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Bem-vindos ao Imperdíveis. Hoje com Teresa Landeiro, fadista, também conhecida por Terzinha Landeiro. Tem 25 anos, ainda é estudante de gestão na Nova SBE. Aliás, foi minha aluna há dois semestres, foi aí que eu comecei a ouvi-la cantar fado. Ela começou a cantar aos 12 anos. Lançou agora um segundo disco, que se chama precisamente "Agora", e foi composto e gravado durante a pandemia. A Terzinha é cantautora e sete das 10 músicas são da sua autoria. No próximo dia 1 de julho, dará um concerto no Tivoli BBVA, às 20h00, hoje em dia não nos podemos esquecer que os concertos são cedo, em que vai apresentar este seu novo disco, mas onde vai também cantar algumas músicas do primeiro disco, que se chamava "Namoro". Bem-vinda, Terzinha.

Obrigada.

Às vezes vou chamar Teresa, outras vezes Terzinha.

À vontade.

Se calhar, começávamos por ouvir a sua voz. Pode ser? A capela.

Claro que sim. Então. A vida pôs-me um xale sobre os ombros. Deu-me um ar amargurado. Disse que eu era fadista e pôs-me na Alfama. E eu canto a minha vida com o meu xale traçado.

Que maravilha, Terzinha. Isso é uma grande homenagem à Celeste Rodrigues.

Sim.

E que bom começar por ouvir a sua voz, que é muito mais interessante do que a minha.

Obrigada.

E mais eloquente daquilo que faz. Então vamos começar pelo princípio. Por que o fado? Vem de família? O que aconteceu?

Não, o fado não vem de família. Sempre gostei de cantar, principalmente em português, desde muito pequena, que eu ouvia as músicas do Festival da Canção e por isso comecei a cantar em português. E uma amiga da minha mãe, a Filipa Melo Correia, familiar de um fadista muito antigo, que foi muito importante no panorama fadista, mostrou-me o primeiro disco de fado, que eu nem sabia o que era fado. E ela disse: "Tu devias cantar fados, tens voz pra isso". E eu: "Tenho voz? Nem sei o que é fado." "Vais ouvir." Ouvi, comecei a ouvir em casa e no dia em que fiz 12 anos, a minha mãe levou-me pela primeira vez a uma casa de fados, pra eu ir ouvir Ana Moura, porque era um dos discos que eu ouvia repetidamente, em loop. No dia do meu aniversário fui e depois quando fui conhecer Ana Moura, eu disse: "Ai, que eu canto os seus fados em casa" e o Jorge Fernando ouviu esta conversa e disse: "Mas queres cantar?" E eu: "Quero". Minha mãe, claro que entrou em pânico, pensou: "Vai cantar o quê? Como? Ela nunca cantou na vida com músicos", mas eu lá fui e foi assim a minha estreia e saí de lá a dizer à minha mãe que queria cantar pro resto da vida.

Isso é muito bonito e é muito extraordinário, porque tinha 12 anos, não é?

Sim.

E ainda só passaram outros 12 ou 13.

Sim, 13 anos.

E portanto, metade da sua vida, estamos a falar de metade da sua vida, já é a cantar fado.

Já foi a cantar.

Exatamente. E foi fácil encontrar o seu lugar neste mercado, que sempre foi competitivo. Não é?

Sim.

Mas hoje em dia acho que ainda é mais competitivo, porque a nova geração de fadistas é muito boa e é muito grande.

É muito grande, sim. É difícil encontrar o nosso lugar, mas é uma construção. E é uma construção que eu tenho vindo a fazer desde os 12 anos. Tentar encontrar uma identidade, um caminho, o que eu quero defender, que tipo de fado é que eu canto, o que eu sou enquanto fadista, o procurar quem é a Teresa, quem é a Terzinha e tentar descobrir no que eu acredito, sobre o que eu quero falar. Essa é uma construção que eu tenho vindo a fazer ao longo destes 13 anos e que vai culminando nestes discos, o primeiro, "Namoro", agora o meu "Agora", se calhar um bocadinho mais específico, mais ligado com a pessoa que eu sou hoje. Mas acredito que tenho lugar, porque todos nós acabamos por ter o nosso lugar.

Quem tem muita qualidade, tem sempre lugar.

Não sei se será.

Eu sei que uma só não pode dizer isso de si próprio, mas eu acho que a mim, cabe-me dizer isso, porque de facto a sua voz é linda.

Muito obrigada.

E é muito profissional. De facto, percebe-se estes 13 anos de trabalho. Não é? Essa construção.

