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Bem-vindos ao programa "Imperdíveis". Hoje com Zilda Cardoso, escritora, autora, cronista, blogger. Foi locutora de rádio aos 15 anos, fez crônicas literárias. Não se pergunta a idade a uma senhora, mas eu perguntei à Zilda se podia dizer. A Zilda tem 89 anos, que é uma idade maravilhosa. E nos anos 80 fazia artigos de opinião, tinha uma coluna que se chamava "O Cantinho da Foz", no 1º de Janeiro. Também foi a responsável por uma página semanal no Comércio do Porto, chamava-se "Feminino Singular", e foi uma mulher à frente do seu tempo a levantar as questões das mulheres, sejam as questões sociais, jurídicas, clínicas, de desigualdade, diferença, violência doméstica. Também tinha uma colaboração com a Comissão da Condição Feminina, aliás, foi muito celebrada a sua coluna e a sua página. Viajou muito ao longo da sua vida e diz sobre as viagens que fez e que faz, que é para manter a grande conversa universal, penso eu, numa referência ao filósofo Steiner, de quem gosta muito e de quem está sempre muito próxima no sentido da leitura, do ler e reler. Com a pintora Elvira Leite e com o fotógrafo Jorge Cardoso, fundou a Vantag, uma galeria de arte naïf. Foi a primeira galeria em Portugal com características comerciais. Mais tarde, isto evoluiu também pro design, o design português, promover, divulgar. Tem uma quinta maravilhosa em Ponte de Lima, onde se misturam peças do mais recente Alvar Aalto com projetos e peças do Siza Vieira. Escreveu e publicou vários livros. Hoje está aqui por causa do seu último livro, mas vou falar ainda dos outros. "A Rua do Paraíso", que é uma rua emblemática, uma zona emblemática do Porto. O livro "Ana Augusta", sobre a bisavó, que era uma mulher moderna, independente, tal como a Zilda. Publicou ainda "Cerejas de Celulóide" e agora acaba de publicar um livro maravilhoso que se chama "Da Minha Varanda", e gostava ainda de falar do blog que criou em 2008 e que se chama "O Fio de Ariadne". Demorei imenso tempo a enunciar o que faz. Espero que não me leve a mal. Zilda, que bom tê-la aqui. Obrigada por ter vindo a Lisboa e dar esta entrevista. Então começamos pelo fim, começamos por este livro, "Da Minha Varanda". O que é este livro, Zilda?

Eu acho que mais do que livro, é uma coleção de textos sobre temas muito variados. Para mim, dá uma sensação de que é um livro mais moderno, no sentido de que são pequenos textos. E admitem os comentários dos-

Dos leitores

...dos leitores. E eu acho isso muito importante.

Isto porque são os textos do seu blog. Este blog, que é o Fio de Ariadne.

O Fio de Ariadne. Tem é muito mais.

Tem muito mais. E tem ilustrações suas. Aliás, a capa é muito bonita, com uma ilustração sua, e cá dentro são ilustrações maravilhosas. Zilda, eu acho tão extraordinário que aos quase 90 anos continua tão ativa como sempre foi, continua a ser a mulher à frente do seu tempo, que sempre foi. Foi buscar isto à sua avó, Ana Augusta.

Se calhar, nunca tinha pensado nisso, mas é uma hipótese. Mas ela era um bocado malandra.

Por quê?

Eu acho que ela fez coisas que se calhar não devia ter feito. Mas eu não tenho nada com isso.

Mas era uma mulher muito moderna, muito independente. No século XIX vivia em Moimenta da Beira, não era?

Moimenta da Beira. E era realmente independente. Fez aquilo que queria fazer, que quis fazer, nunca se importou com a opinião dos outros. E é nesse aspecto que eu acho que ela realmente é moderna, como diz, independente, sobretudo.

E intemporal.

Intemporal, exatamente.

Zilda, sobre a sua idade, que é linda, ainda por cima é muito bonito que a diga. Eu li uma coisa que escreveu, não sei se posso citar, que é: "Acontece que de surpresa e à socapa, quer dizer, sem que eu dê por isso, os anos atingiram uma soma elevadíssima, o que, em verdade, não pode ter nada a ver comigo". A Zilda, quem a conhece, quem a lê, quem a acompanha, sabe que a Zilda é, de facto, uma eterna rapariga, uma eterna miúda. E isto às vezes é um chavão aplicado a certas pessoas, a si assenta-lhe como uma luva, não ter idade.

