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Este é um podcast da Rádio Observador. Pode ouvir a rádio também em 98.7, na Grande Lisboa, e 98.4, no Grande Porto.

Olá, sejam bem-vindos a mais um "Isto é Ser Mãe", um programa dedicado às maiores preocupações do dia a dia dos pais. Eu sou a Fabiola Carletis, consultora de moda e beleza da MAG e mãe da Francisca, de dois anos e meio.

E eu sou a Catarina Balesteiro, jornalista da MAG e tenho uma filha com dois anos, a Carmo. Hoje temos conosco no "Isto é Ser Mãe", Isabel Silva.

Bem-vinda, Isabel.

Obrigada pelo convite.

Escritora, avó de oito netos com idades compreendidas entre um e nove anos e autora do livro "Diário de uma Avó Galinha", além de outros vários livros históricos.

Sim.

Isabel, hoje falamos sobre o que é isto de ser avó. Além de ser mãe, o que é isto de ser avó? Qual é afinal o verdadeiro papel dos avós?

Eu acho que o papel dos avós descobre-se na prática. Num primeiro momento, quando nós vimos aqueles bebês na maternidade, é o reconhecimento de um sentimento e é uma paixão do zero ao 100. Se calhar, as mães ainda estão a acordar de uma anestesia baralhadas e nós já estamos prontas para os levar pra casa. E depois é perceber que vamos ser retaguarda, mas também que eles nos vão mudar a vida e que nos vamos passar a definir como avós. E, portanto, também é uma revolução cá dentro.

É uma grande mudança. A Isabel disse isso mesmo, já disse que os avós ficam sempre a retaguarda. Na sua opinião, é aí que devem estar? Ou seja, aquela questão de não são pra educar, mas sim pra mimar.

Não é uma retaguarda nesse sentido, porque eu acho que nós educamos com todos os gestos e todas as coisas que fazemos e não há assim uma fronteira entre acabou de educar, até porque pra mim a maior forma de educação é o exemplo, e portanto o exemplo está sempre presente. Eu digo retaguarda no sentido em que há pais, e a nossa função é ajudar os pais a ser melhores pais e não concorrer com os pais. E às vezes há avós que parecem estar a concorrer com os pais, e às vezes há pais que estão a concorrer com os avós, mesmo quando os avós não estão a fazer nada, porque os pais se sentem um bocadinho inseguros e depois sentem o comentário de uma sogra ou de uma mãe como uma dúvida com mais intensidade. E, portanto, é nesse sentido, de perceber que estamos numa segunda linha de ajuda, de apoio. Não quer dizer que estejamos de parte só pra ser chamados, tipo SMS. Eu acho que tenho uma vida muito presente e os meus netos são muito presentes na minha vida.

E são muitos também.

E são muitos. E sinto que eles me dão uma energia. Eu sou capaz de fazer coisas com eles que achava que já nunca mais ia conseguir fazer. Sou ou não capaz de subir esta árvore até tão alto? Sou ou não capaz de passar por cima deste portão?

Está constantemente a testar-se.

Exatamente. E obrigam-nos a olhar pro mundo outra vez. Eu lembro uma vez de pegar nas mais velhas, que foram as primeiras, é o jackpot das avós, como eu costumo dizer, gêmeas, porque as mães precisam mesmo de ajuda, e das levar ao aeroporto pra ver aviões. Porque de repente nós percebemos que aquelas coisas pras quais olhamos todos os dias, afinal não são assim tão óbvias como isso, um avião andar no ar. Não é assim uma coisa tão óbvia como isso.

E pros miúdos é óbvio que é muito sim.

E é extraordinário. E começamos a olhar o mundo pelos olhos deles. E nesse sentido, eu costumo dizer que é a melhor terapia anti-rejuvenescimento.

Os avós têm que estar sempre disponíveis, Isabel?

Não, eu tenho feito uma grande campanha contra a mão de obra barata. Porque eu acho que a certa altura os avós sentem que têm que estar, porque querem ajudar os filhos e querem ajudar os netos.

Sentem esse peso da responsabilidade também.

Se fosse só responsabilidade, o pior é uma certa culpa. Eu estou aqui a ver a minha série sentada no sofá e a minha filha a esta hora está a dar banhos a quatro crianças. Eu não podia ir lá ajudar? E acabamos por sentir quase o nosso tempo, inclusive o nosso tempo com os nossos projetos, que devem continuar, como não estando a ajudar. E não pode ser assim. Os avós têm uma vida própria.

