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O que é que o Papa João Paulo II, os deputados da Assembleia Constituinte e Francisco Sá Carneiro têm em comum? Um agente da polícia. Manuel Cardoso Ramalhete entrou na PSP em 1972. Aos 25 anos, já tinha passado pela tropa e por uma comissão em Angola.
Quando vim de Angola, acabei o serviço militar e passado uns tempos, concorri à polícia. E foi por aí que comecei. Fui pra Caldas de Rainha fazer o curso.
Depois do curso, tornou-se polícia em Lisboa. Em 1975, quando os deputados da Assembleia Constituinte ficaram cercados durante 36 horas no Parlamento, Ramalhete foi um dos agentes que lá ficaram sem comer. Pouco tempo depois, entrou pro serviço de segurança pessoal da PSP e tornou-se chefe dos guarda-costas de Francisco Sá Carneiro. Em dezembro de 1980, seria Ramalhete a levar o primeiro-ministro ao aeroporto de Lisboa para embarcar no avião em que acabaria por morrer. E em 1982, é ele o chefe das equipes de segurança pessoal do Papa, durante a passagem por Fátima. Estará sempre a poucos metros de João Paulo II. E por isso, será por ele que o padre Crohn vai ter de passar, se quiser mesmo matar o Papa. No 10º andar do Hospital Agostino Gemelli, o maior de Roma, há um pequeno apartamento privado. Para lá chegar, é preciso atravessar um longo corredor guardado pela polícia italiana, mas também pela polícia do Vaticano. É a ala hospitalar reservada ao Papa. Estamos em maio de 1981. João Paulo II foi atingido a tiro na Praça de São Pedro e continua internado. O secretário alertou pra estranha coincidência. O atentado aconteceu no dia 13 de maio, praticamente à mesma hora das primeiras aparições de Fátima. E João Paulo II já decidiu que não pode ter sido só um acaso. Lembra-se de que existem no arquivo do Santo Ofício uns misteriosos documentos sobre Fátima e pede que os tragam. Chegam dois envelopes, um branco e outro cor-de-laranja. O envelope branco tem um texto escrito à mão pela Irmã Lúcia de Jesus há 40 anos. É a terceira parte do segredo de Fátima, que está nos arquivos do Vaticano há décadas. Na parte de fora do envelope, está uma data: 1960. É o ano a partir do qual a Irmã Lúcia acreditava que o segredo já poderia ser revelado e compreendido. O envelope cor-de-laranja tem a tradução do texto em italiano. João Paulo II faz o mesmo que tinham feito os dois antecessores. João XXIII e Paulo VI também tinham lido o segredo e optado por não o divulgar. Apesar de o prazo dado pela Irmã Lúcia já ter chegado ao fim há 21 anos, três papas tinham achado que ainda não era o momento de revelar ao mundo a terceira parte do segredo de Fátima. Agora, o Papa já conhece a mensagem misteriosa. Já sabe o que está escrito naquele envelope secreto. Já sabe que tem tudo a ver com ele. "Matar o Papa" é uma série para ouvir em seis episódios, que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Pedro Laginha, com banda sonora original de Rodrigo Leão e participação especial de Adriano Luz na voz de Juan Fernández Crohn. Episódio três: um segredo escrito à mão.
Nesta viagem emocionante, vamos ouvir uma história inesquecível. A cada episódio, o suspense envolve-nos, assim como a experiência única de movimento da Kia. Junte-se a nós nesta viagem. Kia, movement that inspires.
Estamos em 1917. Portugal sofre com os efeitos da Primeira Guerra Mundial. Faltam combustíveis e alimentos. No início do ano, os primeiros soldados portugueses a participar na Grande Guerra foram pra Flandres. Muitos não vão sobreviver. A monarquia foi abolida há menos de uma década e a Primeira República quer reduzir a importância da Igreja no país. As ordens religiosas foram expulsas, os membros do clero são perseguidos e a Igreja reprimida. Ainda assim, os esforços antirreligiosos da Primeira República esbarram na fé popular, sobretudo nos lugares mais longe da capital. Fátima é uma pequena aldeia na Serra de Aire. O historiador Marco Daniel Duarte descreve um lugar esquecido.