Sim, eu acho que temos todo o espaço, nem que seja porque somos singulares, porque cada um tem o seu estilo, cada um tem a sua voz, vai cantar temas e poemas diferentes. Acho que isso nos consegue diferenciar entre todos e todas que fazemos parte desta nova geração. E eu acredito que é por aí.

Terzinha, estava a dizer, a minha construção, pra onde é que eu quero ir, o que eu sou, o que eu sou no fado. Eu gostava de saber então o que é, qual é a sua marca, o que não é.

O que eu não sou, o que eu sou. Eu sou uma fadista muito tradicionalista, essencialmente. Eu gosto muito de cantar fado tradicional, do mais tradicional que existe. Guitarra, viola e baixo, e seguir essa linha. Claro que, pra além de ser fadista, também canto outras coisas. E é natural que surjam outros estilos musicais, como surgem neste disco, neste "Agora", surgem aqui algumas fusões com outras músicas, mas eu gosto de deixar bem claro que isso não é fado. É uma fadista a cantar, por exemplo, com uma roda de samba ou com um pianista de jazz, mas que não é fado. Fado é guitarra, viola e baixo, e tem ali uma linha muito própria, e eu gosto de deixar isso bastante vincado e bastante marcado.

Ou seja, essa é a sua marca.

É, é a minha marca.

Não é nem contra, nem a favor de nada, nem de ninguém.

É isso.

Mas é a sua marca.

Exatamente, é deixar bem arrumado em cada prateleira o que cada coisa é. Esse é um dos meus grandes objetivos. E depois, também o fato de escrever as minhas coisas faz com que eu consiga definir pra onde é que eu quero ir, sobre que assuntos eu quero falar, de que forma eu me quero expor. O fato de eu escolher escrever, ajuda-me bastante nessa defesa e nessa orientação.

Mas agora, quando lhe pedi pra cantar à capela, não cantou uma letra sua.

Não.

Cantou uma letra, e muito bonita ainda por cima, e uma grande homenagem à Celeste Rodrigues.

Sim. A questão aqui é-

Que é o seu lado tradicionalista.

É o meu lado tradicionalista e é uma descrição daquilo que eu acho que é um fadista. Nós não escolhemos propriamente esta profissão. Parece quase que esta profissão nos escolhe a nós. A vida pôs-me o xaile sobre os ombros. Eu não sabia muito bem se eu ia ser fadista. Eu nem sabia que isso era uma profissão. Eu descobri isso à medida que fui cantando e que fui conhecendo mais pessoas, mais fados e vivendo mais os fados, é que percebi que poderia ser uma profissão e um modo de vida.

É muito interessante isso, até porque como era muito nova, imagino que de certa forma teve que enfrentar o olhar dos seus pares na escola, no liceu, onde ninguém ou quase ninguém canta fado, ou se calhar até quase ninguém gosta ou ninguém cantava e quase ninguém gostaria de fado e seria estranho. Isso foi difícil para si?

Não, de certa forma não. Eu sempre fui uma pessoa um bocadinho do tipo: "Queres vir comigo? Boa. Se não queres vir, também está tudo bem, eu vou sozinha." E tenho muito esta abordagem em quase tudo aquilo que faço. Se eu quero ir, por exemplo, a um concerto e ninguém quer vir comigo, eu vou na mesma, vou sozinha, eu não preciso de ir com ninguém, eu vou porque eu quero fazer aquela experiência. E então eu acho que transportei isto um bocadinho pra minha maneira de estar. Eu gosto de ouvir fado. Não gostas? Tudo bem, então eu vou sozinha. E era um bocadinho isto. Se bem que consegui arrastar os meus amigos para este estilo musical, que supostamente não seria para pessoas jovens, mas mostrar que é para todas as idades. Depende de quem esteja a cantar, depende da temática que esteja a ser abordada. E eu nunca passei por aquela questão de bullying, "ah, canta fado". Não. Toda a gente aceitava e começaram até a achar graça. Eu era conhecida como a fadista. "Ah, a fadista!" Mudei de escola entretanto.

A fadista aos 14 anos, a fadista aos 16, aos 20.

Sempre a fadista. Acho que foi sempre uma marca pessoal bastante positiva.

Teresinha, eu assumo e já disse, a Teresinha foi minha aluna e foi uma pessoa muito solar, que marcou aquele semestre. Eu tenho muitas turmas lá e são muitos alunos, mas o que eu percebi era esse lado solar, essa independência, essa liberdade interior em relação ao que os outros pensam e em relação àquilo que eu quero e saber o meu caminho. Eu via que isso congregava muito as pessoas e via que a Teresa estava sempre rodeada de amigos e os amigos eram muito entusiastas em relação à sua maneira de cantar, à sua maneira de estar.