Sabe, eu acho que uma das coisas que eu quis sempre foi manter a minha curiosidade pelas coisas do mundo e o meu interesse pelos outros. E desde pequenina me lembro disso, de estar curiosa e querer saber tudo, os porquês. Enquanto não compreendesse, não largava quem podia ajudar. E, portanto, foi o que quis sempre manter, essa curiosidade. E vou mantendo. Portanto, registo.

Mas há uma frescura grande sempre na sua escrita, há uma frescura no seu olhar e não lhe estou a fazer favor nenhum, nem estou a tentar aqui cativá-la, porque quem me cativa com a sua escrita e com a sua maneira de ser, a mim e aos seus leitores, é a Zilda. E é muito extraordinário ver isso, ver esse olhar limpo, essa leveza com que atravessa a vida, sobretudo num tempo que não é leve pra ninguém e pra si, se calhar, também não foi, este tempo de pandemia.

Não. Eu acho que o mundo foi me dado pra eu viver. Ou antes, deram-me uma vida e um espaço Para eu a viver. É o mundo, esse espaço. Eu não vou dominá-lo, não vou arruiná-lo, não vou poluí-lo, vou gozá-lo. E acho que também devo contrapor, compensar com alguma coisa.

Acrescentar.

Acrescentar. Tudo o que eu posso fazer é isso. Vem-me de dentro, eu gosto do que estou a fazer, gostei sempre do que fazia.

E o que acrescentou foi sempre beleza, e acrescentou sempre uma beleza poética, uma beleza literária e uma beleza artística, porque no fundo sempre esteve ligada a estas três formas de arte. Através da palavra, através da imagem, seja a fotografia. E não é por acaso que também criou a sua primeira galeria de arte naïf em Portugal com o Jorge Cardoso, ótimo fotógrafo, e seu filho, e com a Elvira Leite. São várias formas de arte e a Zilda também é muito contemporânea e muito inovadora também nas pessoas de quem se rodeia. Ou seja, tem uma casa que foi renovada pelo Siza Vieira, tem peças de designers e de arquitetos maravilhosos. Tem essa felicidade de se poder dar ao luxo de se rodear de pessoas e de objetos de arte, e isso faz a diferença.

Acho que foi tudo muito natural em mim, é tudo muito natural, é isso que pretendo. Embora tivesse estudado muito sobre arte, estudei ao longo da vida, mas na verdade, parece-me tudo muito natural. Gosto das coisas que vejo, como eu dizia, aprecio-as muito e gosto de chamar a atenção para elas. Chamar a atenção das outras pessoas para essa beleza simples. Não gosto das flores complicadas, as orquídeas, não sei o quê, não gosto de nada disso.

Gosta da depuração.

Gosto das flores mais simples, aquelas que havia antigamente nos jardins da cidade do Porto. São essas que realmente me dão satisfação. E eu acho que tem muito a ver comigo, com a minha simplicidade, é aí que eu gosto de estar. E é isso que eu gosto de ser, é simples.

Mas é uma simplicidade de depuração estética, ou seja, é uma simplicidade em cima de uma beleza, sempre. É uma simplicidade sofisticada, digamos assim. E não há nada mais complicado do que ser simples. E por isso essa sua depuração é um trabalho interior de uma vida inteira.

Talvez sim. Não sei. A mim parece-me tudo tão natural em mim, esse gosto pela simplicidade e pela natureza. É tudo tão natural, parece que nasceu comigo, não tem a ver com ninguém, nem com nenhum curso que tenha tirado, nem com a influência de ninguém. Parece que foi sempre natural assim. Depois, os filósofos, sim. Conseguir talvez aliar a simplicidade das coisas do mundo, as flores, etc., com as conclusões que os filósofos tiraram disso e de outras coisas. Eu falo dessas flores, por exemplo, da simplicidade das flores ou do mar, ou do céu, ou das nuvens, não sei o quê. Mas por detrás disso está o pensamento filosófico.

Quem são os seus filósofos de referência?