Numa aldeia desconhecida, num Portugal completamente ignorado. Dentro do Portugal, uma serra totalmente ignorada, que não aparece na cartografia nacional, não passa o comboio.
Lúcia de Jesus é uma das muitas crianças da aldeia. É a mais nova de sete irmãos. Tem 10 anos e não sabe ler nem escrever. Está encarregue de guardar o pequeno rebanho de ovelhas da família. Lúcia é prima de Francisco e Jacinta, de nove e sete anos. Os três são muito religiosos e um ano antes já tinham tido uma primeira experiência mística. Dizem ter visto três vezes um anjo que os ensinou a rezar pela paz. No dia 13 de maio de 1917, decidem que vão levar os rebanhos a pastar na Cova da Iria. Enquanto as ovelhas se alimentam no vale, os primos estão a brincar no cimo da encosta. Um grande relâmpago assusta-os. Lúcia avisa os primos: "É melhor regressar a casa, pode vir aí trovoada". Quando estão a descer, um novo trovão. Olham em frente e ficam assombrados com o que veem.
Francisco, Jacinta e Lúcia afirmam que veem uma senhora mais brilhante que o sol, que reconhecem ser a Virgem Maria, a mãe do Deus em que acreditam, e que lhes fala de uma mensagem.
A senhora misteriosa diz-lhes para não terem medo. Explica que vem do céu e que devem voltar àquele local todos os dias 13, dos seis meses seguintes, sempre à mesma hora. E ainda lhes pede que rezem o terço todos os dias pelo fim da guerra. Depois, segundo o relato de Lúcia, a mulher eleva-se lentamente e afasta-se em direção ao céu, até desaparecer. As crianças voltam a casa e fazem um pacto de silêncio. Não vão dizer a ninguém aquilo que viram. Mas Jacinta não consegue ficar calada. A aldeia de Fátima está agitada. Todos falam da aparição. A mãe de Lúcia não acredita. Está em pânico com a ideia de ter uma filha mentirosa, que anda a enganar as pessoas com a história de uma aparição divina. Obriga-a a confessar que está a mentir e a pedir desculpa a toda a gente. O pároco de Fátima, que também já ouviu os rumores, chama as crianças. Faz-lhes um interrogatório detalhado e, no fim, diz a Lúcia que nada daquilo lhe parece uma revelação divina. Segundo ele, quando há aparições, Jesus manda que os videntes comuniquem tudo o que ouviram aos párocos e confessores. Aqui parece ser ao contrário. Tudo é mantido em segredo. "Pode ser um engano do demônio", avisa o padre. Nas aldeias dos arredores, já corre a informação de que três crianças tiveram uma visão dos céus e que essa visão se deveria repetir no dia 13 de junho. É dia de Santo António, dia de festa em Fátima. À porta da casa da família de Lúcia, começam a juntar-se dezenas de pessoas das aldeias vizinhas. Querem ir com as crianças ver a mulher misteriosa. A família está desesperada com a pequena multidão que se juntou no pátio. À tarde, contra as ordens da família, as crianças vão para a Cova da Iria e atrás delas seguem umas 50 ou 60 pessoas. À hora marcada, as três crianças garantem que estão outra vez a ver a mulher mais brilhante do que o sol. Mas são as únicas. Mais ninguém vê ou ouve a suposta aparição. Segundo o relato de Lúcia, a conversa desta vez é rápida. A senhora diz que em breve levará Jacinta e Francisco para o céu, mas que Lúcia ficará no mundo durante muito tempo e que será através dela que todos estes acontecimentos se tornarão conhecidos. No mês seguinte, os pastorinhos voltam à Cova da Iria, desta vez com uma multidão muito maior. Alguns relatos falam de 2 mil pessoas, outros de 5 mil. Os três voltam a contactar com a mulher misteriosa, mas uma vez mais são os únicos. Mais ninguém a vê. Lúcia pede-lhe um sinal, que faça um milagre para que toda a gente acredite. E a