Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Bem-vindos ao Imperdíveis. Hoje com Miguel Toscano Rico, 51 anos, médico de medicina interna, casado, pai de quatro filhos. Criou, juntamente com duas outras especialistas, a Associação Covid Inspira, mais conhecida como Inspiro.pt. É um site que começa a ser muito conhecido e o objetivo desta associação é ajudar as pessoas que tiveram Covid a fazerem a sua reabilitação funcional respiratória, cardiorrespiratória e fortalecimento muscular. Tudo isto é gratuito, é online, é muito interessante também por isso. O Miguel Toscano Rico é ainda especialista em geriatria e atualmente é o responsável pela clínica pós-covid do Centro Hospitalar Lisboa Central. Bem-vindo, Miguel. Como é que surgiu a ideia de criar esta associação Inspiro.pt?
Obrigado, Laurinda. O objetivo da criação da Covid Inspira e da Inspiro.pt decorreu de identificar duas necessidades: uma dos doentes no pós-covid fazerem a sua reabilitação funcional, ou seja, ultrapassado o processo infeccioso, ultrapassado as principais complicações que a infecção aguda pode causar, na verdade, as pessoas têm que voltar às suas atividades, têm que recuperar do ponto de vista funcional, ganhar energia e forças pra voltar ao seu trabalho, fazer o seu dia a dia.
Mas nem sempre conseguem.
Nem sempre conseguem.
Porque as sequelas são grandes e são prolongadas.
Precisamente. Mesmo naquelas pessoas que tiveram infecções ligeiras, quase assintomáticas, percebemos que um grande número delas continua, ao fim de pelo menos três meses, com cansaço fácil, com falta de ar, com uma sensação de opressão torácica.
E com aquilo que acho que se chamam brain fog.
E o brain fog. O brain fog é uma coisa que está cada vez mais descrita, que é uma dificuldade na concentração e, portanto, uma incapacidade das pessoas programarem o seu dia a dia, de saberem o que é que têm que fazer e de, simultaneamente, de memorizar eventos novos. Isto tem uma implicação importantíssima naquilo que é a recuperação e o voltar do dia a dia e no trabalho das pessoas.
Interfere imenso e deve dar uma espécie de um desânimo físico, não é?
Sim. É um desânimo físico e prático. No fundo, as pessoas acabam por ter mesmo dificuldade em organizar o seu dia a dia. E de alguma forma, numa primeira fase, poderia-se pensar que isto está um bocado relacionado com uma situação de ansiedade e de stress, um quase stress pós-covid, mas estas entidades são, de facto, diferentes do brain fog. Estas entidades também estão documentadas, quase um stress pós-traumático, com a depressão, a ansiedade, mas para além disso, temos defeitos cognitivos e este é aquilo que se chama, na gíria, ainda em fase de investigação, que é o brain fog. Portanto, são entidades diferentes.
E que eu acho que muitas pessoas que nos estão a ouvir, se calhar, reconhecem. Ou reconhecem já retrospectivamente, ou reconhecem neste momento.
Eu acho que muitas delas acabam por se aperceber a pouco e pouco de que isto se mantém. Ou seja, na fase aguda, as pessoas estão muito preocupadas em ultrapassar os problemas maiores, aqueles que põem em risco a vida, as pneumonias graves, as situações mesmo de emergência e, portanto, da fase aguda da doença, e muitas vezes acabam por pensar que isto, ultrapassado, já está.
E não é verdade.
E à medida que o tempo vai passando, vão tomando consciência de que persistem complicações, e que persistem, de facto, muito tempo.
O Miguel é médico e sabe que esses sintomas nem sequer são validados, porque as pessoas como já passaram o pior, têm que voltar à vida e nem à volta, nem outros médicos percebem. Ou elas sentem que não se podem queixar, ou isto faz parte e vão chegar lá sozinhas. E é aqui que esta associação, é aqui que esta reabilitação funcional funciona. É validando os sintomas, valorizando e validando, e dizendo: "Nós podemos ajudar e podemos recuperar".
