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"Melhor é difícil" é um podcast em que Maria João Avillez entrevista portugueses que são exemplos de excelência. São os melhores nas suas áreas e contam como chegaram ao topo.
Cristina Fonseca, bem-vinda. Começo por uma dúvida: ou estou enganada ou a escolha do seu curso de técnico de telecomunicações e engenharia de redes, e alguns anos depois, uma especialização em inteligência artificial, já de algum modo indiciava um futuro. Portanto, houve uma escolha sua e não uma sucessão de acaso ou de circunstâncias, ou de coincidências. Foi uma escolha.
Sem dúvida. E eu acho que essa escolha teve como base um critério que eu acho que é muito importante, sobretudo nos dias de hoje, que é a curiosidade. Eu acho que nós devemos ser genuinamente curiosos com relação ao futuro. Eu tinha uma natural inclinação pelas áreas técnicas, mesmo assim não sabia muito bem o que queria exatamente fazer.
E onde encaixar essa inclinação.
Onde encaixava. Eu era naturalmente atraída pelas áreas da engenharia, por oposição à saúde e outras opções que tinha na altura. Não era civil, não era mecânica, e eu pensei: há aqui um curso que explora um bocadinho o que é a engenharia da internet. E a internet era uma área que se estava a tornar muito relevante na sociedade. E foi mais ou menos assim que eu escolhi o curso. Eu estava genuinamente curiosa e eu tinha um acordo com os meus pais que era: se eu não gostar, eu troco, porque nenhuma das escolhas que nós fazemos tem que ser definitiva.
Completas, não tem.
E eu acho que logo desde essa altura, foi muito claro pra mim. Eu fui pro curso com mente muito aberta, com vontade de explorar, com muita curiosidade, sabendo que se eu não gostasse daquilo, eu ia trocar.
E não trocou, sabemos.
Não troquei.
Havia algum espírito ou ambiente ou alguma coisa propiciadora mais para as áreas técnicas e pra você desenvolver essa curiosidade nas áreas técnicas, em casa ou na família?
O meu núcleo familiar sempre foi muito de resolver os próprios problemas com as mãos. Eu lembro-me, e se calhar, hoje em dia, eu represento muitas vezes o empreendedorismo feminino, e eu se calhar posso atribuir uma grande parte daquilo que eu explorei pra mim própria naquilo que eu vi em minha casa.
Era isso que eu queria saber, exatamente. Houve uma ligação, um cordão umbilical.
Um bocadinho. Por exemplo, eu lembro-me perfeitamente da minha mãe, se tivesse um problema em casa e avariasse qualquer coisa, ela ia tentar arranjar.
Claro.
Eu lembro-me do meu pai, cujo hobby ainda hoje é restaurar carros antigos, de nos pedir ajuda ao fim de semana e dizer: "Não, vais me ajudar". E depois ele adorava explicar como é que a máquina funcionava.
Aquela mecânica.
Exato.
E os gestos que eram precisos fazer e as peças.
E, portanto, eu acho que de alguma forma eu ganhei e adquiri alguma dessa inteligência prática no meu núcleo familiar.
E depois a curiosidade fez o resto.
A curiosidade, exato.
E a curiosidade e outra coisa, foi a Cristina ter percebido que, evidentemente, a internet era o começo, se quiser, ou a continuação em muito mais sofisticado, nem sei como diga, de outro mundo, de outras realidades, de outras possibilidades.
Sim, eu costumo brincar um bocadinho que eu, na minha vida profissional, já passei por duas ou três revoluções. A primeira foi a da internet, depois a dos telemóveis e de tudo passar a ser móvel e estar no nosso bolso. Quando eu fiz o curso, as empresas estavam a mudar-se pra cloud, desvirtualizar a infraestrutura das empresas e tecnológica. E depois, mais recentemente, de inteligência artificial. E eu acabei, talvez por esta curiosidade, a explorar algumas destas áreas na vida pessoal e depois profissional. Isso levou-me a aventuras superinteressantes.