senhora promete que se continuarem a ir ali todos os meses, há de fazer um grande milagre, sim, mas em outubro. Segundo os relatos de Lúcia, foi precisamente neste dia, 13 de julho, que a mulher misteriosa lhes transmitiu o segredo, uma visão em três partes que nunca poderiam contar a ninguém. À medida que os meses passam, os rumores sobre as aparições divinas espalham-se e já circulam em vários pontos do país. As autoridades republicanas começam a ficar preocupadas com os ajuntamentos religiosos. Têm medo que surja ali um fenômeno que lhes escape ao controle. As manifestações religiosas são proibidas Primeiro, a família começa a receber ameaças da administração de Vila Nova de Ourém. Depois, ainda em julho, Lúcia é chamada ao administrador, que exige que ela lhe conte o tal segredo. Quando Lúcia recusa, o homem deixa-a ir com uma reprimenda, mas promete que vai conseguir o que pretende. No dia 13 de agosto, a família de Lúcia está cada vez mais desesperada. A filha já foi ameaçada pelas autoridades, mas continua a insistir nas aparições. Há uma gigantesca multidão reunida à porta de casa. Alguns relatos apontam para 15 a 18 mil pessoas. Mas nesse dia, as três crianças não vão à Cova da Iria. O administrador manda prendê-las. Ao todo, passam três dias na cadeia e o ajuntamento desse mês é boicotado pelas autoridades republicanas, explica o historiador Marco Daniel Duarte.
Aquilo que mais levava o próprio administrador do Conselho de Ourém a interrogar as crianças era, em primeiro lugar, tentar dissuadir as pessoas que aqui vinham à Cova da Iria. Em segundo lugar, perceber que segredo seria esse e que implicações esse segredo teria.
No mês seguinte, a multidão quase duplica. São entre 20 a 30 mil pessoas que acompanham os três pastorinhos à Cova da Iria, a 13 de setembro. De acordo com os relatos de Lúcia, a mulher vestida de branco pede-lhes que continuem a rezar o terço pelo fim da guerra e volta a prometer: dentro de um mês vai fazer um grande milagre para que todos acreditem. Em outubro de 1917, a expectativa é enorme. Neste momento, Fátima já é um fenômeno nacional. O jornal "O Século" envia um repórter pra assistir a tudo. Chove torrencialmente, mas não afasta os milhares de peregrinos que chegam de todo o país, de comboio, em carroças, a pé ou alguns, poucos, de carro. Há até vendedores ambulantes de postais com imagens dos pastorinhos e de soldados portugueses e com orações pelo fim da guerra. As autoridades republicanas já perderam o controle.
Os jornais que dão os números menores falam em 30 mil a 40 mil pessoas. Os que falam em números maiores falam em 120 mil pessoas. Enfim, penso que aqueles que estarão mais próximos da realidade falam de 70 mil pessoas. É, de facto, uma mole muito significativa de pessoas quando estavam proibidas as manifestações religiosas no país.
Pela Primeira República.
Pela Primeira República. Ora, o que isto significa? Significa que há todo um país que se revê neste episódio das aparições de Fátima e que parece ser uma espécie de manifestação silenciosa de que, de facto, Deus continua a existir nas suas vidas e faz sentido existir nas suas vidas.
A multidão reunida em Fátima espera o sinal prometido há meses. O milagre que vai finalmente fazer com que todos acreditem nas aparições. João Queiroz e Melo, o médico que em 1982, há de ser responsável pela equipe de emergência de João Paulo II em Fátima, cresceu ao ouvir as histórias daquele 13 de outubro.
A minha mãe, o que contava é que se lembrava que estava a chuviscar, que as pessoas estavam com chapéus de chuva e que a certa altura diz: "Aí ia a Senhora, aí ia a Senhora".
