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O Santuário de Fátima está cheio. Estamos no dia 13 de maio do ano 2000. É a terceira visita de João Paulo II a Portugal. Desde a primeira vez que o Papa visitou o país, em 1982, as coisas mudaram muito. João Paulo II está agora extremamente debilitado pela doença de Parkinson, de que já sofre há algum tempo, mas que o Vaticano só há de confirmar publicamente daqui a três anos. O Papa está sentado, junto ao altar, curvado na cadeira. A viagem também é muito diferente. Nas últimas vezes, passou vários dias em Portugal e esteve em mais do que uma cidade. Agora é tudo mais rápido. João Paulo II está concentrado num único objetivo: visitar Fátima. Há uma grande expectativa. O Papa veio para beatificar os pastorinhos Francisco e Jacinta, mas antes de partir de Roma, avisou que tinha uma mensagem importante a transmitir ao mundo no dia 13 de maio. Nos últimos dias, tem aumentado a especulação sobre o que poderá ser essa mensagem. Muitos pensam, obviamente, que será o terceiro segredo de Fátima. A misteriosa confidência da Virgem Maria à Irmã Lúcia continua escondida há décadas nos arquivos do Vaticano e tem contribuído para criar uma densa aura de mistério à volta do fenômeno de Fátima. A mensagem é lida no altar do santuário pelo Cardeal Angelo Sodano, Secretário de Estado do Vaticano. João Paulo II está sentado ao lado dele e a Irmã Lúcia assiste a tudo a poucos metros. A multidão ouve em silêncio. Nos próximos minutos, o Vaticano vai finalmente desfazer um segredo que durou quase um século. Ao longo dos últimos anos, circularam várias teorias sobre o segredo de Fátima. Há quem acredite que é um aviso para uma guerra nuclear que levaria ao fim do mundo. Há quem garanta que é uma previsão feita em 1917 de futuros problemas entre Portugal e as colônias, que levariam às guerras que começaram em 1961. E há ainda quem tenha a certeza de que a terceira parte do segredo é uma profecia sobre uma crise na Igreja. O padre Crone é um deles. Para ele, a mensagem entregue pela Virgem aos pastorinhos é uma condenação das reformas do Concílio Vaticano II e da infiltração comunista na Igreja. Ou seja, é também uma condenação de João Paulo II. Até agora, só os papas tinham lido o conteúdo do segredo e só um pequeno número de pessoas tinha sequer visto o envelope onde esteve guardado. Um deles foi o jornalista Fernando Peça. Em 1950, entrevistou o bispo de Leiria para um artigo que seria publicado numa das revistas mais influentes da época, a norte-americana Life. Dom José Alves Correia da Silva abriu o cofre e tirou lá de dentro o envelope lacrado. Fernando Peça pegou nele, colocou-o numa almofada em cima da secretária e pediu ao bispo que se sentasse para tirarem uma fotografia. Dom José Alves Correia da Silva hesitou. Temia que os americanos usassem algum tipo de tecnologia avançada de raio X para, a partir daquela foto, conseguirem ler o segredo através do envelope. Acabou por aceitar e o segredo ficou seguro. Só agora, a 13 de maio do ano 2000, é que os americanos, tal como o resto do mundo, iriam ficar a conhecer a mensagem de Fátima. Mas para Crone não faz grande diferença. Quando o terceiro segredo de Fátima for finalmente revelado, o espanhol já tem a vida arruinada. "Matar o Papa" é uma série para ouvir em seis episódios que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Pedro Laginha, com banda sonora original de Rodrigo Leão e participação especial de Adriano Luz na voz de Juan Fernández Crone. Episódio 6: Inferno.

