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Bem-vindos ao Imperdíveis. Hoje com Vanda Nunes, licenciada em Direito em Coimbra. Exerceu advocacia, mas também começou a fazer, ao mesmo tempo, uma carreira política, não pelas Jotas, mas a convite, por desafio de cidadania. Em 2001 foi eleita vereadora da Câmara Municipal de Alpiarça, onde teve vários pelouros: Recursos Humanos, Cultura, Educação, Museus, Patrimônio Municipal. Depois foi vice-presidente desta câmara e presidente da Câmara de Alpiarça em 2008. Em 2010, foi vice-presidente das CCDR, que é a Comissão Coordenadora de Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo. Atrapalha aqui um bocado esta sigla e este enunciado. Também fez parte da administração da ML, uma empresa que nem todos adoramos. Foi assessora na Câmara Municipal de Lisboa, onde tinha um pelouro engraçado e de grande resiliência, que era o mar, já vamos perceber por quê. E desde 2008 passou a trabalhar com Edmundo Martinho, o Provedor da Santa Casa de Misericórdia, primeiro como assessora, e agora é diretora da Valor T. Vamos começar pela Valor T. Bem-vinda, Vanda. Queria começar por esta Valor T. Queria perceber o que é exatamente, apesar de haver uma campanha em curso para que os cidadãos percebam, mas gostava de ouvir de si, já que criou e cocriou este conceito.
Muito obrigada, Laurinda. É um gosto enorme estar aqui.
O prazer é meu.
Muito obrigada pelo convite. A Valor T nasce de um sonho antigo do nosso provedor, doutor Edmundo Martinho, de poder apresentar uma nova resposta, sendo que a Santa Casa já tem várias respostas para a área da deficiência, respostas de assistência. E há muito que o doutor Edmundo Martinho pensava que era importante que a Santa Casa pudesse dar um contributo focado na empregabilidade de pessoas com deficiência. Sabemos que muito embora estejamos hoje num período muito difícil, em que o desemprego aumentou, como sabemos, com dimensões ainda não definidas, mas também sabemos que mesmo numa situação anterior de quase pleno emprego, mantinham-se números muito elevados, os conhecidos, e muitos outros que não conhecemos, de desemprego de pessoas com deficiência. E a Santa Casa tem várias respostas, desde logo o Centro de Reabilitação de Alcoitão, que é muito conhecido, entre outras. Mas faltava esta resposta focada na empregabilidade de pessoas com deficiência. E por isso foi pensado como construir, o que fazer. Claramente numa articulação muito próxima com o IEFP, o Instituto do Emprego, e com o INR, foi pensado um modelo de cooperação que pudesse ter uma resposta o mais possível próxima e eficaz.
Vanda, então trocando por miúdos e deixando um bocadinho de lado uma narrativa mais institucional, de que se trata? Estas pessoas têm algum tipo de deficiência, procuram a Santa Casa e vocês, de repente, criam uma agência, no fundo, são agenciadores, ou como é que isto vai funcionar para estas pessoas e também para gerir as expectativas das pessoas a partir de agora?
Exatamente.
Como é que isto funciona?
Muito bem. Nós funcionaremos como uma agência de empregabilidade, ou seja, nós temos uma plataforma, a plataforma Valor T, onde as pessoas com deficiência se podem registar. É uma plataforma muito aberta, no sentido que cada pessoa que sentir a necessidade, a vontade, a força e a necessidade de procurar uma oportunidade de trabalho.
Isto é só para Lisboa, para a área da Grande Lisboa?
Não. É uma resposta que a Santa Casa procura dar a todo o país. É evidente que estamos a trabalhar daqui de Lisboa, mas em articulação com diferentes parceiros e, desde logo, por isso eu falava há pouco no IEFP, é o IEFP que garante com a sua rede pública, esta cooperação também conosco para que possamos responder ao país.
E as pessoas que se inscrevem, podem ser de todas as gerações, de todas as áreas de especialidade e interesse.
