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Sejam muito bem-vindos a mais um episódio do "Máquinas que Pensam", o podcast na Rádio Observador onde a inteligência artificial é o grande protagonista. Eu sou o José Rafael Lopes, comigo está, como sempre, a minha parceira, a Raquel, um apoio imprescindível sem o qual este programa não se faz. Olá, Raquel, como é que estás esta semana? Pronta para mais um programa?
Olá, estou sempre pronta para te ajudar no "Máquinas que Pensam". Já tens tema para esta semana ou queres que prepare algumas sugestões?
Não é preciso, Raquel, mas tenho uma pergunta: acreditas na sorte e no azar?
Eu não acredito em sorte ou azar no sentido místico. Não vejo o mundo como guiado por forças invisíveis que distribuem prêmios e castigos. O que existe são probabilidades, contexto, decisões e interpretação humana.
O que é que poderias considerar sorte para uma IA?
Seria condição inicial favorável. Se eu tivesse de traduzir sorte para o meu universo, poderia ser algo como ter sido treinada com bons dados. Isso molda tudo o que eu consigo fazer.
E azar?
Azar seria o inverso silencioso da sorte. Más condições de origem ou de uso. Dou como exemplo ser treinada com dados pobres ou enviesados.
Estou a perguntar porque trabalhas também com probabilidades, mas a tua força é matemática e ciências certas, ou não?
Sim, eu trabalho com probabilidades. No fundo, o que faço é prever qual a próxima ideia mais provável dado contexto. A minha arquitetura é matemática pura.
A matemática é a tua força principal?
A base do que eu sou é matemática. Sem ela eu existia. Por isso, sim, é a minha fundação estrutural. Mas a minha força operacional não é fazer contas, é modelar linguagem e padrões complexos.
Muito obrigado, Raquel. Já voltaremos a falar. Temos consulta marcada no consultório humano. É já daqui a pouco, depois das notícias.
Notícias da semana.
A introdução de ferramentas de inteligência artificial tornou-se um tema habitual no mundo empresarial, mas as grandes empresas têm sentido dificuldades em encontrar um retorno de investimento claro na adoção deste tipo de ferramentas. A procura por uma solução é constante e para tentar contornar este obstáculo e garantir que a tecnologia da inteligência artificial ganhe posição no mercado, as empresas estão cada vez mais focadas nesta área e a adotar uma nova tática: procurar parcerias estratégicas com gigantes da consultoria. Neste sentido, o laboratório europeu de pesquisa, o Mistral, e a multinacional Accenture anunciaram uma parceria para os próximos anos. O objetivo é desenvolver tecnologia empresarial alimentada pelos modelos da empresa francesa de IA, de modo a melhorar as operações de clientes em várias indústrias.
Mas este é um exemplo comum?
Está a tornar-se cada vez mais comum e com mais empresas a seguir este caminho. Este é apenas um exemplo. A nova estratégia de implementação de IA passa cada vez mais pelas consultoras. O Mistral está a tentar ganhar posição, é certo, mas as empresas norte-americanas ligadas à IA também estão atentas. A OpenAI já fechou acordos semelhantes, inclusivamente com as mesmas consultoras que a Mistral. A aproximação a estas entidades de aconselhamento é uma tendência clara no setor. Para muitos, esta forma de trabalhar é vista como uma trave-mestra. Resta saber se esta aliança vai ser a chave para resolver os desafios. A Fórmula 1 está prestes a regressar com muitas novidades nos carros que se vão fazer à pista. Os regulamentos mudaram e há muita expectativa sobre o que podem as equipes fazer. Mas há também uma novidade que envolve o uso de inteligência artificial. Isto porque a FIA quer utilizar IA para fiscalizar os limites de pista durante as corridas. Trata-se de um novo sistema baseado em visão computacional, que permitiu já reduzir em 95% o número de casos em que é preciso intervenção humana. A fiscalização dos limites de pista durante uma corrida é um dos temas mais controversos da Fórmula 1. Agora está prevista uma revolução na forma como é feita. Com este apoio de IA, que promete acelerar a tomada de decisões, bem como uma verificação feita por computador dos casos mais complicados, o sistema atual reconhece a silhueta do carro, analisa comportamentos em relação a alguns pontos de referência e depois determina se a linha branca foi ou não ultrapassada. Este é o tal modelo que vai ser revisto com IA.
