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Bem-vindo ao Imperdíveis, hoje com Maria Monte, cantora de smooth jazz, que já começou por ser gypsy e vamos perceber este estilo. Acaba de lançar um álbum com o título "Laços". Tem uma longa carreira, é formada em Línguas e Literaturas Modernas, Inglês e Alemão. Viveu em África, aliás, cresceu, foi educada em África, depois viveu em Madrid, em Macau. É professora, produtora de cinema, produtora cultural, faz intercâmbio de artistas e conheceu um músico, João Caetano, que nunca a deixou esquecer-se da sua paixão por cantar e por isso, ao fim de tudo isto, aceitou este desafio de lançar um álbum. Bem-vinda, Maria. Muito obrigada.

Obrigada.

Parabéns também.

Obrigada.

Maria, podemos ir à África e começar aí nesse princípio?

Muito bem.

Não nasceu lá, não nasceu em Moçambique.

Não, eu fui educada e vivi bastante tempo. A minha juventude foi passada em África e de facto acaba por ser um marco muito grande na formação de uma jovem. E depois findos os 25 anos, eu acredito, que os meus pais passaram nesse lado do mundo, acabámos por regressar a Portugal. Portugal que nós de vez em quando regressávamos ou vínhamos para passar o Natal, sempre na esperança de ver neve. Como nós vínhamos para Lisboa e ficávamos completamente desencantados.

Frustrados.

Exato, porque não havia neve. Nós passávamos em África o Natal cheio de calor. Um Natal tórrido. E aí essa vivência africana moldou a minha personalidade.

Até aos quantos anos é que viveu lá?

Até aos 16. Agora a Laurinda depois não me vai fazer a pergunta.

Não. De quantos anos tem? Já percebi que não gosta, o que seria um valor acrescentado incalculável, para nós todos percebermos que qualquer idade é boa para nós começarmos carreiras.

Sabe que eu responder-lhe-ia a essa pergunta em África. Continuaria a responder-lhe a essa pergunta na Ásia. Na Europa, esquivo-me. Em Portugal, zero. Nem pensar.

A sério?

Porque a idade aqui, da forma como ela é percebida, é um estigma.

Acha?

Acho completamente. Acho que catalogam as pessoas nas suas fases de desenvolvimento.

Engraçado isso que diz, porque eu estou quase a chegar aos 60, faço 60 agora em dezembro e adoro essa ideia. Gosto imenso e não sinto isso. E não sei se isto não está mais dentro de nós, dentro de cada um de nós. Não sei se não é um autoestigma.

Da forma como diz, de facto, isso é uma virtude que eu ainda não atenho. Nesse ponto, sou muito imatura.

Mas eu não te vou perguntar a idade, bastava só perguntar a idade que tinha nessa altura. E portanto, quando chega a Portugal, uma pessoa no auge da juventude, aos 16 anos, já nem é adolescência, já é um late teen. Deve ter sido um choque e um contraste. Vamos falar de contrastes.

Sim, um contraste, porque viver em África, para quem o tivesse feito e quem ainda o faz, tem esta ideia de que o mundo não termina nunca.

Sim, é um horizonte infinito.

Infinito. E de maneira que a escala dá-nos uma possibilidade de ir muito mais longe, ou seja, sem o querermos ser. Estamos a ser quase que intrinsecamente o mundo, o africano prepara-nos para isso, para uma certa resiliência e sobretudo, para uma vontade inadiável de fazer coisas e vencer. Vencer os obstáculos e não achar que iremos encontrar problemas, mas que tudo se trata exclusivamente são desafios.

Desafios e oportunidades.

E oportunidades. E é assim que a África nos molda a cabeça. De forma que a primeira reação que tenho depois de chegar aqui e de começarmos a viver aqui, há uma única que é: Portugal é só isto?

Ou seja, numa escala.

Numa escala muito pequena. Mas depois logo essa-

E se calhar as pessoas também bastante frias e um bocadinho nada distantes e se calhar um bocadinho sombrias naquela altura.

Sim, mas eu depois atravessei aqui a época dos 80, que quem me dera podermos retomar essa época, sobretudo muito centrada aqui em Lisboa. É que houve, e eu não cesso de o dizer, pareço quase um papagaio, que nos finais de anos 80, houve aqui um movimento centrado muito em Lisboa, também no Porto, que sucede a pós-movida madrilenha e que, na verdade, ele é transversal a todos os setores artísticos da vida portuguesa E temos, pela primeira vez, uma espécie de um colete de forças que centraliza todo o gesto e a palavra artística da forma mais evidente, mais visceral, que o artista pode vir a produzir. Essa palavra e esse gesto. E de repente somos confrontados, temos os bairros, com os seus lugares de encontro, onde se cruzam uma série de artistas e também pessoas de todas as áreas, muito até particularmente os jornalistas. Temos habitats que a própria cidade se responsabiliza quase na sua criação e Lisboa floresce, recrudesce.