Já vamos mesmo falar delas, não perde pela demora. Mas gostava só que parássemos uns breves segundos no técnico, por ser uma ótima escola, com prestígio que se mantém até hoje, e grandes professores. Nesse sentido, as primeiras sementes que lhe permitiram vir a desenvolver tudo o que tinha visto em casa, o que estava a acontecer no mundo, a sua curiosidade, foram lá lançadas ou desenvolvidas, se quiser.
Foram, se calhar, lançadas. Eu acho que ainda há um bocadinho um distanciamento muito grande entre o que é o mundo acadêmico em Portugal e depois a indústria e o mundo empresarial.
É verdade.
Eu ganhei ferramentas, sem dúvida, no técnico e com os professores que tive. Eu lembro-me de discussões em que os professores nos tentavam explicar que o valor do conhecimento que nós tínhamos adquirido ali era grande, mas depois na minha cabeça isso não era tangível. Eu acho que hoje em dia quando um aluno termina a faculdade, eu tinha uma questão filosófica pra mim própria na altura que era: será que eu com este conhecimento consigo gerar um salário, o salário equivalente ao que eu espero que alguém me pague?
Percebia que era preciso mais.
Muito mais.
Claro, era aí que eu queria chegar.
Eu lembro-me durante o ano, que foi o ano em que nós incubamos a Talkdesk. Durante esse ano, eu comprei imensos livros de outras disciplinas que eram muito importantes pra criar uma empresa, tudo que era marketing online, fazer produtos bonitos. Nós no técnico era tudo muito as coisas difíceis.
Claro, mais duras.
Mais duras. Os sistemas, a arquitetura. Não havia um foco muito grande no utilizador, no marketing, no negócio. Ou seja, houve bocadinhos aqui e ali.
Sim, claro.
Infelizmente, não.
Não era o foco.
Não era o foco. Mas pronto, depois com muito trabalho de casa, conseguimos juntar as coisas e honestamenteO inverso teria sido impossível. Se eu tivesse aprendido todas as outras componentes e depois fosse tentar perceber a componente técnica por mim própria, não conseguia ter feito isso.
Não conseguiria. Claro. Cristina, falou aí de belas aventuras. Um dia decidiu partir, voou sobre o Atlântico, aterrou nos Estados Unidos, tinha 24 anos. Partiu por quê? Trocou o seu país por outro que não conhecia, ou não conhecia bem, ou não conhecia, sobretudo, em termos profissionais do que queria fazer. Por quê? Porque não lhe chegava, porque queria fazer coisas novas que só lá?
Talvez. Eu acho que, de novo, foi a curiosidade. Se eu voltar um bocadinho à minha infância, eu nasci e cresci numa aldeia muito pequenina, onde não há ninguém da minha idade.
Como é que se chama a aldeia?
Vales, é perto de Ourém.
Concelho de?
Concelho de Ourém, Santarém. Na minha adolescência, eu tinha muita exposição a Lisboa e afins, sempre tive, mas eu tinha um interesse muito grande por sair daquele sítio. E descobrir outras coisas. Depois do técnico, aliás, ainda no técnico, começamos a explorar algumas oportunidades de negócio e a acompanhar o que estava a acontecer em São Francisco, nos Estados Unidos, mas sobretudo em São Francisco.
Mas quando diz depois do técnico, começamos, é onde e com quem? Que aí é um detalhe.
O Tiago, que era meu colega de curso, foi a pessoa-
Tiago?