Sim. Eu acho que tem muito a ver com o lado despreocupado. Eu sou naturalmente uma pessoa conversadora. Gosto logo de conversar. Mesmo que eu não conheça a pessoa, eu ponho logo conversa com a pessoa do lado e tento aprender com os outros. Eu tento ouvir muito as outras pessoas para aprender e para perceber se estou certa, se não estou. Gosto de discutir assuntos que às vezes eu acho que tenho a certeza, mas depois descubro no final da conversa que não tinha a certeza disso e que se calhar nem concordo assim tanto com aquilo que eu achava que concordava.

Nem sequer concorda assim tanto consigo.

Comigo própria, não é? Curioso. Portanto, eu sempre fui muito aberta a essa questão de conversar e de conhecer os outros, e de me dar e de receber também. Talvez isso também tenha aprendido.

Facilita imenso.

Facilita e tenha aprendido nos fados, porque desde muito nova que tive que começar a aprender a lidar com pessoas mais velhas e a integrar-me em grupos onde eu não fazia parte, onde eu não me encaixava.

Mas uma criança que canta bem fado e ainda era uma criança com 12 anos, é sempre muito bem-vinda nesse mundo, não é?

Mais ou menos.

É?

Mais ou menos.

Por quê?

Porque há várias vertentes. Há quem goste de apoiar a nova geração, mas também há quem ache que as crianças não devem cantar fado.

O que esta miúda aqui há de fazer?

Exatamente. E aí eu: "O que esta miúda vem para aqui? O que ela tem para dizer?" E a questão é essa. E eu digo várias vezes. Há uma hierarquia nos fados, há muitas regras que só se aprendem se nós formos às casas de fado. E eu aprendi várias enquanto lá estava.

Tais como?

Tais como regras, por exemplo, quem é que canta primeiro, quem é que canta depois. Se, por exemplo, eu cantar um fado que é do repertório da Dona Celeste Rodrigues, se ela estiver presente, eu devo dirigir-me e pedir autorização para cantar aquele fado, saber se a Celeste vai cantar aquele fado ou não vai. Portanto, há umas regras que têm que ser cumpridas.

Neste caso é no passado, infelizmente.

Sim, infelizmente no passado. Mas muito presente, sempre.

Muito presente, exatamente.

E então eu tentei aprender bastante as regras para me inserir da forma correta. E nem sempre era bem visto uma miúda cantar, porque era do género: "Mas o que ela tem para dizer?" Outras pessoas diziam: "Olha que giro, uma miúda interessar-se por fados" e foi por isso que eu comecei a escrever, que era para me poder defender.

Podemos ouvir uma das suas músicas, se calhar, O Tempo?

Sim, vamos ao Tempo.

Então, sem ser à capela.

Sem ser à capela agora. O tempo passa por nós. Sem tempo pra nos escutar. O tempo deixa-nos sós. O tempo passa sem voz pra ninguém o ver passar. O tempo deixa-nos sós. O tempo passa sem voz pra ninguém o ver passar. O tempo prende paixões. O tempo acolhe Acelera emoções, enlouquece corações. O tempo liberta a esperança. Acelera emoções, enlouquece corações. O tempo liberta a esperança.

De onde é que veio esta demanda interior de falar sobre a passagem do tempo? A Teresinha que tem 25 anos e se calhar pra si o tempo é uma vertigem.

O tempo é um problema. Dá pra perceber, este disco chama-se Agora, o símbolo o tempo, o outro é o amanhã, portanto, há aqui uma questão temporal neste disco. Sou uma pessoa muito ansiosa e que sofre por antecipação e que tem muito medo de não viver as coisas a 100%. E às vezes acontece, como estou sempre a sofrer por antecipação, acabo por não viver as coisas inteiramente.

A pandemia não a ajudou a abrandar esse tempo interior?

Sim, sem dúvida alguma. De repente, comecei a olhar pra o lado e pensar: isto é tão efêmero. E de repente nós estamos livres e já não estamos. E de repente podemos dar abraços e depois já não podemos.

E o tempo fica completamente fragmentado.

E este tempo termina. O tempo é ilusão. E é uma ilusão, nós não sabemos bem se fomos nós que passamos por ele, se foi ele que passou por nós, o que aconteceu, e passa tudo a correr e não dá tempo para viver as coisas às vezes.

Então e se ouvíssemos também uma parte do Amanhã?

Sim.

Acha que sim?

Acho que sim, acho ótimo.

Então vamos a isso.

