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Bem-vindos ao "Impredíveis", hoje com uma ativadora de talento, uma ativista, uma empreendedora social, uma pessoa inquieta no mundo que acredita que menos é mais. Vou enunciar aqui um resumo muito resumido da biografia, porque é extraordinária, sobretudo muito eloquente da versatilidade e do dinamismo. A Inês Alexandre é uma Talent Activator Manager da Girl Move Academy, foi CEO do movimento Transformers, já vamos perceber o que é. Também foi ex-gestora do projeto da Conferência Europeia da Juventude na presidência europeia da União Europeia, ex-manager e speaker do P80, que é um projeto do governo português, formadora no Instituto de Empreendedorismo Social. É uma das 100 jovens portuguesas mais influentes no projeto 100 Oportunidades dos Global Shapers. A Inês Alexandre é licenciada em Psicologia do Desporto e mestre em Desporto Adaptado. Bem-vinda, Inês, muito obrigada por ter aceito o convite. E é extraordinário, porque é tão nova e faz tanta coisa. Nem sei por onde começar.
Muito obrigada eu pelo convite.
Obrigada. Se calhar vou começar por perguntar o que é uma Talent Activation Manager.
Ser Talent Activator Manager significa que eu tenho o privilégio de ativar o talento da Girl Move. A Girl Move Academy é uma academia de liderança no feminino, que trabalha essencialmente em Moçambique, com jovens e mulheres moçambicanas, e empoderamos um sistema de liderança em Moçambique. A minha função é muito pensar como é que o talento destas jovens e destas mulheres pode ser elevado ao exponencial máximo e, neste caso, estou a entregar muitos projetos digitalmente. Portanto, como é que nós podemos elevar este talento a nível digital e continuar a escalar a missão da Girl Move Academy.
Inês, eu se calhar vou atropelá-la às vezes, porque nós voltámos este modo de gravação, que é cada uma no seu espaço e não nos vemos, e eu nunca a vi pessoalmente. Sigo o seu percurso, mas nós não nos conhecemos pessoalmente. Mas queria só também enquadrar a Girl Move para quem não conhece. É um projeto que funciona em Nampula, num país onde apenas 1% das raparigas chegam à universidade e desse 1%, nem todas chegam ao fim do curso. Queria só se calhar também enquadrar um pouquinho como é que chegou à Girl Move, porque se trabalha de cá para lá. Normalmente, antes da pandemia, estas raparigas vinham todas aqui. Gostava só aqui de desmultiplicar um pouquinho esta informação, porque nem todas as pessoas conhecem a Girl Move.
Claro. A Girl Move Academy tem uma academia física em Nampula e temos escritórios em Maputo e em Lisboa. Atualmente, estamos todas a trabalhar à distância, sendo que reduzimos as visitas da equipe de Portugal ao terreno em Nampula, mas nós temos uma equipe residencial em Nampula, de mais ou menos 20 recursos humanos, que faz acontecer todos os dias os nossos três programas com estas jovens. É o programa Lead, Believe e Change, e temos atualmente 30 miúdas a viver na academia para trabalharmos este sistema de liderança com estas 30 miúdas.
Sobretudo, porque é uma liderança pelo serviço. É uma liderança que é pelo serviço à comunidade, não só uma liderança pela liderança em si mesma.
É uma liderança pelo serviço à comunidade, pela entrega à comunidade e muito, e cada vez mais, pela inovação social, pelo que é o empreendedorismo social e de que forma é que nós podemos gerar mudança no mundo, tendo a nossa forma de rendimento enquanto estamos a fazer esta mudança de uma forma muito positiva. Portanto, nós também, enquanto Girl Move, estamos neste processo de transitar tudo para o impacto social em todos os projetos. Portanto, todas as nossas girls e todas as pessoas que passam pela Girl Move têm com esta missão transformar as suas carreiras em carreiras de impacto.
E mudar a sociedade e criar uma mudança sistémica. Eu digo isto porque eu conheço, eu já fiz voluntariado lá também, portanto conheço, mas gostava de perceber o que fez antes de chegar lá. Ou seja, quando foi CEO, e agora estamos na terminologia mais business e mais inglesa, mas quando foi CEO do projeto Transformers, e este projeto faz isto em Portugal, aliás, às vezes temos muito esta crítica pronta a servir, que é: "Está bem, está a trabalhar para Moçambique, é louvável, é extraordinário, mas e cá?" Mas a verdade é que a Inês já fez cá muitas coisas e gostava de voltar então aqui ao território nacional.