Precisamente. É muito fácil perceber que uma pessoa que tenha estado nos cuidados intensivos com uma pneumonia grave, que tenha perdido a marcha, que tenha estado ventilado, é muito fácil perceber que essas pessoas, de uma forma muito imediata, precisam ser reabilitadas. Mas aquelas que tiveram infecções ligeiras, aquelas que aparentemente até passaram desapercebidas.
Os ditos assintomáticos, quase.
Os ditos assintomáticos, nós percebemos que não são tão assintomáticos quanto isso. E a Covid Inspiro e a Inspiro.pt pretendem reabilitar tão depressa quanto possível e fortalecer a parte muscular e ensinar as pessoas a respirarem como deve ser e fazer a reabilitação funcional Precocemente quanto possível, de forma a reduzir as sequelas de uma forma mais eficaz possível.
Como é que isto se faz online? É interessante isto ser online e ser tão eficaz também.
Eu tenho que ser aqui um bocadinho objetivo. Nós não sabemos ainda muito bem até que ponto é que estas intervenções serão verdadeiramente mais eficazes do que a reabilitação face a face. O que nós sabemos é que estes mecanismos, de alguma forma, têm melhorias funcionais. É difícil comparar aquilo que é uma intervenção ao lado do doente, cara a cara. Mas sabemos que são melhores do que nada e sabemos que conseguimos administrá-las de uma forma rápida.
Incisiva e no momento em que é mesmo precisa, não é?
Exatamente. E provavelmente conseguiremos chegar a pessoas que de outra forma não chegariam e que não teriam possibilidade de qualquer tipo de intervenção.
Gostava de ir a esse ponto, porque o facto de ser online também faz com que qualquer pessoa na nossa geografia ou até fora do país, pode aceder, a partir do momento em que é gratuito, está online. Se eu estiver a viver, se eu for português ou não, não sei se isto se destina só a portugueses.
Faz-me duas perguntas. A primeira pergunta, deixe-me só contextualizar. Este modelo de também ser gratuito e de ser online, também se prende com uma outra necessidade que identificámos e a quem tenho que dar muito crédito, que são as escolas de fisioterapeutas. Percebemos também que na fase inicial do confinamento, as escolas não conseguiam ministrar reabilitação e fazer a sua atividade letiva às pessoas, e que simultaneamente também não tinham grande treino daquilo que é a telerreabilitação. Já se falava há muitos anos que se tinha que enveredar por essas medidas, mas não havia grande escola feita em Portugal nesse sentido. De alguma forma, a COVID INSPIRE foi identificar uma escola que já estava a fazer isso desde o início da pandemia, em março de 2020, no Brasil. Fomos aproveitar aquilo que foi sendo o percurso de telerreabilitação que essa escola foi fazendo e acabámos por trazer também, fazer ensino e fazer alguma formação para as nossas escolas cá. E crédito quero dar a estas escolas que também aceitaram este desafio, de alguma forma perceberam que os alunos também se motivavam e que também se cativavam.
Então não são só os que já estão formados, mas os que estão em formação?
Os que estão em formação. E de alguma forma, temos aqui quase um três em um, que é: apoiamos as pessoas que precisam da reabilitação, damos treino e percurso de telerreabilitação dentro das escolas e motivamos os alunos para uma intervenção de que eles também sentem de uma forma muito premente e muito gratificante.
Mas isso só respondeu a uma parte da pergunta, não respondeu à outra parte que é: isto destina-se a qualquer pessoa, em qualquer ponto, já nem digo do país, mas do globo?
Sim. E é engraçado aqui duas medidas. Para já, claramente queremos chegar ao Portugal profundo, ao Portugal que está mais afastado das áreas de intervenção, das áreas onde há mais centros de reabilitação, porque isto tudo também não exclui uma reabilitação cara a cara. É um complemento de intervenção rápida.
E também é um despertar de consciência, não é? Um despertar de consciência de que é preciso fazer alguma coisa.
E queremos chegar a essas pessoas. E só aqui um aparte. Curiosamente, este grupo do Brasil, prontificou-se a fazer telerreabilitação, por exemplo, no período das férias das escolas cá.
Porque estão ao contrário de nós.
Estão ao contrário de nós. E curiosamente, temos um grande número de brasileiros que acedem à nossa plataforma, no intuito de poder ter aqui algum tipo de telerreabilitação.
