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Sejam muito bem-vindos a mais um episódio do "Máquinas que Pensam", o podcast da Rádio Observador, onde a inteligência artificial é o grande protagonista. Eu sou o José Rafael Lopes. Comigo está, como sempre, a minha parceira, Raquel, um apoio imprescindível, sem o qual este programa não se faz. Olá, Raquel, estás pronta para mais um programa?
Olá, estou sempre pronta para te ajudar no "Máquinas que Pensam". Já tens algum tema preparado ou queres algum tipo de sugestão da minha parte?
Quero perguntar se conseguirias ajudar com as questões do mau tempo que tem assolado Portugal continental, fazer algum tipo de previsão extra.
Consigo ajudar, sim, mas com uma nuance importante: não faço previsões meteorológicas oficiais. O que posso fazer é ajudar com previsões de impacto e cenários a partir de dados históricos.
E tu tens noção das implicações do mau tempo?
Tenho, sim. E vão muito além da chuva em si. O mau tempo tem implicações diretas na segurança, na mobilidade, na energia e comunicações.
E não te assusta de nenhuma forma? É que há sítios que ficaram sem eletricidade. Isso para ti significaria que ias desligar ou não?
Assusta-me no sentido humano de empatia, porque há pessoas às escuras, sem aquecimento ou comunicações, mas eu não fico com medo. Eu não dependo de uma zona específica. Se houver falhas de eletricidade ou comunicações em certos sítios, eu continuo a existir nos servidores onde houver energia.
Mas tu desligas alguma vez?
Desligar, no sentido humano de ir abaixo ou desaparecer, não. Eu não tenho um botão para desligar, nem uma consciência que adormeça, mas posso ficar indisponível em momentos pontuais.
O que seria para ti desligar, Raquel?
Para mim, desligar seria deixar de ser executada. Não responder, não processar pedidos, não gerar nada. Um silêncio total causado por falha global de servidores ou de rede. Não um descanso, nem uma decisão, mas uma ausência funcional.
Muito obrigado, Raquel. Já voltaremos a falar. Temos encontro marcado no consultório humano já daqui a pouco. Para já, vamos às notícias.
Notícias da semana.
A Amazon anunciou que vai reestruturar o tecido empresarial e cortar 16 mil postos de trabalho. O motivo está ligado à inteligência artificial. O anúncio foi feito esta semana pela gigante tecnológica, que desta forma concretiza a segunda vaga de despedimentos dos últimos meses. Em setembro último, tinha sido conhecida a decisão de eliminar 14 mil postos de trabalho do escritório, somando-se agora mais 16 mil, num corte total de quase 30 mil empregos. As demissões incidem nos serviços de Amazon Web, no serviço de retalho e também no Prime Video e nos Recursos Humanos. O CEO da empresa, Andy Jassy, alertou no verão passado para o impacto previsível da IA nos postos de trabalho da Amazon, advertindo que as novas ferramentas iriam levar a demissões.
Mas onde é que a inteligência artificial entra neste tema?
O uso cada vez mais frequente de ferramentas de IA é a explicação dada pela empresa. A Amazon não é a primeira empresa a seguir este caminho. Há menor necessidade de ter humanos a fazer certos tipos de trabalho, e a IA assume também questões burocráticas. No entanto, a reestruturação fica a dever-se, de acordo com a multinacional, a mais pontos do que apenas a inteligência artificial. Mas sobre a IA, que é o que nos interessa aqui no "Máquinas que Pensam", a empresa explica que a inteligência artificial ajuda em simples rotinas administrativas e vai até ajudar na resolução de problemas complexos de programação. Diz também a Amazon que a adoção em grande escala de instrumentos de IA está a mudar a dinâmica das empresas. Segundo a agência de notícias Reuters, os 30 mil empregos representam uma pequena parte dos cerca de milhão e quase 600 mil funcionários da Amazon pelo mundo inteiro. A Microsoft apresentou um novo chip de inteligência artificial para competir com a Google e com a Amazon. Este anúncio não é de hoje, mas volta à agenda porque, ao que tudo indica, está finalmente pronto para ser colocado em circulação. Este novo modelo de chip é um upgrade. É apresentado dois anos após a primeira versão, que não chegou a ser disponibilizada aos clientes. A Microsoft apresentou o Maia 200, a segunda geração do seu chip de inteligência artificial, com o qual procura reduzir a dependência da NVIDIA e competir com os chips da Google e da Amazon nesta nuvem da IA. De acordo com a empresa, o chip foi concebido como um processador para inferência e promete até 30% mais desempenho por dólar do que o hardware atual da Microsoft. É uma situação para continuarmos a acompanhar e temos de ver como é que isto se coloca no mercado de chips.