Sim. Eu entrei para os Transformers no final de 2015, início de 2016, quando nós estávamos num processo de criação do nosso próprio modelo de negócio, que eram as escolas de superpoderes. E entre 2016 e 2021, fiz toda a minha carreira e todo o percurso de empreendedora social dentro do movimento Transformers, que é uma escola inacreditável, que tem um impacto na sociedade, em Portugal, mesmo muito grande. E eu estava 100% na minha área de conforto, se calhar 200% na minha área de conforto. A equipe do movimento Transformers é extraordinária. Nós somos rodeados por Um poço de talento gigante por pessoas muito inspiradoras, e eu sentia já há algum tempo que eu tinha que desafiar esta minha zona de conforto. Não sabia bem para onde, nem como. Até que surge esta oportunidade na Girl Move, de construir o que eu acredito que é um sisterhood circle a nível destas metodologias de impacto noutro país.
O sisterhood é esta familiaridade que se cria entre os laços entre irmãs, não é?
Exatamente.
Estou só a tentar que não estejamos sempre na terminologia em inglês. E também queria, antes de a deixar avançar, só ajudar a perceber o que são os Transformers, porque é um projeto absolutamente extraordinário, português, de raiz portuguesa, criado, cofundado pelo João Britos, que também já foi entrevistado, que é um grande imperdível. E se pudermos então só explicar o que é os Transformers e depois já voltamos ao seu percurso.
Claro que sim. Os Transformers foram a minha catapulta para tudo o que aconteceu na minha vida a todos os níveis. O Movimento Transformers é um movimento nacional de participação cívica e social, portanto, trabalhamos em três grandes eixos: educação, voluntariado e associativismo juvenil e estudantil. E através destes três grandes eixos, o nosso objetivo é aumentar o número de pessoas que se envolvem na nossa sociedade através do que essas pessoas mais gostam de fazer. Portanto, nós estamos em mais de 22 cidades do nosso país com estes modelos de franchising social, onde basicamente nós implementamos as nossas metodologias em municípios, em empresas, em juntas de freguesia, em lares de acolhimento.
E o que acontece é, imagino, em cada comunidade, se uma pessoa gosta de fazer breakdance, é pelo breakdance que se torna um ativista e tem a sua participação cívica, se gosta de música, se gosta de desporto, se gosta de parkour, se gosta de cozinhar. Portanto, no fundo, vocês vão aos talentos e àquilo que são as competências, os talentos, os dons inatos de cada um, mais as competências adquiridas, e põem ao serviço da comunidade. E esse é um movimento, no fundo, é isto que o Transformers faz no país inteiro com jovens.
Exatamente. Todos os nossos mentores voluntários se candidatam com talento, que pode ser desde a gastronomia molecular até o surf. E depois nós fazemos o match na área geográfica entre o talento do mentor ou da mentora e o que os aprendizes querem aprender. Portanto, nós vamos a todas as escolas onde estamos, a todos os lares de acolhimento, a todas as prisões infantojuvenis, e fazemos esta apresentação às crianças e aos jovens de: "Nesta área geográfica existem estes 10 superpoderes, o que vocês gostavam de aprender?" Portanto, existe sempre o compromisso do outro lado do grupo para com a aprendizagem.
Desculpe. Por exemplo, numa prisão infantojuvenil, que tipo de superpoderes é que têm tido mais impacto?
Na prisão infantojuvenil, nós temos uma história muito engraçada. Tivemos o superpoder da costura um ano, porque os miúdos têm que andar com farda e sempre que a farda estava rota ou sempre que precisavam de retocar alguma coisa na farda, não tinham como, então queriam aprender a costurar para poder fazer isso. Como pode imaginar, entrar com todo o material de costura numa prisão, mesmo que seja uma prisão infantojuvenil, exige imensas medidas de segurança. Portanto, nós tínhamos imensos guardas durante a aula com a mentora a garantir que tudo corria bem e tudo correu sempre superbem. Os miúdos são megarrespeitadores. E acabamos por ter estas histórias incríveis dentro de contextos mais vulneráveis, em que as escolhas da atividade são feitas mais por necessidade, mais por sobrevivência do que por diversão. E esta é uma realidade superinteressante.
Uhum! E então, voltando, eu interrompi e íamos explicar alguma coisa que tinha a ver com onde é que isto vos levou, onde é que isto vos tem levado.