Os relatos daquele dia dizem que a chuva torrencial parou de repente. O chão ficou seco e o sol começou a rodar como numa dança. E pela primeira vez, todos assistiram ao momento e não apenas os pastorinhos. No dia seguinte, estava tudo na primeira página do jornal "O Século". "O sol bailou ao meio-dia em Fátima". Por muito que nos primeiros anos a Igreja nem sequer reconheça o fenômeno, Fátima vai gradualmente transformar-se num símbolo do catolicismo português e ajudar a Igreja a sobreviver ao período do republicanismo anticlerical. Tudo isto numa altura em que a pergunta continua a intrigar toda a gente. E que, décadas depois, intrigaria também o padre Juan Fernández Crohn. Afinal, que segredo ouviram as crianças no 13 de julho? Francisca e Jacinta morreram pouco depois, um com nove, outro com 10 anos, vítimas da pandemia de gripe espanhola. Só a prima Lúcia sobreviveu para contar o segredo de Fátima, explica o historiador Marco Daniel Duarte.
Nós quando olhamos para os videntes de Fátima em 1917, estamos a olhar para crianças analfabetas ou semianalfabetas. E, portanto, é muito mais tarde que Lúcia chega a ser letrada e começa a escrever só em 1921. É o primeiro relato que temos das aparições escrito por Lúcia. É só mais tarde, quando escreve as suas memórias, já as aparições de Fátima estão chanceladas pela hierarquia da Igreja. Essa chancela acontece em 1930 e, portanto, é já nessa década que Lúcia vai ser instada, digamos assim, pelo bispo D. João Alves Correia da Silva, a escrever as memórias que tem da sua infância e das aparições.
Nesta fase, Lúcia é freira e pertence à Congregação das Doroteias. Nas primeiras memórias que escreve, ainda nos anos 30, não revela o conteúdo do segredo. Isso só acontece anos mais tarde, por indicação da hierarquia da Igreja. O bispo de Leiria usa um argumento de peso. Se Lúcia morresse, o segredo perdia-se para sempre Numa carta que envia ao bispo em 1941, conta que o segredo está dividido em três partes. Uma é puramente religiosa, sobre a visão do inferno. A outra tem implicações políticas. É sobre a conversão da Rússia comunista ao cristianismo. Para impedir uma Segunda Guerra Mundial, era preciso acabar com o regime ateísta de Moscovo.
Aquilo que Lúcia diz ser a segunda parte do segredo é precisamente a conversão da Rússia ao Imaculado Coração de Maria. Isto é, chamar a atenção para o facto de determinados territórios serem militantemente ateístas e não permitirem que a religião cristã possa ser vivida, experienciada pelos povos.
Apesar das ordens do Bispo de Leiria, a irmã Lúcia fica-se por aqui. O segredo tem três partes, mas a religiosa só escreve as duas primeiras. Até chega a fazer algumas tentativas para registar o resto, mas não consegue passar para as páginas do diário aquilo que lhe foi mostrado durante as aparições.
Temos que nos colocar na mentalidade e na experiência de vida de uma religiosa que está perante um mistério que para ela é insondável e, portanto, reduzi-lo a escrito é muito difícil. Ainda para mais, no momento em que ela está perante um conteúdo que é altamente sensível, porque também ele é político.
Lúcia entende que o mundo não está ainda preparado para aquela revelação. Por isso, pelo menos para já, e durante muitos anos, a terceira parte do segredo vai continuar a ser um mistério. Em 1982, o mistério mantém-se há mais de 60 anos. Fátima já não é um sítio para levar os rebanhos a pastar. Cresceu e transformou-se num santuário global, que atrai peregrinos do mundo inteiro. Agora, a paisagem é dominada pela enorme torre da Basílica. As aparições deram origem a uma nova evocação de Maria, Nossa Senhora de Fátima, venerada internacionalmente. João Paulo II está prestes a chegar pela primeira vez ao santuário, mas a aura de mistério à volta do terceiro segredo continua. Essa aura ajudou a fazer crescer as teorias da conspiração. Há até quem ache que a irmã Lúcia foi substituída por uma impostora para impedir a revelação da terceira parte do segredo. O padre Crohn também tem uma teoria. Acredita que a Virgem Maria alertou os pastorinhos para os perigos do Concílio e que a terceira parte do segredo é uma condenação explícita das reformas modernistas e da infiltração do comunismo na Igreja. E tem a certeza de que foi por isso que João XXIII, Paulo VI e João Paulo II decidiram não revelar o conteúdo do segredo. Se a mensagem fosse conhecida, os pecados daqueles papas ficariam expostos. Crohn sabe que o prazo dado pela irmã Lúcia para a revelação do segredo era 1960. Já passaram 22 anos. E mesmo assim, João Paulo II tem a desfaçatez de ir a Fátima agradecer por ter sobrevivido a um atentado. É uma violação à dignidade da Virgem de Fátima e Crohn tem de a defender. Já tinha decidido matar o Papa. Agora, percebe que é em Fátima que tem de executar o plano. Lúcia está no convento das Doroteias de Tui, em Espanha. Vive ali há vários anos, desde que se tornou freira. É no dia 3 de janeiro de 1944, três anos depois de registar as duas primeiras partes da mensagem da Virgem, que escreve finalmente um texto com o terceiro segredo de Fátima, conta o historiador Marco Daniel Duarte.