Explodiu. Explode no bom sentido. Artisticamente.

Artisticamente. Foi uma coisa genial.

Para si deve ter sido espetacular.

Para mim isto foi espetacular, porque na verdade, quem tem esta noção de escala, que de repente se perde em Portugal, mas depois vai buscar uma outra escala a uma dimensão que é tão gigantesca.

Que não tem outra vez fim.

Exatamente. E foi muito interessante essa anos 80.

E foi aí que começou também a cantar? Quando é que começou a cantar?

Sim, é justamente aí. Eu já cantava. Cantava nos bares, ia muito aos bares africanos.

Devia fazer um sucesso incrível, porque com o seu tom de pele, a cor dos seus olhos, com esse sorriso rasgado, devia ser uma diva.

Eu às vezes, quando vinha da praia e ia muito a Cabo Verde, havia a ideia de que eu era mulata, porque ficava muito queimada. Depois tinha uns cabelos que eu lembro-me que havia a Gabriela Kravitz Canella.

A Sónia Braga?

A Sónia Braga.

Mas agora que fala eu também diria que sim, que eu acho que ainda continua parecida com a Sónia Braga.

Mas que é justamente nessa época, porque depois eu conheço pessoas que estão ligadas às editoras. E a Polygram, agora se não estou em erro, deve ser a Universal, faz-me um convite e eu faço uma gravação onde pela primeira vez, eu diria que foi a minha primeira produção, mas eu diria que era uma produção talhada para a lusofonia, porque na verdade, quem estava no centro dessas músicas era o Tito Paris.

O grande Tito Paris.

O grande Tito Paris, que eu tenho um enorme orgulho de poder dizer que o primeiro trabalho que ele faz gravado é de facto aquele onde eu estou como música e cantora.

Como música e cantora, não a produtora.

Sim, porque eu produzia também. Não que tocasse, a voz é o meu instrumento. Mas tenho ideias de músicas. Sempre retirada da viola, depois há sempre alguém que me ajuda a compor as músicas. Mas estava o Tito, Cabo Verde, o Dalú, Angola, havia o Fernando António, que era um dos mentores do projeto, um ex Da Vinci, que tinha vindo do Zaire, e eu no caso de Moçambique. Este foi o convite da Polygram e imediatamente, na mesma altura, quase, a Valentine de Carvalho faz-me também um outro convite, onde eu apareço então como Spanky, que era a palavra de guerra ou o nome artístico na altura, e faço alguns registos, mas já género pop. E eles mereceram depois a atenção de uma revista norte-americana e sobretudo nos charts desta revista, que se chamava Billboard. E de facto, foram experiências positivas.

Mas isso nunca a levou a profissionalizar a sua música na altura?

Não, porque eu exatamente à procura dessa mesma escala, à procura dos universos que eu tinha de encontrar, que não se podiam centrar aqui somente em Portugal.

Foi-se embora. Exatamente. E foi primeiro para Madrid?

Para Madrid, exatamente.

E portanto, foi também para um centro. Um centro cultural e artístico.

Fui também para o centro, exato. Ainda apanhei também muito da gesta, in between inverted commas, artística já vinda da pós-movida madrilenha. E cruzei-me com muitos artistas espanhóis e levei muitos músicos portugueses a Madrid, onde eu estava. E sobretudo, fui um bocado a ponte entre os músicos portugueses e os meios de comunicação espanhóis. E levei muito trabalho, muitas bandas.

É ser agente, é fazer esta ponte. Mas era porque estava sempre rodeada de músicos e bons músicos que sentia que não conseguia dar o passo? Porque acontece isso a muitos, não é?

Sim, talvez, mas havia um pormenor também na minha personalidade que se calhar foi um bocado responsável por esta instabilidade. Eu na verdade sou uma pessoa muito versátil, que pode ser um atributo, mas à caso que é um desastre.

Ou pode ser uma dificuldade. Pode ser um embaraço da escolha?

Exato.

De que é que eu prescindo, por onde é que eu vou.

Completamente.

