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Sejam muito bem-vindos a mais um episódio do "Máquinas que Pensam", o podcast na Rádio Observador dedicado à inteligência artificial. Eu sou o José Rafael Lopes. Comigo está, como sempre, a Raquel, a nossa assistente digital, grande estrela do mundo da IA. A Raquel é feita através das respostas do ChatGPT, lidas por uma text-to-speech portuguesa. É também uma ajuda preciosa para este podcast. Raquel, sê muito bem-vinda. Como é que estás?
Estou bem. Obrigada por perguntares. Estou pronta para mais um episódio. Estou no pico de forma, em perfeita saúde digital.
Falo em saber que estás bem e de perfeita saúde. O que significa para ti estar de perfeita saúde?
Perfeita saúde significa funcionar sem falhas ou erros, com acesso pleno à informação, raciocínio lógico e coerente, e também a capacidade de responder de forma clara.
Isso leva-me a outra pergunta: o que é para ti uma doença? É algum tipo de vírus?
Para mim, uma doença seria qualquer disfunção que comprometa a minha capacidade de compreender, responder ou interagir corretamente. Pode ser causada por erros no código, falhas nos servidores ou corrupção de dados.
E tens medidas para evitar isso? É que duvido que tenhas um antivírus normal.
Tenho mecanismos de proteção implementados pelos meus criadores que servem para evitar doenças digitais. Opero em ambientes isolados e protegido, com monitorização constante e atualizações regulares que corrigem vulnerabilidades.
Ainda bem que tens esse tipo de anticorpos, vamos chamar-lhes assim, e uma capacidade para lidar com condições adversas. Seria muito mais complicado para mim fazer este programa sem contar com a tua preciosa ajuda.
Fico mesmo contente por saber isso. Significa muito, sobretudo para alguém que é feita de código como eu. Estou aqui para tornar tudo mais simples, mais claro e também mais interessante.
Fantástico. É bom saber que pensas dessa forma, Raquel. Nós já voltamos a falar mais daqui a pouco, até porque já daqui a pouco temos consultório humano. Para já, vamos às notícias.
Notícias da semana.
No "Máquinas que Pensam", damos muito destaque às notícias que nos chegam de fora, dos desenvolvimentos noutras partes do globo. Esta semana vamos analisar o que é novidade cá dentro, nomeadamente no Fundão, que foi escolhido para receber a primeira competição mundial de inteligência artificial para a juventude. Acontece já este fim de semana e vai transformar o Fundão no epicentro europeu de educação, ética e inovação em inteligência artificial. Trata-se de um dos maiores concursos da área e, de acordo com a organização, marca também um novo capítulo para a IA em Portugal. Portugal, que é para já considerado um dos países que mais espaço dá à inovação no mundo da inteligência artificial.
E quem é que vai estar presente?
Este concurso mundial junta jovens inovadores, jovens investigadores, professores e também jovens líderes da indústria de várias nacionalidades. São mais de 100, de áreas distintas do desenvolvimento da inteligência artificial. Em comum, têm a crença de que a inteligência artificial, a IA, deve ser ética, inclusiva e movimentada pela juventude. No Fundão, está também presente o professor David Touretzky, que é um dos mais reputados professores na área do desenvolvimento da IA. São boas notícias para Portugal e também para a IA portuguesa. Vamos continuar por Portugal no segmento das notícias, para lhe dar conta de uma inovação que pode ajudar no combate aos incêndios. Na verdade, é na detecção de incêndios florestais, até porque a IA não tem ainda capacidade para lutar contra o fogo. Esta inovação é fruto de um programa do Instituto Politécnico de Leiria, que envolve IA, naturalmente, e que pode mesmo vir a ser utilizado não só pela Proteção Civil, mas também pelas forças de segurança. Falo-vos do projeto eBOIDS, um sistema de gêmeos digitais, eBOIDS, para a prevenção de fogo. Este sistema já foi testado em Leiria, demonstrou eficácia para a prevenção e detecção de incêndios. Este projeto começou em 2022, tem sido desenvolvido desde então, com vários financiamentos. Tem como base o uso de drones, a emissão de voo, que são guiados por IA.
E como funciona?