O segredo fica fixado por escrito, mas não é revelado, na verdade. E ela põe a carta dentro de dois sobrescritos, com todas as seguranças, com lacre, inclusivamente. Esses dois sobrescritos, ainda dentro de um outro sobrescrito, para ser enviado ao bispo de Leiria. E o bispo de Leiria tem aquela carta com ele e também não se atreve a violar aquela carta. Essa carta é depois enviada ao núncio apostólico e do núncio apostólico chegará a Roma.
O envelope chega a Roma no dia 4 de abril de 1957 e é colocado de imediato no arquivo secreto do Santo Ofício. Há de sair três vezes daquele arquivo, onde o Vaticano guarda alguns dos mais importantes documentos da história do cristianismo. Uma em 1959, para ser lido pelo Papa João XXIII. Outra em 1965, para ser lido por Paulo VI. E outra em 1981, para ser levado à cama de hospital de João Paulo II. A profecia de Fátima, associada aos perigos do comunismo e à resposta da Igreja Católica aos regimes ateus, ganha nova atualidade com este Papa. João Paulo II percebe isso ainda mais claramente quando lê o texto de Lúcia. Talvez aquele segredo lhe diga respeito. Reconhece-se naquela descrição. Apesar de o devolver ao arquivo, decide que é hora de começar a pensar em divulgar o conteúdo do envelope misterioso. O primeiro passo é ir ele próprio a Fátima.
"Os sinais, as pessoas alegres e orantes parecem estar em todo o lado. Muitos esperaram desde a madrugada. Pessoas não só de Nova Iorque, mas também do Midwest, de todo o país."
Assim que foi eleito, João Paulo II tornou-se uma celebridade. Ao longo do pontificado, viajou por praticamente todo o mundo e Portugal não quis ficar de fora. O governo português tentou garantir, desde o início, que o novo Papa também passava pelo país. Nessa altura, João Paulo II ainda não prestava especial atenção a Portugal. Estava concentrado no lado de lá da Cortina de Ferro. Portugal era um país católico há séculos e mantinha boas relações com a Santa Sé. Não era uma prioridade. O atentado de maio de 1981 mudou tudo. Chegará rodeado de medidas de segurança muito apertadas. Afinal, foi alvo de uma tentativa de homicídio há apenas um ano e os seguranças que o protegem sabem que têm de estar atentos a novos atentados. Um ataque ao Papa não é uma possibilidade remota. Nessa altura, não têm como saber que o padre Krone já está no santuário de Fátima, preparado para matar João Paulo II.
Estive na Assembleia da República, Assembleia Constituinte, que se chamava na altura, quando foi o cerco à Assembleia, eu estava lá.
Em novembro de 1975, em pleno processo revolucionário, uma greve dos trabalhadores da construção civil agita o país. Há milhares de manifestantes à volta do Palácio de São Bento, onde está reunida a Assembleia Constituinte. O objetivo é intimidar os deputados, o Primeiro-Ministro e o governo. O cerco à Constituinte há de durar 36 horas. Durante esse tempo, os deputados são impedidos de sair do edifício. O Primeiro-Ministro Pinheiro de Azevedo dirá mais tarde uma frase que ficaria célebre.