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Em 1982, o ano em que Crone tentou matar o Papa, dois psiquiatras passam quatro meses a estudar o padre espanhol ao pormenor. Leem o livro que Crone escreveu já depois de ter sido preso e encontram-se várias vezes com ele na cela da prisão. À primeira vista, não se importa de conversar com os psiquiatras. É simpático, recebe os médicos à porta da cela e não tem problemas em contar-lhes a história da vida dele. Fala-lhes de como é estar na prisão, da falta de água na torneira da cela e do frio que passa na cadeia. Mas os psiquiatras têm dificuldade em avançar com o exame. Krone irrita-se quando os médicos o tentam analisar. Não aceita que lhe ponham em causa a sanidade mental. O relatório final é o resumo possível das sessões. Os psiquiatras registam a história de vida de Krone e, sobretudo, o modo como a infância e juventude o marcaram. A família católica, o impacto cruel do Maio de 68 e o ativismo anticomunista. Diz-se um dissidente e rejeita a aproximação católica ao marxismo. E faz questão de repetir aos psiquiatras os argumentos teológicos complexos que justificam a necessidade de aniquilar o Papa. Quer garantir que os médicos lhe reconhecem capacidade intelectual para defender ideias. No fim, os psiquiatras concluem que não há razões para considerar Krone inimputável. Não está arrependido, reconhece a gravidade do que fez e admite que preparou o ataque ao detalhe. Os médicos dizem que Krone agiu movido pelo anticomunismo e com a confiança de que estava só a respeitar as suas convicções para o bem da Igreja. Quer ser o primeiro mártir de uma igreja renovada, mas nada disso significa que Krone tenha alguma doença que exija tratamento psiquiátrico. "O padre está fora da realidade", escrevem os médicos, "mas só na mesma medida em que também estão fora da realidade tantos políticos, apaixonados e místicos". Está numa bolha de ideias que ele próprio construiu, mas não tem nenhuma doença mental. E também não é perigoso. O ataque ao Papa foi só um ato isolado. Por tudo isso, pode ser julgado, dizem os psiquiatras. O juiz Santos Cabral leu cuidadosamente o relatório.

Ele era imputável criminalmente, mas o ato que ele tinha praticado tinha sido fruto de uma personalidade um pouco diferente, um pouco exótica. Aquilo que ele tinha feito, tinha por trás sim, motivações que ultrapassam aquilo que uma pessoa normal efetivamente tem. Ele sabia o que estava a fazer, a forma como estava a fazer e o que pretendia. E a partir daí, a imputabilidade criminal dele, impôs.

Os juízes já não têm dúvidas. Krone não é louco. Poderá ser julgado. O espanhol já está preso há quase um ano. Em abril de 1983, 11 meses depois do ataque, o julgamento é retomado. A sala do Tribunal de Vila Nova de Ourém está novamente cheia para o julgamento do padre que tentou matar o Papa. Tal como da primeira vez, Krone vem vestido com uma batina verde e faixa vermelha. E à entrada, faz questão de falar aos jornalistas.

"Eu declaro a incompetência radical deste tribunal para poder julgar-me por meu ato de Fátima, ato de justiça, inspirado por motivos estritamente religiosos, que um tribunal civil é incapaz de apreciar na sua justa medida".

E também diz que está pronto para ser mandado pra cadeia.

Está com receio de ser condenado a muitos anos de prisão?

Não, é sobretudo a minha integridade religiosa que me interessa, não a minha liberdade.

A acusação enfrentou logo à partida, um grande obstáculo. Nenhuma das testemunhas ouvidas pelos juízes viu o padre com a arma na mão. Os policiais só repararam no sabre quando imobilizaram Krone. E nessa altura, a arma já estava caída no chão. A única prova contra Krone era a confissão do próprio Krone. Uma confissão feita ao pormenor, em dezenas de páginas manuscritas anexadas ao processo, com todos os detalhes de como planeou antecipadamente o homicídio do Papa. Mas havia um enorme problema, como chegou a escrever um jornalista do Diário de Notícias. É que tudo o que Krone dizia, soava a afabulação e a delírio de um homem que tinha perdido a noção da realidade. O jornal descreveu-o como um místico que parece viver numa outra galáxia e até chegou a prever que o mais certo era que Krone recebesse uma pena simbólica. Mas no final, não foi isso que aconteceu. O padre espanhol está novamente sentado no banco dos réus. Uma professora do oitavo ano da Escola Secundária de Vila Nova de Ourém, foi nomeada pelo tribunal para servir de intérprete durante a sessão. E o advogado oficioso de Krone volta a estar presente, mas só mesmo por imposição legal. Se lhe tivesse sido permitido, o espanhol tinha assegurado a própria defesa. Como lembra o juiz Santos Cabral, era ele a estrela de toda aquela atuação.