Sim, esta metodologia da Escola de Superpoderes no Movimento Transformers é amplamente reconhecida em Portugal e levou-nos a uma reinvenção da metodologia para continuarmos a crescer e, acima de tudo, para escalarmos a nossa missão, para garantirmos que estávamos efetivamente a aumentar a participação cívica e social de uma forma muito efetiva. E é aí que nasce a área do associativismo juvenil e estudantil. Portanto, nós estamos a trabalhar com associações de estudantes do ensino secundário, a garantir que estes miúdos que já querem ser líderes, tenham todas as ferramentas para serem líderes do futuro. E estamos também com um programa na ajuda da formalização de associações juvenis, para termos mais dirigentes associativos que sejam líderes na nossa comunidade. Por outro lado, criamos também, em plena pandemia, uma academia digital de participação cívica e social, onde qualquer pessoa pode ir aprender sobre estes temas. Portanto, o Movimento Transformers está com um crescimento mesmo muito bonito e inspirador, com uma escala muito grande.
E impactante. E eu esqueci-me de dizer, acho eu que não referi, que a Inês neste momento tem 30 anos e quando era CEO do Movimento Transformers, penso eu, fazendo bem as contas, tinha 24 anos, não é?
Sim.
Ou vicinity.
Sim, eu estive na liderança dos Transformers entre 2017 e 2021. Foi sempre uma liderança bastante partilhada com a Joana, e a Joana é a nossa atual CEO e temos a casa muito bem entregue.
O que são histórias concretas que tenham passado por si, só para também tornar isto mais concreto, uma vez que já percebemos o racional, o conceptual dos Transformers, da Girl Move, mas histórias que a tenham marcado, pessoas que sinta que de certa forma foram resgatadas, porque fala muito da formação cívica, do envolvimento cívico, e nós sabemos que há muitas comunidades, especialmente as mais vulneráveis, onde é muito mais fácil uma pessoa cair em tentações ou estar ali na fronteira da criminalidade ou do uso e abuso de drogas e outras coisas que não só tiram todas as capacidades, como é impensável apostar nessas pessoas, nesses jovens como futuros líderes. E aquilo que vocês fazem é isso, é resgatar através dos talentos ou daquilo que cada um mais gosta e transformar estas pessoas que poderiam eventualmente ou perder-se ou desencontrar-se e dar-lhes um papel. E de que histórias é que se lembra? Seja das Girl Movers, seja dos Transformers.
Sim, eu tenho muito mais histórias dos Transformers. A minha chegada à Girl Move é muito recente. Eu tenho duas ou três histórias dos Transformers muito impactantes. Uma é a história do Diogo. O Diogo vivia num lar de acolhimento no qual os Transformers estavam a ter uma atividade de hip-hop no Porto. E o Diogo não ia às nossas aulas, queria ser muito irreverente. Até que um dia veio à primeira aula e fizemos um compromisso de: "Agora tens de estar sempre conosco para garantir que este passa também a ser o teu superpoder." E a mudança de comportamento do Diogo foi extraordinária em dois anos. Aos 18 anos, o Diogo saiu da instituição, resgatou o pai, foi viver com o pai, começou a trabalhar, assumiu todas as responsabilidades de vida adulta com este pai e atualmente é nosso mentor do movimento Transformers. E eu costumo dizer isto sempre: o real impacto dos Transformers são as pessoas que passam de aprendizes a mentores. É aqui que nós conseguimos apalpar todo o amor e todo o conhecimento que nós pomos em tudo o que fazemos. E temos muitas histórias destas.
Muito emocionante e muito comovente, de facto.
Sim. Um dos momentos mais difíceis que eu passei nos Transformers, senão o mais difícil, foi há dois anos, quando uma aprendiz nossa, a Joyce, volta ao seu país de origem. A Joyce é uma imigrante brasileira que estava em Portugal há dois anos e estava numa turma com alto índice de insucesso escolar e nós chegamos à escola e eles escolheram a atividade de surf e durante dois anos trabalhamos todas as semanas com aqueles miúdos e transformamos 100% a vida da Joyce, quer a nível emocional, quer a nível de segurança, quer a nível familiar. Portanto, conseguimos atuar em diferentes eixos. E há dois anos a Joyce voltou para o Brasil com o pai. E este é um sentimento muitas vezes muito difícil de exprimir, porque nós sentimos que perdemos os miúdos e sentimos que agora os miúdos já não estão debaixo da nossa asa. E a parte muito interessante disto é que dois anos depois nós continuamos a falar religiosamente todos os dias e eu sinto claramente que mesmo à distância nós temos um impacto muito grande, quer a nível da responsabilidade, quer a nível do foco, quer a nível do trabalho e de sermos muito responsáveis para conseguirmos estabelecer tudo aquilo com que nos comprometemos. Mas guardo este momento como um momento muito duro e de muita dúvida interna sobre se o que nós estávamos a fazer era uma coisa certa ou não. Porque temos estes miúdos conosco durante muito tempo e depois eles voam. E a parte interessante aqui é quando eles voam, garantir que existe esta segurança para irem.