Tiago Paiva, que era o meu colega de curso, acabou por ser o meu cofundador da Talkdesk e o meu companheiro nestas aventuras. Nós ainda quando estávamos no curso, começamos, eu lembro nós estávamos aborrecidos nalgumas aulas e começamos a explorar o que podíamos fazer, que negócios é que podíamos criar. E depois, um bocadinho nesta onda, começamos a prestar atenção ao que estava acontecendo nos Estados Unidos. E já nessa altura, havia um setor que se estava a criar e a desenvolver muito, que era o setor do capital de risco, em que era empresas de alto potencial, que têm a sua base, sobretudo na internet, que são produtos online ou que chegam à sua base de clientes através da internet e por isso conseguem se tornar negócios muito maiores. Estes negócios estavam a surgir como pães quentes, a explodir nos Estados Unidos.
Estamos a falar de que ano?
2010, a Talkdesk começou em 2011, o Facebook surgiu em 2008. Houve muitas coisas a acontecer antes e houve a bolha de 2000.
E quase interligada, em que as coisas se iam interligando.
Exatamente.
Interagindo umas com as outras.
Foi nessa altura em que as compras online e a Amazon também começaram a ter algum protagonismo, empresas como a Google. Estas empresas, de repente, que foram todas financiadas por capital de risco, começaram a desenvolver-se, a tornar-se grandes e a estabelecer-se como líderes de mercado em diversos setores.
Portanto, a sua curiosidade aumentou.
Do gênero, de repente, se eu fizer uma empresa e fizer essa empresa através da internet, eu estou a eliminar uma série de barreiras que eram muito comuns nos negócios, que é: eu consigo servir a população da minha cidade ou do meu país, depois há um processo de internacionalização, que é uma palavra que eu odeio. E naquela altura, estas barreiras não existiam. Eu podia criar um negócio global desde o dia um, podia adquirir clientes através da internet e aquilo parecia uma espécie de milagre, quase, que desafiava todas as regras de criação de empresas.
Um milagre sem fronteiras, onde não tinha cabimento a palavra internacionalização, porque estava no mundo.
Era internacional no dia um.
Exatamente.
E portanto, o que aconteceu foi, eu e o Tiago acabamos por tentar explorar várias ideias, pôr várias ideias, várias aplicações na internet e tentar perceber se alguma delas poderia ser um negócio.
Ainda cá?
Ainda cá. Nós durante um ano, tivemos ofertas de trabalho muito relevantes, que rejeitamos por opção.
Saiu do técnico com 20?
Saí com 18 e quatro, acho eu, já nem me lembro. Mas saí, fui das melhores alunas, tive bolsas de mérito, tinha uma bolsa de doutoramento à minha espera, tinha uma proposta da McKinsey, tinha ótimas escolhas, mas achei, genuinamente, que a minha possibilidade de explorar uma coisa diferente era naquela altura. E depois, se calhar, um detalhe importante, eu acho que há pessoas que só passam por estas experiências.
Há detalhes que na vida são tão importantes.
Sim.
Conte lá. Não, mas é verdade.
Uma pessoa agora, quando olha para trás, se calhar, a coisa mais transformadora que me aconteceu nesse percurso foi ter tido uma pneumonia gravíssima durante o meu mestrado e ter estado internada nos cuidados intensivos uma semana.
Onde? Em que país?
Foi aqui. No São Francisco Xavier. Fui altamente bem tratada, mas quando eu saí de lá, houve uma altura em que os médicos disseram aos meus pais que eu tinha 50% de probabilidades de sobreviver. Quando uma pessoa sai de uma experiência destas e percebe que-
Não é a mesma.
Não é a mesma, e tenta perceber como é que eu posso deixar impacto no mundo, o que eu vou fazer que vai valer mesmo a pena. E portanto, eu aí decidi mesmo tentar explorar algo que fosse diferente, que me divertisse, que me permitisse aprender. E portanto, essa foi uma das razões pelas quais eu rejeitei outras opções de carreira muito mais tradicionais, sempre acreditando que as escolhas são reversíveis e eu podia voltar atrás.
Então, quando partiram para os Estados Unidos, o Tiago e vocêJá tinham em mente certo o que iam fazer.
Já.
Que era explicar.
Que era a Talkdesk.
Vamos lá explicar o que é a Talkdesk. Muita gente sabe, mas temos que admitir que há gente que não saiba.
