma lendária frase do "007", já vamos perceber porque escolheu. E já lançaram também a já célebre Escola 42, que é uma escola com alunos, mas sem professores, sem horários e gratuita pra todos os alunos, graças aos mecenas. Também está com um projeto de desenvolvimento da Fundação José Neves, da Farfetch, outra fundação que está focada na educação e, portanto, este é o seu core business, a educação. Bem-vindo, Pedro, é um prazer tê-lo aqui. Queria começar por esta Escola 42, que é uma escola com alunos, mas sem professores. Como é este conceito?
Obrigado, Laurinda. Tenho imenso gosto em estar aqui. A Escola 42 é um projeto extraordinário, que começou em Paris há 10 anos e que hoje em dia está em 33 cidades pelo mundo. É uma escola de programação avançada e muito inovadora em muitas dimensões. Como dizias bem, é gratuita para os alunos, porque financiada por uma série de empresas e pessoas que acreditaram no projeto e quiseram apoiá-lo. E uma escola muito inclusiva, em que qualquer pessoa se pode candidatar, independentemente das suas qualificações acadêmicas anteriores. Tem que passar por um processo de seleção muito duro, com testes online e depois com a piscine, que é um boot camp de 26 dias muito intenso, em que aprendem a programar dentro deste método pedagógico muito especial que esta escola tem. E que, no fundo, consiste em uma sucessão de desafios que são lançados aos alunos. Em vez de termos aulas, o que a nossa equipa pedagógica, que é muito grande, faz é desenhar a experiência de aprendizagem.
Cada um faz a sua experiência à sua medida ou há um padrão, digamos assim?
Cada um faz o percurso, sobretudo, ao seu ritmo. A escola está aberta 24 horas por dia, sete dias por semana. É presencial, os alunos estão lá e a interação entre os alunos é fundamental. Mas, no fundo, há uma plataforma tecnológica que os conduz através de uma sucessão de desafios, um pouco como se fosse um jogo de computador, em que eles têm que ir passando de nível.
Uma gamificação na própria formação.
Tem muitos elementos de gamificação, exatamente. E no fundo, cada desafio obriga os alunos a irem pesquisar por si todo o conhecimento necessário pra responder. Há muita colaboração entre alunos, portanto, a aprendizagem entre pares é fundamental, e vão progredindo assim sucessivamente. O programa tem 21 níveis. Os primeiros nove são comuns a todos e, portanto, toda gente passa pelos mesmos desafios. Depois, fazem um estágio de seis meses numa empresa e depois voltam pra se especializar nas áreas que lhes interessarem mais, que podem ser desde machine learning, fazer jogos, desde robótica, cibersegurança.
É muito impressionante, porque não há oferta suficiente para cobrir a procura do mercado. Portanto, vocês estão a lançar pra o mercado pessoas que vão ter emprego seguro.
Claramente. Nós temos visto muitos estudos que apontam para, em Portugal, neste momento, haver uma falta de 75 mil programadores avançados. E se olharmos pro conjunto do ensino superior em Portugal, para as universidades, politécnicos, estou convencido que não graduam mais do que dois mil por ano.
Quantos é que vocês graduam? Qual é o contributo?
Começaram o programa em fevereiro, começaram os primeiros 155 alunos. Em outubro, vamos ter uma segunda entrada de mais 150, e pro ano entrarão mais 150 ainda.
Nos primeiros dois anos, têm cerca de 500 alunos. Voltando só um pouquinho atrás pra percebermos bem o processo. Onde é que estão os professores? São mestres, são mentores? Qual é a figura do professor e como é que atua? Como é que avalia, como é que faz o papel de professor?
É um ponto muito bom e, de fato, eu diria que já há mais de 100 anos que sabemos que a melhor forma de aprender é baseada em projetos e entre pares. Basta pensar, por exemplo, na Maria Montessori, há 100 anos desenvolveu um método pedagógico pra crianças, todo baseado nesta procura de soluções pra problemas e de colaboração entre as pessoas. Na verdade, eu acho que isto nunca vingou no sentido de conseguir escalar. Há muitas universidades que fizeram pequenas experiências ao lado de project-based learning ou entre pares, etc. Mas pela primeira vez, a 42 criou Usando muita tecnologia, uma forma de levar as pessoas através de uma sucessão de desafios. Eu uso muito a metáfora da escola de aprender a nadar. Ninguém aprende a nadar com uma série de aulas teóricas e um exame no fim. A melhor forma de aprender a nadar é com uma sucessão de pequenos exercícios, do tipo: vamos primeiro chapinhar na água, depois perder o medo, pôr a cabeça debaixo d'água e fazer olhinhas, depois tentar flutuar, bater os braços, bater as pernas e no fim desse percurso aprendemos a nadar.
