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Muito boa noite, bem-vindo ao C4, a montra da cultura contemporânea da Rádio Observador. Eu sou o João Paulo Secador e, como sempre, a abrir o C4, converso com alguém ligado ao mundo da arte. No fim, sugiro-lhe algumas posições e conto-lhe uma história a ver com um quadro. E hoje vai ficar a saber o que está a passar com a Ronda de Noite de Rembrandt, a começar pelo nome, que está errado. Comigo está António Prates, colecionador, mecenas, galerista e mentor de uma fundação em Ponte de Sor. Obrigado, António. E, sobretudo, obrigado por teres aceitado este convite para vires ao C4. Bem-vindo ao Observador.

Obrigado, eu.

Já tivemos a oportunidade de falar um bocadinho de uma exposição que tens neste momento na Galeria António Prates, a de Joana Pita, que fica aqui o convite para todos irem até, pelo menos, 8 de janeiro e verem essa exposição. O António disse que há 35 anos que és galerista, há 35 anos que tens faro para estes artistas, sobretudo para novos valores. Já nos conhecemos também há alguns anos, dá para sentir isso. Tu nasceste em Vale de Açor, é uma terra muito pertinho de Ponte de Sor.

Exatamente.

E começaste como diretor-geral de uma editora, da Grolier.

Exatamente.

Que aí já fazia edições de arte e enciclopédias das artes e coisas do gênero.

Exatamente. Começou uma coisa que se chamava Belas Artes e foi aí que me deu o bicho.

O amor das artes.

Sim, porque fiz vários contactos. Houve um suplemento que se fez, como é uma edição internacional, fez-se um suplemento de arte portuguesa, e foram esses contactos com o Pomar, com o Fospera, com a Maluda, com vários nomes que na altura estavam em alta e que hoje são reconhecidos como grandes artistas.

O possível não ficar-se ali.

Paula Rego, etc. Portanto, foram esses contactos. Eu fiz questão mesmo, não sendo jornalista, mas pela curiosidade e por falar com os artistas, fiz questão mesmo de fazer algumas das entrevistas.

E foi o meio que te sugiu. Nunca mais largaste isto. Em 84, faz agora, como tu dizias há bocado, 35 anos, abriste esta galeria, São Bento, e aí então fizeste exposições do Cruzeiro do Sérgio, do tal que se vai celebrar 100 anos no ano que vem, e estão a preparar um livro do artista.

Exatamente.

O Cesarino, o Artur Bual, Palolo, Hugo Tobias, Manuel Cargaleiro, tantos. Inclusive, fizeste algumas exposições com a Paula Rego, mas na altura, ela é das pessoas que não-

Nunca fiz nenhuma individual, eu fiz sempre em coletivas.

Coletivas, onde ela entrava.

Sim, em coletivas.

Mas as pessoas não tinham grande sucesso, as pessoas não queriam as coisas dela.

Não, de maneira nenhuma. Eu acho imensa piada quando agora dizem: "Eu adoro a Paula Rego". E na altura, os quadros eram muito baratos. Eu lembro-me de um quadro, por exemplo, de 1,5 metro por 1,5 metro. Era uma pintura sempre agressiva, mas tem a ver um pouco com o Bacon e com o Freud e com os pintores.

Lucian Freud, sim.

Do psicoanalista. Mas ela até está dentro desse grupo e apresentava uma pintura, de certa forma, agressiva para as pessoas.

Se calhar para a época.

Para a época. Também era 85, 86, 87, foi quando eu apresentei, ainda tenho várias fotografias de grandes trabalhos, e hoje quem me dera a mim tê-los, não os tenho. Mas também na altura só vendi um ou dois, para 300 contos, 400 contos, mais ou menos, um quadro enormíssimo, porque a maior parte das pessoas o que diziam era: "Deus me livre se eu queria esta coisa lá em casa". É que não queria mesmo. É fantástico como é que hoje as pessoas mudaram de opinião e dizem: "Quem me dera a mim ter uma Paula Rego".

Exato.

Mas é assim.

Tu, António Prates, sempre gostaste de cruzar artes. Desde que te conheço, também tens esta noção. E agora, por exemplo, voltaste a fazer vernissages com música, fazes questão de tocar piano e entreter as pessoas. Mas isto também já vem de quando fazias aquelas performances que juntavam a arte, a poesia, também continuas a escrever poemas.