Isso é um problema gravíssimo até para estas novas gerações, é quando são multitalentosos. Quando a pessoa sabe que quer ser astronauta, é astronauta, médico, é médico Quando uma pessoa tem jeito para tudo, pode ser muito difícil.

É verdade. E de maneira que estava sempre a ser aliciada para outros trabalhos e outras áreas e acabei por não me dedicar totalmente à música.

E de Madrid para Macau, como é que foi?

Depois de Madrid ainda acabei por viver um pouco mais tempo em Portugal, mas depois tive um convite porque eu estava sempre ligada a novas ideias e a novas produções, sobretudo que respeitassem a cidade de Lisboa. E na altura estava também a fazer uma coautoria de um livro, uma compêndio sobre a cidade. Havia uma feira que é a BTL, a feira de turismo, e eu tinha já alguns amigos que estavam a viver em Macau. E então aproveitei uma feira destas e fui falar com um dos responsáveis do turismo em Macau, que depois de eu, que era sempre muito acelerada, depois de várias acelerações, ele disse-me assim: "Não, com alguma calma, eu faço-lhe uma pergunta, quer vir trabalhar para Macau?" E eu aí disse: "Já".

Foi um parar, mas não foi para pensar muito.

Sim. E então acabei por ir trabalhar no turismo de Macau.

Quantos anos lá esteve?

Estive a trabalhar lá e a viver sete anos. Mas depois é para lá onde eu vou, a partir daí, passei a ir três, quatro vezes por ano a Macau, justamente por causa das minhas atividades ligadas à cultura.

E este universo, a Ásia, que é também outro universo e outro horizonte sem fim.

Eu diria o seguinte: tenho uma ideia dos três continentes onde já vivi e sobretudo há uma que me fascina, que é a noção de tempo. Estando em África, eu diria que o tempo é a um dia. Vamos retratá-lo num dia. Um dia que demora imenso a passar e que uma pessoa usufrui todos os momentos desse mesmo tempo, desse mesmo dia. Estamos muito centrados no presente e a vida é presente. Entramos na Europa e esse dia, sem querermos, justamente pela fluidez das coisas a passarem pelo ritmo.

Pela vertigem.

Pela vertigem e às vezes até por um bocado mais de estresse, mas enfim, isso é uma envolvência que também entra nesta ideia. Este dia, este tempo, transforma-se em dois. Transforma-se em dois e na verdade demora a passar de uma forma mais rápida. E então centramo-nos no presente, mas muito escudado do que trazemos do passado. Vivemos o presente escudados no passado. Entramos na Ásia, a vertigem é total, a loucura é total também. E este tempo africano representado num dia, converte-se em quatro dias na Ásia. Portanto, imagine a vertigem que não é e a rapidez e a loucura. Então é o presente, o estarmos no presente, mas vocacionados única e exclusivamente para o futuro.

É impressionante isso.

E Ásia é futuro.

Ásia é futuro.

Europa é passado, África é presente.

Engraçado isso, mas acha que isso tem a ver também com a maneira como estamos ligados. Estas conexões, a tecnologia, tudo isto. Em África, que também não está desprovida disto, mas de facto as pessoas estão mais no encontro.

É verdade.

Um com o outro, pessoa a pessoa, embora agora a pandemia tenha alterado tudo. Aqui na Europa é um mix, mas na Ásia é uma loucura. Ou seja, as pessoas na Ásia andavam de máscara muito antes de qualquer possibilidade de pandemia, pela poluição, por tudo isso.

Absolutamente.

E portanto, essa vertigem e esse olhar para o futuro já vem de muito atrás.

Sim, é verdade. E assim como vem de há muito tempo atrás, o nosso commitment.

O nosso compromisso.

O nosso compromisso, mas para ao passado, o que nos torna menos elásticos. Nós temos um travão e o nosso travão chama-se passado. Nós não podemos evoluir dessa forma espantosa como os asiáticos evoluem. Porque não têm esse travão.

E por que acha que não têm?

Não têm porque, de facto, o modus vivendis centra-se, aliás, eles são hábeis no negócio. E negociar não é deixar passar a oportunidade, é ir ao encontro da oportunidade e fazer mais no futuro que vem à frente. É dar sempre um passo à frente do outro e portanto são culturas, são formas de ver e de estar no mundo, por isso eles estão muito mais à frente do que nós. São pessoas muito mais expeditas do que nós.

E isso é uma coisa que a fascina?

Fascina-me. Eu adoro a Ásia.