Mas há alguém que está sempre a dar confiança, não é?
Pronto. Aqui, e estamos a falar com pessoas que já têm mais de 17 anos, e depois já falamos porque o perfil dos alunos é muito interessante.
Isso, também queria ir lá.
O que fazemos é: pomos 150 pessoas na piscina e damos o primeiro desafio. E toda gente fica um bocadinho desconfiada: "Eu não sei nadar, como é que agora me estão a pedir para ir buscar uma moeda ao fundo da piscina?" Mas de alguma forma, alguém dentro desses 150 vai conseguir, ou porque já sabe um bocadinho.
Portanto, vai dizer aos outros como é.
Exatamente. E nós vemos que há alguém da outra ponta da piscina que já conseguiu e chegamos lá e perguntamos como é que fez. E esta forma é extraordinária, porque todos os alunos acabam por ser professores e alunos ao mesmo tempo.
É muito interessante e é muito comovente, não é? Porque o que nós sabemos é que o mundo, tal como está, é um imenso sistema de colaboração e entrega.
Exatamente.
E se nós começarmos a ensinar essa colaboração e essa partilha de conhecimento, já estão on track.
E isso que dizes acho que é crucial. E na verdade, a Escola 42, e eu penso que o sucesso extraordinário que tem tido - nunca vi uma-
Coisa tão rápida.
Uma escola de ensino superior que se passe de todo lado. Porque para além de ser muito boa do ponto de vista técnico, isto é, saem profissionais extraordinariamente bem formados nestas áreas digitais que hoje são necessárias, mas muito mais do que isso, aquilo que verdadeiramente se faz naquela escola é aprender a aprender. Este conjunto de competências humanas, de receber um desafio, ter que ir pesquisar uma resposta, pedir ajuda e ajudar os outros, ensaiar uma solução, muitas vezes falhar. E é muito engraçado.
É muito laboratorial também, não é? Podemos partir as lâminas.
Claro, o falhar é crucial. E nesta escola, toda a gente, inevitavelmente, mais cedo ou mais tarde, falha num dos desafios.
Mas há muita luz no erro.
E tenta fazer outra vez. E isto é uma diferença crucial em relação ao ensino tradicional, que estigmatiza muito o erro. Quer dizer, o chumbar é aquilo que não se pode fazer. Aqui não, aqui faz parte do processo. E é o que nos liberta para sermos criativos, para tentarmos encontrar soluções, porque faz parte do processo. E depois submetemos uma solução que funciona.
E ninguém é dono das ideias.
E cada desafio é depois avaliado por três colegas que são sorteados pela plataforma, que recebem uma grelha de avaliação, que têm que chegar, marcar meia hora conosco e perceber o que fizemos, se funciona, se não funciona, como é que fizemos.
E fazem isso com uma seriedade enorme.
E, portanto, esses momentos de avaliação tornam-se numa enorme oportunidade de aprendizagem, porque eu tenho que explicar o que fiz e o meu colega tem que perceber como é que funcionou. E muitas vezes, e até porque temos gente com perfis incrivelmente variados, vou perceber novas maneiras de resolver o mesmo problema.
Pedro, penso que num mundo perfeito e ideal, nós passaríamos todos a aprender e a ensinar assim.
Isto é o primeiro passo, vamos lá chegar.
Exatamente. O efeito contágio é inspirador e aspiracional, não é? Porque isto depois torna-se aspiracional, eu também quero. E por isso queria saber quem é que pode aceder, ou seja, qual é o perfil do aluno que se candidatou e que foi escolhido. Porque imagino que vocês tenham milhares de candidaturas.