"Já chega, não gosto, estou frustrado, é um negócio que me chateia".
Mas não foram só os deputados que ficaram presos dentro do Parlamento.
Fiquei lá 24 horas sem comer. E o comissário que mandava lá as forças, nomeou-me a mim para representar a polícia numa reunião. Estavam representando cada partido.
Manuel Cardoso Ramalhete é um jovem polícia, tem apenas 28 anos. É de Arronches, no Alto Alentejo. Esteve na esquadra da PSP de Belém e passou pela residência do antigo Presidente da República, Américo Tomás. Agora, trabalha no edifício do Parlamento. Em 1980, prestes a completar 33 anos, é nomeado coordenador dos guarda-costas do Primeiro-Ministro Francisco Sá Carneiro.
Andei com ele, fiz a campanha de Coimbra.
"Tomaram em suas mãos a proposta dos fundadores e levaram a todos os portugueses a social-democracia como caminho para a construção política de uma sociedade"
Depois, quando foi a história do acidente do avião, eu fui buscá-lo a casa e fui levá-lo ao aeroporto, mas lá já estava outra equipa que fez o reconhecimento. E eu cheguei lá, fui levá-lo até ao avião e fui-me embora, que eu andava a estudar.
No início de 1982, quando se sabe que João Paulo II vem a Portugal, Ramalhete é o coordenador da segurança pessoal de Francisco Pinto Balsemão, Primeiro-Ministro desde a queda do avião em Camarate. E é justamente por causa dessa função que recebe uma das missões mais importantes do currículo: chefiar a segurança do Papa durante as visitas a Fátima e Coimbra. Desde o momento em que ele aterrar no campo de futebol de Fátima até embarcar no dia seguinte de regresso a Lisboa, Manuel Ramalhete vai estar sempre a escassos metros de João Paulo II. Por isso, se Krone quiser matar o Papa, vai ter de passar por ele. E isso não é fácil. Ramalhete é um agente treinado especificamente para proteger as altas individualidades.
Não lhe posso explicar muito em pormenor, mas posso lhe dizer muita instrução de tiro. Tiro de toda a maneira: mão esquerda, mão direita, deitado, de costas. Tiro com agentes à nossa frente ou lado do alvo. Não se pode errar. É muita à base de tiro instintivo, sem apontar.
Estar atento à multidão.
Atento às multidões, aos movimentos das pessoas. Ter essa atenção.
Saber detetar algumas...
Aos embrulhos, aos envelopes, armadilhas, é tudo isso. São tudo técnicas.
Uma visita de um chefe de Estado é sempre motivo de uma grande operação de segurança. Mas o Papa não é um chefe de Estado qualquer. Move multidões. Por isso, a visita é planeada ao milímetro A PSP tem a missão de garantir a segurança do Papa em Portugal, mas tudo isto tem de ser coordenado com a Guarda Suíça, a polícia do Vaticano, o Ministério da Administração Interna e os Serviços de Informações.
Na altura, existiam as FP 25 de Abril e nós estávamos um bocado a pensar nisso, embora não fosse uma ameaça forte. Do lado do Vaticano, não. É sempre a ameaça, é sempre os cuidados.
Mas tem ideia, por exemplo, o Papa no ano anterior tinha sofrido um atentado em Roma.
Sim, em Roma.
Havia essa preocupação da parte—
Sim, havia essa preocupação e isso foi um alerta para todos nós, para todas as seguranças, que aqui poderia acontecer.
Como se não bastasse, há outro fator a complicar tudo e a preocupar a segurança. Em Fátima está 1 milhão de pessoas para ver João Paulo II. Dentro do santuário, o esquema de segurança é apertado. Há três níveis de segurança. Só quem tem o nível zero, o mais elevado, pode chegar perto do Papa. E o guarda-costas de João Paulo II, o gigante bispo, Paweł Marcińczak, é especialmente exigente, recorda Rui Correia de Oliveira, responsável pela organização do recinto do santuário.