Amanhã é o que eu digo a toda gente, porque vivo num constante contraplano. Já jurei que vou tentar fazer diferente, mas talvez seja melhor, seja melhor tentar pro ano. Desço a rua em contratempo, é rotina. E no pulso, um relógio contra mim. Vou com pressa e a roupa não combina. E o cabelo, pra o que é, vai bem assim. Escrevo tudo num papel que nunca tive. E desejo ter um dia uma agenda. É então que nenhum plano sobrevive. E os amigos já me querem pôr à venda. Amanhã é o que eu digo a toda a gente, porque vivo num constante contraplano. Já jurei que vou tentar fazer diferente, mas talvez seja melhor, seja melhor tentar pro ano. Mas talvez seja melhor, seja melhor tentar pro ano. Já não sei se o plano de hoje é pro almoço, se pro lanche, se pro jantar, se tenho dois. Pouco importa, eu já sei que nunca posso. E o de hoje fica sempre pra depois. As conversas que se têm de fugida não dão espaço pra lamentos nem pra ais. Diz-me à pressa como é bela a tua vida. Amanhã temos tempo para mais. Amanhã é o que eu digo a toda a gente, porque vivo num constante contraplano. Já jurei que vou tentar fazer diferente, mas talvez seja melhor, seja melhor tentar pro ano. Mas talvez seja melhor, seja melhor tentar pro ano. Mas talvez seja melhor, seja melhor tentar pro ano.

Então e sobre o Amanhã, o que podemos dizer em relação a estas pessoas que acham sempre que têm todo o tempo?

Exato. É engraçado isso, porque eu digo que sou uma pessoa ansiosa e que sofre com a passagem do tempo, mas também me revejo bastante neste Amanhã, porque deixo muitas vezes as coisas pro dia a seguir. Aquela coisa do amanhã encontramos aquele amigo na rua que não vemos há muito tempo e é aquela conversa do amanhã ligo-te sem falta. E então andamos sempre a empurrar pra amanhã, portanto essa letra é o resumo da vida de todos nós que eu espero seriamente que mude com a pandemia.

Teresinha, já falámos das suas referências, desse seu lado mais tradicionalista. Quem é que é o seu ídolo como cantor de fados?

Eu sou uma Amaliana pura. Eu adoro a Amália Rodrigues por todos os motivos, pela pessoa que foi, pela poetisa que foi, pela voz que tinha e pela capacidade interpretativa. E claro que na nova geração há vários. Seria injusto eu começar a nomear, porque certamente que me iria esquecer de alguém. Mas são várias as vozes que me inspiram e que eu oiço regularmente. E então tanto da nova geração como da geração mais antiga, há assim um rol. Não consigo dizer esta pessoa especificamente, cada um tem a sua característica que me encanta.

Mas se pudesse ter partilhado o palco com a Amália, teria tido coragem, digamos assim, pra cantar com ela?

De todo. Eu nem coragem tenho às vezes pra cantar as músicas dela, portanto acho que era impossível partilhar o palco com ela.

Mas por ser muito nova?

Por tudo, por ela ser maravilhosa e eu acho que me ia faltar a voz, as palavras, ia me faltar tudo, portanto, acho que não ia acontecer.

É engraçado isso, porque a Teresinha dá uma imagem também de confiança. Não digo que seja uma pessoa superconfiante ou daquelas pessoas que estão na fronteira da presunção de superioridade de qualquer coisa, mas de uma confiança, de uma autenticidade, uma espontaneidade, mas quando chega a esse capítulo...

Há pontos que são intocáveis. Eu sou confiante até certo ponto, porque como sempre nove, então inconscientemente fazia as coisas Mas mais crescida, começo a ganhar alguma consciência e a Amália Rodrigues seria sem dúvida uma pessoa com quem eu se calhar não queria dividir o palco.

O que é que gostaria de lhe dizer, se a pudesse, se pudesse estar em presença?

Obrigada. Obrigada por tudo. Pela referência e por tudo que nos deixou. Pelo espólio maravilhoso, pela escrita, pela integridade, pela integridade, por tudo.

Maravilha. Vamos fazer uma pausa e voltamos já a seguir. Até já. Voltámos à conversa com a Terezinha Landeiro, fadista, 25 anos, ainda estudante de Gestão na Nova SBE. Começou a cantar o fado aos 12 anos e confessa-se uma amaliana pura. Estávamos na sua homenagem à Amália. Gostava também de lhe perguntar de que é que teve que prescindir ao longo desta sua carreira, que no fundo já é uma carreira construída. De que é que teve que prescindir? Os estudos atrasaram, os amigos ficaram um bocadinho para trás, o que é que aconteceu?