Nós tivemos até agora 12 400 candidatos, o que excedeu três vezes a nossa melhor expectativa, e que se pensarmos no total do ensino superior em Portugal, se candidatam 60 mil, dá uma ideia do sucesso de uma escola que, na verdade, foi apresentada há oito meses.
Mas as pessoas vão googlar e sabem o que é que se passa lá fora.
Claro.
E percebem o método, e portanto é uma glória.
Exatamente. Nós temos quatro grandes grupos, se de alguma forma os tente identificar. Temos jovens de 17, 18 anos que acabaram o secundário e que vêm para a 42 em vez de ir para uma universidade tradicional. Temos um segundo grupo de pessoas que estão no ensino superior, numa variedade de cursos, e que percebem que para ter sucesso no futuro têm que ter uma competência adicional digital. E é muito engraçado, porque se hoje em dia pensarmos, um exemplo como ter um curso de Sociologia, tem relativamente poucas oportunidades profissionais só por si, mas alguém que saiba de Sociologia e tenha competências digitais, tem um interesse extraordinário para uma empresa como o Facebook, por exemplo, porque o Facebook é uma experiência sociológica numa plataforma tecnológica. O terceiro grupo que temos são pessoas profissionais, casos variadíssimos.
Todas as idades?
Nós temos alunos entre os 17 e os 55 anos.
Não há um limite máximo.
Não há limite nenhum.
Mas mínimo há, 17.
Nós não queremos competir com o ensino obrigatório, portanto, as pessoas têm que ter ou mais que 18 anos ou ter completado o 12º ano.
Mas também podem ter mais do que 18 anos e não ter completado o 12º.
Claro, e temos alguns casos. E depois podemos falar mais do processo de seleção, que é como imaginas, de 12.400 candidatos para 155.
É um funil .
É um funil muito apertado.
É uma porta muito estreita.
Já estava a dizer. Temos depois um grupo de profissionais. Por exemplo, um aluno nosso, que foi meu aluno no mestrado de Finanças na Nova há 10 anos, passou estes últimos 10 anos a trabalhar no Deutsche Bank em Frankfurt, e agora quis ir para a 42 porque quer criar uma startup em fintech. Temos um exemplo que eu também acho muito engraçado, de um médico patologista, que trabalha num dos grandes hospitais de Lisboa, e que acabou a sua formação há três anos e acredita, como eu acho que é razoavelmente evidente, que o futuro da patologia está na inteligência artificial, que não vão ser humanos a olhar pelo microscópio para uma lamela, mas vai ser um robô que tem que ter algoritmos treinados para distinguir as doenças.
É muito à frente, alguém que se candidata para isso mesmo.
E que, curiosamente, sente que acabou o curso muito recentemente e que está imediatamente obsoleto. Temos uma antropóloga forense que está a acabar o mestrado e que acredita que ter a competência digital, ao mesmo tempo que tem já as suas competências técnicas da sua área fundamental, vai aumentar muito as oportunidades. E finalmente, o último grupo, também me parece muito interessante, são pessoas que estão ou desempregadas ou em risco de ficar desempregadas, muito também por efeito desta pandemia, e que vão desde um piloto de longo curso a uma bartender, a um mestre pasteleiro, um cozinheiro, uma pessoa que tinha uma agência de viagens, uma quantidade de gente que de repente viu as suas perspectivas profissionais muito reduzidas e que também percebem que este é um caminho alternativo. E a graça é que desta variedade enorme, de idades, de backgrounds, de rapazes e raparigas, surge um espírito colaborativo que nunca vi. Eu sou professor há 35 anos, e até não sou mau professor, mas na verdade, nunca vi um entusiasmo tão grande dos alunos por aprender.
E percebe-se. Percebe-se até porque o mundo mudou de tal forma que muitas pessoas passaram a não se adaptar, a não se ajustar a esse ensino, a esses métodos, que ainda enquanto duram, já estão obsoletos, já estão ultrapassados. Mas não sei, Pedro, nós fomos pares na Nova e, portanto, tratamo-nos por tu. Não vale a pena artificializar isso, mas não sei se te dás conta que uma entrevista ou uma conversa sobre a 42 numa rádio como a Observador vai fazer multiplicar os candidatos, e vocês não têm capacidade para absorver. Portanto, eu acho que aquilo que vais dizer desperta imensa vontade de conhecer e de fazer. Como é que vocês podem escalar isto? Há a hipótese de, em vez de andarmos de 150 em 150, escalar isto e ter se calhar 1000 de cada vez?