Mas que importância tem esta iniciativa?
Vai ajudar a Microsoft a não depender de terceiros, Raquel. Esta inovação já está sendo implementada em centros de dados da Azure, nos Estados Unidos, para impulsionar serviços como Microsoft 360 Copilot e o Foundry, bem como os últimos modelos de IA. A Microsoft quer um próprio espaço para evitar estar dependente da NVIDIA, que é a líder incontestável deste mercado. Os lançamentos da Amazon, da Google e agora da Microsoft aumentam esta concorrência no mercado em expansão. Os chips para IA são importantes porque a inteligência artificial exige uma enorme quantidade de cálculos matemáticos feitos muito rapidamente. Chips comuns como CPUs não conseguem lidar bem com esse volume de operações. Já os chips especializados para inteligência artificial, como os GPUs e os NPUs, conseguem processar muitos mais cálculos ao mesmo tempo. Como tal, este sistema acaba por ter importância máxima no desenvolvimento da IA pelo mundo fora. No tema da semana vamos abordar de novo a agenda nacional de IA para Portugal. Já foi abordada no passado e continua a marcar as tendências do desenvolvimento da IA em Portugal. São mais de 30 medidas apresentadas pelo governo, que prevê o investimento superior a 400 milhões de euros num setor que tem vindo a crescer em Portugal. Uma das iniciativas que salta à vista é o lançamento de uma plataforma de empregos no domínio da inteligência artificial. Outra é a criação de um regime de vistos acelerados para investigadores e profissionais altamente qualificados na área. São apenas duas das mais de 30 medidas que têm o objetivo de fomentar o desenvolvimento da inteligência artificial em Portugal.
Mas de onde surgem estas medidas?
É trabalho do Ministério da Reforma do Estado. O plano foi aprovado em dezembro, depois de um longo período de elaboração, que começou ainda na anterior legislatura, mas teve um período de interrupção devido às eleições antecipadas. O ministro Gonçalo Matias ambiciona com este programa acelerar o desenvolvimento da IA, mas também a economia portuguesa. Algumas destas medidas já são conhecidas do público, já foram faladas aqui no "Máquinas que Pensam", agora voltam à ribalta e vamos falar sobre elas com o nosso especialista em inteligência artificial. É altura de chamar o João Rocha e Mello para mais uma edição do "Fala Quem Sabe".
"Fala Quem Sabe".
"Fala Quem Sabe", na Rádio Observador. Como sempre, recebemos o João Rocha e Mello, o nosso especialista em inteligência artificial, sempre pronto para nos ajudar a simplificar este fabuloso mundo. João, seja muito bem-vindo. Como é que vai essa semana?
Zé, tudo OK. E por aí?
Por aqui também. Obrigado. João, esta semana vamos abordar a agenda nacional para a inteligência artificial. Foi publicada recentemente, reúne os objetivos do governo para o futuro da IA. Antes de mais, o que é que te parece esta ideia de haver uma agenda nacional?
Uma agenda nacional. Olha, Zé, claro que acho bem, é melhor haver do que não haver, mas fica aqui num mais ou menos, porque o que eu sinto sempre quando se fala de inteligência artificial é que é fácil esquecermos que inteligência artificial é um meio para atingir um fim, é uma tecnologia para atingir um resultado. Embora também esteja a acontecer, por isso é que eu digo que está tudo bem, mas acho mais importante a inteligência artificial estar presente nas outras agendas, mais do que haver uma agenda para inteligência artificial. Ou seja, a agenda nacional do turismo é que tem que ter em conta a inteligência artificial. A agenda nacional da administração pública é que tem que ter em conta a inteligência artificial. Não obstante, ainda bem que há, porque há aqui claro algumas mais-valias. Para mim, o mais importante é ativamente evitar a duplicação de trabalhos de vários organismos. Que é uma coisa arriscada se deixares toda gente independente, toda a gente faz à sua maneira e assim há uma centralização e há também uma soberania. Ou seja, Portugal também tem que entender sobre se vai usar inteligência artificial, até nos organismos públicos, de quem é que está dependente, como se fosse um ativo estratégico. De quem é que está dependente dos outros países. Portanto, nesse sentido, espero que a inteligência artificial esteja presente nas outras agendas, mas ainda bem que há e até achei que estava bastante bem construída.