Olhe, ultimamente tenho lido muito Steiner, que acho que era uma pessoa absolutamente extraordinária.

É uma pessoa que lê e rele, tanto quanto sei, a Zilda.

Consta sempre. E também, por exemplo, Lemoyne Le Chose ou Michel Foucault, e outros assim, que são filósofos, mas não são os filósofos clássicos, que têm um sistema por trás deles muito complicados. São os filósofos que refletem sobre a vida atual e, portanto, têm muito interesse para nós como é que eles fazem as suas reflexões sobre isso.

Que dão chaves de leitura.

Eu, pra mim, o que eu gosto realmente é de refletir sobre aquilo que vejo e sobre aquilo que penso a partir do que vejo.

E o seu livro chamar-se "Da Minha Varanda", quer dizer que é na sua varanda que reflete, que pensa, que olha para o mar.

Exatamente, é isso. Passo todos os dias lá, um pedaço de tempo, realmente a ver aquilo que felizmente gosto muito. São os barcos, são as nuvens lá ao longe, são as ondas. Gosto muito de tudo isso.

Isto eleva o seu pensamento, eleva o seu olhar acima das circunstâncias.

É isso. O meu pensamento enriquece-se com isso. O escrever, para mim, eu gostava que reparassem nisso. O eu escrever não é uma tarefa de escritora, é uma tarefa de pensadora que quer registrar aquilo que pensou. Não pode ser de outra maneira. O que pensa só tem sentido, para que exista, se eu transformar em palavras. E as palavras rapidamente voam. E então eu tenho que as registrar escrevendo. Foi assim que eu comecei a escrever, a registrar os pensamentos, não com outra intenção, era realmente para não os deixar fugir. E possivelmente, depois comecei a achar que se calhar podia.

Depois começou a ter cada vez mais leitores e cada vez mais seguidores.

Seguidores, e acabei por ter bastante, no caso do blog, tenho anos de blog, de posts, desde 2008. É muita coisa, mas eu Penso que vou continuar mais um bocadinho. Enquanto tiver qualquer coisa para dizer, eu vou continuar também com o blog.

Vai continuar, até porque seria uma desilusão para as pessoas que a seguem deixar de alimentar o blog. Azilda, gostava de voltar um pouquinho atrás na sua vida. O facto de ser mulher, de ser intelectual, de estar mais ligada às artes, não foi difícil?

Não, eu não achei que fosse difícil. É claro que naqueles anos em que eu me interessei pelos problemas das mulheres, ainda havia realmente muitas dificuldades. Não propriamente comigo, mas havia dificuldades a todos os níveis, mas sobretudo para operárias e mulheres de um pouco nível cultural e social mais baixo. Realmente eram muito injustiçadas. E eu interessei-me muito por esse assunto, porque tive muito contacto com mulheres que realmente sofreram essa desigualdade, que não se justificava de maneira nenhuma. E quis ajudar. E eu penso que ajudei durante uns anos em que só pensava nos problemas das mulheres. Mas eu consegui ter uma página que despertou muito interesse.

Este feminino singular e que despertou o interesse da própria Comissão da Condição Feminina.

Exatamente. Até fiz muitas entrevistas e fui mesmo falar com empresários que sabia que tinham, por exemplo, operárias e operários, só que as mulheres eram muito poucas em relação aos homens. E eu não percebia por quê. E perguntei, lembro-me de ter perguntado: "Mas por quê?". E ele disse-me: "Olhe, eu até gosto de ter operárias, porque elas são melhores trabalhadoras do que os homens". Mas, por outro lado, nessa altura já tinham regalias como mulheres que lhes encarecia o trabalho.

Nomeadamente a licença de maternidade e tudo isso.

Exatamente, tudo isso. E eu tinha ido mesmo à França, tinha estado em França, lá estavam essas coisas muito mais adiantadas.

Estava mais no auge das lutas feministas e de despertar a consciência.

Eu estive lá com essas pessoas, mas a partir de certa altura deu uma impressão que se calhar estava a ir longe demais.

Por que longe demais?

Longe demais no sentido de que estava a prejudicá-las. Porque os empregadores, os patrões, digamos, não queriam mulheres, não era porque elas fossem más operárias, elas eram boas, mas como tinham muitas regalias acabava por ficar o seu trabalho mais caro.