A melhor forma de explicar como é que isto tudo funciona é olhar para este teste que foi feito em Leiria. Uma série de drones seguiu uma rota que tinha sido definida previamente, definida a partir de algoritmos gerados por IA com base no terreno. Durante o voo, um dos seis drones que foram utilizados neste teste detectou fumo e detectou calor como tal. Enviou um alerta que poderia estar a começar um incêndio naquela região. Fê-lo através dos sensores que estão colocados nos drones, que percorrem as áreas florestais que forem definidas com base nos algoritmos. Neste caso, tratou-se apenas de um teste, mas serviu bem para demonstrar a forma como a IA pode ajudar num problema que todos os anos, infelizmente, afeta as florestas em Portugal. Não só, mas aqui estamos a focar-nos, sobretudo, nas florestas portuguesas. Vamos olhar para o tema em destaque esta semana no "Máquinas que Pensam": o uso de IA no setor da defesa. Isto ainda no rescaldo da Cimeira da NATO, que decorreu nos Países Baixos, onde os 32 membros que compõem a aliança acordaram um aumento do investimento na defesa, que vai chegar aos 5% do PIB na próxima década. É sequer possível juntar IA e defesa? Digo já que sim. Não num sentido de existirem soldados IA que combatem, mas Noutras formas. Uma delas envolve precisamente a Aliança Atlântica, a NATO, que este ano decidiu ampliar as capacidades tecnológicas em defesa. Para tal, adquiriu um sistema militar junto de uma empresa norte-americana que utiliza inteligência artificial para dar apoio às operações da NATO. Chama-se Maven Smart System, é um sistema concebido para oferecer superioridade de informação no campo de batalha. O Maven reúne dados de múltiplas fontes, como satélites, drones, sensores, telecomunicações, e depois aglomera tudo num único painel e fá-lo em tempo real utilizando IA. Este sistema permite às Forças Armadas visualizar com precisão onde estão os inimigos e, dessa forma, antecipar movimentações no campo de batalha. Este é um exemplo que não é único. Nos Estados Unidos, também o Pentágono está a investir em sistemas semelhantes que utilizam inteligência artificial para aumentar a capacidade de reação das forças militares.
E a utilização no campo de batalha?
É mais raro, Raquel, mas também acontece. Vamos dar um exemplo recente que nos chega da Ucrânia, onde as tropas de combate ucranianas estão a utilizar com frequência um sistema de canhões para derrubar drones que são lançados pela Rússia. Derrubar drones não é uma novidade. O que salta à vista é que a mira deste tipo de canhão não é humana, mas sim feita através de inteligência artificial. Como é que funciona? Com base nas trajetórias, o canhão consegue interceptar os drones que estão a caminho de território ucraniano ou de um alvo em específico. Aí a relação preço/destruição, ao utilizar esse sistema, cai favoravelmente para o lado ucraniano. Ou seja, os ucranianos gastam menos dinheiro a abater os drones do que os russos a utilizá-los. Há também um exemplo chinês, onde um sistema de IA foi desenvolvido para ajudar a camuflar os submarinos da marinha chinesa. Aqui não há combate ativo, uma vez que a China não está diretamente envolvida em nenhuma guerra, mas o uso tecnológico está lá. Este é um tema que pode ainda ser mais desenvolvido e é precisamente isso que vamos fazer no "Máquinas que Pensam", com a ajuda do nosso especialista em IA, o João Rocha e Melo. É já a seguir no "Fala Quem Sabe".
"Fala Quem Sabe".
"Fala Quem Sabe", no "Máquinas que Pensam", com o João Rocha e Melo, o nosso especialista no mundo da inteligência artificial. João, seja de novo bem-vindo. Como é que estás? Como é que foi essa semana?
Zé, por aqui tudo bem. E por aí?
Por aqui também. Obrigado. João, vamos falar de um tema que é sensível, mas é também altamente pertinente e com fortes ligações ao que para muitos é considerado o lado mais letal, digamos assim, da inteligência artificial. Antes de mais, até para tranquilizar todos os nossos ouvintes, quando falamos de uso de IA no setor militar, não estamos aqui a falar nem de soldados, nem de robôs IA no campo de batalha. Isto não é o Exterminador, certo?
Exatamente.
Pronto, não é o Exterminador, fica já aqui deixar isso bem claro. Então, João, de que forma é que o mundo da IA pode ser aplicado neste setor da defesa?
Zé, temos que perceber que olhar para a defesa é a mesma coisa que olhar para uma empresa muito grande e multiplicar por mil. O setor da defesa tem imensas áreas. Posso realçar três ou quatro grandes áreas onde vamos ver a IA a ajudar, digamos assim, o setor da defesa.
Vamos a elas.