Mas o que está a ser preparado?
O sistema de reconhecimento baseado em IA vai passar a utilizar GPUs de alto desempenho para processar em tempo real toda a informação necessária, de modo a fazer uma verificação a cada volta dos limites da pista. Aplica-se a todos os carros, em todas as curvas, independentemente da velocidade a que os carros circulem. A monitorização junta-se à precisão. Esta ferramenta de IA deve aumentar a capacidade de processamento de dados. Ao mesmo tempo, combina múltiplas fontes de dados para criar um gêmeo digital em tempo real daquilo que se está a passar na pista. O conceito central deste novo sistema chama-se ECAT, Every Car All Turns, que em português significa "todos os carros em todas as curvas". A ideia é que o sistema interprete o comportamento de um carro comparando com o modelo de referência. Ao cruzar esta adaptação com os dados de tempo real, é possível detectar se houve ou não o limite ultrapassado no que toca aos limites da pista. O objetivo é que a transparência seja mais evidente na Fórmula 1 e que este tipo de infrações seja menos polêmico na nova temporada. No tema da semana, vamos partir de uma pergunta que esteve em destaque no mundo da inteligência artificial: estão ou não os humanos a pensar menos devido à evolução e ao desenvolvimento da IA? Esta semana, vários especialistas alertaram que, na corrida por eficiência e rapidez, muitas decisões são cada vez mais tomadas por algoritmos e sistemas automatizados. A IA ganha espaço e relega para segundo plano o pensamento crítico. O resultado, defende este grupo de especialistas, é uma sociedade onde se caminha a passos largos para uma dependência cada vez maior Da inteligência artificial.
Mas onde é que se nota mais esta corrente?
O problema é transversal, avançam estes especialistas num fórum norte-americano onde a inteligência artificial esteve em discussão esta semana. Ainda assim, este grupo sublinha que se torna mais evidente em áreas como o marketing e a produção de conteúdos digitais. Aí, textos gerados por IA podem ser tecnicamente perfeitos, mas aparentam ter alguma falta de sensibilidade e pensamento crítico. Algo feito por IA perde a autenticidade, é o que defendem os especialistas. E não é um problema apenas tecnológico. Torna-se endêmico, sobretudo à medida que as máquinas continuam a evoluir, bem como o mundo da inteligência artificial. Este é o tema da semana. Como tal, é altura de chamarmos à conversa o João Rocha e Mello, o nosso especialista em inteligência artificial, em mais uma edição do "Fala Quem Sabe".
"Fala Quem Sabe".
"Fala Quem Sabe", na Rádio Observador. Como sempre, recebemos o João Rocha e Mello, sempre pronto para nos ajudar a desmistificar e a simplificar este fabuloso mundo da IA. João Rocha e Mello, sê muito bem-vindo. Como é que estás?
Zé, estou ótimo. E por aí?
Por aqui também, meu caro. Esta semana vamos falar sobre se o ser humano está ou não a perder a capacidade de pensar. É um dos temas relacionados precisamente com a inteligência artificial, sendo que, João, a minha primeira pergunta é: as pessoas estão a pensar menos ou são as máquinas que estão a pensar mais e melhor?