Exatamente.

E a música, não só poesia, mas também. Isto era um ciclo que havia na Galeria São Bento.

Exatamente. Eu tenho algumas saudades. Parece que é um pouco com esse saudosismo que eu ganhei coragem e vontade de voltar a fazer uma coisa completamente diferente. Criar alguma dinâmica e não mostrar só a arte, mas mostrar também a música. Não sou só eu a tocar.

A poesia. Sim, claro.

Porque eu tenho convidado algumas pessoas e já falei com pessoas até do Teatro São Carlos.

Então vai haver cor também?

Sim, são pequenos grupos, porque o espaço que tem 200 metros quadrados não pode ser assim, e é mais, evidentemente, para-

Não é o Coliseu ainda. Mas é um cruzamento de artes muito curioso.

Sim, nada se pode repetir. Neste caso, eu terei que fazer as coisas de uma forma completamente diferente. Mas é com essa intenção de dinamizar um pouco a galeria, as exposições.

Com estas performances que atraem o público, se calhar.

Eu penso mudar um bocadinho aqui, trabalhando, naturalmente, para fazer este tipo de coisas, tem que se trabalhar com gente nova, com gente que tenha vontade de fazer coisas também diferentes e que possam, de certa forma, fazer algumas performances ou instalações. Neste momento, estou vocacionado para fazer, porque criei também um gabinete onde tenho os artistas ou obras dos artistas que trabalhei nos últimos 35 anos.

Claro, sim.

Portanto, a inaugurar há relativamente pouco tempo, há cerca de um mês, e foi com a Joana Pita que eu inaugurei este espaço, que fica mesmo junto ao Centro Português de Serigrafia, que aliás tu também fundaste.

Exatamente. E portanto, ali na Rua dos Industriais, ali perto do ISQ, ali perto de São Bento. Portanto, o espaço até é muito fácil de acessar.

Sim.

É fácil ir, as pessoas podem guardar o carro ali perto e tudo. Passam pela tua galeria, depois abriste em 96, há 23 anos, a Galeria António Prates, a galeria teu nome próprio, não era onde está agora. Agora está junto ao Centro Português de Serigrafia, mas chegou a estar na António Augusto Aguiar. Já andou de um sítio para o outro.

Parece-me que cada vez que eu mudo de mulher, tenho que mudar de galeria. Porque isto é verdade.

Até vais deixar a mulher, é a primeira vez que mudas.

Exatamente. Porque por qualquer motivo, eu-

Isto é quase montar um apartamento para o teu amor da arte, neste caso.

É sim, porque eu comecei com o espaço, com a Galeria de São Bento E depois apareceu um espaço relativamente pequeno, mas maior que a galeria, perto, que era na Travessa do Pasteleiro, que era logo ali a 40, 50 metros da Galeria de São Bento e abri. Nessa altura mantinha duas galerias. Uma ligada à arte internacional e outra em que trabalhei com artistas, se quiseres falar disso.

Espanhóis.

Com espanhóis, ligados ao grupo El Paso, Saura, o Canogara, o Feito. Aliás, inaugurei o espaço novo, a galeria de António Prates, com o Luís Feito. Na outra, como era uma galeria mais pequenina, eu tinha que estar mais ligado ao surrealismo, de certa forma, ou artistas que tinham iniciado a sua atividade no final dos anos 30, 40, por aí.

Cesariny.

Cesariny, o Artur Bual. Todos artistas dessa época. O Barros, também.

Tu passas por muitos estilos e passam pela tua galeria: a figuração narrativa, que é uma alternativa europeia, portanto, à pop americana, com o Ero e uma série deles. Depois também há o novo realismo com o Yves Klein, que eu gosto também muitíssimo, e há o bad painting. O bad painting é mesmo um estilo?

O bad painting normalmente parte de uma figuração desfigurada.

Portanto, são artistas que pintam de propósito para entrar nisso. Isto é o bad painting, este movimento. Eu acho que há muitas pessoas que estão a ouvir que acham que é quase tudo bad painting.