Claro. Eu acho que nos últimos anos também já surgiram outras muito mais interessantes.
Não, mais interessantes, surgiram outras.
Eu e o Tiago, uma das ideias que nós exploramos, e uma que vingou de uma forma até surpreendente, foi a Talkdesk. A Talkdesk nasceu numa altura em que os sistemas estavam a mudar-se todos para a cloud. Eu coloquei as minhas bases de dados de clientes na cloud, eu passei a colocar muitas coisas na cloud, mas os telefones não viviam na cloud. Eu se quisesse montar um call center, ainda tinha que pedir a uma operadora de telecomunicações para me montar uma infraestrutura física naquele sítio com X postos de trabalho, e aquilo não era flexível. E o que nós fizemos foi transportar os call centers para a cloud. Eu, de repente, com o meu computador, conseguia montar um call center em cinco minutos. Aliás, era assim que nós nos definimos: monta o teu call center em cinco minutos. Fizemos um primeiro protótipo do que era aquela solução, participamos num concurso promovido por uma empresa americana, ganhamos o concurso e eles disseram, com quatro dias de antecedência: "Venham apresentar à nossa conferência, à nossa competição de startups, aqui em São Francisco".
Mas já lá estavam, não?
Não.
Ainda estavam em Portugal.
Estávamos em Portugal. E o que nós fizemos foi: "Claro que sim".
Evidente. Não se diz que não.
Não se diz que não. Eles da primeira vez que fomos, foi para apresentar a ideia numa competição de startup.
Não iam de bagagem.
Não íamos de bagagem. Que ganhamos.
Ai, ganharam?
Ganhamos depois, outra vez. Tínhamos ganho uma competição online. Depois ganhamos uma lá.
A presencial.
A presencial. Depois tivemos dois investidores que nos ofereceram um pequeno investimento e a possibilidade de nos mudarmos lá para o que se chama um programa de aceleração, que é assim um curso intensivo para empresas tecnológicas de como, em três a seis meses, aprender tudo sobre financiamento, marketing, vendas, falar com mentores.
Então era um full-time job, um full-time work durante os tais três a seis meses.
Mais full-time.
Era dia e noite, praticamente.
Era superintensivo, dia e noite, nós quase vivíamos no escritório.
Em São Francisco.
Em São Francisco, um bocadinho mais abaixo.
E depois voltaram a Portugal.
Nós quando voltámos a Portugal, tínhamos uma proposta de investimento de $50 mil. Na altura, eram $50 mil, que era o necessário para começar. Voltámos, tratámos do visto e dissemos aos nossos pais que íamos mudar para a Califórnia para fazer uma empresa.
E eles?
E eles: "Oh!".
Não só Califórnia, mas sobretudo mudarem-se para fazer uma empresa com os convites que a sua família sabia que tinha tido cá. Mas pronto, é assim. É o que distingue as pessoas, é isso.
A minha família nunca questionou as minhas escolhas e eu, olhando para trás, eu sei que isso contou muito.
Muito. Quantos irmãos são?
Somos três.
E os outros são assim acelerados mentalmente.
São acelerados mentalmente, de maneira um bocadinho diferente, mas trabalham todos na área tecnológica.
Que interessante.
Sim.
Eu faço ideia se se juntam.
Nenhum deles tem empresas, ainda.
Mas qualquer dia têm. E portanto, percebeu, evidentemente, que tinha que sair de Portugal.
Nem se pensava. Nós estávamos à procura de uma oportunidade de fazer algo.
Que ainda não estava cá ou que ainda não estava à mão. Ou que ainda não tinha interlocutores, por exemplo.
Em Portugal, em 2010, dizer a alguém: "Eu sou um empreendedor", era falar chinês. Ninguém sabia o que isso significava. Eu lembro a primeira pessoa portuguesa que se definiu como empreendedor, foi um português nos Estados Unidos, no aeroporto. Eu: "Olha, um português, o que é que tu fazes?" Ele diz: "Eu sou empreendedor". E eu lembro-me de pensar: estas pessoas existem, mas estão aqui, não estão em Portugal.