E nos países africanos de língua portuguesa, também?
De facto, ainda não tivemos essas pessoas aqui.
Também isto foi criado há pouquíssimo tempo, não é? Portanto, isto é uma progressão também na própria evolução da associação e da INSPIRE.
Sim, já começámos há mais tempo, mas de facto, a capacidade instalada e de convencer as escolas a fazerem caminho conosco e nos acompanharem neste desafio tem sido um crescendo.
Uma loucura.
Sim, nós gostávamos, para além de articular isto com os doentes, também gostávamos muito de articular com as escolas. E de alguma forma, há uma escola pioneira que entendeu este desafio desde o princípio.
Como é que se chama essa escola?
É a Escola Superior de Ciências da Saúde de Setúbal, e que ainda não éramos associação e já estávamos a fazer o caminho com eles. Tenho que vos dar o crédito de terem acreditado neste grupo, em nós, e até criarmos a associação. E a pouco e pouco, já temos mais duas vincadas, completamente também estabelecidas em parceria conosco, que é uma ligada à Cruz Vermelha, a Escola de Reabilitação da Cruz Vermelha, e outra de Coimbra. E já temos mais cinco em pipeline para se associar.
O Miguel é responsável pela clínica pós-COVID, o Centro Hospitalar Lisboa Central, portanto, imagino que isto não é pouca coisa. Tem quatro filhos, é médico de medicina interna. Imagino que a sua vida é de facto muito exigente, profissionalmente e pessoalmente. Como é que se consegue ter tempo para fazer tudo isto? Porque isto implica uma cartografia, um mapear no terreno, uma articulação, uma conjugação de dados, de competências, de talentos. É difícil fazer isto.
Deixe-me fazer uma parte.
Estirou-lhe o sono.
Não tira, porque felizmente tenho uma equipe ótima.
Quem foram as outras duas pessoas com quem fez esta ascensão? A Mariana Carreira e a Patrícia Luz.
Patrícia Luz. Mas de fato, desde o princípio perceberam o conceito.
Qual é a especialidade delas?
A Mariana Carreira é da área da gestão. A Patrícia Luz tem um mestrado em Ciências Sociais e em como construir sociedades felizes. Como é que se pode trabalhar para criar uma sociedade feliz. Tenho que reconhecer que o trabalho está muitíssimo depositado nelas e na competência delas.
Elas diriam o mesmo sobre si.
Não, eu tenho uma coisa que me ajuda nisto tudo, que é conhecer muitas pessoas em muitos sítios, alguns até muito improváveis.
Tais como?
Em sociedades de advogados e desde o princípio, a Morais Leitão também.
E, portanto, agilizar.
A Morais Leitão ajudou-nos imenso na constituição da associação e tem nos dado muita parceria. Um grupo mais ligado à auditoria, que também tem trabalhado conosco pro bono.
É importante dizer que isto é tudo trabalho voluntário, não é?
Sim.
O vosso trabalho é voluntário, isto é gratuito para quem usa e quem acede. À volta criam estas parcerias pro bono. É extraordinário. Acha que isto teve a ver com esta escala global, com o fato de estarmos a falar de uma pandemia, ou acha que isto são os sinais dos tempos, em que as pessoas hoje em dia trabalham cada vez mais assim?
Eu acho que serão seguramente as duas coisas.
Não trabalham cada vez mais assim de forma gratuita, mas de forma articulada.
Sim, eu acho que serão seguramente as duas coisas. As pessoas têm contas para pagar e têm trabalhos para fazer e viver permanentemente em pro bono, provavelmente é impossível. Mas percebem que a entreajuda consegue criar espaços e consegue chegar a pontos onde de outra forma não se chega.
Há uma noção maior, é um imperativo ético do contributo cívico, digamos assim.
Precisamente.
Cada vez mais.
Precisamente.
Ainda não falamos sobre isso, mas o Miguel viveu agora, penso que sete anos, na Alemanha. O Miguel é um exemplo também bastante interessante de homem profissional de mão cheia, que tem uma vida muito cheia, mas que vai com a sua mulher para o banco, que trabalha no Banco Central Europeu, e que faz a retaguarda da sua mulher. Penso que não suspendeu a sua atividade como médico, mas prescindiu de poder fazer tudo aquilo que precisava ou que gostava para isso.