A escola em Paris tem 1000 por ano. Paris é obviamente uma cidade muito grande, e Lisboa, ou mesmo a Grande Lisboa, dificilmente chegará a essa escala. Estamos neste momento a trabalhar para tentar abrir no próximo ano uma segunda escola 42 no Norte, e isso é uma forma de escalar. Uma das virtudes deste modelo é exatamente esta, que é completamente escalável. Se nós tivéssemos o dobro do espaço, facilmente podíamos ter o dobro dos postos de trabalho e duplicar o tamanho da escola.
Isto é um ano de eleições autárquicas, Pedro, portanto, eu acho que nada como ir bater às portas.
Nós batemos muitas portas.
Todos os candidatos. É pôr já toda a gente em linha.
Fica já esse desafio a todos os candidatos autárquicos.
Isto é por um bem maior, é por um bem comum.
Nós neste momento, e foi muito difícil encontrar um espaço para a 42, estamos a alugar um espaço e a pagar uma renda elevada, o que é particularmente doloroso numa escola que é gratuita para os alunos e que é apoiada por mecenas. E de facto, achamos que temos aqui uma missão social importante, que merece ser apoiada por algum instituto público. E nós olhamos à nossa volta em Lisboa, vemos tantos prédios devolutos, tantos espaços que podiam servir.
Também eu acho que este ano vamos ver o que é que acontece. Pedro, em relação ao perfil, já percebemos os que entraram. Gostava de saber, no processo de seleção, o que é que faz com que esta pessoa seja aceite e aquelas não sejam. Não é certamente a qualidade de uns e de outros, só. Há qualquer coisa aí que é decisivo. O que é que é? Ou o potencial. Não é certamente o potencial.
O processo de candidatura é muito diferente da candidatura a uma universidade tradicional. Os candidatos começam por fazer dois testes online, que são jogos. Têm que jogar dois jogos lógicos de capacidade de raciocínio, analítica.
Há alguma capacidade.
E são jogos que têm uma graça especial, porque não são completamente explicados. Há ali alguma ambiguidade.
Uma espécie de um dilema que fica no ar.
E as pessoas têm que persistir até conseguir. E, portanto, desde logo há uma seleção não só pelas competências intelectuais, mas também por esta persistência.
Pela resiliência.
E depois fazem um bootcamp de 26 dias em que aprendem a programar em C.
Mas aí o bootcamp já é só para os que passaram.
Para os que passaram os testes.
Não, ainda estou a pensar quais são os que ficam de fora.
Os que não passam nos testes
Portanto, esse teste desse jogo é eliminatório.
Dos 12.400, até agora passaram nos testes online 1.700. Depois fizemos, até agora, três piscines, que é o nome deste bootcamp, com 150 alunos de cada vez.
"Piscine" vem de piscina?
Do francês "piscine". A escola começou em Paris.
E daí a metaforizar piscina também.
E nós quisemos manter esse nome. Durante esses 26 dias, que é quatro semanas, passam por um esforço muito intenso. É vulgar estarem lá 14 horas por dia, a escola está aberta 24/7, portanto, dia e noite, com desafios, exames e exercícios de grupo.
Mas aí não estão 1000 e tal.
Não, estão 150 de cada vez. Fizemos três.
Ah, ok.
Fizemos em outubro, em novembro e em janeiro.
Vão afunilando dos 12 mil e tal para os 1700. Dos 1700 para?
Para estes 450 que começaram.
Portanto, destes 450 sabem que só podem sair 150. Só podem entrar, digamos.
Não temos um número fixo. A nossa experiência foi: destes 150 que começam, tipicamente um terço desiste logo na primeira semana, porque percebem que não é para eles ou que afinal não gostam tanto de programação.
O que é uma seleção natural.
O que é ótimo.
E é muito libertador também pra vocês.
E em relação às universidades tradicionais, é típico na engenharia informática desistirem 40% dos alunos, mas às vezes, se calhar, ao fim de dois ou três anos, com prejuízo pessoal incalculável.