Exato. Ou seja, eles voam, se calhar voam muito mais alto do que alguma vez poderiam voar sem as vossas ferramentas, sem a vossa mentoria, sem esta família que vocês acabam por ser também para eles. Mas depois também deve ser muito gratificante sentir que eles têm as ferramentas para essa autonomia e para essa liberdade, mas continuam ligados, mesmo distantes. Outra história, porque estas histórias, de facto, ajudam-nos a perceber e depois a ir à sua história e também perceber de onde é que vem esta demanda interior. Mas como disse dois ou três casos, eu fico à espera do terceiro.
Sim. Eu acho que o terceiro caso é o caso de uma das nossas avós. Nós temos três, quatro turmas seniores que começamos há três anos a utilizar a metodologia das Escolas de Superpoderes, em que os mentores partilham o seu talento também com o público sénior, e com o público sénior que vive mais isolado. E o nosso escritório é no meio de um bairro social no Porto, no bairro do Outeiro, em Pareinhos. Então todas as avós seniores que vivem sozinhas no bairro têm aulas dos Transformers duas ou três vezes por semana no nosso escritório. E tem sido uma transformação brutal da comunidade envolvente. Todas as pessoas agora são rede de suporte umas das outras. Todas aquelas pessoas que viviam em casa isoladas, mas no mesmo bairro, agora são amigas e são rede de suporte e são família umas das outras. E tem sido extraordinariamente gratificante ver este crescimento. Durante a pandemia, nós tínhamos Voluntários a fazer voluntariado um para um, uma pessoa com cada avó, a garantir que estava tudo ok todos os dias e que nós conseguíamos colmatar todas as necessidades que eram necessárias. Isto também é um trabalho incansável de equipa. As pessoas aqui trabalham todas com uma missão muito grande e querem todas fazer todos os dias mais. E nós somos uns sortudos por estarmos rodeados dessas pessoas e por conseguirmos.
Quantos voluntários é que mobiliza o Transformers?
Atualmente, nós temos mais de 50 voluntários no ativo a trabalhar em mais de 20 cidades em Portugal.
E é extraordinária essa vossa capacidade de mobilização, não é? Porque o voluntariado que se faz um para um durante a pandemia é, de facto, muito exigente e é uma aposta extraordinária de proximidade e, sobretudo, de proximidade e também de algum risco. Porque foi o tempo em que se calhar foram os Transformers, os Convida e se calhar mais um ou outro grupo que se mobilizou, porque de resto todas as pessoas tiveram que se fechar, isolar e se distanciar. Portanto, vocês também foram à contracorrente neste tempo. De onde é que vem a motivação? Como é que vocês formam os voluntários? Como é que se mobilizam? De onde é que vem isto?
Essa pergunta é mesmo muito interessante. Nós temos algumas pessoas que querem fazer placement de Transformers, que querem vir contratar só os Transformers, e nós costumamos dizer que esse é o nosso segredo e que é o fator T. O primeiro ponto é o nosso recrutamento é muito bem feito. Portanto, as pessoas candidatam-se com talento, mas passam por duas ou três fases de imersão. A última fase é uma formação de dois dias intensivos, em contexto residencial e imersivo. Nós levamos os mentores todos para um lar de acolhimento, por exemplo, e durante dois dias estamos dentro desse lar a construir a metodologia desse ano. Depois, nós dizemos que não há algumas pessoas que não têm o perfil certo para fazer voluntariado nos Transformers. Nós estamos em muitos contextos muito vulneráveis e precisamos de ter pessoas que não sejam mais alguém a falhar os miúdos, mesmo que seja uma vez ou duas vezes. Nós garantimos sempre isto. E quando existem falhas, alguém da equipa de Recursos Humanos, da equipa de coordenação, vai dar resposta. Portanto, nós garantimos que nunca ninguém fica sem os Transformers. Isto é superimportante.