Eu não gosto de dizer o termo prescindir.
Então.
Não, porque em família ganhamos sempre imenso uns com os outros e claro que houve aqui também um projeto. Nunca posso dizer que seja um projeto único da Sofia e a Sofia também não poderá dizer o mesmo de mim quando me vê mais afastado das lides de casa. Acho que em família somos um bocadinho vasos comunicantes e aquilo que faz sentido para um, é discutido e conversado e se calhar acaba por nos enriquecer a todos. O projeto também de irmos para a Alemanha, e não foram sete anos, eu nunca cheguei completamente a interromper a minha atividade. Consegui conciliar também, por grande compreensão das minhas chefias, que isso faria sentido também para as chefias de cá.
Tu nunca exerceste medicina na Alemanha ou exerceu?
Exercí medicina na Alemanha, fiz voluntariado médico também na Alemanha, que também curiosamente pode acontecer, na Cruz Vermelha lá. E de alguma forma, nunca prescindi de trabalhar cá, nem de trabalhar lá. Evidentemente, reduzi muitíssimo a minha atividade cá, mas fi-lo com um projeto familiar em que fazia sentido também à minha mulher, fazia sentido aos nossos filhos ganharem mundo, ganharem experiências de vivência fora. Eu próprio também já tinha feito isso quando fui pequeno para o Brasil, e foram os tempos mais felizes com os meus pais e com a minha família, de vivência no Brasil. E depois mais tarde, enquanto casados, também com a Sofia, fizemos um ano de voluntariado em Moçambique, casados.
Isso nos Laicos para o Desenvolvimento. Portanto, isso já é uma cultura de família, não só a mobilidade, como o todos por todos, essa lógica.
Pois, todos por todos, e enriquecemo-nos todos e transmitimos valores que de outra forma queremos incutir na nossa família, nos nossos filhos. Em cada passo onde chegamos, há sempre desafios e raízes que têm que ser cortadas e criar novas raízes nos sítios onde estamos e enriquecemo-nos todos imenso.
São as famílias contemporâneas, é aquilo que nos acontece a todos. Hoje em dia é uma questão de ter que aprender a desaprender, a renovar, a estar aberto à mudança.
E vimos seguramente sempre mais ricos dessas experiências. O termo experiência também nunca gosto muito, parece que é um toca e foge. Não, este toca carregamos depois conosco sempre e isto fica para nós.
Do que é que tem mais saudades em relação a este passado recente na Alemanha?
Tenho saudades de uma vida familiar muito intensa, de um núcleo familiar fechado ou mais limitado. Fui com a Sofia e os filhos e de alguma forma conseguimos criar aqui algo. Agora estamos nisto, temos que superar isto e temos que trazer aqui coisas boas. Tenho muitas saudades desse espírito.
Estar muito juntos é uma grande união.
De uma família, de um núcleo muito próximo, de vivências intensas juntos.
Os seus filhos têm entre que idades?
Tenho entre os 20 a caminho dos 21 e agora com 11 anos. Portanto, temos duas que já estão na faculdade e outros dois que foram para lá muito novos.
E para eles, o choque cultural, porque apesar de tudo, nem que seja o choque da língua. O alemão não é uma língua tão evidente, nem tão fácil.
Reconheço que tem sido mais difícil para eles do que para nós. Para nós, que saímos de cá com estruturas, apesar de tudo, que facilmente recuperamos. Sobretudo os mais novos, que foram em idades pequenas e que quebraram aqui alguns ciclos de relações e de amizades.
Chegam para um vazio de amigos.
Voltam para um vazio de amigos e voltam também para uma sociedade que está relativamente fechada por causa da Covid.