Cada vez mais, aliás, a nossa geração, os nossos pais ainda trabalham na maior parte dos casos e acabam por não ter tanta disponibilidade como os nossos avós tiveram.

Exatamente. E por isso eu acho que um avô pode dizer: "Não, hoje não me dá jeito", sem nenhum remorso.

A Isabel escreveu no seu livro que ser avó é mudar pra sempre a forma de ver o mundo e embarcar alegremente numa viagem sem retorno. O que isso quer dizer?

Isso quer dizer que nós de certeza que não temos retorno, porque eu acho que nós temos consciência, à medida que vamos envelhecendo, que vamos fazer parte apenas de uma parte da vida dos nossos netos. Isso dá alguma ansiedade. Eu de vez em quando mandava SMS à minha filha, quatro desses netos são da minha filha, e eu mandava SMS a dizer: "Mas achas que eles vão lembrar de mim? Vão chorar no meu funeral?"

O meu pai também tem essa mania: "Eles já não vão se lembrar de mim."

Pela nossa própria experiência de pessoas que nós vamos alargando o mundo e isso é que é bom. E nós vamos ficar uma partezinha. Isso é bom, porque às vezes há avós que são pais e que de fato cumpriram o papel de pais e nesse caso vão ter o reconhecimento que mereceram enquanto pais. Mas os avós que são avós, é natural que os netos cresçam. E, portanto, eu acho que embarcamos nesta viagem porque mudamos a forma como nos definimos, o fato de sermos avós, e sabemos que esta viagem não vai ter retorno nesse sentido, e por isso é que eu acho que trabalhamos para as memórias. Eu tenho um outro livro que é "O Frasco das Memórias", que é uma sugestão que os avós e os netos façam e guardem memórias. E começou porque a minha filha me deu um frasco com cartõezinhos. Aliás, recomendo-vos que deem aos vossos pais, porque se eles gostarem tanto como eu gostei. Os que eles já sabiam escrever, escreveram, e os que não sabiam escrever, ditaram, coisas que se lembram ter feito com o avô e a avó. Fomos ao circo, a mira, o cheiro da almofada da avó. E esse frasco tem essas memórias e está ao lado da minha banheira. Eu adoro banhos de imersão, depois há sempre alguém que telefona aqui para o Observador a dizer que é uma inconsciência, nos tempos que correm, tomar banhos de imersão.

É melhor contar com isso.

Exatamente, também tomam-se tantos antidepressivos e coisas mais, vale banheiras. E eu de vez em quando tiro e revivo essa memória. E por isso, nesse sentido, eu acredito que neles também vai ficar a memória de coisas que fizemos com eles, de coisas diferentes. Mas nunca, há bocadinho tinham feito essa pergunta. Eu acho que a ideia de os avós estragam os netos, é uma ideia um bocadinho invejosa. Acho que as pessoas às vezes não têm netos e depois acham que os amigos que têm netos só pensam nos netos. E é assim um bocadinho: "Tu só estragas". E não é, porque ninguém quer netos estragados.

Claro.

Como eu digo, o que se estraga é as nossas costas, porque tirá-los e pô-los do berço, etc.

E aí também já não deve haver muito retorno.

Exatamente, já não há retorno, há fisioterapia, mas não há retorno. E nesse sentido, eu acho que nós até já sabemos o que é importante, o que é acessório e o que é fundamental. E o que nós fazemos, e que se calhar às vezes os pais estranham, é ter mais descontração na gestão desse acessório do essencial. Eu acho que nós só somos bons avós se sentirmos que os nossos filhos são um caso de sucesso. E eu não estou a dizer sucesso porque têm empregos fantásticos, mas que são adultos realizados e felizes. E aí nós confiamos que fizemos as coisas certas.

Se fizemos o trabalho bem, conseguimos fazer a sua.