Mas aí quando acha que as podia estar a prejudicar era porque ia lá porta a porta, olhos nos olhos, cara a cara, tentar interpelar e chamar à consciência.

Pode, isso é isso.

A Zilda, de certa forma, foi contemporânea da Sophia de Mello Breyner, foi contemporânea da Maria Angélica Guimarães.

Sophia é uma pessoa que eu continuo a ler com muita atenção e gosto muito, que é insuperável, como poetisa, poeta, não há melhor. É o tipo de poesia que eu aprecio mesmo.

A depuração, também.

É, sim, é lindo. Tudo que ela diz dá-me satisfação. Quando eu me lembro de pegar num poema da Sophia e lê-lo, fico satisfeita para o dia todo, não preciso de mais nada.

Uma poesia solar.

E para além dela, gosto dos livros da Agustina também, da Clarice Lispector, gosto muito.

Da Clarice Lispector.

Clarice Lispector gosto muito. Acho que é uma excelente escritora. E não sei, mais alguma.

Engraçado dizer isso, porque de certa forma, com todas as diferenças, há qualquer coisa na Clarice e na Zilda que se parece. Agora que falou nisso, nunca tinha pensado nisso.

Que engraçado.

Engraçado. A maneira, de certa forma crua, nua, despida, não é como se expõem, mas como observam e relatam o que observam, não é?

Deve ter razão.

Não sei. Não tenho estudos para isso, para ter razão.

Deve ter razão. Eu aprecio-a muito.

E conheceu pessoalmente a Sophia e a Agustina?

Sim, muito. Era muito amiga, até sobretudo da Agustina, que eu apreciava e ela convidava-me lá para casa.

E a Agustina escreveu um prefácio do seu livro.

Escreveu, sim. Eu acho que ela também gostava daquilo que eu escrevia, que trocávamos muitas impressões, embora ela fosse enorme em relação a mim, não tinha nada a ver.

As coisas não se medem assim, Zilda.

Mas, de facto, eu penso que ela era verdadeiramente minha amiga.

E uma pessoa que tem uma escrita genial.

Genial, fantástica.

Azilda, mas uma pessoa como a Agustina nunca escreveria um prefácio num livro seu se não tivesse uma admiração. A Agustina nunca faria isso. E que outras pessoas é que admira nas artes, na poesia, na literatura?

Eu li muito durante anos o Roland Barthes, como crítico literário.

Tanto quanto sei também gosta muito da Margarite Yourcenar.

Gosto imenso, gosta de uma escrita limpa e muito agradável para mim também. Inteligente.

Exatamente, uma arquitetura literária e intelectual extraordinária. A Zilda lê no original ou lê as traduções?

Uma coisa e outra. Tenho livros originais e tenho traduções, mas eu, no caso do francês, gosto mais de ler no original, acho mais interessante pra mim.

E no inglês?

No inglês tenho mais alguma dificuldade, mas eu li no original os autores ingleses durante muitos anos, mas depois parece que perdi um bocado a memória dessas palavras diferentes.

E a sua geração era uma geração francófona, por isso era uma geração em que o francês-

Era mais francês. Mas eu também li em inglês, durante anos li muito em inglês também.

Muito bem, vamos fazer uma pausa, vamos às notícias e voltamos já a seguir. Até já. Voltamos à segunda parte da conversa com a Zilda Cardoso, escritora, autora, cronista, blogger, foi locutora de rádio aos 15 anos. Tem 89, esta idade maravilhosa, e tem um blog desde 2008, e é deste blog que saiu o seu último livro, o quarto ou quinto livro que publica. Este livro chama-se "Da Minha Varanda" e é um livro completamente à frente, como hoje em dia se diz, porque é um livro de textos curtos, textos que saíram do blog, com ilustrações da própria Zilda. E uma das marcas da escrita da Zilda são as perguntas que faz. Não é só observação, pode ser observar os pássaros, as árvores, o movimento nas ruas, mas é uma escrita com muitas interrogações, e uma delas é: por que amamos a vida? Por que amamos a vida, não é? É um ponto de reflexão pra si?

É, e também gostava de ter respostas.