Exatamente, não deve ter sido fácil isso. Ou seja, uma coisa é estarem uns com os outros em família, numa cidade, num país que não conhecem, portanto, onde não têm ainda relações, outra coisa é estarem aqui fechados por causa da Covid e todos de máscara. Vamos fazer um intervalo, voltamos já a seguir. Até já. Voltamos à segunda parte da conversa com o Miguel Toscano Rico, 51 anos, médico de medicina interna, é o atual responsável pela clínica pós-Covid do Centro Hospitalar Lisboa Central. Também tem uma especialidade, acho que ainda não há especialidade em geriatria, mas há competência em geriatria. Gostava de falar sobre isso, mas antes, e só porque estávamos a falar da sua experiência de viver na Alemanha e porque referiu aquele ano em que esteve em missão em Moçambique, pelos Leigos para o Desenvolvimento, gostava de voltar aí, porque quem o conhece diz que o Miguel é uma pessoa muito ao serviço da comunidade, é uma pessoa que está sempre a tentar fazer bem o bem, e esta associação inspire.pt é se calhar apenas um exemplo. Gostava de saber se essa escola dos Leigos para o Desenvolvimento, essa escola de estar ao serviço de uma comunidade, ainda por cima nessa altura, de forma inteiramente gratuita, se isso marcou a sua vida e se marcou a sua atividade profissional ao longo destes anos.
Há vários momentos na vida que nós dizemos um antes e o depois. Eu tenho um antes, enquanto era solteiro, e o depois casado. Tenho um antes de estar nos Leigos para o Desenvolvimento e um depois. Provavelmente agora também terei um antes e um depois de estar na Alemanha, mas seguramente esse tempo dos Leigos para o Desenvolvimento foi fortíssimo para mim pessoalmente e enquanto casal também.
Tinham acabado de casar?
Tínhamos acabado de casar. Fiz o exame da especialidade, depois fomos a seguir para Moçambique.
O Miguel médico, a Sofia economista.
Não, a Sofia é de Direito. Ela era advogada naquela altura, depois disso ficou mais ligada não tanto à advocacia, mas jurista, ligado à área econômica. Deixe-me só fazer um aparte. A parte dos Leigos foi fundamental, mas a formação dos Leigos para o Desenvolvimento também foi fundamental.
Para as pessoas perceberem o que são os Leigos para o Desenvolvimento, se calhar também podemos só aqui situar.
Sim. Os Leigos para o Desenvolvimento é uma ONG ligada ao desenvolvimento, como o próprio nome indica, em que as pessoas fazem uma formação durante um ano em Portugal para ganhar algumas competências de relação e um pouquinho também para filtrarem e perceberem quais é que são as motivações pelas quais se entusiasmam por fazer desenvolvimento.
E se as pessoas que se propõem a ir têm essa endurance para ir, porque depois a realidade lá é muito adversa, é muito exigente.
Sim. E normalmente não tem muito a ver com aquilo que se idealizou. A pessoa idealiza que as coisas correm sempre magnificamente e para já temos grandes desafios. Uma da realidade de convivermos com, não é bem uma pobreza de espírito, é mais uma pobreza pessoal, é uma pobreza mais material. Porque as pessoas são riquíssimas Dão-nos uma visão do tempo e das relações que nos enriquece. Não vamos à espera de correr contra o tempo. Normalmente gostamos de chegar e estar. É um tempo que nos enriquece e que ganhamos ao olhar para o tempo sem estarmos a olhar para o relógio. Mas simultaneamente aquilo que desejávamos fazer, nem sempre conseguimos fazer.
A vossa missão, nesse caso, seria mais na área da educação ou na área da medicina?
Eu estive claramente na área da saúde, num projeto riquíssimo que a Diocese de Lichinga já tinha implementado há uns anos.
Riquíssimo no sentido...?
No sentido de criar postos de saúde comunitários, de dar formação.
Imagino que riquíssimo, mas muito carente em termos materiais.
Era muito carente. Os postos de saúde que na altura a diocese tinha implementado, e eram cerca de 20 postos de saúde, eram feito em matope, era madeira e casas de palha com barro a fazer as paredes. Não era diferente das casas das pessoas. Portanto, era bastante limitado.
Quais são as condições que uma pessoa tem para exercer medicina, para dar um contributo e acrescentar valor na área da saúde?
Na área da saúde, o que nós fazíamos, era formação aos técnicos de saúde. Ensinávamos a tratar e a criar condições sanitárias básicas nas aldeias. Construção de latrinas, água potável, tratar feridas, ensinar a fazer curativos, tratar malária.