E que portanto, o que é que foi mesmo importante? Será que andarmos atrás dos nossos filhos como nós andávamos? Porque os pais sentem-se super julgados. Julgados pelas outras mães, julgados pelos sogros, julgados por toda a gente. E nós olhamos e pensamos: o que nós fizemos foi mesmo importante obrigar o meu filho a atravessar e falar às cinco pessoas que estavam na sala enquanto ele fazia bidder? Ele deixou de falar a pessoas, quando ele cresceu, falava ou não fala? Fala, fala a toda a gente. Portanto, não deve ser muito essencial. Os meus filhos vinham para a minha cama porque estavam assustados ou dormiam na minha cama. Eu ia lá pô-los porque nos livros diz que eles não podem dormir. Aos 10 anos ainda dormiam na minha cama? Não, nenhum deles. Quando eu os queria arrastar para ficarem um bocadinho na minha cama, diziam: "Mãe, eu não quero ficar na sua cama!" Então, se calhar, não é assim tão importante passarmos noites a pensar se isso vai prejudicar para a vida toda. E, portanto, isso dá-nos uma descontração a lidar com os netos, que é diferente.

A Isabel é muito diferente desde o primeiro neto até ao oitavo? É uma avó diferente?

Sabe o que eu sinto? Sinto às vezes alguma culpa em relação aos mais pequeninos. O que eu acho que acaba por acontecer é que depois quando os mais pequeninos vão nascendo, nós vamos ajudando com os mais velhos, porque o mais pequenino mama, porque o mais pequenino precisa mais da mãe.

Uma questão de prioridades.

Uma questão de prioridades. E acabamos por, de repente, olhar para uma fotografia e ver que o nosso neto mais pequenino tem quase dois anos, como é o caso do Eduardinho, e que objetivamente eu ainda não criei com ele uma ligação tão forte. Não é o amor que nós temos aos nossos netos, mas uma relação de conhecimento muito profunda com ele. Eu tenho alguma esperança, e acho que acontece, à medida que os maiores forem se autonomizando também na vida, vai haver, de repente, uma janela de oportunidade para os mais pequeninos. Mas às vezes preocupa-me. Às vezes ouço avós dizer que têm netos favoritos e pelo que eu já percebi, é assim quase uma coisa aceite como banal. Eu não gosto nada dessa ideia. Até porque eu acho que eles têm que sentir a justiça nas relações e, portanto, têm que sentir essa justiça. Agora, obviamente, há momentos de maior afinidade. Eu agora tenho uma neta de quatro anos que adora as coisas que eu adoro. Adora livros, adora que eu lhe leia. Obviamente que são essas. E isso é que é o importante, é nós conseguirmos às vezes ser avó só de um. Até porque se eles vivem em famílias maiores, os avós podem ser uma oportunidade de estarem sozinhos.

Isabel, na sua opinião, até onde é que os avós podem ir? Ou seja, que tipo de limites devem ter?

Eu acho que os avós têm que ter um respeito enorme pela forma como os pais educam os filhos. Portanto, acho que não é aceitável que tentem fazer coisas que sabem que os pais não querem ou não gostam. Dito isto, acho que quando alguém me confia os seus filhos, e até pode ser uma de vocês que precisarem de babysitting.

Muito obrigada. Depois entramos em contacto.

Exatamente. Mas quando fazem isso, confiam o melhor de vocês a esta pessoa. E a partir daí têm que aceitar que esta pessoa possa gerir em liberdade o tempo em que está com estas crianças. Por isso, pais que fazem uma lista. Eu acho que qualquer avó que fica com uma criança pergunta: "Como é que ele costuma adormecer? Ele gosta mais de doce do que assim?" Ou precisa de tomar um antibiótico. Isso é óbvio, mas estou a dizer regras, e não faça isto e não dê aquilo, e a comida não pode ser esta. E eu trouxe esta comida porque para ele continua a comer em casa dos avós, a mesma comida que come fora. Eu acho que isso, primeiro, é contraproducente, porque acho que os avós ajudam a alargar o mundo e as crianças só ganham em ter outras casas, onde há outras regras e outras experiências. Podem dizer: "Em casa dos avós faz-se assim e depois em casa dos pais não se faz." Não morre ninguém. E, portanto, eu às vezes acho que se exagerou um bocadinho nisto, como se mais uma vez os avós fossem uns babysitters a quem se dá ordens. E eu acho que isso cria atritos, cria conflitos e depois muitas vezes eu digo isto aos avós e aos pais também: "Por amor de Deus, não mandem bocas." É o mais fácil. É dizer assim: "A tua mãe se aqui estivesse..." Ou seja, a pessoa não tem coragem de confrontar o filho, a filha, a nora ou o genro com: "Olhem, desculpem lá, mas ele aqui em casa é assim" e depois manda uma boca, depois a criança sem querer repete, depois cria uma série de conflitos e de mal-entendidos. Claro que não é fácil, porque os avós têm muito medo. Há muitos avós que têm muito medo de perder o acesso aos netos e imaginam: "Se eu dizer, se eu me zangar com o meu filho ou com a minha nora e depois se não voltam aqui." E, portanto, essa chantagem implícita, emocional, faz com que às vezes, provavelmente, não digam, mas a fatura aparece. Por isso é mil vezes melhor arranjar a coragem de falar diretamente com os educadores.