Claro. Teve que fazer uma escolha.
Sim, sem dúvida.
Sem dúvida. E hoje agradece a si própria a intuição, a curiosidade, apesar de tudo, uma certa vontade, força de vontade, disciplina.
Disciplina, muito trabalho, não vou mentir, foi duríssimo, mas também era a oportunidade que nós tínhamos de desafiar algumas das regras que nós observávamos em Portugal. Os americanos, eu até pessoalmente acho que o maior choque foi a cultura da ambição. Em Portugal, tu crias um negócio por começares pequenino, arranjas os primeiros clientes e vais daí.
Tudo vais devagarinho.
Vai devagarinho. Nos Estados Unidos, tu começas por pensar grande. Eu vou ser ambicioso e depois eu vou executar um plano que é ambicioso desde o dia um.
Então vamos falar de mais planos feitos desde o dia um. Só vou pedir à Cristina e aos nossos ouvintes ou a quem nos está a ver, que esperem por nós. Voltamos já, já a seguir. Estávamos a falar de coisas grandes. A Cristina Fonseca estava a começar a contar o que foi montar a Talkdesk. Vamos falar ainda um bocadinho. Já sei que há outras e que entretanto muitas coisas evoluíram, mas vale a pena ainda contarmos um bocadinho, você reviver um pouco. Ficaram em São Francisco, sempre?
Ficamos em Mountain View, que é um bocadinho a sul.
Sim, mas aí nessa zona geográfica.
Ficamos nessa zona geográfica durante cinco meses no programa de aceleração, em que o nosso objetivo era provar que o produto tinha aceitação no mercado, contratar pessoas para captar aquela oportunidade de negócio o mais rapidamente possível. Para isso tivemos alguns investidores, tivemos os primeiros $50 mil e depois tivemos mais $350. Portanto, a certa altura tínhamos mais ou menos $400 mil na conta, um plano de negócio sólido e uma grande oportunidade de mudar a indústria dos call centers. Tínhamos a ambição, tínhamos uma base sólida e depois era execução. O que isso quer dizer? Falar muito com clientes. Eu acho que mesmo tendo um background técnico, das coisas mais importantes que eu aprendi foi: tu podes estar seis meses na garagem a fazer um produto. Se o produto não resolver um problema para o cliente, não vais a lado nenhum. E isto hoje em dia, acho que é muito mais crítico neste tipo de organizações, validar muito bem o produto, nós fizemos isso muito bem, e depois ter ao nosso lado pessoas que nos conseguem ajudar exatamente com os desafios.
E que vocês foram recrutando para uma equipe.
Sim.
E a partir de que momento e com quantos membros é que a equipe se tornou uma equipe?
No início, nós chegamos a ser sete, oito, nove pessoas. Com este grupo, que não era muito grande, nós passamos três anos a construir uma base muito sólida da empresa.
Tudo norte-americanos ou não?
Não, aí já a maioria eram portugueses. Depois, o que aconteceu?
Onde é que os descobriram?
Eu voltei para cá, o Tiago ficou nos Estados Unidos. Por quê? Porque a nossa rede lá, em termos de talento técnico, que era o que nós precisávamos mais na altura, não existia. Nós não estudávamos na Faculdade Americana.
Portanto, ele ficou a ocupar-se disso.
Ele ficou a ocupar-se das vendas, de investidores e de garantir que nós não perdíamos a ligação aos Estados Unidos. E eu mudei-me de volta para Portugal exatamente para recrutar esta equipe e trabalhar no que era o produto e a parte técnica, que era o que nós precisávamos desenvolver mais. Chegamos a um ponto em que, honestamente, tínhamos clientes fantásticos. A Chevrolet foi um dos nossos primeiros clientes.