Mas evoluímos mais através da dúvida do que da resposta.

Eu acho que sim. No fundo, eu não tenho a certeza de coisa nenhuma. Acho que nenhum de nós tem. Não temos a certeza. E, portanto, é bom fazer pergunta, a pergunta fica pra reflexão. E é a reflexão que realmente me interessa. A dos outros também. Gostava muito de ter respostas e gostava de pôr os outros a refletir, porque o que eu penso que tenho é uma inquietação permanente acerca do mundo e das coisas. E é essa inquietação que me leva a fazer as perguntas e a estudar o assunto, a pesquisar, a tentar saber. E é evidente que gosto que os outros participem nisso. Essa inquietação era o que eu queria transmitir. Queria que ficassem também a pensar no mesmo assunto e dessem a sua opinião sobre isso.

E é isso que a Zilda faz, porque no fim deste texto, que começa "Por que amamos a vida?", o seu texto acaba com: "Mas a interrogação ficou, porque gosto da vida". É muito bonito isto.

É isso, realmente.

Como é que a Zilda consegue esta leveza? Como é que consegue estar sempre interessada? Como é que se mantém tão atualizada nas leituras, na observação do mundo, nos acontecimentos e, sobretudo, num tempo que tem sido difícil, porque é um tempo de isolamento, de distanciamento social. Como é que isto acontece? Como é que faz? Qual é a sua rotina? Qual é o seu segredo?

É que o dia tem 24 horas, já reparou?

É muito tempo.

São muitas horas, muitas horas. E eu não durmo muito, de facto, não durmo. E, portanto, sobram muitas horas pra refletir, pra ver. É evidente que nesta altura e neste último ano, ano e meio, não foi fácil pra mim, nem pra ninguém, porque eu dedicava-me muito a tudo que era cultural, música e-

Concertos, exposições

...exposições e tudo isso, palestras, enfim, e convívio com pessoas interessantes. E nada disso se fez durante muito tempo. Isso prejudicou-nos muito, a todos. Eu acho que a mim, especialmente, porque fazia esse tipo de vida. Já não tenho uma ocupação, uma profissão, uma coisa assim. E, portanto, nada disso aconteceu neste último ano. E foi muito prejudicial.

Por um lado, sim, por outro lado, saiu este livro, não é, Zilda? Ou seja, a Zilda não perdeu tempo, porque no fundo acabou por encontrar, se calhar, o tempo interior e o tempo certo pra fazer sair este livro. E antes da pandemia, se calhar, não pensaria nele, não é?

Exato. Eu acho que, como já disse, tinha obrigação, sinto obrigação de corresponder com o meu esforço àquilo que me foi dado. E pronto, esta é a maneira mais simples, porque havia muitas outras maneiras possíveis e eu fiz muita coisa diferente e pesada, e que me ocupou muito. Mas isto é o que posso fazer agora. E eu penso que todos aqueles que têm a minha idade ou próximo disso, podem descobrir o que fazer, que não os massa, que não sobrecarrega, mas que os leva a fazer coisas que ainda podem fazer e que sentem prazer nisso e que dão prazer aos outros também.

É interessante, porque diz aqui, ainda sobre a sua idade, num texto chamado Burlesco Um, diz: "Sobressaltando-se como eu sobressalto, há pessoas que me perguntam quais são os inconvenientes de ser mais velha. Eu respondo com as vantagens, que são algumas e consideráveis". Quais são as vantagens?

Essa no momento é um bocado difícil, mas eu acho-

Não, e depois diz uma coisa aqui também, que já é uma resposta à minha pergunta, que é: "Pra já, não me sinto a empatar".

Exato.

"Estou muito ocupada, não tenho espaços vazios e a vida flui. Deixe-me viver, o que é mais importante, deixe que os outros vivam. Sou muito feliz com este arranjo".

Eu acho que sim, que é isso que eu tento fazer a todo momento. Estou ocupada. A diferença em relação a uma idade mais jovem é que posso agora fazer aquilo de que gosto, só Não preciso estar sobrecarregada com trabalho excessivo, de que se calhar não gosto, mas que preciso de fazer. Isso acabou pra mim. Eu estou a fazer aquilo que posso e que acaba por ter também interesse para os outros.