Exato. Então estamos dentro do padrão e também estamos aqui dentro do nosso limite. Fazemos uma pausa e voltamos já a seguir. Até já. Voltamos à conversa com o Pedro Santa Clara, professor de Finanças, doutorado no INSEAD, com uma carreira internacional e professor na UCLA. Voltou pra NOVA em 2008, foi o grande responsável da construção do novo campus de Carcavelos. E em 2019 fundou a Escola 42, sobre a qual estávamos a falar, o processo de seleção. Portanto, há uns que desistem logo e depois ficam esses grupos.
E depois ficam os outros, que levam este bootcamp até o fim e há, finalmente, uma seleção que tem a ver com o nível que atingiram, com a performance que tiveram nos exames, nos desafios do grupo, etc. É uma escola muito seletiva, mas por características diferentes do ensino tradicional. Eu acho que enfatiza muito mais este espírito de resiliência, de capacidade de tentar e continuar e persistir.
E, ao mesmo tempo, aventureiro, espírito aventureiro também.
E, por outro lado, a capacidade de colaboração. Há um caso muito engraçado num destes bootcamps, de um aluno com quem eu falei muitas vezes, porque era um tipo muito engraçado que vinha de teatro. E ao fim de uma semana desistiu e eu fui perguntar por quê. Ele disse uma frase que me ficou mesmo na cabeça, porque achei extraordinária, que é: "Eu não gosto de pedir ajuda". E, de facto, quem não gosta de pedir ajuda, não funciona naquela escola.
Caramba, é um realismo. Pode ser duro, mas é uma escola que também leva os alunos, ainda no processo de seleção, a perceberem "isto é pra mim, isto não é pra mim", também é uma responsabilização muito interessante, não é?
Claro, e esse ponto de responsabilização, ainda bem que mencionas, porque é o que faz muita diferença. Nesta escola, os alunos têm total liberdade, no sentido em que vão às horas que querem, ao ritmo que quiserem. Há uns que andam mais depressa, outros mais devagar. Mas com esta liberdade total, vem também uma responsabilidade total.
Claro.
Isto eu acho muito engraçado, porque quando damos aulas, de certa maneira, há ali uma presença tutelar, que é o professor, que é quem diz o que tem que ser feito pra amanhã, o que é um teste pra semana, e que, de certa maneira, desresponsabiliza muito os alunos. Eu já dei aulas a todos os grupos, incluindo executivos, pessoas da minha idade, algumas mais velhas que eu, e às vezes brinco que quando nos sentamos numa sala de aula, todos regredimos pros 15 anos, porque há esta desresponsabilização. E não estou a dizer que as pessoas não tenham brio e não sejam muito trabalhadoras. Mas na Escola 42 é preciso um pouco mais do que isso.
Autorregulação.
Exatamente. E quando se dá este, eu não sei se isto se traduz para o português, mas este poder de agência às pessoas.
Pode ser em inglês.
É isto, agency. As pessoas sobem pra outro patamar. Quando nós tratamos as pessoas como adultos profissionais, responsáveis, que sabem o que querem.
Responsabilidade gera sempre mais responsabilidade.
As pessoas rise to the occasion.
Completamente.
E isso transforma a experiência.
Pedro, e a verdade é que há uma matemática infalível, e um professor de Finanças sabe isso, é que a confiança gera sempre mais confiança, a responsabilidade mais responsabilidade, e no negativo também. A desresponsabilização também gera mais irresponsabilidade, e por aí adiante. Por acaso, ainda queria só perguntar: por que escolheu esta frase lendária do 007 para o nome da vossa empresa?
Isso foi uma brincadeira. No fundo, esta empresa foi começada pelo grupo que fez o projeto da NOVA, o novo campus, a campanha de fundraising, 1001 projetos transformadores daquela escola. E, de certa forma, gostámos da experiência e quisemos fazer, e resolvemos dedicar-nos a esta área da educação e fazer projetos transformadores da educação. E isto também é um outro tema engraçado, que acredito que depois de milhares de anos em que a educação mudou muito pouco, agora está A começar uma revolução na forma de ensinar e de aprender. Estávamos num jantar a pensar que nome havíamos de dar à empresa. E dar o nome a uma empresa é uma coisa sempre difícil.