Aconteceram várias coisas, os estudos atrasaram, naturalmente. Inicialmente eu fui para o Técnico, eu estive em Engenharia Biológica, andei ali três anos e depois decidi ir para Gestão, para a Nova.

Felizmente, que foi a minha aluna, que nos conhecemos ali.

Foi maravilhoso. Mas claro que demoro muito mais tempo a fazer as coisas do que os meus colegas, porque não tenho o mesmo tempo para me dedicar, porque há semestres que simplesmente não consigo estar presente na fase de exames porque estou em tour no estrangeiro, então não consigo ir aos exames. Pronto, é uma coisa que eu não consigo controlar. Há coisas que estão fora do meu controle.

Não há esse estatuto de alto rendimento, ou seja, ser fadista ou ter uma carreira enquanto se estuda é alguém que tem a capacidade de fazer duas coisas.

Há estatutos de trabalhador-estudante, mas não mudam assim tanto o estatuto do aluno. Continuam a ser um bocadinho limitadores nesse sentido. Mas vai-se fazendo da maneira que se pode.

Não é motivo de frustração.

Não é, não é de todo.

Não traz ilusão.

Às vezes eu acho que fico meio frustrada e depois são os meus pais, os meus amigos que dizem: "Estás doida, tu fazes um monte de coisas, como é que podes estar frustrada com isso? Estás num curso que ainda por cima é dificílimo, que é tão exigente."

E já está no doutoramento do fado.

Exato. Estás a fazer tanta coisa, não fiques frustrada. E os amigos, muitas vezes, não estive presente em datas importantes, em momentos importantes, porque não estava cá ou porque não podia, ou porque tinha que ir trabalhar. E isso deixa-me às vezes um bocadinho triste, mas sei que eles são os primeiros a compreender e dizer: "Não, vai, é o teu trabalho, nós queremos que corra bem e são os primeiros a estar na plateia a bater palmas." Portanto, isso deixa-me tranquila.

Há bocadinho disse que era muito ansiosa. Eu gostava de voltar a esse ponto, porque tudo aquilo que sai de si, ou seja, aquilo que é a sua marca, seja na voz, na maneira como canta, a maneira como se expressa, esse sorriso permanente, nunca ninguém olhando para si diria que é ansiosa. De onde é que isso vem?

Sou um poço de ansiedade. Um poço, é assustador. Mas eu acho engraçado. Eu sofro muito mais com a faculdade do que com o canto. Para mim, subir a palco, raramente fico nervosa. Às vezes-

Esse é o seu recreio.

É um bocadinho como sou tão nova, aquela questão de ser inconsciente e de ir, ir só. A faculdade deixa-me muito mais ansiosa. Por exemplo, tenho exame e fico a panicar durante dias e dias que tenho o exame e durante o exame às vezes só faço disparates porque estou superansiosa e não consigo controlar.

E o que é que faz para isso? O que é que faz para contrariar isso?

Não sei, eu simplesmente lamento-me imenso. E desabafo muito com os meus pais, que são duas pessoas maravilhosas e é importante dizer que foram estrutura essencial para que tudo isto fosse possível e que acontecesse como aconteceu. E continuam a ser sempre o porto de abrigo quando alguma coisa corre mal ou quando eu me sinto ansiosa, são eles que me tranquilizam e dizem: "Calma, se não for agora, é depois."

Não é possível fazer tudo espetacularmente bem ao mesmo tempo.

Exato. São eles que me tranquilizam.

Como é que se chama a sua mãe?

Minha mãe chama-se Maria João.

E o seu pai?

Meu pai é Artur.

E tem um irmão.

Sim, um irmão mais velho.

Que também já foi músico ou pelo menos teve elenco.

Sim, explorou a guitarra elétrica, teve uma banda em tempos, mas depois ficou por ali. Eu digo sempre o único lado assim mais musical na família que eu tinha era o meu avô paterno, que cantava muito bem e eu aprendi muitas músicas com ele quando era muito pequenina. As músicas tradicionais, ele era da Beira Baixa, portanto muitas músicas tradicionais.

Que género de música?

"O Chapéu Preto": "Ai, que lindo chapéu preto". Por exemplo, coisas dessas, uma coisa que era da terra dele, que era: "Mata aranha, serranita. Mata aranha, se tu és bonita." Portanto, essas coisas, o Covilhã Cidade Neve, eram canções que eu ouvia com dois, três anos e que comecei a aprender com o meu avô. Portanto, talvez seja a única pessoa assim que cantava na família, talvez fosse o meu avô.