É interessante também porque a Zilda foi casada com um homem muito ativo politicamente, civicamente e também um empresário. Teve três filhos, não sei quantos netos tem.

Tenho cinco.

Cinco netos e uma bisneta.

É verdade, uma bisneta, que é a parte mais importante de todos.

A sua bisneta é o mais importante.

É o mais importante agora. Eu mal a conheço, mas vejo fotografias e vejo os movimentos, gosto imenso de vê-la.

É muito difícil isto da pandemia, porque um bebê nasce e os avós e bisavós podem passar meses sem os ver.

É, e vai acontecer. O que vale, realmente, é termos a possibilidade de ver os vídeos.

Exatamente.

Isso tem sido muito bom.

Zilda, continuo a ler, porque este texto prende-me. Então diz: "Quando era jovem, queria conquistar o mundo. Já não quero, nem ser dona dele. Tenho uma coisa maravilhosa e compensadora, um Deus, um Deus maior, que se bem que tenha criado tudo à minha volta, seres animados, inanimados, desanimados, tem uma nítida preferência por mim. Sou sua filha dileta, nada de mau me pode acontecer. Ele garante-me o bem e a justiça". Que Deus é este? Não a sabia crente.

Eu sei que há um Deus, mas não sei quem ele é.

Vê-o na criação.

Exato. Eu não sei como é que isto surgiu. Como é que este lugar onde nós estamos, tudo isto, não sei como surgiu. Portanto, há alguma coisa que eu não conheço.

Mas tem abertura, essa transcendência toca-a, atravessa-a.

Sim, sem dúvida.

São os mistérios de que fala.

Exatamente. Sei que acontece isso, mas ao mesmo tempo eu tento fazer por mim tudo o que é possível eu fazer.

Engraçado isso, sabe que há quem na Igreja, entre católicos e cristãos, que diga: "Isto faz tudo como se tudo dependesse de ti, sabendo que tudo depende de Deus".

Exato. É isso.

Isto, no fundo, aplica-se àquilo que acabou de dizer.

É, mas é isso mesmo. Eu não estou dependente, não me considero com o direito de depender, de esperar que me façam coisas. Eu tento fazer eu, no entanto, tenho esse pensamento.

Vou aqui abrir, ao calhas, o texto "O Homem do Renascimento". "Pediram para falar do homem do Renascimento. É um assunto enorme, se pensarmos que houve distintos Renascimentos e vários homens renascentistas gigantescos na história da cultura ocidental. E se pensarmos também no homem de qualquer Renascimento. O que posso dizer é que prefiro, preferimos agora na Europa, um Renascimento inteiramente novo, depois de mais uma Idade Média que não acaba de passar". Acha que a Idade Média não acaba de passar?

Não, não acaba de passar.

O que é que é o obscuro? O que é que é mau ainda? O que ainda nos faz menores?

Eu acho que somos todos tão maus. Somos todos tão maus uns para os outros. Fez-me lembrar agora as paixões que eram muito retratadas nos dramas clássicos. Esse tipo de dramas, de emoções, de paixões, ainda são os que nos fazem movimentar. Por isso, continuamos a ver esse tipo de guerras.

De desigualdades e de ganância.

Tudo isso está vivo em nós, infelizmente. Nós vemos, até nos filmes. Até nos filmes podemos ver isso. Parece que não melhoramos nada, é uma tristeza.

Sim, tudo à nossa volta hoje em dia pode ser motivo pra nos desanimar, ou pelo menos muita coisa.

Temos é que manter a cabeça firme, que foi o que eu tentei desde há muito, manter um certo equilíbrio na cabeça.

É giro, porque aqui diz: "Não queremos um homem, mas o homem". E depois diz: "Todos conhecem o modelo que foi Leonardo Da Vinci, génio pintor, génio escultor, génio engenheiro, génio inventor. Não sei se sabia muito de política ou se queria saber. Calculo que se quisesse, saberia porque se empenhava, investigava seriamente, refletia e discernia, planeava e experimentava. É fácil supor que fazia um bom orçamento, até que pegava nos instrumentos e no material e realizava a obra com perspetiva. Isto é um homem".

É isso. Eu acho que isso é exemplar. Continuamos a precisar disso.