O próprio advogado, que era um senhor que era o dr. Pardiga, se não me engano, um senhor lá de Ourém, teve uma postura apagada, porque a figura central era ele. E ele, a partir do momento em que ele disse: "Sim, senhor, eu queria matar o Papa". Ele confessa. A partir daí, aquilo que ele diz ou que ele faz é tudo para transmitir a mensagem que ele pretendia.

O juiz recorda que no banco dos réus estava, acima de tudo, um homem que não se arrependia de nada.

A professora dele era de alguém que tinha uma noção de missão, um espírito de missão, uma visão maniqueísta das coisas. Para ele, não havia meio-termo, era o bem e o mal, e ele encarnava efetivamente o bem. E não havia arrependimento. Ele tinha praticado o ato, uma seminha, e havia uma confissão, mas havia uma justificação para aquilo que se tinha passado. Essa justificação passava pela legítima defesa da igreja. Ele estava ali, ele é que era o bom.

À chegada ao tribunal, tentou incendiar com um isqueiro uma fotografia de João Paulo II. Na imagem impressa em fundo vermelho, o papa surgia ladeado por uma foice e um martelo. A polícia interveio rapidamente. O tribunal era simplesmente um palco para Krone divulgar uma mensagem religiosa. À distância de mais de 40 anos, Krone lembra-se de ter estado no centro da cena, tal como numa peça de teatro.

Havia uma pressão tão grande, e eu no centro da cena. Tive gestos teatrais e de desafio. Acusei os juízes de serem comunistas. Como dizem os franceses, tive uma atitude de defesa de alto perfil. Digamos que não me escondi.

Se no início ainda não se sabia se a confissão de Krone podia ser aceita pelo tribunal, o exame mental que o deu como imputável desfez as dúvidas. Fica provado que Krone queria lutar contra uma suposta autodestruição da Igreja, personificada por João Paulo II, e que, por isso, durante meses, elaborou um plano para o matar. E também fica provado que Krone tinha verdadeiramente a intenção de assassinar João Paulo II, e só falhou graças à atuação do agente Manuel Ramalhete. Estava tudo contra Krone. A condenação era certa. Mas antes de a sentença ser lida, há uma mudança na lei que o vai ajudar. Juan Fernández Krone regressa ao tribunal no dia 2 de maio de 1983. Passou praticamente um ano desde que tentou matar o papa em Fátima. É a terceira vez que ali está, mas algo mudou. Chega muito nervoso. Sabe que vai ser condenado. A sala de audiência está, uma vez mais, cheia de jornalistas portugueses e estrangeiros. Ao longo do último ano, o caso atraiu uma grande atenção midiática internacional. À entrada, o padre espanhol volta a tentar fazer teatro e nem sequer deixa o juiz presidente iniciar a leitura da sentença. Começa logo a gritar a partir do banco dos réus. "Mesmo que me condenes, estou inocente, moralmente e aos olhos de Nossa Senhora Mãe de Deus." É preciso obrigá-lo a acalmar-se para que o coletivo de juízes possa finalmente ler a decisão. O padre espanhol está inquieto, mexe-se no banco. Não consegue esconder os nervos. Alguns minutos depois, quando a sentença se começa a aproximar da condenação mais do que evidente, Krone volta a interromper o juiz aos berros. "Não aceito esta condenação, estou moralmente inocente. Viva Portugal católico, morte ao 25 de abril, morte a Roma." A pena final é conhecida pouco depois. Seis anos e seis meses de prisão por tentativa de homicídio qualificado e por porte de arma proibida. Krone insulta os juízes.

"Antochos, comunistas, assassinos!"