E com quem é que trabalhou a voz? Ou seja, a sua voz também já passou por fases. Aos 12 anos uma pessoa tem uma voz, aos 14 outra e aos 16 outra. Com quem é que trabalhou a voz?

Eu cheguei a ter aulas de canto com a Paula Oliveira durante uns tempos. Agora não tenho tido. Depois faço muita terapia vocal, de terapia da fala, que me ajuda imenso. E a questão é: cantar fado é um bocadinho diferente dos outros estilos musicais. Nós a técnica que ganhamos é ali a cantar nas casas de fado, porque temos de trabalhar muito a voz no sentido em que não há microfones, não há amplificação. E é tudo em acústico, portanto, tem que se trabalhar a voz de alguma maneira.

E tem que se proteger a voz.

Tem que haver cuidados, tem que haver rastreios, temos que ir ao médico, ver se está tudo bem.

E o que é que faz para proteger a voz?

Dormir as horas necessárias, beber muita água, tem que controlar o estômago, aquelas coisas todas.

Alimentar-se bem.

A alimentação tem que ser regrada. Há assim uma quantidade de coisas, mas para mim o cansaço é talvez a pior coisa. O estresse e o cansaço roubam-me a voz.

E a ansiedade.

A ansiedade. Quando ando em fase de exames não canta

Quando anda em fase de exames não canta.

Fica difícil, fica mais difícil.

Se lhe pedisse para cantar outra coisa à capela, gostava ainda de ouvir um bocadinho do Baton, mas se calhar vou lhe pedir para pormos mesmo a versão já gravada.

Sim, até porque tem mais interesse ouvir a versão gravada.

E se lhe pedisse alguma coisa à capela agora?

À capela vou só explicar rapidamente este tema. Chama-se "O Mundo" e também é uma letra que eu escrevi, a música é do Pedro Castro, um dos meus músicos, guitarrista e produtor deste disco. E esta letra fala sobre um assunto que eu acho muito relevante, que é Se o céu que nos rodeia é igual em todo lado, em qualquer ponto do mundo, por que estamos sempre a tentar construir barreiras e muros entre nós? Por que não tentamos unir mais e tornar tudo mais homogêneo, tal como o céu é tão homogêneo em torno deste planeta? Isto começou no Vietname, numa viagem que eu fiz, em que pensei: "Este céu é exatamente igual à Praia da Arrábida, onde eu passo as férias de verão".

Só não temos é a lua simultânea nos hemisférios, porque de resto o céu é o mesmo.

É sempre igual. E então foi aí que nasceu este mundo. Vou cantar um pouquinho.

Podemos ouvir um pouquinho?

Girasse o mundo sem pressa, na palma da mão de um louco, que quisesse mais que pouco, do tanto que ninguém vê, que acabasse com a distância, que separa almas iguais, porque longe, longe demais, vai o mundo sem ter porquê. Porque longe, longe demais, vai o mundo sem ter porquê.

Muito bonito e muito profundo. Queria perguntar se tem um lado ativista, se é uma pessoa de causas.

Não era, de todo. Tinha as minhas convicções, mas à medida que vou crescendo, começo a ficar desperta para determinados assuntos. Não sou muito ativa, mas tenho as minhas posições e defino algumas posições e há coisas que me entristecem bastante. Coisas que estão a acontecer nos dias que correm. E acho que com a idade vou me tornando uma pessoa um bocadinho mais desperta para certas coisas e talvez mais humana. Eu acho que é importante nós sermos pessoas um bocadinho mais humanas. Eu acho que às vezes se perde a humanidade e é uma característica que eu acho que toda a gente devia ter.

Está a pensar, por exemplo, perde-se a humanidade com os refugiados, perde-se a humanidade com o sofrimento humano?

Sim, esquecer-se de olhar pro lado quando as pessoas falam, por exemplo, dos refugiados: "Agora vêm pra cá". Nós temos que pensar por que eles vêm pra cá. Não é porque lhes apetece.

Podíamos ser nós.

Podíamos ser nós. Uma pessoa não atravessa o mar porque lhe apeteceu, agarrada a uma boia. A pessoa atravessa porque tem medo, porque está desesperada, por tantos outros motivos. Ninguém vai pôr a vida em risco só porque sim, só porque lhe apetece.

Que outras causas a tocam?

Tantas. As discriminações, o racismo, a homofobia, tudo isso são questões que eu acho que não deveriam ser questões. Para mim não deveriam ser questões. Mas infelizmente são. E infelizmente ainda há muita gente.

Mas é bom haver cada vez mais vozes.