Precisamos desta fasquia elevada. Outra pergunta que lhe fazem é às vezes, porque há quem não a conheça de trás e diz: "Perguntam-me também por que razão só agora escrevo". E aqui é desconhecimento. Começa por não ser verdade. Escrevo desde que aprendi a escrever. Era meu hábito criar pequenas histórias, algumas pra crianças, poemas sofridos, frios ensaios, artigos provocatórios de intervenção social, relatos de viagens, cartas fraternas, histórias próximas de uma realidade amalgamada com fantasias desenfreadas. Porém, enfim, histórias que são também história e que ficarão como documento de uma época". De facto, a Zilda escreve desde que se lembra.

É verdade, desde que me lembro. Primeiro, sem qualquer intenção de publicar, de maneira nenhuma, era só pra registrar realmente os pensamentos que ia tendo. Depois, mais tarde, alguém viu qualquer coisa que eu tinha escrito e resolveram enviar para um jornal, e o jornal aceitou de imediato.

E lembra-se de quem era esse alguém?

Suponho que foi o marido.

O seu marido Alcino.

Suponho que foi ele.

Ele era um grande admirador da sua escrita.

Sim, da escrita acho que sim.

É difícil uma pessoa viver com uma mulher grande, que pensa, que escreve e que tem um papel muito interventivo.

Mas ele também era grande noutros aspetos.

É verdade. Mas então foi o seu marido que descobriu e que-

Sim, eu tinha qualquer coisa escrita que ele viu e mandou sem dizer nada. E de facto, a partir daí, eu tive sempre abertura em vários jornais, tanto nos principais jornais do Porto, como um jornal da tarde. Eu cheguei a colaborar num jornal da tarde.

Em vários. Exatamente.

E pronto, não sei.

Esta página semanal do Comércio do Porto, esta que se chamava Feminino Singular e que tratava de problemas da mulher, que nessa época eram muito mais e muito mais graves do que os problemas do homem, como diz. Havia dificuldades que não eram comuns aos seres humanos a respeito de justiça e que se consideravam especificamente das mulheres. E por isso, além do seu editorial, das entrevistas e dos depoimentos que fazia, a sua página tinha excelente colaboração de juristas, médicas, professoras universitárias e trazia invariavelmente uma ilustração original sua.

É verdade.

Portanto, também nunca deixou de ilustrar, de pintar.

É verdade. Foi uma página que me deu realmente enorme satisfação e que eu gostei de entrevistar imensa gente, tanto do mais baixo nível social, como do mais alto, das professoras universitárias, etc. Gostei de o fazer. A partir de certa altura, achei que as mulheres já não precisavam de mim.

Não, precisam. Eu acho que cada vez precisamos mais uns dos outros. Já não são só as mulheres, são as mulheres, os homens, as crianças, os mais velhos, os mais novos, todos. Eu acho que a lógica que devia prevalecer era todos por todos, não acha?

Sim, seria bom. Seria o ideal.

O que é que, Azilda, olhando para trás e pensando que uma pessoa que vive uma vida tão rica, tão longeva, alguma vez se imaginou a chegar aos 90 anos com a cabeça tão afinada, o pensamento tão limpo, esse olhar tão claro e com saúde, porque tanto quanto vejo, está cheia de saúde.

Eu acho que não pensei nisso, sinceramente. As coisas foram correndo normalmente.

Mas tinha medo de envelhecer? Tinha medo da idade?

Não, não sei. O que eu tenho medo e continuo a ter é de ficar sozinha. A solidão é uma coisa terrível.

É mesmo.

Há momentos, há dias, quando estou a escrever, suponhamos, que gosto de estar sozinha e em silêncio, mas outros não estou sozinha.

A solidão imposta, a solidão que não é procurada.

É terrível. Isso sim, disso tenho medo. Tive e tenho medo. Mas propriamente de envelhecer, nunca me passou assim muito pela cabeça.

E de morrer?

E de morrer também muito menos. Eu acho que vou ter uma vantagem fantástica quando morrer. Nunca mais me vou lembrar destas coisas e eu esquecer totalmente toda a vida, toda a minha vida e a dos outros que me acompanharam.

Ou seja, os pesos deixam de ser pesos, já não há fardos, só leveza.