Fez partos?
Felizmente não fiz nenhum parto.
Mas podia ter acontecido.
Podia ter acontecido.
Podia haver lá muitos Miguel, muitas crianças chamadas Miguel.
Sim, não me aconteceu, mas em compensação cheguei a estar em sítios onde num dia tivemos que fazer quase 120, 130, 140 crianças para serem vacinadas, coisa que eu nunca tinha feito previamente. De alguma forma, fazíamos técnicas de saúde básica e fazíamos uma reciclagem do tratamento daquilo que eram as doenças mais habituais, as gastroenterites, a malária, e isso fazia-se periodicamente. E fazia-se com ações de formação e de reciclagem destas pessoas. Além disso, também estava no Hospital Distrital de Lichinga. O distrito era Uniassa, Uniassa tinha uma vez e meia o tamanho de Portugal.
Sim, é bom pôr na dimensão certa.
Mete um bocadinho de respeito. E esse foi o meu papel. O da Sofia, embarcou no projeto de escolas comunitárias, também promovidas pela Diocese de Lichinga, que na altura tinha um santo homem que levava tudo à frente, o Dom Luís Ferreira Gonzaga da Silva, que entretanto já faleceu, e que conseguia motivar e levar tudo à frente e construir escolas onde não existia.
E onde tudo é adverso.
Onde tudo era adverso.
Não havia impossíveis para ele.
Não havia impossíveis para ele.
Impossível era só o que não se tentava.
Precisamente.
Miguel, isto do vosso lado era com gratuidade total, portanto, é um voluntariado de um ano. Eram novos, tinham acabado de casar, e isto marcou a vossa vida. O que sente que hoje em dia passa para os vossos filhos ou que se revela? Eu percebo que uma associação Inspi COVID vem necessariamente disto, de um olhar para a realidade e perceber que há muitas pessoas que saem, que têm sequelas e não têm maneira de se reabilitar. Mas o que acha que veio daí para a vossa vida de casal, para a vossa vida profissional e familiar, como pais?
Para a criação também da Inspi.pt fomos muito tocados aqui também pelo grupo dos-
Dos voluntários Com Vida.
Dos voluntários Com Vida.
Destes miúdos que arriscavam a sua própria saúde.
Onde as pessoas estavam a sair, que era os lares e os locais onde havia grande prevalência de doentes infectados e doentes infectados graves, onde as pessoas saíam.
Ou seja, onde os profissionais de saúde saíam e onde os cuidadores saíam, porque não queriam estar. Eram universitários, pós-universitários, pré-universitários, e iam correndo o risco de se infectarem, alguns infectaram-se. Este movimento Com Vida, aliás, eles usavam a palavra Com Vida e o COVID está sublinhado no nome, isso inspirou. Ou seja, pensou: "Se estes miúdos fazem isto, o que nós podemos fazer enquanto profissionais?"
Exatamente. Estes miúdos arriscam-se e fazem um trabalho impressionante numa fase aguda. E o que nós podemos fazer nas sequelas? Foi um bocadinho essa leitura que também fizemos, que na altura também fez um clique. Eles não conhecem as pessoas, nós conhecemos, vamos meter mãos à obra. E fazendo uma leitura também de uma coisa que eu achei Que seguramente os Leigos para o Desenvolvimento me deram. Deram-me uma capacidade de linguagem e uma capacidade de compaixão também.
Ir ao encontro.
De compaixão, de conseguir quebrar barreiras quando falo com as pessoas, de conseguir abrir portas onde elas também às vezes estão fechadas. E isso, de certa forma, foi um ensinamento.