A Chevrolet, que engraçado.
A Chevrolet, já muitos de nós nos esquecemos deles. O Fitbit, que era uma daquelas empresas que tinha um tracker de atividade física, eles tiveram uma história incrível. Faltavam dois meses para o Natal, e eles só conseguiam atender 20% das chamadas telefônicas.
Imagine.
E era Natal, portanto, toda a gente ia oferecer Fitbits e eles iam ter um pico ainda maior de chamadas. Então, o problema deles era conseguir montar um call center na Guatemala o mais rapidamente possível. Encontraram quem tivesse as pessoas, e um parceiro que tinha as pessoas, mas precisavam de uma solução de software que permitisse gente nos Estados Unidos, na Guatemala e onde estivessem a atender telefones. E nós, claro, somos o parceiro certo. Eu lembro de fazer chamadas às três da manhã para os ajudar a fazer a implementação do projeto.
Estavam todos interligados.
Tudo. O meu cérebro estava ligado 24 horas por dia, portanto, foi uma fase supergira. Nós chegamos a um ponto em que o produto claramente resolvia uma necessidade de clientes. Tínhamos muita procura, mas tínhamos até alguma dificuldade em perceber para onde é que nós vamos daqui, como é que nós escalamos a equipe. E agora, como é que nós chegamos ao próximo estágio? E foi aí que, de novo, outro investidor norte-americano decidiu investir no projeto e ajudar-nos com alguns desses desafios. E honestamente, olhando para trás, sem nós termos pessoas próximas de nós, investidores, profissionais, que já viram isto acontecer dezenas, centenas de vezes e que nos põem à disposição os contactos, as outras empresas para nós podermos chegar.
Que lhes abrem a porta.
Abrem a porta. As nossas primeiras contratações sêniores, o nosso primeiro líder de marketing, o nosso primeiro líder de vendas, foram investidores que nos deram os números de telefone de três ou quatro pessoas e que disseram: "Olha, eu acho que uma destas é o que vocês estão à procura".
E achava, sobretudo, que vocês mereciam. Mereciam o trabalho que ele estava a ter, trabalho entre aspas, se quiser, mas que ele estava a ter com vocês.
É também um jogo de credibilidade, não é?
É isso, claro.
Se tu consegues angariar dinheiro dos investidores com boa reputação, eu confio em ti. Tu és uma empresa que tem que estar a fazer muitas coisas bem.
E onde é que você estava? A ver se eu apanho também geograficamente o seu percurso. Já tinha voltado?
Tinha voltado.
Tinha voltado. Quantos meses esteve aqui ou quanto tempo a construir a equipe, a angariar recurso humano?
Eu depois passava a estar aqui a maioria do tempo e ia a cada três meses. Normalmente, passava duas semanas nos Estados Unidos. O nosso primeiro escritório em Portugal foi no Tagus Park. Estivemos lá durante alguns anos e depois eventualmente mudámo-nos para as Amoreiras. Mas depois isto foi uma jornada de anos em que a empresa passou a terDuas bases muito fortes, uma em Portugal e uma nos Estados Unidos. E quando nós olhamos para os grandes casos de sucesso de empreendedorismo em Portugal, nós vamos ver este padrão. Estas empresas que se tornaram bem-sucedidas, tiveram uma grande base aqui, uma grande base nos Estados Unidos. Nos Estados Unidos era tudo que era vendas, marketing, muita relação com clientes, tudo que era investimento e afins, que é o que as melhores pessoas para fazer isto estavam lá, foram treinadas lá em outras empresas. Encontrar este tipo de talento em Portugal era impossível. Hoje em dia já existe, porque entretanto nós treinamos alguns, mas na altura não existia. E depois em Portugal, nós tiramos partido do ótimo talento técnico que existia, técnico e de operações, e honestamente, acabou por ser o nosso secret sauce, foi termos uma muito forte base nos dois países.