Um daqueles novos espaços, por questões que depois tive de sair, por me ter divorciado. Mas ali na Alexandre Herculano, eu abri essa galeria com uma exposição individual do Marcos Luperts. Na altura, um dos quadros que eu fiquei, para ficares com uma ideia do que é bad painting, ele pintou um quadro e depois, ou com os sapatos ou com as botas, passou por cima enquanto a pintura ainda estava fresca. E aquilo que eu tenho, e tenho na minha casa agora.

E as pegadas dele.

As pegadas em cima da pintura, portanto, isso é o bad. Que eu gosto imenso e toda a gente acha imensa piada, "Mas espera, mas ele pintou?" "Não, não. Ele passou e depois passou por cima".

Mas há outros estilos. Bioart, por exemplo, que tem a ver com o quê?

A bioart já tem a ver com as novas tecnologias, com a robótica.

Arte digital e arte robótica também faz parte.

Sim, então um bocadinho. E é criada normalmente por catedráticos, pessoas que estão ligadas à parte científica, ou são professores que estudam intensamente as novas formas de produzir arte. Eu estou a me lembrar aqui de uma americana que se chama Suzanne Anker, do Harold Cohen. Eu fiz duas exposições do Cohen e uma da Suzanne Anker. Do Ken Rinaldo, por exemplo, também fiz já duas ou três exposições, mas utilizando sempre a imagem baseada na própria natureza.

Sim. Daí a ligação ao bio.

Aquilo que eu fiz com o Ken Rinaldo: ele partia de uma semente, que era uma coisinha pequenina, e aumentava aquilo um milhão de vezes. Ficava um trabalho com dois metros, a partir de uma semente. Isso é que se chama bioart.

Tu há 44 anos pegaste no Manuel Cargaleiro e fundaste o Centro Português de Serigrafia. Aliás, que o teu irmão João Prates, que convidaste depois para liderar.

Exatamente.

Isto já nasceu há 44 anos.

Não, 34.

Há 34 anos, onde eu vivo. 34 anos.

Em 85, sim.

E o CPS, Centro Português de Serigrafia, o objetivo era fazer como se fosse um clube de arte, era democratizar para toda a gente ter um bocadinho de direito a levar uma obra de arte de um pintor que goste, sem pagar as fortunas que se pagam nos leilões.

Havia várias razões. Eu vinha de uma empresa americana e com um trabalho constante, todos os dias tinha que trabalhar muito. E quando abre a galeria era uma passividade. Quer dizer, eu não sabia o que é que havia de fazer. Um leão terrível, porque eu gosto de trabalhar, sou muito ativo e gostava de fazer qualquer coisa. Então eu idealizei fazer um clube de arte, qualquer coisa para criar algum movimento. Eu lembro-me que falei com imensas pessoas e toda a gente dizia: "Faz um clube". E convidei para fazer a primeira serigrafia o Manuel Cargaleiro. A partir dali, Francisco Relógio, penso que a segunda, o Mário Cesariny.

E já lá vão 30 e quantos.

Por exemplo, o Professor Seixas, uma série de nomes. Exatamente aqueles que eu trabalhava, foram aqueles que me deram uma ajuda também para fazer as primeiras serigrafias.

Às tantas, com tanto material que tu tinhas também, dos originais, que eram feitos para a serigrafia, que ficavam no Centro Português de Serigrafia, acabaste por fazer uma fundação, e que foi inaugurada há 12 anos, com o Ministro da Cultura, que esteve lá, Esmael Pires Lima, na antiga Fábrica de Moagem e Descasque de Arroz de Ponte de Sor, com uma série de instalações, e onde teve uma coleção bastante grande, porque já se juntavam 3 mil originais, entre desenhos, aguarelas, pinturas e esculturas, e já havia 5 mil múltiplos. Portanto, o que se chamam múltiplos, que é as gravuras, as litografias, as serigrafias e as fotografias. Esta grande coleção esteve lá durante uns anos, mas depois acabaste por ter-

Não muito tempo.

Não muito tempo.

Essa é uma parte muito sensível.

Sensível, porque acabaste por ter algum problema com algumas coisas destruídas e que desapareceram, e acabaste por pegar na coleção e tirar de lá.

Sinceramente.

A tua ideia era pôr Ponte de Sor no mapa a esse nível de arte contemporânea.