Exatamente. Por isso eu falava numa plataforma aberta, onde as pessoas se registam. O que nós vamos procurar fazer? Fazer a avaliação do seu perfil, e não numa ótica assistencialista e de um projeto que parte de um pressuposto de que existe ali uma dificuldade, ou o projeto não é focado na incapacidade da pessoa, mas antes pelo contrário. O que nós pretendemos, Laurinda, e por isso o nome é Valor T T de talento e de transformação é procurar na pessoa o seu talento, a sua capacidade, o que a pessoa pretende fazer, gostaria de fazer, está em condição de fazer. É esse o grande mote e grande força do projeto, é procurar em cada pessoa esse talento. Depois fazermos, como já estamos a fazer, uma relação com as empresas. E posso lhe dizer que tem sido uma grande surpresa, muito embora o momento seja de dificuldade, o registro de empresas nesta plataforma, e mesmo antes de nos lançarmos, como nos lançamos no dia 1 de maio, nós temos estado a falar com empresas portuguesas, empresas que querem abraçar este caminho conosco, e a ideia é que elas se registem também na nossa plataforma, identifiquem as suas necessidades, e o nosso grande desafio é, tendo as pessoas registadas e chegando até nós, partilham conosco essa confiança de nos dizerem ao que vêm, ao que querem, e nós conseguirmos encontrar, traçar o melhor perfil possível e fazer o tal match entre as necessidades das empresas. Tudo isto só será possível com o envolvimento dos parceiros, das associações que existem em todo o país.
E também recorrendo a vários protocolos que já foram assinados, nomeadamente estou a pensar no ICF, o Inclusive Community Forum da Universidade Nova, que conseguiu congregar 30 das maiores empresas em que se comprometeram a empregar pessoas com alguma deficiência, e isso está a funcionar e vocês vão estender esta rede. No fundo, é uma rede que tem que se estender para todos os lados e tem que se replicar.
Tem que se replicar aquilo que acabou de dizer, Laurinda, o ICF da Nova, também o Grace e outro tipo de intervenção mais direcionada para as áreas da deficiência e das diferentes áreas da deficiência.
O Vila Convida, o Café Joaía.
Exatamente, o Vila Convida, a Associação Portuguesa de Asperger. Temos várias federações a trabalharem conosco, que representam os centros de recursos, que são centros que são financiados pelo Instituto de Emprego. Há uma rede nacional que nós queremos alargar o mais possível e a Valor T surge como um projeto que essencialmente procura fazer pontes, procura dimensionar o que se faz de bem em cada concelho, em cada distrito, e poder fazer com que mais pessoas tenham acesso a esta resposta. E esse é o grande objetivo deste projeto também, congregar.
Congregar e fazer essas pontes. E não há o risco aqui de se correr o risco, passa a redundância, de criar expectativas que depois podem não ser correspondidas? Ou seja, dado o nível de desemprego, dado o nível de carência, dado o nível de frustração de muitas pessoas com deficiência por não conseguirem chegar ao mercado de trabalho, de repente, ao ver uma Valor T, parece que se abre, de facto, uma grande porta. Mas essa gestão de expectativas, o imediatismo, os timings, é realista pensar que se calhar no fim do ano empregaram X pessoas, empregaram 1000 pessoas? É realista pensar assim?
Exatamente, porque a gestão de expectativas tem que ser muito bem ponderada e porque nós estamos a falar de muitas pessoas que estão, de facto, muito cansadas de promessas e de diferentes iniciativas, que é certo e é justo dizer que muito se fez, que muito se foi fazendo, mas há muito por fazer. E a única coisa que, com toda a humildade, dizemos é que a Santa Casa pretende dar este contributo e procurar fazê-lo da melhor forma que conseguir, com os parceiros e com o envolvimento o mais possível dos diferentes parceiros. Por isso lhe dizia, Laurinda, que nós convidamos todos os parceiros desta área.
E todos abriram as portas.
E todos abriram as portas. Agora, o que é que nós podemos dizer? Podemos dizer que com cada pessoa procuraremos fazer um acompanhamento de proximidade, que vai desde a sua avaliação, a procura do tal talento, até à integração no mercado de trabalho, na colocação e pós-colocação.