Superimportante. Inês, eu estou aqui a olhar para o tempo e temos que fazer uma pausa, mas voltamos já a seguir. Pode ser?
Até já.
Voltamos à segunda parte do Imperdíveis, hoje com uma ativista de 30 anos, empreendedora social, muito inquieta no mundo, acredita que menos é mais. Estávamos a falar dos Transformers e da maneira como têm transformado e estão a transformar a sociedade. Inês, eu cortei-lhe a palavra porque estávamos no tempo de fazer a pausa. Queria só voltar a esta maneira como recrutam e esta garantia que têm de que as pessoas não falham, até porque este tipo de voluntariado que transforma as pessoas individualmente, a comunidade e depois um país, é feito na base da confiança, da proximidade e dessa garantia de que eu estou aqui por ti. No fundo, é uma lógica do todos por todos e sem falhas e sem quebras, não é?
Sim. Eu estava aqui a falar sobre a forma como o recrutamento é feito e a confiança é a base de todo o recrutamento, a empatia é a base de todo o recrutamento. E há aqui alguns fatores, também eles, que são muito importantes para o nosso sucesso, que é a escolha dos sítios onde nós estamos a trabalhar.
Ou seja?
Ou seja, escolhermos as instituições onde vamos trabalhar, os municípios com os quais trabalhamos, ter equipas técnicas nos municípios, nas escolas e nas instituições que acreditam na nossa missão.
Ou seja, garantir esse poder das parcerias.
Garantir que as parcerias falam a mesma língua do que nós. Porque muitas vezes, e no mundo da inovação social, nós temos muitos projetos no mesmo sítio e há muitos municípios, cada vez mais, que têm imensos projetos a acontecer ao mesmo tempo. E nós decidimos internamente e a nível estratégico, irmos para os municípios que sabíamos que os departamentos de educação, que os departamentos da juventude falavam a mesma língua do que nós e acreditavam na nossa missão e que não queriam só apenas os nossos números de impacto. E isso é muito importante. Nós temos muitos técnicos municipais, muitos presidentes de câmara, muitos vereadores que sabem na perfeição toda a metodologia dos Transformers e que acreditam piamente no nosso trabalho. Isso ajuda imenso a chegar ao terreno, a ter confiança e a passar essa confiança à nossa equipa, essa liberdade de atuação, que eu acho que não é uma coisa assim tão vulgar quanto isso.
Inês, é impressionante, porque eu volto a dizer, tem 30 anos, toda esta sua vida, todo este seu percurso foi feito nos seus 20 anos. E eu pergunto também de onde é que vem esta demanda interior de ser ativista, de ser empreendedora social, de ser formadora de empreendedores sociais, de ser mentora. E tudo isto leva a ser uma das 100 jovens portuguesas mais influentes neste projeto de oportunidades dos Global Shapers. E, portanto, gostava também agora, se calhar, de me focar em si e nisto que é realmente a sua demanda interior.
Então, eu nasci no Algarve Que agora, visto à distância, é um contexto para um crescimento mais vulnerável no que toca às oportunidades. O Algarve, e eu nasci em Portimão, não tem tantas oportunidades como uma grande cidade e há 20 anos atrás tinha menos oportunidades ainda. Portanto, eu era muito focada naquele que era o meu contexto mais próximo, que naquele caso era os escoteiros, era o desporto, era a escola, algumas pessoas muito importantes, alguns professores, a família, os avós, todo aquele núcleo. E todo este núcleo era desenvolvido em cima do sentido de comunidade. Portanto, eu sempre vivi muito o sentido de comunidade. E depois fui crescendo, saí dos escoteiros e entro num role muito mais profissional de desporto. Eu fui atleta de alta competição de hóquei em patins, essa passou a ser a minha comunidade, esse passou a ser o meu modelo de referência de liderança. E quando estava num processo de transição na universidade, da licenciatura para o mestrado, acumulado com uma lesão grave, decidi deixar de jogar e dar um passo de: "Eu tenho que experimentar alguma coisa diferente que me retire da minha área de conforto". E foi aqui que eu descobri este mundo todo. Eu fui para São Tomé e Príncipe viver durante dois meses, fazer uma ação humanitária. E foi lá que eu descobri o empreendedorismo social, a economia de impacto, que podia ter uma carreira nesta área. Foi em São Tomé e Príncipe que eu conheci o movimento Transformers em 2015, porque a Joana estava também em São Tomé e Príncipe, falámos as duas.