É retirado da sala e assim que termina o julgamento, acusado num novo processo julgado nessa mesma tarde. Cada um daqueles três insultos vale um crime de injúria contra magistrados. A condenação vai fazer subir a pena para um total de sete anos de prisão. Apesar de tudo, Krone teve sorte. Entre o momento do crime e o dia da leitura da sentença, tinha sido aprovado um novo código penal. A pena mínima para o crime dele mudou radicalmente, de 16 anos para apenas dois. Hoje, o padre Krone ainda acusa o tribunal de o ter condenado apenas com base numa confissão, sem outras provas. O jornalista João Francisco Gomes falou com Juan Fernández Krone.

Condenaram-no por isso, pela minha confissão.

Mas confessou.

Confessei, mas sem provas. Não houve ninguém da Polícia Judiciária, da Guarda Republicana ou das escoltas que me tenha visto empunhar a arma. Ninguém.

Mas a verdade é que levava o punhal, não é?

Sim, mas ninguém viu. Condenaram-me porque confessei que queria matar. Isso cria um problema jurídico sério. Hoje, não seria aceitável.

À saída do tribunal, grita uma última vez: "Viva Portugal católico, morte ao 25 de abril". Depois é encaminhado para a carrinha celular que o vai levar à prisão. Como diria mais tarde, o que se seguiu foi um inferno. Krone passa os primeiros três meses de pena na cadeia do centro de Lisboa. Ali, tem um confronto com outro preso famoso. Jorge Manuel Veríssimo Monteiro, mais conhecido por Capitão Robi, tinha sido preso pela primeira vez nos anos 60, acusado de burla e extorsão a várias mulheres que conhecia através de anúncios de jornal e a quem prometia casamento. Vinte anos mais tarde, estava novamente na cadeia, condenado por crimes idênticos.

Punha os quatro ou cinco reclusos que lá estavam, muito jovens, todos contra mim. Insultos, ameaças. Tivemos um confronto violento e a partir daí mudaram-me da Rua Marquês de Fronteira para Vale de Judeus.

Na nova cadeia, Krone nunca parou de escrever e enviou mesmo várias cartas a Santos Cabral, um dos juízes que o tinham condenado.

A prisão para ele foi penosa. Eu recebi essas cartas lá da prisão, recebi pessoalmente, e fiquei com a ideia que a prisão estava a ser realmente extremamente penosa e traumatizante para ele.

Até tenta sair da prisão mais cedo. No Natal de 1984, pede um indulto ao presidente da República, Ramalho Eanes, que é recusado. Mas, na verdade, nunca chegaria a cumprir a totalidade da pena. Novembro de 1985. Juan Fernández Krone recebe uma visita inesperada na prisão. O homem apresenta-se como capelão e traz uma proposta. Diz ter sido enviado pelo patriarcado de Lisboa. O capelão garante-lhe que nem tudo está perdido. Krone ainda pode reconciliar-se com a Igreja e ser reintegrado, mesmo que tenha sido automaticamente excomungado no preciso momento em que tentou matar João Paulo II. Mas a pena não é necessariamente definitiva. É imposta com o objetivo de poder ser revertida no futuro, quando há arrependimento. Krone diz que não. Não lhe voltaria a ser oferecida outra oportunidade pela Igreja. Quanto à Justiça, dias mais tarde, acabou por sair em liberdade condicional depois de ter cumprido menos de metade da pena a que foi condenado. Tudo aquilo era uma espécie de nova prisão. Assim que é expulso de Portugal, Krone regressa à Espanha e procura refúgio em casa dos pais. Miguel, o irmão, que também é padre, não o aceita. Considera uma afronta que Juan tenha tentado assassinar o Papa. E o problema é ainda maior com o pai.

Estive em Espanha uns meses na casa dos meus pais e foram meses muito duros, muito difíceis, porque o meu pai, na realidade, condenava. Via-se que tinha uma certa alergia ao que achava que vinha do meu passado ou da minha experiência na prisão. A certas expressões que eu usava e que me pareciam típicas da cadeia. Não me expulsaram. Fui eu que fui embora de casa, mas foi, sobretudo, o conflito familiar que foi determinante. A minha família virou-me as costas, claramente.