Então em casos concretos de pessoas que já avaliaram, com quem já estabeleceram essa relação, podemos falar de pessoas concretas? Ou seja, quando diz que, e ainda bem, que há cada vez mais projetos que focam nos talentos, nas competências e não nesta ou naquela deficiência, porque deficiências temos todos, incompletudes temos todos, fragilidades temos todos, e por isso ainda bem que há uma agência ou um projeto que foca nos talentos. Podemos falar de casos concretos? Se não quiser dar nomes, mas esta pessoa que chegou, para percebermos em que ponto é que estamos.
Sim, nós lançamos o projeto no dia 1 de maio e o que lhe posso dizer nesta fase é que temos muitas inscrições já, são várias centenas de registros na Valor T. Estamos a procurar organizar para responder a este número de solicitações, mas desde logo dar-lhe um exemplo de uma pessoa que trabalha na própria Valor T e que eu, quando iniciamos este caminho, convidei para integrar a equipa. É uma pessoa que tem paralisia cerebral e que é Uma pessoa absolutamente excepcional do ponto de vista pessoal e profissional, que começou por caracterizar o território, começou por encontrar as soluções que já existiam, que é uma colaboradora excelente.
Como é que se chama?
Cátia Correia. E não é a única.
O seu dono.
O seu dono. Não será a única, queremos contratar mais pessoas, porque nós temos áreas de deficiência e cada área é um mundo imenso. A área da surdez, por exemplo, tem que ter uma resposta muito mais próxima, eficaz e efetiva. E por isso, que cheguem até nós e que consigamos juntos, a Santa Casa e os seus parceiros, poder responder o melhor possível para que consigamos juntos transformar a vida do maior número de pessoas possível.
Vanda, eu quando pensei em entrevistá-la, porque conheço o seu trabalho, o seu percurso e independentemente da Valor T, interessa-me também falar disso, mas quando a contactei para fazer esta entrevista, dei-me conta de que a campanha estava no ar e pensei: "Vale a pena fazer a entrevista ou não? Vai parecer uma coisa que pode parecer quase uma encomenda", mas não. Eu acho que quem segue estes programas sabe que há uma liberdade enorme e os imperdíveis são, de facto, pessoas imperdíveis pela sua ação, pelo seu pensamento, biografia. E pensei: "Como é que com uma campanha, e ainda mais um programa, e mais toda a divulgação que será feita, como é que vocês conseguirão dar resposta a tantas pessoas que estão realmente a precisar dessa resposta nas áreas de que fala e depois cada pessoa, porque cada caso é um caso. E como é que isto é possível? Como é que vocês vão ser capazes de ser funcionais e de ir ao encontro destas expectativas que são, de facto, às vezes desesperadas?
Esse é o grande desafio para o qual nos estamos a preparar todos os dias. E o que é que estamos a fazer? A contactar pessoa a pessoa. Nós somos uma equipa, uma unidade de missão dentro da Santa Casa, que junta, no entanto, à sua volta uma rede colaborativa interna. Antes, quando vinha no caminho para aqui, acabei de falar com o colega diretor de Recursos Humanos e a dizer-lhe: "Precisamos de mais pessoas para nos ajudar a poder fazer as entrevistas dentro do espaço que entendemos que é razoável fazer". Como dizia muito bem, o que nós queremos é uma gestão muito eficaz destas expectativas e para isso, como lhe disse, é a Santa Casa que se está a preparar e a tentar melhorar em cada dia essa resposta. As pessoas estão a aceder à plataforma, todas as dificuldades que têm estão a partilhar conosco. Nós estamos a procurar responder com a maior celeridade possível, mas queria pedir também e aproveitar esta oportunidade para-
Eu até senti-me também, um bocadinho, fiquei a pensar se ficaria responsável ou irresponsável por algumas expectativas defraudadas, porque sei, a minha mãe foi das equipas pioneiras da inclusão de pessoas com deficiência e portanto, é uma realidade que me toca particularmente e assumo que é isso que me faz logo querer entrevistar e saber mais e participar e de certa forma amplificar este projeto. Mas sei que as expectativas destas pessoas são muito sensíveis. A sensibilidade está à flor da pele, porque de facto são pessoas que já ouviram muitos nãos, ou ouviram aqueles sins, aquela porta que parece que se vai abrir, mas nunca se chega a abrir, ou aquela porta que também nunca se chega a fechar, e isto deixa as pessoas suspensas num limbo, que às vezes é difícil.