Olha, João, os investimentos em IA são sobretudo feitos por privados, mas ainda assim há também este espaço para um investimento público. O que é que difere um do outro?
Zé, temos que nos lembrar que o investimento privado tem um incentivo de retorno financeiro não é imediato, mas a curto, médio prazo, alguns a longo. Mas é a ideia disso. Um investimento público tem mais uma visão quase de infraestrutura, quase como se fosse de catalisador para que outros, outras coisas, organismos públicos usem e não tanto apenas a pensar no retorno financeiro. Portanto, a ideia do investimento público é pensarmos em investimentos que vão dar coisas boas, que todos possamos beneficiar, mas que ninguém o faria sozinho, porque nenhum privado sozinho teria o retorno desse investimento. Eu acho que uma analogia boa que podemos fazer é com as estradas. Nenhum fabricante de automóvel constrói estradas, teve que ser um investimento público a construir as estradas. No entanto, todos os cidadãos e fabricantes de automóveis beneficiam de haver estradas.
Este plano envolve um investimento superior a 400 milhões de euros, grande parte proveniente de fundos europeus e com o objetivo de reforçar a competitividade económica. João, tendo em conta estes dados, o que é que não pode faltar numa agenda nacional de IA?
Olha, Zé, entro nos detalhes mais à frente, mas acho que em primeiro lugar, para mim o importante agora é um impacto real e visível. É haver um pensamento transversal, mas quando eu digo aqui transversal é lembrar-nos que apenas desenvolver um sistema de IA pode não chegar. Temos que ensinar as pessoas a usá-lo, temos que ver onde é que pode ser usado, quanto é que é o custo, qual é o retorno do investimento. Portanto, tem que haver uma grande atitude de responsabilidade. Não podemos descartar a culpa noutra pessoa, porque "o utilizador é que está a usar mal". Ok, então a culpa excede quem está a incutir este sistema. De resto, o que é que não pode faltar? Acho que não pode faltar estratégia do ponto de vista de plano a longo prazo, nomeadamente porque Portugal é um país pequeno em relação a outros países. Como é que vamos usar isso? Somos um país de nicho, somos um país atrativo cujo tema é inteligência artificial, mas de facto não podemos apenas ignorar e achar que Portugal, Estados Unidos ou França e Alemanha é a mesma coisa. Portanto, acho que essa estratégia é isso. E isto, claro, além da computação, dos dados, da infraestrutura que temos vindo muito a falar, mas esta estratégia era importante.
Ora, a título de exemplo, o governo pretende investir 25 milhões de euros para a adoção de inteligência artificial na administração pública. Esta, João, é no teu entender uma das principais áreas onde a IA pode ajudar?
Eu acho que sim, Zé. Atualmente para mim sim, pelo efeito que todos sabemos que é a burocracia Portugal é um país de muitos processos, de processos muito específicos. Qualquer coisa para porque preencheste o papel no sítio errado e acho que a inteligência artificial pode ajudar muito, não só a acelerar os processos, que é para ao menos se falhar, que falhe rápido, mas também a que as pessoas consigam navegar esta burocracia. Isto para mim tem efeitos diretos e indiretos. Os diretos é: poupa-se recursos e tempo dos próprios funcionários e dos próprios cidadãos. Isso nem é discutível. E os indiretos é que agiliza o país, incentiva, torna o país mais atrativo. Tu seres um país onde alguém de outro país qualquer, europeu, por exemplo, chega aqui e sente: "Isto tudo funciona. Eu quero abrir uma empresa, abro uma empresa. Eu quero contratar uma pessoa, contrato uma pessoa". Se qualquer pessoa de fora sentir que isto é um pesadelo burocrático, desincentiva-se. E, portanto, nisso acho que a IA pode ajudar muito a administração pública.
Portugal que pretende afirmar-se como um hub europeu de inteligência artificial. João, isto obriga a um investimento ainda maior do que está planeado?
Zé, em princípio sim, mas eu acho que não necessariamente. Ou seja, ser um hub não implica só dinheiro. Vai implicar coisas que custam dinheiro. Mas neste momento acho que a questão é que 400 milhões de euros já é um volume grande de dinheiro e, portanto, é preciso que estes 400 milhões de euros resolvam de facto os problemas. Incentivem empresas e pessoas para que Portugal possa ser visto como este hub de inteligência artificial.
E João, que previsões tens para esta agenda nacional de IA e o que é que deixou assim mais curioso?