Já dizemos a Joana e dizemos o apelido também.
A Joana Moreira, claro. Joana Moreira, atual CEO do Movimento Transformers.
Exato.
Estava também em São Tomé, portanto, nós conhecemo-nos lá. Eu quando chego a Portugal e conheço o João Brites e lançamos então a primeira formação das escolas de superpoderes, e isto tudo aconteceu ali no início de 2016. E foi aqui que eu conheci este mundo e foi aqui que eu percebi que a minha inquietação podia ser a minha carreira, que a minha inquietação podia ser a minha vida profissional e que eu não tinha que separar a vida profissional da minha vida pessoal. Eu tenho alguma tendência a não fazer essa separação, porque acho mesmo que foi esta inquietude que me trouxe até este contexto mais profissional.
Mas tanto quanto se percebe, ainda bem que não separa, quer dizer, desde que isso também não impeça de fazer a sua vida pessoal, mas ainda bem que não separa, porque também é isto que faz de si uma das 100 jovens mais influentes, porque de facto faz acontecer, faz a diferença. E ser licenciada em Psicologia do Desporto e mestre em Desporto Adaptado também quer dizer muito de si. Interessa-lhe a inclusão, interessa-lhe o impacto, interessa-lhe a transformação social, a ação cívica e a formação cívica. Ou seja, esta cultura cívica que muitas vezes se diz que os portugueses não treinam desde cedo e que vocês apostam nisso.
Sim, sem dúvida. Eu acredito e estou a construir o meu caminho nesta lógica de que nós não partimos todos da mesma linha de partida, portanto, nascemos todos em linhas de partida da vida muito diferentes. Eu quero muito ser alguém que une estas linhas. E eu acho que a melhor ferramenta de união dessas linhas é o desporto. A melhor forma de nós chegarmos até estas pessoas e até estas diferentes linhas de partida é com o desporto. E foi por isso que fiz toda a minha formação acadêmica em desporto, porque acredito mesmo que preciso de ter todas as bases científicas nisso para casá-las com as minhas experiências de vida, para conseguir daqui a uns tempos lançar ao mundo alguma coisa que através do desporto diminua estas diferenças à nascença. Portanto, eu tenho feito este caminho, tentado aprender sempre com as melhores organizações, estar sempre rodeada de pessoas incríveis, que também me ensinam imenso todos os dias. E acho que é um bocadinho isto, é um bocadinho este o meu posicionamento diário e este é sempre o meu foco.
Muito interessante isso que diz, porque estava a pensar que aos 16 anos o João Brites estava no Fórum Econômico Mundial de Davos a representar a juventude mundial e foi aí que começou a ideia, a gênese de criar o projeto Transformers. Eu não sei se já voltaram juntos, se já estiveram em Davos, se voltaram a falar deste projeto internacionalmente, mas percebo que quando se juntam estas pessoas com estes traços de caráter, esta demanda interior e esta necessidade de fazer acontecer e de juntar estas linhas de partida, ou de aproximar, ou de pelo menos minimizar os abismos que há entre cada linha de partida, as coisas acontecem e com muito trabalho. Imagino que o seu dia a dia é um dia a dia muito cheio, muito preenchido. É assim, não é? Como é que é? O que é que faz? Conte-me lá como é que é um dia seu. Conta tudo o que é que faz.
Então, eu tento ter alguma rotina sólida para garantir que mantenho a minha sanidade. Portanto, eu acordo cedo, eu sou uma pessoa de manhãs, ali às 6h, 6h30. Quando acordo, gosto de treinar, sempre. Vou ao ginásio.
Continua a treinar o quê? Ah, ginásio.
Ginásio. Agora jogo hóquei só ao sábado à noite, mas continuo a ter o desporto diariamente na minha vida E só depois de treinar é que começa o meu dia. Portanto, treino, regresso a casa, nesta fase, a casa ou escritório, tomo o meu pequeno-almoço. Tento equilibrar sempre três horas focada de trabalho, quatro horas, almoço, mais três, quatro horas, sendo que estas três ou quatro horas de trabalho podem ser a Girl Move, os Transformers, dar formação. Tenho sempre os dias preenchidos com diferentes organizações. Tenho que ter sempre tempo para aprender coisas. Este ano estive a fazer uma pós-graduação em Marketing, Criatividade e Estratégia, portanto todos os anos gosto de aprender uma coisa diferente e tento fazer sempre esse compromisso e garantir que tenho sempre tempo para as minhas pessoas e que continua a crescer a minha rede. Isso é mesmo muito importante. Faço muitas viagens. Eu vivo no Porto atualmente, mas ando muitas vezes entre Porto e Lisboa, quase todas as semanas. E é um bocadinho isto. Eu tento ao máximo manter uma rotina saudável para garantir que consigo dar resposta a tudo o resto. Isso é mesmo muito importante para mim.