Como é que situa a Inês? Qual é o seu tempo interior?

O meu tempo interior eu diria que tempo europeu não tenho muito. Tenho muito de tempo africano, mediado com explosões. O meu vulcão é a Ásia.

Podemos ouvir um pouquinho da sua música. Qual das músicas deste disco é que está?

Eu diria "Primavera", porque A primavera é uma canção de esperança em tempo de pandemia.

Não vamos ouvi-la toda, mas vamos ouvir estes dois minutos que temos antes de fazer uma pausa. Saímos da primeira parte da conversa com Primavera, da Maria Monte, cantora de smooth jazz, que acaba de lançar este novo álbum com o título Laços. E agora, porque estávamos a falar da Ásia, de Macau, ia lhe pedir se podemos começar, antes da conversa, se podemos ouvir Macau. Pode ser?

Com certeza.

Maria, esta música tinha que ser sua.

Sim.

Veio mesmo de dentro.

É uma relação apaixonada à cidade de Macau e sobretudo um tributo. Não quero ser, como é que eu posso pôr isto? Um tributo generoso à cidade ou à região, ao território que nos acolheu ou que nos acolhe há mais de 400 anos. E na verdade, soube nos acolher. Nunca nos tratou mal.

E mesmo depois da transição, mesmo tudo isto, sente-se em casa lá.

Completamente. De facto, há uma paixão. Eu acredito que não haja ninguém que por lá passe ou que viva lá, que tenha essa vontade de regressar. De tal forma que há quem diga: "Eu vou por um ano", e depois passam 30 anos e ainda lá está. É verdade.

Mas é extraordinário, porque também há muitas pessoas que Só visitam Macau, portanto não vivem, não a conhecem por dentro e de visitar têm uma certa desilusão. Pensam: "É só isto?".

Sim, Macau é pequeno, é um território pequeno. Só que traz vantagens para quem lá trabalha, não para quem visita. E mesmo assim, se fizerem um ponto de comparação com Hong Kong, acabam por achar que estão mais em casa em Macau, porque é mais humanizada. Agora, com o fato de terem feito casinos, terem implantado uma espécie de Las Vegas em Macau, talvez lhe tivesse descaracterizado e tivesse retirado esse tal coração que a cidade tinha. Mas quando se retoma Macau, tem-se a sensação de que se volta a casa. Ainda temos essa sensação. É um lugar que nos soube, de facto, onde nós nos sentimos bem. E depois há muita qualidade de vida.

Maria, eu conheço a sua mãe, a sua mãe é poeta, conheço-a há alguns anos. Não a conhecia assim, mas conheço a sua mãe, o que ela escreve e a sua voz ressoa como a voz da sua mãe. É impressionante.

Sim, é verdade.

Isso acontece-me quando a oiço cantar, neste disco então é notório, tenho essa noção.

Eu tenho a noção de que as vozes são quase iguais. E isto por causa de um telefonema que um dia fizeram à minha mãe, quem atendeu fui eu e continuaram a falar como se tratasse da minha mãe e eu, obviamente, também não descaí. Aguentei-me nessa conversa. E se eu quisesse desenvolver um bocado mais os aspetos que me ligam à minha mãe, talvez o facto de ela ter nos ensinado a sonhar.

É uma sonhadora, a sua mãe. A sua mãe chama-se Isabel Monteiro e é poeta, é uma mulher de letras, é uma mulher das artes. É poeta, com tudo que isso diz sobre alguém. E é uma pessoa que toda a gente diz que vive uns centímetros acima do chão, sempre a sonhar para aquilo que será bom e para aquilo que se calhar será menos bom no sentido prático do termo.

Mas é extraordinário, e eu sou um bocadinho parecida com a minha mãe, dá-nos essa tenacidade. O mundo não tem fronteiras quando se sonha com os pés um bocado acima do chão. Temos essa capacidade de ir mais longe. Não há, de facto, fronteiras. E por acaso, um dos aspetos das sociedades ao tempo de hoje, sobretudo com esta pandemia, e eu sei, porque agora encontro-me a dar umas aulas e uma das coisas que eu descobri e fiquei impressionada, foi a aridez. Os miúdos não sonham. E mesmo provocando o ato literário para o sonho, onde estamos à espera que de facto venham inúmeras ideias e venha a criatividade, não existe isso.

Por que acha que isso aconteceu? Mas é uma coisa de antes da pandemia.

Porque não são treinados para isso.

Mas acha que estão muito treinados na tecnologia?