Vai ser bom.

Como é que imagina que é a vida depois da morte? Se é que imagina.

Não sei.

É uma grande interrogação para si também, como é para todos.

É, sem dúvida. Não sei o que vai acontecer, não faço a menor ideia. E sabe, não quero pensar muito nisso.

Faz bem. Pensar na vida e viver a vida enquanto está vivo.

Viver exatamente. Enquanto estou aqui, e realmente interessar-me pelos outros e tentar viver a vida o melhor possível em relação aos outros também.

Azilda, diga-me qual é o seu segredo da boa forma. Está uma flor muito bonita, em forma, não tem gramas a mais, nem gramas a menos. Como é que isso se faz? Com passeios diários? Não sei, diga lá.

Também, faço passeios diários, mas também só como aquilo que tenho vontade de comer. Não sou gulosa propriamente.

Não?

Portanto, enquanto tenho vontade, eu entendo que é porque o corpo precisa. Não como mais para além disso e portanto, como pouco. Quando vejo outras pessoas comer, acho que realmente sou capaz de comer pouco, mas como o necessário.

Azilda, e quando não está a escrever, nem na sua observação cósmica da sua varanda, que é uma varanda elevada, é um horizonte muito...

Oitavo andar.

Oitavo andar, sobre o mar, no Porto. Quando não está a fazer isso, está rente à terra, de joelhos, se calhar, a cuidar das suas flores, das suas plantas.

Eu gosto muito de jardinar, mas também me interessei sempre muito pelos netos. Eu tratei muito, não só dos filhos, como dos netos. Era como se fossem meus filhos. Tratei deles sempre, durante anos, enquanto foram crianças, claro. Portanto, ocupei-me muito com isso.

E por isso também tem consigo uma relação muito estreita. E por isso também nunca a deixam sozinha.

Espero que não, que não deixem.

Azilda, ainda bem que diz isso, porque a tendência é explorar o seu lado intelectual, artístico, literário e de facto, a sua família foi o seu centro, o centro da sua vida. O que é que gostava que ficasse como a sua marca, a sua memória, o seu legado? Mais do que a herança, os bens, o património que se pode deixar ou não

Gostava, por exemplo, que eles gostassem de ler os meus textos e de ver os meus desenhos. Não sei se gostam. Se calhar nem por isso. Não sei. Gostava muito que eles lessem.

Mas eu acho que eles gostam, porque os seus livros têm sempre uma claque entusiasta que é o seu círculo familiar. Portanto, acho impossível. E por isso, se esse é o desígnio, se essa era a vontade, essa já está cumprida. Mas gostava também desse seu olhar, essa sua leveza, esse viver e deixar viver. Há uma marca em si que me impressiona muito desde que a conheço, e já a conheço há quase 20 anos, que é o não julgamento. Não julga os outros.

Não acho que deva, nem acho que possa, nem acho que saiba. É sobretudo isso. Não sei julgar os outros e por isso não julgo.

E isso dá-lhe essa tal leveza, isso dá-lhe uma abertura enorme e dá-lhe, de facto, na legião de seguidores que tem, há pessoas de todas as idades, de todos os backgrounds, de todas as condições, e é certamente por isso, porque é uma pessoa de espírito aberto e nunca julgadora.

Eu acho que mesmo a minha obra pode-se chamar obra aberta, foi o que agora disse, mas parece que sim, que pode chamar-se uma obra aberta, porque eu acho que é difícil ter a certeza, saber a verdade. Tudo isso é quase impossível de saber. Portanto, eu não vou impor a minha ideia como se fosse uma verdade. Eu não sei.

Muito bem, uma ótima maneira, uma grande lição de vida pra todos nós. Ninguém é dono da verdade e é muito bonito ouvi-lo de si, Zilda. Muito obrigada. Não sei quando é que faz 90 anos, quando é que faz?

Em dezembro.

Em dezembro. Em que dia?

Dezessete.

Sagitário.

Sagitário.

Como eu. Então, em dezembro, a Zilda chega aos 90 e eu aos 60. Vamos festejar.

Vamos festejar, sim.

Muito bem, muito obrigada, muitas felicidades e muitos parabéns por toda a sua vida e por toda a sua obra aberta.

Obrigada.