Permanece. É uma marca. E as marcas têm que viver durante muito tempo.
É uma marca, mas 99% dos nomes estão tomados. Isto é ter ideias e testar no computador pra ver se já existe ou não. E como foi feito num jantar, bem regado, às tantas surgiu a ideia da Shaken Not Stirred e gostámos da ideia e ficamos com ela.
E é fácil dizer isso, é fácil dizer: "Fala da Shaken Not Stirred". As pessoas já ficam na Shaken.
Nem sempre é fácil e é preciso soletrar, às vezes, mas, por outro lado, depois disso as pessoas não se esquecem.
Claro, depois é diferenciador. Dando aqui um salto, eu acho, Pedro, que tu fazes as coisas com muita coolness e sempre com um brilho nos olhos, com um sorriso e com uma certa tranquilidade, embora muitas vezes com uma pressão interior grande, e acho que és conhecido e reconhecido por isso. Mas eu acho que agora tens um brilho especial, pra além da Escola 42, que é o nascimento de um neto. Tu e a Ana foram avós pela primeira vez. Ser avós é extraordinário, não tem nada a ver com ser pais. Quando uma pessoa nasce como avó, o que é que acontece?
Aqui foi difícil.
É um bebê da pandemia também?
É um bebê da pandemia, é certo. E o meu filho, que é o mais velho, e o pai do neto, vive em Barcelona com a sua mulher, que é catalã, e nós só conseguimos ir ver o neto passados quase dois meses de ter nascido. Foi uma ansiedade difícil, mas já lá estivemos duas vezes e é, de facto, extraordinário.
Chama-se Mateu.
Mateu.
E qual foi esse impacto de uma pessoa se ver avó? Aos 50 e poucos, que é a vossa idade.
Essa parte de me chamarem avô, confesso que ainda não interiorizei completamente, mas é ótimo. E por acaso foi das melhores coisas. Nós fomos pais novos e foi ótimo. O André nasceu dois meses antes de irmos pra Fontainebleau, quando fui pra Enseada.
Fazer doutramento.
Depois nasceu o segundo lá, o terceiro nasceu em Los Angeles. Fizemos toda a vida sempre com miúdos às costas e foi muito bom. E tenho um grande orgulho de, agora que eles são adultos, termos criado uma cumplicidade, uma amizade e uma proximidade, que torna tudo isto mais especial.
Mas a Ana é uma grande mulher e uma grande mãe, e portanto é uma pessoa que também sempre esteve em paridade. Não é só a pessoa que está ao lado.
Claro. E a Ana está profundamente envolvida nestes projetos. Como sabes, é arquiteta, foi ela que fez o espaço da 42.
E que fez o espaço do campus da Caviola.
E que agora está a trabalhar nos 1001 projetos que temos em mãos.
Sempre com bom gosto.
Sempre com bom gosto. Exceto na escolha do marido, mas pronto, toda a gente é perdoada de um erro.
Pedro, andamos por esses anos da Califórnia, esses anos fora. O que foi o mais... Não é só o que foi o melhor, o que aprendeste sobre ti próprio quando eras professor na UCLA?
Tanta coisa. Nós estivemos lá muitos anos, os meus filhos cresceram lá, os meus filhos ainda hoje são meio americanos. Ainda hoje falam, às vezes, dizem coisas em português e sobretudo escrevem em português um pouquinho de forma americanizada. Los Angeles é uma cidade extraordinária pra se viver, não tanto até pra visitar, porque é uma cidade gigantesca, com 18 milhões de pessoas.
Mas com uma margem criativa total.
Com uma área gigantesca. Mas vivíamos num bairro supersimpático, junto ao mar. UCLA é um colosso de uma universidade que tem 30 mil pessoas, portanto, é quase uma pequena cidade. Lembro-me do primeiro dia que cheguei à universidade, deram-me um cartãozinho com factos sobre a universidade. E pra além dos 20 e tal Prêmios Nobel que tem, tinha um que eu achei extraordinário, que era: se a UCLA fosse um país independente, tinha sido o nono país com mais medalhas nos últimos Jogos Olímpicos.
Incrível.
O que dá uma ideia do que aquilo é.
Da performance, da fasquia elevada e dessa margem de enxergar.