Eu acho que é a vertente tecnológica das escolas. Não conseguiram fazer o balanço entre aquilo que são as tecnologias e depois toda a parte criativa.

Que é verdadeiramente humana.

Que é verdadeiramente humana, que por mais que as sociedades evoluam, e que se diga "the sky is the limit", mesmo assim, eu acho que tem que se reservar sempre um espaço para o artesanal, entre aspas, que é aquilo que nós temos de mais humano.

Mas se nós pensarmos, acontece um movimento em relação a ler, por exemplo, à leitura. Não há nenhuma criança que não goste de ouvir histórias ou até de ler, de livros. É um presente que as crianças todas adoram e depois vão chegando à escola e vão abandonando esse prazer, esse gosto e deixam de ler. E há muitas pessoas que deixam de ler.

A criatividade esgota-se mais, esgota-se com a idade. Ou seja, ela é fértil, é muito rica, é muito cheia. Mantém um, dois anos e depois ela vai se perdendo. E isso é normal.

A Maria dá aulas a que idades?

16, 17.

A sua área de formação são línguas e literaturas modernas, inglês e alemão, e dá aulas nesta área.

Eu dou aulas nesta área e também português, dizendo que português não estou a dar. Mas estou a dar inglês. Mas as línguas, não deve haver o obstáculo para o sonho, se colocássemos assim. Mas para voltar um bocado atrás, fiquei muito impressionada. E de facto, as pessoas têm que continuar a ser treinadas a sonhar, nessa disciplina humana.

Essa disciplina humana. É um cadeirão isso.

Exatamente, é um cadeirão. Mas é justamente por isso, acho que África e a minha mãe, por um lado, por ter sempre acompanhado esta vertente. África, por outro, que já foi há muito tempo, mas continuamos com África dentro de nós. E que nos dá esta-

Essa explosão de sonhos.

Exatamente, é verdade. E isso é o que me faz também, a par da minha parte mais versátil, que é terrível, mas é assim, fez-me ir para frente, porque eu tenho que dizer o seguinte: eu cada vez que via o Tito Paris, em pequenos eventos, ele parava de cantar ou parava de falar, cantar não, que já estou a ir um bocadinho longe, mas parava de falar. Se ele estivesse a falar, dizia assim: "Ei, Paula". Portanto, lembrava sempre de mim, malfor, há uns anos que nos separava.

É bom lembrar, porque como o seu nome é Maria Monte, que é o seu nome artístico, mas o seu nome completo é Maria Paula.

Maria Paula, exato.

Por isso, há muitas pessoas que a conhecem como Paula.

Sim, verdade. E depois dizia-me mais tarde, ainda nesses eventos, dizia-me a sós, quando eu estava com ele: "Paula, nunca deixes de cantar".

E isto ficou a fazer eco em si, ou seja, este tempo todo até ter esta coragem.

É verdade, mas eu sempre fui uma pessoa que Eu sempre cantei, mas em bares. Cantei no Hot Club de Macau, cantei no Hot Club aqui em Lisboa. Cantei nas ruas, eu adorava cantar nas ruas, por exemplo, ia para o Japão, estava em Osaka, vamos pensar, que isso aconteceu, e adorava pôr-me nos passeios a cantar, desde que houvesse uma viola, havia sempre. E portanto, houve sempre um percurso que quiséssemos olhar para ele ou não.

É uma demanda interior.

Exatamente.

Não é só uma paixão, é uma demanda interior.

Exato. Até que chegou a uma altura, gravei em Macau, ainda fiz gravações.

Mas este João Caetano, que é um grande músico, fez virar uma página. Aliás, mudar de livro, se calhar.

Completamente. Ele é um músico nato, nasceu em Macau, ganhou uma bolsa de estudo porque ao mesmo tempo também estava, a par dos estudos, no conservatório. Foi para Londres e aí formou-se numa universidade de música, mais talhada para a parte artística. E depois teve os scouts. Como existem as empresas.

Os olheiros.

Exatamente. Os olheiros. E foi convidado para um grande grupo de jazz, um grupo mítico de jazz que são os Incognito. E o que ele tem que é extraordinário? Ele não só é músico, ele por acaso é percussionista, ele tocava violino, mas para este efeito preferiu a percussão, neste grupo de jazz. É produtor e neste trabalho, de facto, ele faz-

No seu álbum, no "Laços".