Muito difícil, e é por isso que queremos o que fazemos dia a dia. Ora, nesta fase é disso que estamos a falar. Quando nós lançámos a Valor T, não sabíamos se no dia a seguir iríamos ter 50, 100, 1000 registos.
Quantos é que tiveram?
Nós nos primeiros dois dias tivemos cerca de 500 registos. Creio que aqui vamos ter que partilhar um bocadinho também a compreensão e no fundo a parceria.
E ajustar as expectativas.
E ajustar as expectativas.
Mas isso também se consegue na comunicação. Se calar, ao responderem a cada pessoa disserem: "Olhe, estamos a começar". Eu acho que de facto tudo se joga na comunicação, porque se uma pessoa que se regista souber que pode ter que esperar um mês, ou pode ter que esperar três semanas ou duas semanas para voltar a ser contactada, as pessoas fazem isso. O problema é que nem sempre esta comunicação-
É o que estamos a fazer. Estamos a contactar todas as pessoas que se registaram na plataforma, a telefonar dia a dia e a dizer: "Vamos agendar", às pessoas que já estão em fase de entrevista. Estamos a procurar gerir da melhor forma possível este calendário para que, e disse muito bem, para que as pessoas sintam que tiveram uma resposta, nem que seja a pedir a sua compreensão, para que tenham que esperar duas semanas ou o que for, para voltarmos a falar. Mas há um primeiro contacto que queremos muito fazer e que apelando, naturalmente, à compreensão de todos.
E aliás, isto devia ser feito com todas as pessoas com ou sem deficiência, porque hoje em dia as pessoas desempregadas que são entrevistadas, que são contactadas e depois nunca mais ninguém lhes diz nada. É uma coisa brutal, acontece a todos e, portanto, ainda bem que é uma agência nova que se compromete publicamente a não o fazer. Assim como eu tenho esta inclinação também para esta grande causa da inclusão, da valorização das pessoas com algum tipo de deficiência, até porque conhecemos os outros recursos, pergunto-lhe se esta causa a toca de uma forma especial, por alguma razão especial.
Aurinda, toca-me porque nós falamos muito de trabalho digno para todos e por isso simbolicamente quisemos lançar a Valor T no Dia do Trabalhador. Quisemos trazer para a agenda do Dia do Trabalhador esta matéria. E porque exercer a cidadania plena a que todos temos direito significa poder ter autonomia, poder ter rendimento para viver. E aquilo que nas diferentes funções que fui desempenhando, que fui também testemunhando e assistindo, é que efetivamente esta área tem que ser tratada neste espaço de intervenção. É que percebemos que exista medo por parte das empresas, entidades empregadoras, e percebemos isso perfeitamente. Não é que não haja sensibilidade. Há, de facto, uma dificuldade em adaptar procedimentos e para isso nós trazemos também esta solução de acompanhamento das entidades empregadoras.
Não é só fazer a ponte, é faço a ponte e comprometo-me a ajudar.
Esta causa é cívica.
É de todos nós.
É de todos nós e, portanto, aquilo que me trouxe, quando o senhor Provedor me convidou a contribuir para a construção deste projeto, que ele definiu e da forma como entendeu definir, é para mim claramente um privilégio poder fazê-lo com todo o empenho. É um grande desafio, como diz, é uma enorme responsabilidade. Sentimos que passo a passo temos que juntos, coletivamente, participar nesta resposta a que todas as pessoas têm direito e que ninguém, como se tem ouvido muito ultimamente, ninguém neste processo fique para trás, nesta retoma que o país deve fazer para se reerguer desta crise. Que exista uma entidade, para além das entidades públicas, como é o caso do IEFP, naturalmente, que se foque nas pessoas com deficiência, numa discriminação claramente positiva, porque é um processo que tem diferenças, que tem especificidades.
Uma sintonia brutal.
E cá estaremos para poder responder a essas diferenças com as respostas, também elas diferentes, que se exigem.