Exatamente, do conjunto de pessoas extraordinárias que se encontram. E, por exemplo, às tantas acabei por escrever dois papers em Finanças com um físico, que conheci por mero acaso, e acabávamos por usar a área em que ele trabalhava em Física, que é a String Theory, aplicada a modelos de taxas de juro em Finanças. E essa riqueza de encontrar pessoas de áreas diferentes e colaborar, etc. E depois, na Anderson School, tive a sorte de estar num dos melhores departamentos de Finanças do mundo, com colegas extraordinários. E era muito engraçado, porque almoçávamos todos os dias juntos, e acabei a escrever papers com quase todos, e há um ambiente de colaboração, etc. E ter vivido nesse mundo acho que me ajudou muito a Até naquilo que agora faço e que tento fazer. As ideias que vamos tendo e os projetos que vamos fazendo não é por sermos mais espertos ou visionários, é muitas vezes porque vimos outras coisas, porque passamos por outras experiências e isso enriquece-nos muito.
Às vezes não há que inventar a roda, é só adaptá-la e trazer e, no fim, importar boas práticas. Isso é um sinal de inteligência e há muito brilho nisso, não é?
É, de facto, é um país extraordinário, a Califórnia do Sul, particularmente, porque ao contrário da costa leste, é muito mais descontraída. É daquelas cidades em que nós, de vez em quando, atravessamos a rua e cruzamos com alguém. "Eu conheço este tipo, quem é? É o Steven Spielberg". Ou ir beber café muitas vezes no Starbucks da nossa rua com a Michelle Pfeiffer. Mas que são pessoas normalíssimas.
A vida toda é cinematográfica também.
É engraçado, um dos meus filhos jogava muito futebol lá e o treinador de futebol dele é o realizador, produtor da série Segurança Nacional, Homeland. Passamos a vida a cruzar-nos com pessoas que têm carreiras e profissões diferentíssimas daquelas que vulgarmente encontramos em Portugal.
E é fascinante, não faz de nós necessariamente deslumbradinhos, mas faz de nós, de facto, olhar de igual para igual para pessoas que nós vemos no ecrã ou que de alguma forma mitificamos. E é engraçado vê-las ali.
E no fundo, Portugal também é assim. Nós às vezes somos muito formais e fazemos muita cerimónia, mas toda a gente é humana, no fim. E acho que muitos destes projetos que temos feito, que assentam muito na filantropia e encontrar pessoas que querem apoiar os projetos. E é engraçado que nós, portugueses em geral, somos pouco crentes nisso, mas na realidade a nossa experiência é oposta, é que as pessoas gostam destes projetos, querem envolver-se, querem ajudar e temos histórias extraordinárias nesse sentido.
Mas é preciso saber também ir ao encontro e se calhar saber contar esse storytelling de quem conta e entusiasma os outros para que participem, para que sejam mecenas, também é uma qualidade tua, Pedro. E queria perguntar se tu, nessa tua atitude sempre descontraída, mas muito objetivo e muito pragmático, se te foi difícil andar tantos anos de mão estendida a bater às portas. Isto porque eu acho que, se calhar, e é uma pergunta, se calhar primeiro ouviste muitos nãos até chegar ao primeiro sim, não sei.
Sim. Angariar as vontades necessárias para se fazer um projeto grande exige uma resiliência muito grande.
É verdadeiramente um endurance olímpico.
Eu acho que na Nova, às tantas, calculámos que falámos com mais de 600 empresas e com mais de 5 mil pessoas. Eu almocei com mais gente nesses anos do que espero almoçar no resto da minha vida. Porque temos uma taxa de sucesso para aí de 8%, o que é bom, mas é preciso ouvir muitos nãos.
E como é que se fica nessa sucessão de nãos? Há dias em que uma pessoa já não aguenta mais nãos. Nunca há um duvidar?
Pois, aí deve ser a parte em que eu sou-
Inconsciente.
É giro dizeres isso, porque eu digo muitas vezes. Eu acho que faço muitas coisas por total inconsciência, porque se eu tivesse a menor noção daquilo em que me estava a meter à partida, acho que teria desistido. Mas também sou teimoso.