Levei lá vários artistas internacionais. Alan Jones.

E depois acabou por Hoje em dia as obras não estão lá. Como é que tu respondes? Como é que tu explicas um bocadinho às pessoas?

Fui buscar outro tipo de alternativa, com muita pena minha, porque naturalmente o meu objetivo não era pôr lá as obras, mas também que as obras ou tivessem um seguro ou que tivessem o mínimo de condições para serem expostas quando fosse necessário. Não existia nenhum outro tipo de condições. Desapareceram-me vários trabalhos, alguns foram destruídos.

E, portanto, não optaste por não os ter lá.

Isto é uma das coisas que os ponte-sorenses não sabem. O jornal era da câmara e o jornal escrevia aquilo que lhe queria e lhe apetecia. Eu não tinha direito a dizer nada, nem quis de maneira nenhuma criar grandes complicações, porque sou de Ponte de Sor, gosto imenso das pessoas, tenho imensos amigos de Ponte de Sor. Eu não queria que as pessoas ficassem com uma imagem de Ponte de Sor negativa. Mas na realidade aquilo que aconteceu foi isso: destruição. Eu tenho várias fotografias de coisas destruídas.

Tu optaste por fazer outra coisa.

E ter que pedir a alguns artistas para me fazerem uma segunda...

Segunda edição.

Aquilo que era possível. Noutros eu quase que tive vergonha de te falar, porque sei que eles iriam ficar muito tristes.

Algum dia, se houvesse condições, aquilo voltaria para lá, António? Ou não?

Eu tenho alguma dificuldade. Na realidade, posso colaborar e tenho uma ideia, mas de outra forma, com outro projeto. Porque tenho imensa pena, sendo eu de Évora, com o património cultural que tenho, não poder dar mais ajuda à minha terra. Mas olha, até te fosse, como se costuma dizer, vou dizer que há pouco tempo abriu um centro de dia e de noite, com vários quartos.

Onde tu puseste lá obras, que eu sei.

Disseram-se eu queria fazer uma exposição. Eu disse que não vinha fazer exposição, que eu oferecia as obras. E eu ofereci cerca de 60 trabalhos. Decorei todos os quartos.

Do centro de dia, lá?

Lá, em Vale de Sor.

Vale de Sor, tua terra natal.

Mas sim, posso dizer, já agora, tenho que dizer publicamente e sinto sinceramente pena que depois de fazer aquela oferta vieram ter comigo depois: "Vamos abrir aqui na Tramaga", que é uma outra populaçãozinha pequenina que está lá. "Você oferece?" "Sim, senhor". Eu mandei daqui, foram lá e entregaram mais 15 trabalhos. Sai nos Ecos do Sor uma reportagem sobre o espaço que estavam a abrir em Vale de Sor e nem sequer uma notazinha a dizer: "Um indivíduo que é aqui do Vale de Sor, que oferece estas coisas para aqui". Pelo menos dizer: "Olha, António Prates ofereceu para a sua terra", qualquer coisa. Nada, rigorosamente nada. Como é que é possível?