E esperemos que este seja um caso de estudo e que contagie, que inspire e que transforme. Vamos fazer uma pausa, voltamos já a seguir às notícias. Até já. Voltamos à conversa com Vanda Nunes, licenciada em Direito, exerceu advocacia, mas também com muita ação cívica e política. Gostava de ir ao seu percurso. Sei que a sua ação política nunca nasceu de ter pertencido a nenhuma J, de nenhum partido. Como é que começou? Fez Direito em Coimbra. Fazer Direito em Coimbra já cela va sans dire. É exigente. E depois começou como advogada e algum dia teve um convite, um desafio.
Fiz Direito em Coimbra. Direito sempre foi o curso que pretendi fazer. Coimbra é, de facto, uma lição e não só pelo Direito, naturalmente, mas por tudo o que vivi, os colegas e amigos que fiz para a vida e desde logo, não só a formação académica que se traz, mas também a cívica, num espaço de intervenção que é possível ter de discussão. Coimbra também proporciona isso, de debate.
De ideias, de opostos.
De ideias, exatamente.
De abertura de espírito.
De abertura.
De pensamento crítico.
Pensamento crítico, liberdade de pensamento. E nesse sentido, comecei então a exercer advocacia aqui em Lisboa, onde fiz o estágio depois. E exercia a advocacia quando a minha terra, onde nasci e sempre vivi, o presidente de câmara que tinha sido eleito numa data anterior.
A sua terra, estamos a falar de Alpiarça.
De Alpiarça. Sou ribatejana. Alpiarça sempre foi o meu local, para além da minha terra, naturalmente, mas de escolha para viver, mesmo estando a trabalhar em Lisboa, continuo a viver lá. E o presidente de câmara de então desafia-me para o acompanhar num segundo mandato dele, primeiro meu.
E foi a sua primeira entrada como vereadora.
Foi. Não tinha, de facto, nenhuma participação, nem partidária, nem política anterior. E olhei para este desafio, Laurinda, como senti e vivi a advocacia. Na advocacia, as pessoas passam-nos um mandato para as defendermos, defender os interesses da pessoa no espaço que entendem.
De conflito.
Conflito ou de defesa dos seus interesses. Pode não ser só de conflito, mas defesa dos seus interesses. E olhei sempre para este desafio da mesma forma. Ou seja, aqui é-me passado um mandato através da eleição de um voto de confiança, um mandato de confiança, de poder, da melhor forma que possa, efetivamente, defender os interesses, no caso, de uma população que necessitava de um maior desenvolvimento, mais sustentável. E foi isso que me propus, dar o meu contributo para que a minha terra pudesse ser uma terra melhor.
E essa sua experiência, o que aprendeu sobre si, o que aprendeu sobre esta ação, que no fundo vai muito do seu lado de cidadã empenhada, interventiva. Começa por aí, não alinhada inicialmente com num sistema partidário. O que aprendeu sobre si? Aprendeu que é preciso ter jogo de cintura? Aprendeu o quê? Aprendeu o melhor e o pior?
Cresci muito, Laurinda. Aprendi, de facto, muito. O melhor e o pior que a Laurinda refere é que o olhar para uma causa como o grande esforço do nosso dia a dia e conseguir, de facto, responder ao que as pessoas esperam de mim, foi sempre isso que me empenhou, foi sempre isso que me fez dedicar-me e responder com toda a competência àquilo que me era pedido em cada dia. Estamos a falar de uma autarquia, ainda por cima muito pequena, com cerca de 10 mil habitantes, onde o exercício da nossa função se exerce olhos nos olhos.
E saber o nome das pessoas.
É disso que estamos a falar. As pessoas conhecem-me desde pequena, sabem quem eu sou, sabem onde iriam pedir satisfações, e este compromisso cara a cara, todos os dias, exige muito de nós. E isso foi a parte que mais gostei, o conseguir contribuir para transformar a vida das pessoas. Eu tive o pelouro da educação, apaixonei-me pela educação oito anos, e conseguíamos em cada dia, em cada projeto que construíamos, responder a crianças com necessidades completamente diferentes. E essa evolução, o poder, com a nossa ação, sentirmos esse retorno na vida das pessoas, é fascinante. É fascinante e é difícil, depois, de voltar à vida normal, eu diria, Laurinda, neste sentido que há uma realização tão grande.