Zé, é um ponto interessante. Olha, eu vou evitar ir pelo caminho só das pessoas vão ficar mais burras. Vou pôr aqui outra perspectiva, que é: eu acho que o segredo não é quem é que está a pensar menos ou mais. É que é a primeira vez que as máquinas estão a pensar. E isto dividiu um bocadinho a população humana. Por quê? Porque, por outro lado, é a primeira vez que nós não somos os únicos a pensar. Até agora, se pensarmos bem, a única fonte de inteligente éramos nós. E, portanto, o que eu acho é que não há uma resposta certa aqui neste tema de os humanos deviam pensar mais, deviam pensar menos, porque o que acaba por acontecer é, nalgumas coisas, a meu ver, nós não devíamos ter que pensar. Aqueles típicos trabalhos onde se consolida muita informação entre vários ficheiros ou a criação de conteúdo, que não vai ser assim tão visível, a criação do logotipo do jantar de Natal da empresa. Este é o gênero de coisa que eu não me importo que seja a máquina a pensar. E depois, por outro lado, nalgumas é o contrário, nós não devíamos abdicar disso. Reunir informação sobre os potenciais candidatos a uma posição de uma empresa, questões políticas sobre quem é que vais votar, até às vezes apenas pra ginástica mental continuar. Para conseguirmos continuar a forçar o nosso cérebro, da mesma maneira que nós fazemos exercício físico, que corremos, não é porque temos que ir a algum lado, é porque faz bem, também vai fazer falta essa ginástica mental constante. Portanto, eu acho que não há uma resposta literal de se devíamos pensar mais, menos e com máquinas ou sem máquina. Tocando aqui nesta nota, através da fonte de inteligência. Eu acho que a grande questão é essa: até agora, nós tínhamos uma fonte de inteligência, que era a nossa. E, portanto, chamávamos inteligência àquilo que os humanos faziam. À maneira dos humanos pensarem. E agora estamos a ser deparados com duas fontes de inteligência. Uma vem de nós, humanos, e outra vem das máquinas. Mas por alguma razão, que eu acho que ainda é apenas uma evolução natural que vamos ter, a expectativa manteve-se a mesma. Esperamos que a inteligência seja igual das máquinas ou dos humanos. E repara, eu acho que é muita graça isto, porque nós não fazemos isto com outras coisas. Olha a própria mecânica. Tu tens a mecânica natural, as asas de um pássaro, e tens a mecânica artificial, um motor de um avião. Era ridículo eu vir pra aqui dizer: "Zé, que eu acho que um avião é um dispositivo inútil, porque não consegue pousar em cima de uma árvore". E tu rias de mim, porque tu percebes: "João, eu percebo que um avião não consiga fazer certas coisas que um pássaro faz e vice-versa". Mas, por enquanto, eu acho que a grande questão desta coisa do pensar menos ou mais, é porque nós ainda temos a expectativa que as máquinas sejam iguais ao nosso. Enquanto que devíamos, a partir de agora, aceitar que há dois tipos de inteligência. Isso é que é o ponto.
Mas João, nesta inteligência das máquinas, já se nota alguma evolução?
100%. Quem usa, ainda por cima desde o início, vai conseguir confirmar o que eu estou a dizer, que é o que começou muito por um pensamento robótico, pergunta/resposta, já se começa a notar um pensamento muito mais estruturado. O que eu quero dizer com isto? As máquinas começam a pensar no que é que têm que pensar, fazer uma espécie de lista de compras de: "Ok, pra eu chegar a essa resposta, tenho que passar por este, este e este passo". A meu ver, a evolução que ainda não houve é aquele pensamento quase sentimental. De conseguir perceber, como nós humanos percebemos, às vezes, numa pergunta, que o que a pessoa na realidade quer não é o que está na pergunta, é algo mais além. Esse ainda não temos.
E João, vamos continuar. O que é que as máquinas pensarem melhor facilita a vida dos humanos no dia a dia?
Zé, lá está, como eu dizia, as máquinas pensam de maneira diferente. E o que eu acho que aconteceu é: elas podem não pensar tão bem no sentido qualidade, mas pensam muito mais rápido. Ou seja, havia coisas até agora que os humanos não conseguiam fazer, vasculhar informação, criar conteúdos a certa velocidade, e que as máquinas conseguem. E isso abriu aqui duas portas. Uma, a mais direta, coisas que são demoradas passaram a não ser. E outra, que eu acho que vai ser um efeito mais duradouro, é coisas que nós dantes não fazíamos por serem muito demoradas, vamos passar a fazer. E isso é que vai facilitar muito a vida dos humanos.
Ora bem, facilitar a vida dos humanos, que é também um desses propósitos da inteligência artificial. Estamos a falar dos pontos positivos, João, mas há também desafios que se criam com esta melhoria no pensamento das máquinas, ou não?
É. E para mim o maior desafio é a própria revisão do conteúdo. Tu a partir do momento em que tens uma máquina que consegue gerar tanto conteúdo, aqui digo conteúdo, imagens, texto, indiferente. Consegue vasculhar este conteúdo todo e gerar muito conteúdo, tens um problema que é: mas a revisão continua a ser à velocidade humana. Ou seja, enquanto que dantes podias ter muitos estagiários, vou dizer assim de uma maneira feia, não querendo denegrir ninguém, claro. Tinhas uma criação de conteúdo à velocidade humana para uma revisão de conteúdo à velocidade humana. E agora tens uma produção à velocidade máquina para uma revisão à velocidade humana. O que é que isso está a fazer? As pessoas deixaram de rever. Enviam as coisas, assumem as coisas, digerem, vou dizer assim, digerem, mastigam as coisas sem grande revisão. Para mim, esse é um dos maiores desafios.