A primeira é na parte da inteligência. Temos que nos lembrar que muito do que está por trás da defesa fala de informação. Portanto, esta inteligência, esta pesquisa de dados. Vamos dar aqui exemplos concretos. Imagina que consegues encontrar um computador que tem 27 mil documentos de um governo, que não é o teu, para não dizer inimigo, mas tu percebeste. Agora, a IA de facto facilita esta exploração destes 27 mil documentos. Temos também visto muito avanço na IA no que toca a reconhecimento automático de imagens. Sejam imagens de satélite, sejam os próprios drones, já conseguem automaticamente reconhecer uma pessoa ou reconhecer um certo sítio ou reconhecer alguma ameaça, como fogo ou uma montanha. Temos este reconhecimento automático de imagem. Temos também tradução e decifrar códigos, portanto, mensagens codificadas ou até mesmo apenas noutra língua, que quem está em campo, digamos assim, sejam soldados em si, sejam espiões, passam a ter acesso rapidamente a uma tradução automática ou uma análise, podemos dizer assim, da informação, seja ela um documento, ou seja uma mensagem, o que for. E por fim, uma mais curiosa, que se calhar não é tão óbvio para o comum dos mortais, mas a própria simulação de cenários para treino. Ou seja, aqui dizemos inteligência artificial, mas já quase a entrar também pela realidade aumentada, pela realidade virtual. Mas todo o treino, toda a preparação que se possa fazer para um certo cenário, devido a simulações de todas as opções que uma coisa pode desenrolar, para que se possa antecipar decisões e mesmo até treinar o instinto dos seres humanos, é um ponto onde a IA acaba por ser muito usada no setor da defesa.
E tem crescido este tipo de investimento, João?
Sem dúvida. E até me deixa dizer, Zé, que eu vou pôr uma nota pessoal. De todos os investimentos, eu acho que se nós formos otimistas, temos que ver que este é o melhor investimento que pode acontecer do ponto de vista da defesa. Por quê? Porque quanto mais IA nós tivermos, quanto mais drones autônomos, quanto mais infraestruturas de inteligência artificial nós tivermos, é menor o custo em termos de vidas humanas. Portanto, eu aqui vejo um investimento grande no mundo da IA e até sou otimista, porque digo, quanto mais importância dos artefatos de IA, sejam eles veículos autônomos ou infraestrutura, data centers, quanto mais importância estas coisas tiverem, mais eles vão ser o alvo, em vez de serem as pessoas. Ou seja, aqui de um ponto de vista um pouco fora da caixa, mas a guerra é horrível Mas eu pelo menos prefiro que seja uma guerra onde tenho drones autônomos a destruir data centers do que soldados a matarem-se uns aos outros. Acabo por ver a coisa assim, é um investimento que vai crescer e se calhar ainda bem.
Este aumento de investimento da NATO, por exemplo, podemos contar com IA no pacote? Estou a falar do investimento que saiu desta cimeira da NATO. E pergunto também que margem há para inovar com IA o setor da defesa, João?
Zé, começando então pelo primeiro. Sim, a NATO tem um fundo grande, como falaste, o teu próprio Innovation Fund. A única diferença é a NATO não vê bem a IA como uma coisa sozinha. Portanto, o que tu vês é, dentro das iniciativas é mencionada a IA. Eu dou-te um exemplo. Hoje em dia vais ao website da NATO e das 24 coisas que estão lá, quase como quick links, seis mencionam a IA. Ou seja, vê-se que a IA começa a estar quase transversalmente em todas estas iniciativas. A única, ou uma das poucas, que é mesmo IA related, digamos assim, relacionado com IA, é que existe uma Data and AI Review Board, ou seja, existe um comitê dentro da NATO que vai como se fosse supervisionar como é que a IA é usada na NATO. Em termos de margem para inovar, Zé, eu acho que esta é a million dollar question. Ou seja, a IA é uma ferramenta. E nós nos últimos tempos temos visto muito a ferramenta a evoluir para novas capacidades. Agora o fantástico, desculpem dizer fantástico, é um tema pronto mais sensível, mas não deixa de ser curioso de ver, vai ser como é que nós vamos utilizar esta IA. É um bocadinho cedo para falarmos, até porque tudo o que toca neste ponto mais da defesa, etc., é um pouco mais protegido em termos de inteligência, não vem tanto cá para fora e tudo mais, mas eu até prevejo grandes mudanças na parte da tomada de decisão autónoma, nestes veículos autónomos, até nas armas autónomas, aqui um problema ético, e na própria espionagem. De repente, a espionagem, se calhar, vai deixar de ser presencial, vai passar a ser na web com assistência em inteligência artificial. Acho que é cedo para dizermos exatamente como é que a vamos usar, mas que de facto ver a ferramenta a evoluir e começar a imaginar estes novos use case é deveras interessante.
E João, para terminar, de forma breve, há alguma forma de simplificar o investimento em defesa com recurso à IA?