Sim, quando uma pessoa tem o poder de transformar as vidas dos outros para melhor, é difícil voltar a um papel em que o poder é muito mais relativo e distante, não é?
Exatamente. Agora, de facto, a minha experiência do ponto de vista mais partidário era nenhuma, e tive, obviamente, que aprender a gerir todo esse processo. Considero que os partidos são absolutamente essenciais para a nossa vida em democracia, o mais possível. Parece-me é que cada vez mais há que perceber o que as pessoas pensam, o que as pessoas pretendem de quem as representa, se essa representatividade está a ser feita e o que está a acontecer para que as pessoas se desprendam cada vez mais do exercício da ação política. E esse desprendimento e esse afastamento.
Desligamento.
Esse desligamento é, para mim, claramente uma grande preocupação, porque com esta pré-quase condenação de quem se dedica à vida política numa presunção não de inocência, mas de culpabilidade. E isso é altamente preocupante.
Ainda por cima há imensas pessoas que passam a ganhar menos, passam a ser muito mais escrutinadas e passam a ser desconsideradas.
Completamente, Laurinda.
E no fundo, temos tudo, do melhor ao pior, temos os melhores e grandes missionários na política e temos também a grande ganância, as pessoas sem ética absolutamente nenhuma e outras com uma ética irrepreensível.
Estamos a falar de pessoas e como em todo o espaço da sua atuação, existem pessoas e pessoas. Isto acontece na política.
Mas a política mancha mais.
Agora, há uma exposição, efetivamente.
E há uma obrigação, um imperativo moral de dar o exemplo, de quem gere.
Exatamente. E se estamos a falar de serviço público, se é disso que estamos a falar, que o honremos. Portanto, foi isso que procurei fazer todos os dias. É evidente que nessa altura, Laurinda, confesso-lhe que eu não tinha 30 anos quando fui para a Câmara e procuro manter sempre esta realidade como certa, que de facto o serviço público é para honrar, o serviço público é para exercer. E mesmo que tenhamos que encontrar no caminho, muitas vezes, quem não pensa e, sobretudo, quem não aja dessa maneira, mesmo que muitas vezes nos quase que possamos sentir uma minoria nesse espaço, mas não pode ser. Existem sempre pessoas que conosco farão equipa e conosco farão músculo para conseguirmos honrar a confiança que as pessoas depositaram em nós. E foi isso sempre que procurei fazer em cada dia na minha atuação.
Quem a conhece sabe que é de uma ética irrepreensível, de uma grande humanidade e tenho a certeza, a partir dos testemunhos de quem a conhece, de vários espectros partidários, que dizem que a sua ética é, de facto, uma linha reta e vertical.
Muito obrigada.
E acho que se vê também pela sua ação e acho que a Valor T vai parar às suas mãos também por isso, por esse princípio, por essa sensibilidade, essa humanidade e essa capacidade de fazer acontecer. Mas é engraçado porque a Vanda tem uma voz muito doce, é uma pessoa muito forte, com uma personalidade forte, muito doce e trabalhou e trabalha em circunstâncias adversas, uma delas a AML, que é uma das empresas e marcas mais odiadas por uma quantidade expressiva da população. Por que acha que uma empresa como a AML, que era suposto defender os cidadãos, por que acha que as pessoas se sentem abalroadas, se sentem perseguidas e maltratadas por empresas como a AML? É uma questão de comunicação? É uma imagem que se construiu mal?
Laurinda, foi o grande desafio que, na altura, me foi apresentado pelo doutor António Costa, presidente da Câmara de Lisboa. Eu passei antes pela Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo. Portanto, passei de uma realidade local para um grande desafio a nível regional, mas que me deu também essa visão supramunicipal. E depois voltei a uma empresa municipal, embora Lisboa seja-
Portanto, de vereadora a presidente da Câmara, de presidente da Câmara à comissão.
São experiências diferentes, mas todas elas bastante ricas.
E depois estás como novíssima. Quantos anos tem? Nem te perguntei.
49.
49. Sim, mas parece continuar a parecer 30.
Muito obrigada. A EML foi um grande desafio. Aliás, eu brincava com o Miguel Honrado, que na altura era presidente da RGAC, e dizia: "Ó Miguel, só fazem coisas boas e bonitas para as pessoas se divertirem e nós na EML somos odiados".