Espero que sim.

Ó Terzinha, voltando à vida de família, já percebi que os seus pais foram, e são, o grande apoio, o pilar, a retaguarda, o porto de abrigo. O que foi preciso fazer pra os convencer de que esta era a sua vida? Ou também não foi preciso convencê-los?

Não, foi pior.

É porque começar a ir cantar à noite? "Olha, tenho que ir cantar à noite e vou chegar à meia-noite e tenho só 13 anos, 14 anos, 15."

Bem, eu não tive que os convencer. Eu acho que eles é que me convenceram a mim. Eu acho que toda mundo me convenceu a mim, na verdade. Não, nós íamos ao fim de semana só, até aos meus 17 anos, eu só ia aos Frades quase ao fim de semana. Durante a semana ia quando estava mais tranquila da escola.

Onde é que começou?

Comecei a ir à Mesa de Frades.

Onde começam todos os grandes e os bons.

E o meu prêmio das boas notas, quando eu era mais nova, era ouvir a Carminho, porque a Carminho cantava à segunda e à quarta. E então eu tinha boas notas na escola e podia ir ouvir a Carminho numa quarta-feira ou numa segunda-feira. Me deitava mais tarde nesse dia. Então era um dia muito especial. Mas os meus pais sempre foram comigo, tranquilamente, todos os fins de semana, sextas e sábados, lá íamos nós.

Seus pais sabem o que têm em casa, não é?

Sabem, sim. Porque as coisas corriam bem. Também se não corresse, se eu começasse a tirar más notas.

Não, mas eu digo isto também em relação à voz, o gostar de a ouvir.

Sim, são os meus maiores fãs, acho eu. Pelo menos eu quero acreditar que sim. Pelo menos eu sinto isso. Sinto esse carinho e essa admiração por parte dos meus pais.

Eles é que a convenceram, isso é extraordinário.

Não, mas eu digo isto várias vezes, eu tive que aceitar esta profissão, porque não era o meu plano. Porque eu sempre quis ser médica, na verdade.

Ia te perguntar qual era o seu plano.

Era o meu plano A, eu queria ser médica.

E sente-se cada vez mais distante dessa possibilidade?

Cada vez mais distante. Totalmente.

Queria ser médica por alguma razão ou por esta ideia romântica?

Pelo lado mais humano.

Sim, de resgatar, e de curar, e de salvar.

Sim, que depois não é bem assim.

Nem sempre.

Nem sempre é isso. Mas depois rapidamente percebi que se calhar não tinha estofo pra aquela profissão. E no dia em que eu percebi que ia cantar pro resto da vida, foi um dia curiosamente triste.

A sério? Porque teve que abdicar?

Abandonei outras coisas. E aquilo pra mim foi muito confuso, porque eu sou uma pessoa que planeia as coisas e eu agora faço isto, depois faço aquilo.

É uma control freak.

Sim.

É muito controladora.

Sim, muito controladora. E de repente, começa tudo a sair de fora do meu controle e eu penso: "E agora, o que eu faço? Vou cantar, mas vou mesmo?" E os meus pais já sabiam, há séculos. Toda mundo sabia, menos eu. Fui a última a saber. Ou pelo menos a aceitar, acho eu. Portanto, acho que eles é que me convenceram a mim.

Engraçado isso, e sobretudo num tempo em que os médicos nos salvaram literalmente as vidas, literal e metaforicamente.

É uma profissão que eu admiro muito.

É muito impressionante a coragem pra estar em qualquer linha da frente e pior ainda quando não se pode curar. Quando só se pode estar a acompanhar.

Exatamente.

Ou quando se tem que transmitir as más notícias.

As más notícias.

De cada, ia aqui pedir pra ouvir mais uma das suas músicas deste novo disco, este disco que se chama Agora, e esta música chama-se Batom. Por quê?

Batom, porque esta história é toda em torno de um batom. E a questão é: se a menina que está a falar nessa história, a menina ou o rapaz, quem quiser usar batom, se usar batom e for para uma festa, é porque não quer ter nada com aquela pessoa, porque depois vai se notar, então não vai pôr o batom. Quando não põe batom, é porque ainda há a possibilidade de vir ali um romance.

Vamos ouvir.