Sente-se uma privilegiada? Pergunto isto por várias razões, porque teve de certeza pessoas marcantes, determinantes ao longo da sua vida, não só família, pais, professores, mas pessoas com quem se cruzou e que de certeza que reforçaram em si esta convicção de que podia também ser uma ativista, uma empreendedora social, uma pessoa que sendo inquieta no mundo, transforma a sua inquietude em impacto incrível. Nesse sentido, sente-se uma privilegiada? Disse que nasceu no Algarve, se calhar isso também é um privilégio. Uma pessoa nascer numa comunidade com menos oportunidades, para se poder ter essa noção e uma pessoa se fazer ao mundo e à vida e criar as oportunidades.
Sem dúvida alguma. Eu sinto-me privilegiada a todos os níveis, desde as características com as quais eu nasci, até ao meu dia a dia. Portanto, ter nascido num contexto com menos oportunidades fez-me perceber, quando cresci e fui ganhando alguma consciência, alguma maturidade, que eu podia fazer disso uma grande oportunidade para o mundo. Eu podia ser o motor de oportunidades para outras pessoas, porque eu sabia o que era crescer num ambiente onde nós temos que construir as nossas próprias oportunidades. Depois eu sou uma privilegiada, diria que nível máximo, pelas pessoas que tenho à minha volta, por ter o João Brites à minha volta, por ter a Joana Moreira à minha volta, por poder falar com pessoas como a Laurinda, por poder ter acesso a uma rede de pessoas incríveis que me podem ensinar todos os dias, com as quais eu posso crescer uma amizade. Portanto, eu acho que o maior privilégio que eu tenho neste momento é a rede de pessoas que eu fui construindo nos últimos 10 anos, diria eu. Porque tenho uma base muito sólida, os meus amigos deste sempre, a minha família, e nos últimos 10 anos construí as pessoas que fazem amplificar a minha voz. E acho que isso é mesmo intenso. E termos consciência disso é ainda mais intenso.
Ainda por cima porque amplificando a sua voz, estamos a amplificar incontáveis vozes. Estou aqui interrogada sobre o hóquei, por que o hóquei? Deve ser uma patinadorizinha. Eu que não me imagino em cima de uns patins e a ser performativa e a fazer aquilo que é preciso, gostava de saber como é que chegou ao hóquei patins.
Eu sempre pratiquei muito desporto, desde sempre. Natação, judo, e tinha um grupo de amigos, que era os meus melhores amigos deste sempre, que começaram a jogar hóquei. E o hóquei não é um desporto nada popular no Algarve. No Algarve há três clubes de hóquei em patins, mas eles jogavam todos hóquei, eu já sabia patinar. Eu comecei muito tarde, com 12 anos ou 13 anos, mas um dia fui experimentar e adorei, fiquei fascinada. E como já sabia andar de patins, tive uma evolução muito rápida. Aos 16 anos já estava a jogar numa equipa na primeira divisão e depois fiz todo este caminho de atleta profissional, que faz disso a sua vida diária.
Foi campeã?
Fui campeã nacional. E eu costumo dizer sempre que o hóquei foi a minha maior escola de empatia e de liderança.
É o seu superpoder também? É um dos seus superpoderes.
Sim, eu entrei para os Transformers enquanto mentora de hóquei em patins. É um dos meus superpoderes.
Que giro. E deve ter um impacto incrível, porque nas comunidades onde trabalham, entre jovens e às vezes jovens com vidas muito difíceis, e já nem estou a falar daqueles que estão na prisão, mas aqueles que estão realmente em comunidades, em bairros, em circunstâncias difíceis, entrar uma patinadora, não uma patinadora artística, mas uma patinadora de hóquei em patins, deve ter um impacto incrível. Deve ser uma coisa fascinante à partida.