Militantemente.
Devo dizer, Laurinda, que adorei o desafio e o trabalho na EML. Tem pessoas fantásticas.
Tem, certamente.
Tem pessoas fantásticas.
E que são muito estressadas quando se produz uma marca.
A EML trouxe, sobretudo, e por isso chama empresa de mobilidade e não só de estacionamento, uma melhor mobilidade para a cidade de Lisboa. Isso, naturalmente, tem alguns custos. O número de carros que existem na cidade é muito superior àquele que poderia existir, mas responde às necessidades dos seus residentes. Àquilo que me perguntou, a resposta que posso dar de um modo mais sucinto, é claramente também uma questão de comunicar, de saber que as pessoas percebam em que é que, no fundo, a sua moeda, ou os dísticos, ou aquele que é o pagamento, qual é o retorno que isso tem para a cidade. Eu acho que aqui, também foi o que procurámos fazer, foi melhorar a relação com o utente, com o cliente, com o residente, mas claramente que há que aprofundar esta questão comunicacional.
Mas acho que há coisas que melhoraram significativamente.
Sim, acho que sim.
Há uns anos atrás era de enlouquecer.
Mas foi uma grande experiência, Laurinda. Foi, de facto, uma grande experiência e tenho muitas saudades da EML.
E a sua resiliência, que deve ser grande, porque já a treinou, já a testou e já a provou, também se reforçou aí.
Muito. E, sobretudo, perceber exatamente isso, como municipalizar um bocadinho mais a EML, no sentido de a aproximar dos seus destinatários, que são as pessoas que residem em Lisboa e as pessoas que a visitam. E claramente, eu lembro-me, Laurinda, há muitos anos, de ver aquele Terreiro do Paço cheio de carros. Era um parque de estacionamento. Houve uma evolução muito grande na cidade e o poder usufruir da cidade, respirar a cidade, exige, naturalmente, uma empresa que cuide de organizar o seu estacionamento. E isso é uma tarefa difícil para qualquer um.
Difícil, é muito difícil. Outra fase da sua vida profissional que também gerou muita resiliência e muito músculo foi o mar, esse papel que teve na Câmara Municipal de Lisboa. Pode ajudar a perceber o que fez aí, por que teve que ser tão resiliente?
É verdade, Laurinda, eu olho para trás e penso: bom, mas são diferentes áreas de trabalho, tão diferentes. Têm, de facto, eu acho que este denominador comum que falávamos há pouco, em que cada um de nós pode contribuir para que o seu país melhore dentro da sua área de intervenção. Ok, eu comecei por trabalhar esta área do mar na Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional. Estamos a falar de 52 municípios. O que é que ligava todos estes municípios? O rio, o mar. O mar como área de desenvolvimento do país. E não só no que é tradicional e a economia tradicional do mar, mas começámos a trabalhar um bocadinho, Laurinda, na CCDR, como é que nós, enquanto país com este recurso imenso que temos, em que é que o podemos transformar efetivamente em desenvolvimento. E começámos por focar no conhecimento do mar. E esse trabalho foi iniciado na CCDR, depois eu fui para a Câmara de Lisboa, e nessa altura ainda com o doutor António Costa, no que respeitava a projetos para a década seguinte, claramente pretendia que o mar tivesse um espaço. E nós procurámos fazer isso, juntar universidades, pensar como é que as universidades se podiam unir em torno do conhecimento do mar, e começámos por criar essa união para poder responder, quer às empresas, quer que se dedicam nas diferentes áreas de intervenção da economia do mar. Falava-se muito pouco nessa altura, ainda. Felizmente, existe agora um Ministério do Mar, que dá corpo a toda essa estratégia nacional para o mar. E de facto, foi também um período muito interessante. Conheci o que de melhor se faz no país nesta área. Olhamos para o mar, não é só praia e turismo, mas também o que temos de fazer para unir as universidades em torno do conhecimento do mar e poder levá-lo onde ele precisa de ser levado, que é respostas à economia e que possamos usufruir, beneficiar e, sobretudo, explorar sustentavelmente, diria, este recurso que é o maior que temos.