Tive várias interações com ele, nem sempre as mais fáceis, porque ele era um bocadinho duro, embora muito amigo do Santo Padre e de Fátima, mas não era fácil, porque ele vivia na grande preocupação do que é que ia acontecer.
Os dias anteriores à chegada são de agitação em Fátima. São muitas as reuniões entre os responsáveis do santuário e do Vaticano e os polícias. A multidão começa a encher o recinto e a guardar lugar para as grandes celebrações com o Papa. Só na equipa de Rui Correia de Oliveira são 60 vigilantes a preparar tudo para dois momentos centrais: a procissão das velas na noite de dia 12 e a procissão do adeús na manhã de dia 13. O Papa vai participar nas duas. Aqueles serão os momentos de maior risco. E o padre Crohn sabe bem disso.
O avião onde ele é transportado já tocou aqui a placa do aeroporto de Lisboa.
Finalmente, o grande dia, 12 de maio de 1982. João Paulo II é recebido pelas altas figuras do Estado e por uma multidão eufórica. Vão ser quatro dias intensos. Do aeroporto, vai para a Sé de Lisboa. É levado pelas avenidas da cidade no Rolls-Royce descapotável, que já antes tinha transportado a rainha Isabel II e o Papa Paulo VI. O primeiro momento público é na Sé, antes de seguir para o Palácio de Belém para se encontrar com Ramalho Eanes e depois para a Nunciatura, para as audiências com altas figuras nacionais. Quem assiste ao percurso pela televisão acha que está tudo bem, mas os problemas de segurança começam logo ali.
As coisas começam a correr mal logo na chegada do Santo Padre. À tarde, quando começam as primeiras aparições públicas do Papa, eu começo a receber recados de Lisboa que as coisas estavam complicadas em termos de segurança. Nomeadamente na ida à Sé, as coisas nunca foram muito bem. A multidão ultrapassou os limites que se imaginava e houve grande dificuldade de conter a população e os serviços de segurança estavam muito preocupados. Se aquilo era assim em Lisboa, em espaços tão pequeninos como a zona da Sé, o que seria em Fátima, onde já estavam concentrados centenas de milhares de pessoas?
Em Fátima, não estão apenas centenas de milhares de pessoas. Está também o padre Juan Fernández Crohn. Antes de ir para o santuário, o padre Crohn almoçou e preparou três mensagens enigmáticas que queria ter com ele quando matasse o Papa. Passeou entre vendedores de terços e estatuetas da Virgem e reviu mentalmente as justificações para o que ia fazer. O Papa é o anticristo, está a destruir a Igreja, é um agente comunista no Ocidente e está a ocultar o segredo de Fátima. Tudo em nome da agenda progressista do Concílio Vaticano II. Está um dia de sol intenso. Crohn instala-se junto ao corredor central, onde será mais fácil apunhalar o Papa. Está no sítio perfeito para assassinar o chefe da Igreja e está pronto para isso. Mas ali mesmo, decide dar uma última oportunidade ao Papa. Se ele lhe fizer chegar um sinal, vai deixá-lo viver. Mas essa é uma história para o próximo episódio. No próximo episódio. A arma ainda estava escondida.
Quando ele apareceu, eu não vi sabre nenhum. Só vi é que ele queria chegar e estava muito agressivo. Era anormal a parte como ele se apresentou.
Ao fim de alguns segundos, o Papa já subiu vários degraus da escadaria e aproxima-se do altar. A janela de oportunidade para o ataque está a fechar-se. "Matar o Papa" é uma série para ouvir em seis episódios, que faz parte dos "Podcast Plus" do Observador. É narrada por mim, Pedro Lajinha, com banda sonora original de Rodrigo Leão e participação especial de Adriano Luz na voz de Juan Fernández Crohn. O guião e as entrevistas são de João Francisco Gomes. A sonoplastia é de Bernardo Almeida. O design gráfico é de Miguel Ferraz Cabral. A edição é de Tânia Pereirinha e João Santos Duarte. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio, ouvimos sons do arquivo da RTP e outros retirados do YouTube. "Podcast Plus" do Observador. É mais do que um podcast.
Os "Podcast Plus" do Observador têm o apoio da Kia.