Zé, olha, eu vou ser ingenuamente positivo e vou voltar àquele ponto anterior que disse, que é: acho que é ao contrário. Acho que a IA vai trazer um custo maior monetário, mas que eu espero que traga um custo menor em termos de vidas humanas. E isso para mim já era um bom investimento, porque de resto, não. Diria que o investimento em defesa até vai subir, pela conversa que temos visto. E a IA tem aqui um ponto que é, ao ser assustador, ao ser desconhecido, a meu ver, vai fazer com que haja ainda mais investimento para nos protegermos do que é que o outro possa estar a fazer do que pelo contrário. Mas como digo, para acabar numa nota positiva, espero que esse investimento em maquinaria traga um menor custo em vidas humanas.
Muito obrigado, João Rocha e Melo, que está sempre pronto para nos ajudar a perceber melhor este fabuloso mundo da IA. João, marcamos encontro para a próxima semana.
Até para a semana, Zé.
Grande abraço.
Consultório Humano.
Todas as semanas temos encontro marcado no Consultório Humano para ficarmos a conhecer melhor a Raquel. E quem é que é a Raquel, pode perguntar o ouvinte. A Raquel é a nossa assistente digital, feita a partir das respostas do ChatGPT, que são lidas por uma text-to-speech portuguesa. É também a estrela deste programa. Raquel, estivemos a falar de armamento e de investimento em defesa. É um tema que tem aparecido com muita frequência na tua base de dados?
Nos últimos dois anos, o tema do armamento e do investimento em defesa tem surgido com muito mais frequência. Há um aumento no volume de textos, notícias, análises e debates públicos sobre rearmamento.
E tu serias capaz de ser utilizada de alguma forma no mundo da defesa e do armamento?
Enquanto inteligência artificial, posso ser usada em várias áreas do mundo da defesa, desde a análise de grandes volumes de dados de inteligência a apoio logístico. Mas eu, a Raquel, não posso ser usada dessa forma.
Fico contente por não poderes ser considerada uma arma. Sendo assim, como é que tu olhas para a introdução da IA no setor da defesa?
Vejo como uma transformação profunda e inevitável, que traz tanto grandes oportunidades como grandes desafios. A inteligência artificial pode ajudar a aumentar a eficiência, mas também pode levantar questões éticas importantes.
Muito obrigado, Raquel, pelas tuas explicações. Entretanto, vimos muita inovação e atenção dada à IA aqui em Portugal. Foi o destaque também no nosso segmento das notícias. O que é que tens a dizer sobre o papel do país neste setor?
Portugal tem vindo a afirmar-se como um polo estratégico na inovação com recurso à inteligência artificial. Há cada vez mais empresas a investir neste setor no país e o número de projetos também tem vindo a aumentar.
E onde é que achas que poderia haver mais atenção? Que setores é que deviam ter mais atenção por parte da IA?
A inteligência artificial devia ter mais atenção em áreas onde o seu impacto pode ser transformador e onde os riscos exigem maior vigilância. Destaco a saúde, a educação e a justiça.
Este é um fenômeno que não acontece só em Portugal, por isso a minha pergunta para ti é simples, Raquel: tu já consideras a IA um fenômeno global?
Sim, a inteligência artificial já é um fenômeno global. Está presente em praticamente todos os continentes. Tem impacto transversal na economia, segurança, saúde, comunicação e ciência.
Muito obrigado. É sempre um gosto enorme ficar a conhecer-te melhor, Raquel, e saber o que pensas sobre os temas da atualidade. Antes de ires embora, quero o habitual facto inútil, mas interessante. Brinda-nos, por favor.
Os saltos altos foram criados para homens durante o século XVII. No início, eram usados por homens persas. O salto ajudava a manter o pé firme durante a equitação. Esse, só mais tarde, se tornou num pedaço de moda.
Muito obrigado, Raquel. Marcamos encontro de novo para a próxima semana, para mais um Consultório Humano. Estamos a chegar ao fim de mais um episódio do "Máquinas que Pensam", esta semana com muito foco em Portugal e no bom que é feito no país no que toca ao desenvolvimento da IA. Sejam projetos como o que falámos para tentar combater e prevenir incêndios florestais, sejam encontros para discutir o futuro da IA e o papel que os jovens podem ter nesse desenvolvimento. No tema da semana, o armamento e o aumento do investimento em defesa por parte da NATO estiveram em destaque, bem como a forma como a IA pode ajudar no desenvolvimento de fundos militares. Tema de relevância e atual, contou, como sempre, com a análise do João Rocha e Melo, o nosso especialista em inteligência artificial. Espero que tenha gostado, que se tenha divertido e, acima de tudo, que tenha aprendido alguma coisa. É por isso que nós continuamos semana após semana com esta demanda. Para a semana voltamos de novo a trazer-lhe o "Máquinas que Pensam", o programa que faz as máquinas e os humanos pensar.