Miguel, isso é interessante, porque saiu agora há pouco tempo um livro que é muito interessante e deveria ser lido, quase de leitura obrigatória em escolas de formação de médicos, profissionais de saúde, chama-se "Compassionomics" e é o valor da compaixão. É um livro incrível e que fala muito desta ciência, que tem evidência científica sobre este valor da compaixão. E eu lembro-me disto, assumo aqui que eu uma vez fui ao hospital com meu pai e estivemos sete horas ali em São José, para ele ser atendido, eu e todos os outros, foram sete horas. E quando chegamos, apanhamos o Miguel, o doutor Miguel Toscano Rico, e pôs-lhe a mão no ombro e falou com ele. E ainda bem que eu lhe posso dizer isto aqui. Não imagina como isso foi resgatador. Não só ele estava doente, estava frágil, já era uma pessoa mais velha, meu pai já morreu, e aquelas sete horas de espera. E depois há um médico que olha nos olhos e que dessa forma compassiva o toca e lhe pergunta e se interessa por ele, e não só pela doença, mas pela pessoa. Foi absolutamente extraordinário. Ainda bem que falou da compaixão, para eu também lhe poder agradecer publicamente isto. Agradeço a si, mas a todos os médicos que têm esta capacidade, porque é difícil. É difícil que um médico, um profissional de saúde, um enfermeiro, não esteja em risco de colapso físico e emocional, em risco de burnout, ou não?
Eu acho que é evidentemente muito difícil. E tirar-nos o toque aos doentes. Bom, a máscara ainda nos permite olhar olhos nos olhos, mas o toque eu acho que, de facto, quebra barreiras. Curiosamente, o toque não é universal.
Sim, há culturas que rejeitam o toque.
Há culturas que rejeitam isso. Quando fiz um curso de geriatria no estrangeiro, em que havia role play para fazer como é que se aborda os idosos. Eu apresentei-me e peguei na mão da minha paciente. E a paciente, supostamente não era paciente, era uma colega que também estava a fazer este curso de formadores de professores de geriatria. Era francesa e entendeu perfeitamente. Mas os restantes alunos, e muitos deles eram nórdicos, tínhamos uns da Finlândia, suecos não havia.
Dinamarqueses.
Dinamarqueses, ficaram escandalizados. "Você não pode fazer isso". Desculpe, não posso? E depois a francesa disse: "Claro que pode".
Depende da cultura.
Depende da cultura. E isto para nós é fundamental e quebra, de facto, barreira.
É muito interessante, porque se a sua área de especialidade também é geriatria e o seu contacto diário, penso eu, é com pessoas mais velhas, este ir ao encontro, esta compaixão é a marca. É como se não fosse negociável a compaixão nos profissionais de saúde. Concorda?
Concordo plenamente. Se nós quisermos que um doente adira à proposta terapêutica que lhe estamos a oferecer, ou seja, não basta ser competente tecnicamente. Temos que fazer um bom diagnóstico, temos que fazer os exames que são necessários fazer, temos que escolher a terapêutica adequada àquela pessoa. Mas temos que a convencer que isso é importante. Temos que a convencer, puxar para o nosso lado, puxar para a compreensão de que há a possibilidade de tratar ou de que algum tipo de intervenção é verdadeiramente eficaz. E isso só se consegue se fizermos compreender o doente que também nos sabemos pôr do lado de lá. E o saber pôr do lado de lá, abre essa porta para a adesão terapêutica.
Engraçado isso, porque uma coisa é a empatia, que é eu perceber que o outro está a sofrer e ficar nessa atitude de empatia. Outra coisa é a ação, é uma ação dinâmica que é a compaixão. A compaixão é sempre uma ação, é fazer qualquer coisa que alivia, que esclarece, que ajuda, que resgata.
E as pessoas reconhecem logo isso. As pessoas reconhecem isso no olhar.
Como é que faz isso hoje em dia com os constrangimentos, com o distanciamento social? Como é que tenta?
Sim. Eu tenho que dar aqui um crédito muito grande aos colegas que estiveram na frente do Covid e que tiveram os isolamentos e que andavam atrás daqueles EPIs e, de facto, daquela parafernália toda.
Vestidos como astronautas.
Vestidos como astronautas, que as pessoas não conseguiam ver bem os olhares. Eu tenho que lhes dar imenso crédito e reconhecer imenso o trabalho que conseguiram fazer com isso, porque, de facto, eles perceberam e percebem que o toque é fundamental. A pessoa perceber que se sabe pôr do lado da doença, do lado da fragilidade, e isso é talvez as coisas que Por um lado, pode ser mais difícil para os doentes perceberem a sua vulnerabilidade e a sua fragilidade, mas por outro lado, também é redentor se perceberem que os profissionais de saúde, e não são só médicos, são os médicos, são os enfermeiros, são os fisioterapeutas, são os nutricionistas. Enfim.