Fica aqui este recado. Fica também esta ideia deste homem ligado às artes, António Prates, que também tem, além disso, e já não temos tempo falar hoje, adora a música e tem um novo projeto que abriu há um mês e já vamos falar disso com calma um dia, outro dia. E tem os manuscritos que ele também adora, a arte postal, a grande coleção da arte postal que ele tem. Mas António, infelizmente, nós não vamos ter mesmo tempo para agora. Renovo aqui o convite para visitarem o Centro Português de Fotografia, fazerem-se sócios, que vale bem a pena. E no mesmo local, na Galeria António Prates, no piso inferior, visitarem até dia 8 a exposição Película Passageira, de Joana Pita. E agora no K4, deixo-lhe três sugestões de exposições. Depois dos diamantes, chegam as granadas de sangue. Até 1 de março, pode ver no Museu Nacional do Traje, em Lisboa, a exposição de fotografia Blood Red Luxury, do premiado fotojornalista terceirense Luís Godinho. Uma reportagem fotográfica realizada há um ano nas minas de Tsatsha, na província de Cabo Delgado, no norte de Moçambique, retratando a vivência da comunidade Mahera, na exploração das minas de pedras semipreciosas granadas e as condições de trabalho desumanas de homens, mulheres, adolescentes e crianças. Uma exploração que começou há seis anos, quando um grupo de tanzanianos que andava nas matas à procura de rubis, encontrou as pedras semipreciosas espalhadas pelo terreno, devido aos buracos abertos pelos animais em busca de abrigo. No Museu do Traje, de terça a domingo, das 10 às 18. Até 12 de abril, na Alfândega do Porto, pode ver a exposição de fotografia Henri Cartier-Bresson: Retratos, com 121 trabalhos de um dos mais importantes fotojornalistas do século XX, fundador da agência Magnum Photos. São sete décadas de trabalho condensadas nesta exposição, que se baseia no livro Tête-à-tête, de 1998. As primeiras imagens datam de 1930, quando ele viajou pela Europa, e as últimas são de quando decidiu trocar a fotografia pelo desenho, a sua paixão original. Aos rostos de celebridades como Marilyn Monroe, Coco Chanel, Pablo Picasso, Simone de Beauvoir, Robert Kennedy ou Martin Luther King, juntam-se outros de pessoas anônimas, captados pela Leica do fotógrafo, que também foi pintor, realizador e documentarista e morreu em 2004. Na Alfândega do Porto, de segunda a sexta, das 10 às 19. Fim de semana e feriados, das 10 às 20. Até 10 de fevereiro, no piso -1 do Museu Coleção Berardo, pode visitar a exposição de arte contemporânea Saudade, que reúne 16 artistas da China e de Portugal, entre os quais José Pedro Croft, Rui Moreira, Joana Vasconcelos e alguns nomes impronunciáveis. O denominador comum das obras é uma reflexão sobre os conceitos de diversidade, festividade e ambiguidade, bem como a íntima relação destes com o sentimento de saudade. A não perder, esta com curadoria de Yuko Hasezawa, curadora-chefe do Museu de Arte Contemporânea de Tóquio, Saudade, no Museu Coleção Berardo, todos os dias das 10 às 19. É o maior, o mais ambicioso e mais famoso quadro de Rembrandt. A Ronda da Noite tem 3,8 metros de altura por 4,5 de largura, pesa 337 quilos e foi pintado em 1642. O seu título verdadeiro é: A Companhia do capitão Frans Banninck Cocq e do tenente Willem van Ruytenburch A preparar-se para avançar, segundo uma inscrição encontrada num esboço preparatório. No século XIX, chamaram-lhe Ronda da Noite por um equívoco, pois o quadro estava bastante escurecido pela oxidação do verniz, as pinturas eram quase indistinguíveis e parecia uma cena noturna. Quando um restauro em 1947 eliminou esse verniz escurecido, descobriu-se que o título não se ajustava à realidade, pois a ação desenrola-se de dia, e não à noite, no interior de um teatro, quando um raio de sol ilumina intensamente os presentes. Ao longo da sua história de três séculos e meio, a Ronda da Noite foi submetida a 25 restauros. Um dos últimos foi em 75, após um ataque de vandalismo, quando um maluco lhe fez numerosos cortes em ziguezague com uma faca. Dez anos depois, um visitante aspergiu a pintura com um spray de ácido. A rápida intervenção dos seguranças e a água logo pulverizada neutralizaram o ácido, que não chegou à tela e só danificou o verniz. O último restauro está em curso no Rijksmuseum, em Amesterdão, e pode ser acompanhado pelo público em direto, no local ou online. Uma equipa de 20 especialistas internacionais, entre restauradores, historiadores de arte, cientistas e fotógrafos, está a trabalhar atrás de uma estrutura de vidro, sete metros em redor do quadro, para que todo o processo possa ser seguido. O restauro deverá durar um ano e meio e inclui o apoio de inteligência artificial, um scanner com raios-X e infravermelhos e uma lupa que aumenta dezenas de vezes. Serão feitas 12 mil fotos de alta resolução e uma imagem 3D da obra, estudando desde os materiais e as técnicas empregues pelo mestre holandês, aos restauros, degradação e o futuro provável da pintura. E é tudo por hoje. Bom fim de semana, boas exposições, bom ano. Eu sou o João Paulo Sacadura e conto consigo no próximo K4, já em 2020, aqui na Rádio Observador.