Vanda, chegamos à reta final da nossa conversa. É interessante ver também quem está por trás das instituições, porque as siglas, algumas marcas, e ainda bem que falamos de marcas, umas que são mais queridas, outras menos queridas, é importante perceber também a motivação com que se está nestas marcas mais institucionais e aquilo que se pode fazer. Agora queria perguntar a si, Vanda, quem são as pessoas que mais a inspiram, onde é que vai buscar as forças, em que é que acredita, quais são os seus pilares?
Laurinda, as pessoas começam por ser, desde logo, quem nos forma, quem nos educa. A forma como os nossos pais nos transmitem os valores, o acreditar que é possível, a resiliência.
Teve a sorte de ter pais assim.
Tenho a sorte de ter pais que trabalharam sempre muito nesta perspectiva de partilhar connosco, sobretudo sermos cidadãos que podemos partilhar o nosso caminho dentro do que nos é possível contribuir para que a realidade à nossa volta melhore. E foi isto desde sempre. E pensar que ao longo de toda esta caminhada que fazemos como seres humanos que somos, há sempre quem se realize com isto, com o podermos transformar a vida dos outros. É evidente que há todo um caminho, quer a nível nacional, internacional, de grandes humanistas que me inspiraram e inspiram muito. Mas não trazendo aqui, não personificando, digo, Laurinda, que é o humanismo que cada pessoa tem que me inspira. E isso pode acontecer quando eu entro em qualquer sítio e vejo como é que o brilho no olhar dessa pessoa que está a exercer a sua função me transmite, quer como uma pessoa a nível internacional me inspira. O que importa é que eu sinta que a pessoa está efetivamente, em cada passo que dá, a contribuir para uma sociedade melhor, uma sociedade mais coesa e solidária. E desde logo, ter agora o privilégio de estar a trabalhar com um grande humanista como é o doutor Edmundo Martinho, com quem tenho tanto a aprender.
Já o entrevistei. Ele tem como mote de vida aquela música do Don't Worry, Be Happy. Ele que ainda por cima vive ligado a uma máquina durante a noite e acorda de manhã. É engraçado. Vanda, tem filhas?
Duas filhas.
Duas filhas. O que gostava que acontecesse na vida delas ou o que gostaria que fosse a sua marca na vida delas? O quê?
Laurinda, sobretudo os nossos filhos serem felizes, obviamente, que é o que nós gostamos e o que nós ambicionamos. Ser avó é uma grande ambição, confesso-lhe.
Mas isso é para si. A pergunta é: o que gostava de deixar como marca nas suas filhas?
Como marca, aquilo que acabei de descrever. Um sentido humanista, em primeiro lugar.
Contributo.
De contributo, de acrescentar valor, de somar. Mas que elas se realizem enquanto são duas mulheres excecionais. Uma já com 18, outra com 22 anos. E sobretudo, também essa resiliência, Laurinda.
Essa endurance para a vida.
Esse sentido positivo de construção, de esperança, de não perderem tempo com o que interessa muito pouco, mas que olharem para a tal floresta, mas com cada árvore, com o melhor do seu oxigênio positivo, estrutural e de esperança.
Vanda, o que não interessa para si seria o quê? Desperdiçar muito tempo em redes sociais e essas coisas assim?
Em redes sociais e com pessoas que efetivamente acrescentam muito pouco. E eu acho que é isso que devemos saber valorizar e desvalorizar.
A Vanda, no fundo, dá uma continuidade àquilo que os seus pais quiseram fazer consigo, não sei com quantos irmãos.
Com uma irmã que tenho também.
Ou seja, com as duas filhas, que deixem este mundo melhor. No fundo, deve ser assim.
Que sejam felizes, mas que possam partilhar dessa felicidade, deixando o espaço onde atuam, onde estão, onde se sentem bem, um bocadinho melhor. Sem nenhuma presunção, mas apenas com sentido de dever.
E convicção.
E convicção.
Muito bem, muito obrigada, Vanda. Obrigada pela conversa tão esclarecedora e tão motivadora. Obrigada, muitas felicidades.
Obrigada eu, Laurinda. Muito obrigada.