Krone sente-se sozinho, sem rumo. Até os católicos mais radicais que o acolheram quando saiu da faculdade, o abandonaram agora. Decide sair do país onde nasceu, mas não é fácil encontrar um lugar onde se enquadre. Passa algumas semanas na Holanda, hospedado na casa de um pastor protestante. Segue depois para a Suíça, onde procura acolhimento nas localidades à volta do seminário da Fraternidade de São Pio X. É lá que conhece uma mulher belga com quem se casa e tem um filho. É ela que o leva a mudar-se para a Bélgica, onde vive em várias cidades até se fixar em Bruxelas. O casamento não dura muito e Krone divorcia-se pouco depois do nascimento do filho, mas ficou no país até hoje. E é lá que vai estar quando o Vaticano finalmente revelar um segredo que esteve guardado durante décadas. O segredo que anos antes levou Krone a escolher Fátima como o sítio ideal para matar o Papa. É o dia 13 de maio do ano 2000, mas este não é um 13 de maio como qualquer outro em Fátima. O Papa está pela terceira vez no santuário. Ainda que João Paulo II não seja o protagonista do momento mais aguardado do dia. Delegou essa função no cardeal Angelo Sodano e o secretário de Estado do Vaticano, com o Papa sentado ao lado, prepara-se para revelar aos milhares de fiéis ali presentes, uma mensagem que é considerada um dos documentos mais importantes da história da Igreja no século XX.

É uma via sacra sem fim, guiada pelos papas do século XX.

Depois de décadas guardada nos arquivos do Vaticano, a terceira parte do segredo de Fátima está finalmente a poucos segundos de ser revelada. O texto escrito pela Irmã Lúcia descreve a visão que os pastorinhos tiveram em 1917.

"E vimos um bispo vestido de branco. Tivemos o pressentimento de que era o Santo Padre.

Vários outros bispos, sacerdotes, religiosos e religiosas a subir uma escabrosa montanha, no cimo da qual estava uma grande cruz de troncos toscos. O Santo Padre, antes de chegar aí, atravessou uma grande cidade, meio em ruínas e meio trêmulo, com o andar vacilante, acabrunhado de dor e pena e orando pelas almas dos cadáveres que encontrava pelo caminho. Chegado ao cimo do monte, prostrado, de joelhos, aos pés da grande cruz, foi morto por um grupo de soldados que lhe dispararam vários tiros e setas.

Só agora se percebia a razão que fez com que tantos papas tivessem resistido a divulgar o texto. Um bispo vestido de branco assassinado. Os dois primeiros papas que leram o segredo não tiveram dúvidas: aquela era a profecia de um ataque contra o Papa. Era mais prudente não o revelar, não fosse a profecia dar ideias a alguém. Mas com João Paulo II foi diferente. O Papa leu o segredo numa cama de hospital, dias depois de ser atingido a tiro na Praça de São Pedro. Para ele, ficou tudo muito claro. O bispo vestido de branco era ele.

O bispo vestido de branco, que reza por todos os fiéis, é o Papa. Também ele, caminhando penosamente para a cruz, por entre os cadáveres dos martirizados, cai por terra como morto, sob os tiros de uma arma de fogo. Depois do atentado de 13 de maio de 1981, pareceu claramente à Sua Santidade que foi uma mão materna a guiar a trajetória da bala, permitindo que o Papa agonizante se detivesse no limiar da morte.

A revelação da visão da irmã Lúcia e o significado que a Igreja lhe atribui surpreendem especialmente os mais conservadores. Esses grupos a que Agca tinha pertencido em tempos, acreditavam que a profecia era sobre inimigos internos que estavam a destruir a Igreja. A interpretação que o Vaticano faz da terceira parte do segredo de Fátima não se centra apenas na figura do Papa. Fala de uma Igreja mártir, de todos aqueles que deram a vida ao longo do século para defender o Evangelho. Não podia ser mais distante daquilo que Agca imaginava ser o segredo, no momento em que tentou matar o Papa. Era muito mais do que uma mensagem. Para a Igreja, Fátima torna-se a chave para ler todo o século XX. E a revelação final é apenas o culminar de uma sequência de acontecimentos que puseram Fátima no centro do mundo e que só agora se compreendiam totalmente. Em 1984, apenas dois anos depois de Agca ter tentado matar o Papa, João Paulo II pede que seja levada à Roma a imagem original de Nossa Senhora de Fátima. O Papa quer consagrar todo o mundo, incluindo a Rússia, ao Imaculado Coração de Maria. O mundo estava prestes a conhecer grandes transformações. Mikhail Gorbatchov, o último líder da União Soviética, é eleito no ano seguinte. E na segunda metade dos anos 80, acelera o colapso da esfera de influência de Moscovo, até à queda do Muro de Berlim em 1989 e ao fim da União Soviética em 1991. Na interpretação da Igreja, João Paulo II, o segredo de Fátima e a queda do comunismo ficam para sempre ligados, lembra o historiador Marco Daniel Duarte.