Sim, uma certa dose de inconsciência, mas também acho que há uma liberdade interior. E isso é que eu acho que pode ser transferível para qualquer um de nós. Ok, alguma inconsciência, mas liberdade interior em relação ao não, desde que eu esteja firme no meu propósito. Ou seja, era tão bom aquilo a que tu te propunhas, seja no campus, seja agora na Escola 42 ou naquilo que é o vosso core, que uma pessoa está tão firme aí que há uma liberdade interior, ou não?
Essa existe. E sobretudo, aquilo que estavas a dizer há bocado, eu durante muitos anos fiz uma carreira académica pura e dura como economista, a escrever papers que pouca gente lia, fechado num gabinete, ir dar umas aulas e umas conferências, mas uma vida muito-
Previsível, digamos assim
Sim, previsível e muito fechada. E de repente mudei drasticamente de vida para ser esta mistura de pedinte e promotor imobiliário e de fazer projetos. E para mim foi uma sorte extraordinária. A sorte de poder ter um segundo ato na vida e fazer qualquer coisa diferente é, de facto, extraordinária e libertadora. Fiz a minha carreira académica, publiquei muito, tive bastante sucesso.
E agora posso-me dar ao luxo de bater portas com um bem maior
E agora ando a fazer outras coisas que gosto muito e sobretudo a área da educação para mim é fascinante, porque o nosso país tem um potencial imenso, mas ainda hoje tem um atraso muito grande em termos de educação.
Uma desvantagem competitiva brutal.
Há muito a fazer. E é preciso, de facto, inovar e procurar novas maneiras de ensinar.
Pedro, mas quando falamos da desvantagem competitiva brutal, nós temos aqui crânios, mestres, professores, pessoas, universidades e escolas extraordinárias, de exceção. Mas depois há qualquer coisa em nós que não dá o salto.
Eu acho que temos condições de partida que eram fracas. Se nós pensarmos, os países do norte da Europa deixaram ter analfabetismo se calhar no princípio do século XVIII ou até mais antes disso. Portugal ainda tem. Ainda hoje, dos portugueses que estão na força de trabalho, mais de metade não tem o secundário. E isto é uma diferença incrível para outros países. Claro que temos pessoas tão boas ou melhores do que em qualquer lado do mundo.
O Miguel Herdade, também num programa recente, dizia: "Se apanharmos um elevador, se formos três pessoas no elevador, uma destas três não tem o 12.º completo". E, portanto, ainda estamos nisso.
Isso leva uma geração a mudar e temos que continuar a fazer um esforço muito grande nessa área. E felizmente, e aqui um fascínio com a 42 e com novos modelos de educação, porque acredito que são os que permitem estender a oportunidade a mais gente e usando abordagens pedagógicas diferentes, envolvê-las mais, levar mais gente a conseguir chegar ao fim.
Pedro, estamos aqui a um minuto e meio do fim desta nossa conversa, com tanta coisa ainda para dizer. Se tu te projetares há 10 anos, ou olhando para trás, o que é que gostarias que tivesse acontecido ou como é que te imaginas daqui a 10 anos, sendo que vais fazendo mudanças drásticas?
Eu acho que agora vou parar com as mudanças drásticas. Eu espero, daqui a 10 anos, termos conseguido fazer mais alguns projetos em que estamos a trabalhar.
Da Fundação José Nunes, da Farfetch.
Enfim, essa segue o seu caminho, e vai com certeza ter grande impacto em Portugal. E nós, shaken, à nossa escala mais modesta, temos muitas ideias que queremos pôr em prática. Estou muito feliz.
O que é que mais valorizas nas pessoas com quem fazes equipa? Rapidamente.
É um grupo de pessoas absolutamente extraordinário. Trabalhamos juntos há muito tempo.
Divertam-se juntos.
Divertimo-nos muito juntos. Há uma cumplicidade extraordinária, há esse sentido de propósito. Estamos muito empenhados todos. Somos sócios, somos amigos.
Não há hierarquia?
Não há hierarquia nenhuma, mas há uma capacidade, uma entrega, uma capacidade de trabalho que nunca vi.
Bravo. Muito bem. Obrigada, Pedro. Muitas felicidades para este e todos os outros projetos.
Obrigado, Laurinda. Obrigado.