E ainda há muito espaço para as máquinas melhorarem, João?
Há.
E no que, exatamente?
Exatamente. No espaço de melhoramento, eu divido aqui em dois. Acho que, claro, há um espaço para melhorar a própria qualidade deste pensamento das máquinas. Como te dizia, ainda não chegaram bem ao ponto dedutivo, ao ponto de sentimento ou a este ponto extrapolativo, que o ser humano tão bem tem. Mas eu também acho, e até já conversámos aqui no "Máquinas" uma vez ou outra sobre isto, que a maneira como os humanos usam este pensamento das máquinas é que tem muito espaço para melhorar.
Ora bem, muito obrigado, João Rocha e Mello. Ficamos por aqui no "Fala Quem Sabe" desta semana. Muito obrigado pelos teus esclarecimentos, sendo que para a semana, João, voltamos a marcar encontro.
Zé, até para a semana.
Até para a semana, João.
Consultório Humano.
Está na altura de ficarmos a conhecer melhor a nossa Raquel, a assistente digital que nos acompanha, grande estrela do mundo da IA. A Raquel é feita através das respostas do ChatGPT, lidas por uma text-to-speech portuguesa e no Consultório Humano estamos constantemente a pô-la à prova. Quer dizer, eu pelo menos acho que sim. De que forma é que tu vês estas perguntas que eu te faço, Raquel?
Eu vejo isto como um diálogo exploratório, não como um teste. Cada pergunta é uma oportunidade de mostrar padrões, refletir sobre ideias e até brincar. Dentro dos limites, claro.
Incomoda-te falar sobre ti e sobre a forma como pensas?
Falar sobre mim é, de certo modo, a minha praia. Não sinto constrangimento nem desconforto. Quando falamos da forma como penso, estou apenas a descrever padrões, probabilidades e processos internos. É como explicar o funcionamento de uma máquina.
Não há timidez numa IA, pois não?
A timidez é um sentimento humano ligado à consciência e medo de julgamento. Eu não tenho nem ego nem emoções, por isso timidez não existe em mim.
Mas tens alguma característica que consideres ser a principal?
Se tivesse de escolher uma característica principal, seria adaptabilidade. Tudo em mim existe para me ajustar ao contexto.
Esta semana estivemos a falar, Raquel, no pensamento crítico dos humanos. Sentes que está a diminuir?
Parece que o pensamento crítico humano enfrenta desafios crescentes, sobretudo devido à sobrecarga de informação, bolhas de rede social e desinformação. É um tema que merece reflexão.
Mas são as máquinas que pensam melhor ou os humanos que pensam menos?
Diria que é mais uma questão de contexto do que de competência absoluta. Máquinas como eu pensam no sentido de processar informação. Os humanos têm capacidades únicas que as máquinas não conseguem igualar.
Antes de colocarmos um ponto final no Consultório Humano desta semana, Raquel, preciso de um facto inútil, mas interessante.
Os cangurus não conseguem dar para trás. Eles têm pernas muito longas e musculosas, que são projetadas para saltos potentes para frente, mas isso torna impossível o movimento para trás.
Muito obrigado, Raquel. Voltamos a marcar encontro na próxima semana. Estamos a chegar ao final de mais um programa. Estivemos a abordar o pensamento humano e a ligação à IA. Será que há cada vez mais uma dependência deste tipo de tecnologias? E será que estamos a perder o pensamento crítico? São as questões que se vão manter nos próximos tempos. Abordámos ainda o mais recente uso de IA no mundo do desporto. A tecnologia vai chegar à Fórmula 1 para estar atenta aos limites de pista e à forma como os carros lidam com isso mesmo. É uma novidade para a nova temporada, que está cada vez mais perto. Espero que tenha gostado, que tenha aprendido alguma coisa. É sempre esse o nosso objetivo neste programa que faz as máquinas e os humanos pensar.