Aquilo que João Paulo II vem a demonstrar é que, ao contrário do que os regimes marxistas-leninistas preconizavam, aquele povo da Polónia não era um povo comunista, era um povo cristão esmagado pelo ideário comunista. Esta é a lógica de entendimento da Igreja nesta época. E João Paulo II não desliga isso dos acontecimentos que estão aqui profetizados em Fátima ou que são aqui explanados do ponto de vista místico, espiritual, como se Fátima fosse uma espécie de guião que pontua a história da humanidade.

João Paulo II teve um dos pontificados mais longos da história. Morreu em 2005, ao fim de mais de 26 anos como Papa.

Adentrarmos no mistério da misericórdia divina, que sempre espera, sempre perdona, porque sempre ama.

Em 2014, João Paulo II foi canonizado. Aconteceu em circunstâncias excepcionais. A popularidade do Papa polaco e os apelos à canonização imediata levaram o Papa Bento XVI a decidir que não seria preciso esperar o prazo habitual para dar início ao processo de beatificação. E assim, menos de uma década depois da morte, João Paulo II foi elevado a santo. Por essa altura, o homem que o tentou matar em Fátima já tinha perdido tudo. Passaram 42 anos. Mehmet Ali Agca continua a dizer que não se arrepende do que tentou fazer ao Papa em maio de 1982. Mas garante que hoje não voltava a fazer o mesmo Sabe que pagou um preço elevado. Nunca conseguiu reconstruir a vida e nunca se libertou do rótulo de homicida frustrado. Sempre disse que o objetivo era matar. Usava palavras grandiosas, queria trespassar o coração de João Paulo II e libertar a Igreja da agonia que o Papa personificava. Agora contradiz-se e garante que chegou à conclusão de que, na verdade, talvez não quisesse mesmo assassinar o Papa. Só queria chamar a atenção para a causa que defendia.

Efetivamente, eu sempre disse que queria matar, mas hoje penso que não. Que aquilo foi uma puerilidade minha. Não queria matá-lo, queria acabar com aquele star power. Com aquele poder daquele Papa novo e único na história da Igreja, a que todos prestavam reverência, incenso, todos, à direita e à esquerda. A imprensa de esquerda, a imprensa liberal maçônica francesa, o Le Figaro, o Le Monde e a direita de todo o mundo. Era uma unanimidade esmagadora.

Hoje reconhece que chamar anticristo e agente comunista a João Paulo II pode ter sido um exagero.

Talvez tenham sido exageros. Na altura, tinha uma carapaça teológico-doctrinal bastante rígida e o anticristo era a encarnação do mal. Reconheço que era um pouco obsessivo, mas era a herança do meu background sociológico familiar espanhol.

A verdade é que a própria família católica e tradicional nunca compreendeu ou aceitou os motivos dele. Krone viu o pai morrer sem nunca se terem reconciliado. E poucos dias antes de aceitar falar para este podcast, em Bruxelas, recebeu a notícia da morte do irmão Miguel, o padre obediente a Roma, com quem cortou relações em 1982.

O meu irmão que morreu há dias. Sinto-me no dever de o recordar, porque morreu há dias. Era sacerdote também.

Depois de ser libertado, Krone voltou a ter problemas com a justiça. A 16 de maio do ano 2000, apenas três dias após a revelação da terceira parte do segredo de Fátima, foi detido novamente em Bruxelas, desta vez por ter tentado atacar o rei de Espanha numa visita à capital belga.