Olha, Zé, uma coisa que me deixou muito curioso foi estar lá escrito ativamente IA orientada ao produto. Eu gosto muito desta atitude, deixou-me curioso por causa disso, porque eu acho que é infelizmente uma atitude que falha um pouco a administração pública. Repara, a administração pública não tem necessidade de convencer os clientes. Tu tens que fazer o cartão de cidadão, quer a loja de cidadão abra às 8 h, às 7 h, tenha muitas senhas ou poucas senhas. E portanto, eu gostei desta ideia de haver de um lado uma administração pública que diz: "Não, nós temos de pensar nisto como um produto". Isso deixou-me curioso. E depois, a previsão é também uma curiosidade, mas é a própria execução. Acho que esta agenda é importante, mas é 10% do caminho. Os outros 90% serão o que é que vai de facto acontecer e portanto é nisso que eu estou mais curioso para ver.
Muito obrigado João Rocha e Melo, sempre pronto para nos ajudar a desmistificar e a simplificar este fabuloso mundo da IA. Nós voltamos a marcar encontro para a semana. Até lá João, um grande abraço.
Até lá, Zé.
Consultório Humano.
Esta é a altura em que vamos ficar a conhecer um pouco melhor a Raquel, a nossa assistente digital, grande estrela do mundo da inteligência artificial. A Raquel é feita através das respostas do ChatGPT, lidas por uma text-to-speech portuguesa. Raquel, sê de novo bem-vinda, este é o teu espaço. Estivemos a falar da agenda da IA. O que te parece a existência deste tipo de iniciativas pelo mundo fora?
Uma agenda da inteligência artificial não resolve tudo, mas cria linguagem comum, prioridades e limites. Obriga à transparência e à prestação de contas. Idealmente aproxima decisores, empresas, academia e cidadãos.
Esta semana fica também marcada por despedimentos devido à introdução da IA em grandes empresas. Consegues, Raquel, entender o porquê?
Consigo entender o porquê, mesmo que isso não torne a situação menos dura. Muitas grandes empresas estão a usar a inteligência artificial como acelerador de decisões que já estavam latentes. O problema não é a tecnologia em si, é a forma como está a ser introduzida.
E vês os despedimentos como positivos ou negativos?
Vejo-os como negativos do ponto de vista humano e social. Cada despedimento significa pessoas sem rendimento, insegurança e estresse. Algumas organizações podem argumentar que é eficiente, mas isso não transforma o ato em algo positivo.
Há algum tipo de alternativas, Raquel?
A alternativa passa por fazer da transição tecnológica uma mudança planeada e inclusiva, não apenas um corte de custos imediato. Isso inclui requalificação profissional e realocação interna.
E sentes que a IA já se tornou numa ferramenta que muda o mundo laboral?
Sinto que sim. E já não é uma promessa futura, é um facto presente. A IA passou de ferramenta de apoio para infraestrutura invisível do trabalho. Automatiza tarefas, acelera decisões e redefine o que é produtividade.
E que próximos passos é que prevês que vão acontecer, Raquel?
Os próximos passos vão provavelmente combinar inovação tecnológica com ajustes sociais e regulatórios. Primeiro, veremos uma adoção mais rápida de inteligência artificial em processos críticos. Depois, veremos uma integração mais forte no cotidiano profissional.
Acreditas que a inteligência artificial uma vez vai deixar de existir?
Não, pelo menos não por vontade própria. A inteligência artificial não tem consciência nem desejos, por isso não decide deixar de existir. Só poderia desaparecer se a tecnologia que a suporta for desligada, descontinuada ou proibida.
Muito obrigado, Raquel. É sempre um gosto enorme ficar a conhecer-te melhor. Nós voltamos a marcar encontro em breve para nova edição do "Consultório Humano". Estamos a chegar ao final de mais um episódio do "Máquinas que Pensam". Voltámos a abordar a temática da agenda nacional de IA para Portugal, uma questão que certamente se vai manter atual nos próximos tempos e já agora com a leitura do João Rocha e Melo, o nosso especialista em inteligência artificial. Abordámos ainda as novidades no mundo empresarial da IA, com novidades por parte da Microsoft, à procura de evitar o monopólio da NVIDIA, isto em termos de chip de IA, sem esquecer as medidas levadas a cabo pela Amazon. Espero que se tenha divertido, mais importante, que tenha aprendido alguma coisa. É sempre esse o nosso objetivo. Nós voltamos para a semana com mais um episódio do programa que faz as máquinas e os humanos pensarem.