E nós nos Transformers temos a boa mania de tentar marcar sempre pela diferença. Portanto, todos os pitches que fazemos também, mesmo que sejam para investidores ou talks, etc, lá vamos nós com os nossos superpoderes. E eu lembro-me no início, eu ia sempre de patins e continuo a ir, sempre tenho que ir. E os miúdos e todas aquelas pessoas de fato e gravata ficavam todas super intrigadas. Lá vêm estes miúdos para o palco de patins. Antes tínhamos o João que dançava breakdance, agora temos a Inês que anda de patins. Portanto, as pessoas ficam sempre muito Intrigadas com esta dinâmica, mas que eu acho essencial, é muito representativa.
Interpeladora. Eu lembro-me de ver o João Brites, que é um breakdancer incrível. Lembro-me de o ver a falar para séniors de empresas de multinacionais em que ele fazia breakdance e depois, em vez de estar sentado num plano diferente, ele às vezes punha-se em semi joelhos, quando uma pessoa fica agachada, para estar olhos nos olhos com estas pessoas com quem queria conversar ou quem queria interpelar ou contagiar para o projeto Transformers. Isso tem um impacto enorme. Ainda por cima, ele era muito novo, também como a Inês, e eles eram muito séniores, eram pessoas com muita experiência, muita ciência, e portanto, isso é muito extraordinário. Não falámos ainda do Instituto de Empreendedorismo Social, não falámos de ter sido também project manager da Conferência Europeia da Juventude, agora durante a presidência portuguesa da União Europeia. Não sei, quer falar do IES, do Instituto de Empreendedorismo Social, enquanto formadora? Se calhar, irmos por aí.
Sim, mais do que enquanto formadora, eu acho que enquanto aprendiz continua. O IES em Portugal é muito provavelmente a escola, o instituto que mais empreendedores sociais forma por ano. E eu fiz o meu primeiro bootcamp enquanto participante em 2015 e quatro anos depois, em 2019, comecei eu a fazer bootcamps e a dar formação a outras pessoas. Eu acho que isso também diz muito sobre o nosso percurso. Eu sou mesmo muito grata ao IES, não só por mim, mas por todas as pessoas que se põem todos os meses cá fora com este mindset de criar impacto. Acho que é mesmo superimportante termos esta organização na nossa sociedade.
Inês, nós estamos quase outra vez em cima do tempo, desta vez mesmo do tempo de acabar, temos cerca de três minutos. Gostava muito também de lhe perguntar, porque uma das suas marcas, além de ser um dínamo humano, uma pessoa que contagia, que inspira, que faz acontecer, é uma pessoa de uma humildade e de uma simplicidade absolutamente comovedoras. Como é que cultiva a humildade?
Que pergunta tão boa.
Temos dois minutos para nos ajudar e para nos ensinar, para nos treinar e formar.
Eu acho que, acima de tudo, primeiro porque eu tenho alguma, e isto é uma coisa interessante, eu tenho alguma falta de noção sobre o meu próprio potencial. Nem sempre isto é bom, mas muitas vezes isto põe-me numa posição de querer aprender inquestionavelmente tudo. Portanto, eu tenho esta ambição de querer aprender com todas as pessoas, de querer perceber como é que todas as pessoas se posicionam, como é que todas as pessoas fazem. E agora quanto mais cresço, mais percebo quem é que são estas pessoas, onde é que estão estas pessoas, e sigo alguns role models que têm esta humildade. Depois eu acho que é um traço de personalidade também, porque é muito orgânico e eu nunca penso sobre esse tipo de coisas minhas, do meu dia a dia. Por último, o facto de ter e de constantemente me colocar em contextos muito vulneráveis faz-me perceber o quão privilegiada sou e isso faz a minha humildade vir ao de cima, porque na verdade, nós temos que trabalhar para a inteligência coletiva. Eu não sei mais do que ninguém, eu não sei mais do que os miúdos dos Transformers sobre quase nada. Portanto, eu tenho que garantir que sou, de uma forma muito fluida, o exemplo real que eles querem ver. E acho que isso é muito sobre humildade, nós sermos reais e sermos vulneráveis para conseguirmos cultivar isso nas outras pessoas. E eu faço mesmo questão de cultivar isso nas outras pessoas. Para mim, isso é mesmo importante.
Inês, eu fico sem palavras com aquilo que acabou de dizer e com esta aposta na inteligência coletiva, nesta humildade, e queria agradecer absolutamente tudo aquilo que disse, tudo aquilo que faz e desejar-lhe as maiores felicidades. Muito obrigada, Inês, e muitos parabéns.
Muito obrigada. Obrigada nós. Obrigada por ativarem todas estas vozes.
Obrigada.