Na visita do rei Juan Carlos a Bruxelas, fiz um protesto à frente do Palácio Real. Gritei: "Tu mataste o teu irmão, eu não matei o Papa". Porque havia efetivamente uma lenda, em que hoje não acredito muito, mas que circulou em Espanha, que dizia que, na verdade, o rei Juan Carlos tinha matado o irmão Afonso num acidente de caça e que a versão que se tinha tornado pública era falsa. Eu era o herdeiro da coroa, era o filho mais velho. Detiveram-me. Estive um mês ou mais num regime muito duro, acusado de atentado contra a pessoa do rei.

Krone garante ter clara consciência de que foi ele o único responsável pela vida que o trouxe ao estado de grande fragilidade em que se encontra hoje. Na Bélgica, ainda chegou a trabalhar como advogado, mas foi expulso da ordem depois de ter feito comentários antissemitas numa entrevista. A partir daí, teve uma série de empregos precários. Foi auxiliar numa companhia aérea que foi à falência, fez serviços de tradução, trabalhou na agricultura e até foi mecânico de bicicletas, mas nunca se integrou verdadeiramente na sociedade belga. Hoje, Juan Fernández Krone tem 74 anos. Passa a maioria dos dias na Biblioteca Real de Bruxelas e dedica uma grande parte do tempo a alimentar um blog e a gravar vídeos para o YouTube, onde se multiplica em críticas ao Papa Francisco.

Buenas tardes, amigas, amigos de mi blog.

Depois de ter sido despejado do apartamento onde morava, vive numa casa de acolhimento municipal, onde paga um quarto com as poucas poupanças que ainda tem. A custo, Krone aceita voltar àquele momento que lhe definiu a vida. Mais de 40 anos depois, recorda que na noite de 12 de maio de 1982, em Fátima, no preciso instante em que se lançou contra João Paulo II, já estava tomado por um sentimento que não conseguia identificar. Só mais tarde, na prisão, é que iria perceber o que era, ao lembrar-se de uma história de infância. Krone estava na escola em Madri quando uma janela lhe caiu em cima e o vidro se estilhaçou sobre a cabeça. No dia em que tentou matar o Papa, diz que sentiu que alguma coisa se tinha voltado a estilhaçar, agora dentro dele próprio.

Partiram-se-me as crenças e os dogmas que tinha tão enraizados.

Nunca conseguiu redimir-se do que fez ou ter uma vida que considerasse feliz. Nunca conseguiu sequer voltar a fazer as pazes com a família, mas decidiu cortar definitivamente com o caminho de extremismo que o levou ao isolamento e à prisão.

Não sou católico, nem me considero crente. Pelo contrário, partilho a crítica ao cristianismo que o Nietzsche faz no livro "Anticristo". É uma crítica frontal e de fundo ao cristianismo, e eu concordo com ela 100%.

Em 1982, o padre Crone acreditou que tinha de matar o Papa em nome de Deus. Via-o como um inimigo, mas não conseguiu evitar que João Paulo II se tornasse um dos papas mais populares da história da Igreja. Juan Fernández Crone falhou em tudo. Não conseguiu assassinar o Papa, não salvou a Igreja, não se tornou um mártir. E hoje, aos 74 anos, já nem sequer acredita em Deus. "Matar o Papa" é uma série para ouvir em seis episódios que faz parte dos podcast plus do Observador. É narrada por mim, Pedro Laginha, com banda sonora original de Rodrigo Leão e participação especial de Adriano Luz na voz de Juan Fernández Crone. O guião e as entrevistas são de João Francisco Gomes. A sonoplastia é de Bernardo Almeida. O design gráfico é de Miguel Ferraz Cabral. A edição é de Tânia Pereirinha e João Santos Duarte. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio ouvimos sons do arquivo da RTP e outros retirados do YouTube. A voz que ouvimos na leitura do texto da irmã Lúcia é de Inês Batista. Podcast plus do Observador. É mais do que um podcast.

Os podcast plus do Observador têm o apoio da Kia.