Todos os cuidadores.
Os auxiliadores.
Os assistentes operacionais são pessoas.
Se as pessoas perceberem que do outro lado têm alguém que sabe e que também, provavelmente, muitos deles também já terão passado por situações de vulnerabilidade e de dependência. Sabemos que apesar da doença e com a dependência que isso nos possa causar, que do outro lado há pessoas que também são capazes de perceber isso.
E não reduzem a pessoa à sua doença.
Precisamente.
Não é? Isso é fundamental.
Deixe-me fazer um aparte. Para dizer que as pessoas não se sentem reduzidas à sua doença, é fundamental que o olhar esteja ao nível dos olhos. E isso passa por sabermos pôr o nosso olhar ao mesmo nível.
Ou seja, se a pessoa está deitada.
Reduzir, diminuir a altura, perceber que estou próximo. Sentar-me ao lado. E eu acho que isso põe em pé de igualdade as relações e a proximidade e a empatia. E isto é redentor também para o doente e também acaba por ser gratificante para nós.
Cada um tem terapêutico. Isso cada um é um princípio terapêutico, não é?
Sem dúvida.
Miguel, estamos aqui quase no fim da conversa, mas a pessoa vai investigando e sabendo e falando com este e com aquele para saber quem é a pessoa que vai entrevistar. E uma história que impressiona muito as pessoas que conhecem a sua família, portanto, o Miguel, a Sofia e os filhos, e a vossa família mais alargada, é que há uma avó, não sei se ainda está viva, mas há uma avó que toda a família apostou em não a fazer sair de casa e fazer um roulement de ir dormir a casa desta avó. Ou seja, entre filhos, sobrinhos, netos, genros, noras, cunhados, cunhadas, arranjaram maneira de alguém ir sempre cada dia dormir a casa da avó para que a avó ou não fosse internada no lar ou não tivesse que sair da sua própria casa. Penso que hoje em dia isso será mais difícil por causa da Covid, mas isto é uma marca da família e é isto que são os valores essenciais que o Miguel e a Sofia gostam de passar para os vossos filhos.
Deixe-me dizer uma coisa: nós só passamos aquilo que também nos dá gratificação. Nós, honestamente, só conseguimos passar aquilo que também sabemos ou que experimentamos na nossa vida como sendo um valor. E acho que o facto de termos estado com a avó da Sofia enriqueceu-nos imenso. E isso é também uma experiência daquilo que vivemos. Nós não fazemos as coisas boas porque sabemos que nos dão um retorno bom, mas sabemos que, em última análise, isso acaba por acontecer. E experimentamos isso na nossa vida. E, de facto, nós todos lá em casa gostamos imenso de conviver com pessoas de idade. E foi de facto um privilégio enorme termos acompanhado.
Já não está viva a avó da Sofia.
Já faleceu. A avó Rosário faleceu.
A avó Rosário. E os seus filhos têm memórias, os pequenos todos têm memórias.
É muito engraçado que todos eles têm memórias e a mais pequenina, que na altura não tinha três anos ou quatro anos, ou tinha começado a andar, agarrava na mão da avó Rosário e via-lhe ali as rugas da mão e ela mínima, mal conseguia andar, dava o braço para a avó Rosário andar sem se cair. E portanto, era uma segunda bengala. Era uma bengala que ela se lembra. Curiosamente, ela se lembra das poucas memórias que tem de infância e isto acaba por passar.
É uma marca para a vida.
É uma marca para a vida.
Muito bem. Doutor Miguel Toscano Rico, muito obrigada por tantos exemplos, tanto testemunho. Muito obrigada também por terem sido, estar na génese desta inspiro.pt. Vale a pena as pessoas saberem que existe, saberem que podem aceder, que é gratuito, é online, é para reabilitar funcionalmente as pessoas que tiveram Covid. E obrigada pelo seu testemunho.
Obrigado.
Muitas felicidades. Obrigada.
Obrigada.