Isabel, e nesta altura em que o mundo da maternidade está sempre a mudar, uma pessoa tem um filho, é uma coisa, tem outro, já é outra completamente diferente. De que forma é que também os avós se podem adaptar? Porque na altura deles era mesmo muito diferente, não é?

Eu acho que os avós têm a obrigação de se adaptar e de perguntar. E se estiverem abertos a perguntar e se os filhos lhes puderem explicar. Eu, por exemplo, tive uma reação à minha filha a amamentar, dar de mamar, muito mais tempo do que aquilo que eu achava que devia ser. E acabamos por lhe perguntar e ela dizer: "Eu acho que sim, por isto". E portanto, eu acho que se conversarmos, nós conseguimos perceber e aprender. Nós aprendemos tudo, não é? Também temos telemóveis, etc. Também não somos neandertais.

Não, claro.

E, portanto, temos capacidade de aprender.

E diga-me uma coisa, o que é que uma avó nunca deve dizer aos pais? Se é que existe algo completamente proibido.

Completamente proibido e que dizemos todos: "Comigo ele nunca faz birras."

"Se fosse lá em casa..."

Exatamente. Mas ainda por cima é verdade. É que é verdade. Agora, é verdade não pela razão que os avós tanto se orgulham. Os avós costumam dizer: "Comigo", como se eu fosse melhor educadora. Eles não fazem birras conosco porque o nosso amor não vale nada para eles comparativamente com o que vale o dos pais. E por isso, pelo amor dos pais, vale a pena bater no irmão, vale a pena zangar-se, etc.

Não nos assuste. Estamos a pensar nas nossas.

Não, daí vale a pena. Para os avós, deixa andar, eles estão garantidos. E portanto, os avós não se orgulhem nesse sentido triunfalista, mas antes ter a consciência de que casa dos avós é provavelmente um terreno mais sereno nesse sentido de emoções. E depois porque os avós dizem olá, mas dizem adeus. E os pais pensam que é hoje, amanhã, depois, esta noite, a noite depois. E os pais estão muito privados de sono. Eu acho que os pais estão muito privados de sono, por isso, quando pessoas que dormiram muito bem, estão a falar com pessoas que dormem muito pouco, devem pensar duas vezes naquilo que vão dizer.

Isabel, o que é que pode dizer aos pais? O que os pais precisam de saber sobre os avós? Deixe aqui uma mensagem.

Sim, acabamos onde começamos, se calhar. Que os avós não estão a competir com eles. E que por isso, provavelmente, estão a reagir a alguns comentários dos avós com uma agressividade e uma reação que é desproporcional à intenção que os avós têm. Portanto, de facto, é irritante ouvir uma mãe ou uma avó ou um domingo dizer: "Ai, que querido, mas olha, não achas que ele está um bocadinho magrinho? Ai, se ele não viesse à casa da avó ao domingo, não sei o que seria dele." É evidente que é irritante, mas o que é que a sua sogra ou a sua mãe lhe está a dizer com isto? Está a dizer: "Eu quero ser fundamental na vida desta criança. Digam-me que eu importo." E, portanto, se calhar, em vez de olhar com tanta irritação, a resposta é: realmente o que seria dele se não viesse cá ao domingo?

Isabel Cila, muito obrigada por se ter juntado a nós no Isto é Ser Mãe.

Obrigada eu.

E nos ter ajudado a perceber também um bocadinho o lado dos avós, que é tão importante. Podem voltar a ouvir o programa ao final do dia em observador.pt ou em mag.pt. Eu e a Catarina estamos de volta no próximo sábado às 10h30 com um novo tema e um novo convidado.

Até lá, queremos saber o que acharam da emissão desta semana. Comentem nas nossas redes sociais ou enviem-nos um e-mail para istoésermae@observador.pt. Eu e a Fabíola voltamos para a semana. Um bom resto de fim de semana.

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