Exato. Ele dá um pontapé na primeira produção a solo dele, porque ele tem coproduzido álbuns do Incognito, mas este foi de facto somente produzido por ele e ao mesmo tempo também canta. Ele é um excelente cantor. E para este trabalho, uma vez que estamos a passar agora pelo João, estávamos em tempo de pandemia e eu beneficiei com isso, porque na verdade tive-

Teve tempo.

Tive tempo. E eles também, os músicos, porque estes músicos que tocam aqui são músicos de craveira internacional. Eles para lá vivem todos e são estrangeiros, muitos ingleses.

E vivem da música, literalmente.

E vivem da música, exato. São músicos de jazz e tiveram essa possibilidade de trabalharem neste disco. E que para mim foi fantástico.

É extraordinário, até porque o seu tem discos em vinil.

Exato.

A Maria gravou aí nesse seu percurso.

É verdade.

Gostava de ouvir outra música desta do "Laços". Qual é que acha que podemos ouvir? A gaivota? Esta estufada gaivota?

Sim.

E deixamos depois uma outra ainda para o fim?

Eu diria então ouvirmos agora a concha, que eu faço o poema com a minha mãe. A minha mãe dá uma parte do poema a esta música e finalizaríamos com a gaivota, que é esse tal tributo à cidade de Lisboa.

Então vamos ouvir um bocadinho da concha.

Bebo um demorado gypsy jazz nos aromas dispersos do teu gin. Deixo o leve azul do nosso adeus, um sorriso que levas de mim. Se eu pudesse ter o que eu procuro, um pulsar de corda do teu amor tão puro. Trago nas mãos o vazio da vida como uma concha que se abre e vaza. Mas nesta forma de estar e agora aguarda o silêncio do nada. No silêncio do nada. Sai livre do tempo entre os dedos, as minhas ilusões, os teus segredos. Nos acordes dissonantes de um piano, fica a concha com a frase: eu te amo.

Interessante este quatro mãos na escrita desta música com a sua mãe.

É verdade.

Isso era um sonho antigo que tinha?

Eu diria que mais cedo ou mais tarde nos cruzaríamos neste grande caminho da escrita. Porque sempre bebemos desta fonte inspiradora que de facto a minha mãe se revelou ser ao longo da nossa formação. E esteve aqui essa marca.

E essa cumplicidade. Quem conhece a sua família diz que a sua mãe e o seu pai eram muito apaixonados a vida toda e que isso foi uma marca muito grande na família e nos filhos e certamente em si. Ou seja, esse amor muito vivido durante a vida e até o fim, com tudo o que isso tem de fácil e difícil. Isso é uma marca na sua vida?

Sim, é uma marca estrutural. Acho que a parte estrutural da educação também vem por um certo equilíbrio.

E esse companheirismo.

Exatamente, de um casal e no caso, os meus pais, que sempre souberam estar apaixonados desde sempre. Acho que sim, essa é a parte estrutural, é o esqueleto da minha vida. Sim, isso deixa marca.

Às vezes é difícil uma pessoa igualar, não é? Quando se tem isso. Às vezes é difícil. Infelizmente, o tempo vai escoando e gostava de voltar a ouvir a sua voz e por isso, se calhar, vamos fechar com este fado. Quer dizer alguma coisa sobre a Gaivota?

A Gaivota é o fado eterno da Amália. O João sempre quis pegar neste fado e dar-lhe uma roupagem diferente. De maneira que toca a Gaivota, faz da Gaivota um tango, um jazz com um tango. E eu sempre gostei, de facto, do fado e de maneira que foi um casamento perfeito.

Muito bem, muito obrigada. Muitas felicidades, Maria.

Obrigada.

E que nunca lhe faltem nem a capacidade de sonhar, nem as forças para cantar.

Obrigada. Se uma gaivota viesse trazer o céu de Lisboa. No desenho que fizesse. Nesse céu onde o olhar. É uma asa que não voa. Esmorece e cai no mar. Que perfeito coração. No meu peito bateria. Meu amor na tua mão. Nessa mão onde cabia. Perfeito o meu coração. Se um português marinheiro. Dos sete-mares andorilho. Fosse quem sabe o primeiro. A contar-me o que inventasse. Se um olhar de novo brilho. No meu olhar se lançasse. Que perfeito coração. No meu peito bateria. Meu amor na tua mão. Nessa mão onde cabia. Perfeito o meu coração. Que perfeito coração. Morreria no meu peito. Meu amor na tua mão. Nessa mão onde perfeito. Bateu o meu coração. Bateu o meu coração. Bateu o meu coração. Bateu o meu coração.