Não ponho batom, porque tenho o dom de saber que é hoje que me vais beijar. Ponho-me bonita, mas sem muita fita, ouvi que se foge de quem quer brilhar. Só levo um sorriso, vou fazer-me ao piso, causar prejuízo no teu coração. Olho de relance, mas sem muita chance. Não quero um romance entre a multidão. Vem, se for verdade, mesmo que haja perigo. Vem, se for verdade, anda perder-te comigo. Vem, se for verdade, mesmo que haja perigo. Vem, se for verdade, anda perder-te comigo. Eu assumo o fogo, gosto deste jogo de um ter que não tem, de um querer com travesso. Ária irreverente, finjo-me indiferente, não conto a ninguém que és o meu avesso. Com subtileza e muita certeza, roubo a firmeza do teu olhar sério. Mais tarde ou mais cedo, cais no meu enredo e o nosso ser aumenta o mistério.

É muito bonito e, sobretudo, é muito interessante pensar que as letras são suas. É raro, eu diria que é raro, mas pode ser ignorância minha, é raro as fadistas, os fadistas serem cantautores, ou não?

Sim, é raro. Começa a se tornar um pouquinho mais comum agora. Começaram a surgir novas fadistas que começaram a escrever, mas não é uma coisa muito comum. E eu comecei a fazê-lo por segurança, para me proteger, porque eu ouvia muitas vezes: "Teresinha, essa letra é muito pesada pra tua idade, não podes cantar isso, não pode ser, não percebes essa letra". Eu pensei para mim: "Então, mas se eu escrever as minhas próprias letras, ninguém me pode dizer que eu não percebo. Se eu escrevi, eu hei de entender o que escrevi".

E foi fácil começar a escrever?

Foi, porque eu tive um desgosto amoroso. Tinha eu 12 anos.

Grande fonte de inspiração.

Aos 13 anos, um drama que me fez escrever assim a primeira letra. E ficou guardada, nunca peguei nela. Depois, houve um dia que eu pensei assim: "Aquilo são umas quadras, eu podia cantar aquilo". Fui buscar e disse: "Ainda por cima estão com a métrica certa, posso mesmo cantá-las". E foi aí que percebi que podia começar a escrever as minhas coisas. Tinha 13, 14 anos, quando comecei a escrever de uma forma mais consistente.

E aí também teve que ter alguma coragem, não é? Alguma liberdade interior, porque só me faltava esta miúda que é nova e que ainda por cima tem esta pretensão de também escrever as suas letras. Isto não deve ser fácil neste meio.

Ou achavam muita graça, ou achavam muito descabido. E então eu tive que lidar com os dois lados. Ainda ouvi: "Mas pra que escreve as suas letras? Há coisas tão bonitas, está a escrever pra quê?" E depois tinha o outro lado que é: "Que bom que escreve, explore isso, use isso". E há quem goste, que me peça: "Olha, escreve essa letra pra mim". Escrevo.

Gostava de lhe perguntar, há pouquinho falou da Carminho, disse que quando tinha boas notas ia ouvi-la. Conhecem-se pessoalmente?

Sim, conhecemos. Carminho é uma grande referência e eu conheci ela na Mesa de Frades, há 13 anos. Tenho uma grande admiração por ela e sem dúvida que continuo sempre a seguir o percurso dela e encontramos várias vezes pelos fados.

É muito giro. Gostava de voltar ao seu fado, porque eu acho que tudo que possamos dizer está a anos-luz, aquém daquilo que é ouvir a sua voz e é um privilégio tão grande tê-la aqui, sobretudo nesta fase da carreira, porque daqui a pouco já ninguém a apanha e depois já é preciso pedir muito pra ter uma entrevista.

Não.

E por isso, há alguma música do primeiro disco, pelo amor, ou desta, com que pudéssemos fechar?

Acho que vou escolher uma deste disco. Pode ser, uma coisa bem disposta também, que é o "Amor não é Brincadeira", que é uma coisa "não quero saber de ti e já nem sei quem tu és". Portanto, vou cantar um bocadinho do refrão. Não quero sentir o que já senti, não quero ouvir falar mais de ti. Águas paradas não movem moinhos e eu não preciso dos teus carinhos. Não sei o teu endereço e até já nem te conheço.

Brava.

Obrigada.

Isto deve ajudar muito boa gente.

Adoro esta, esta não é minha, mas eu adorava que fosse.

De quem é esta?

Esta é muito antiga, foi cantada por uma fadista que é a dona Hermínia Silva, e cantada também pela Fernanda Peres, portanto, é uma letra muito antiga, mas que eu acho superatual.

Muito bem. E saímos assim.

Saímos, sim. Obrigada.

Obrigada, Teresinha. Espero que tenha um bom concerto e eu vou fazer tudo pra estar lá também com a minha mãe e várias pessoas.

Adorava.

Obrigada. Até dia 1.

Até dia 1 de junho.

Muito obrigada.

Obrigada.