Cristina, como é que lidava com o risco? Ou seja, tinha que pensar com o Tiago e às vezes sozinha, risco, não arrisco, vou, não vou. Não é que você tenha nada no seu caráter, nem na sua personalidade de uma hesitante, mas apesar de tudo, é inteligente e tinha os pés na terra. Portanto, lidou sempre bem com o risco.
Eu lidei sempre bem com o risco. Eu costumo dizer: eu só resolvo um problema de cada vez. E eu acho que nesta jornada de ser empreendedor, uma pessoa tem muitos problemas, todos ao mesmo tempo, um é com clientes, o outro é com alguém que tu não contrataste, o outro é com alguém que contrataste e que tens que despedir, porque não era a pessoa certa. E, portanto, tudo isto é difícil. Tu estás a tentar chegar a uma fase que nunca viste, olhas à tua volta, não encontras outros exemplos de pessoas ou empresas a passar pelo mesmo. E eu acho que há duas ou três coisas importantes, que é: pega no telefone e tenta encontrar alguém que possa partilhar experiências contigo. Isso vem muitas vezes de rede, à qual que tu podes chegar com outros fundadores ou investidores. Resolver um problema de cada vez, honestamente, e ter a certeza que, de novo, as decisões são reversíveis. Portanto, se eu fizer um erro, eu tenho forma de voltar atrás.
Isso era importante para você saber.
Isso era muito importante. Eu acho que nós, de alguma forma, tivemos sucesso porque resolvemos os nossos próprios erros relativamente rápido. E isto foi verdade em recrutamento. Nós, a certa altura, tínhamos uma máquina de recrutamento eficiente e que funcionava. Mas no início fizemos alguns erros. E com todo o respeito pelas pessoas que acabaram numa situação que se calhar não era a certa para elas nem para nós, eu acho que com bom senso e conversas honestas, há coisas que se resolvem. Quando tu fazes um negócio com o cliente errado ou com o tipo de cliente errado, isso não é condenável. Condenável é tu continuares a insistir numa estratégia que não funciona.
É verdade.
Eu acho que tu tens que prestar muita atenção aos sinais de mercado, dos clientes, das tuas próprias escolhas, e se perceberes que fizeste um erro, reiterar. Nós claramente resolvemos os nossos próprios erros rápido o suficiente, e isso levou-nos ao caminho certo, no tempo que nós tínhamos para provar que tínhamos que fazer uma empresa. Porque estas empresas funcionam assim: tu tens um X dinheiro no banco, tu tens uma ambição muito grande e aquele dinheiro representa X meses que tu tens para provar se chegas ou não ao próximo patamar. Se o dinheiro acabar, normalmente é game over.
Agora, você disse aí que fazia uma coisa de cada vez e eu percebo muito bem o que é que está a dizer.
Mas faço muitas.
Exato. Eu calculo. Mas embora reconheça, certamente, que uma das principais, senão a principal característica da condição feminina, é ser capaz de simultaneidade na resolução e na capacidade de decisão de várias coisas, ser simultânea. Está de acordo comigo ou não?
Multitasker. Super de acordo.
O empreendedorismo no feminino é até muito interessante por causa disso.
Sem dúvida, sobretudo se nós falarmos de empresas tecnológicas e não há tantas mulheres como seria desejável no empreendedorismo tecnológico ou na liderança deste tipo de empresas por serem áreas mais técnicas.
Há muito mais desde a época em que começou.
Claro. E acho que cada vez vão haver mais.
Haverá mais, claro.
Eu acho que o bom senso, o pragmatismo, eu acho que as mulheres são muito pragmáticas e conseguem genuinamente ser multitaskers. São skills, só me ocorre a palavra em inglês, são skills que nas empresas muitas vezes são mesmo necessárias e importantes.
Não podem ser mais. Olhe, por alguma razão, toda a gente lhe punha nas mãos dinheiro, possibilidades, convites, ofertas e, portanto, também não foi por acaso que a Forbes, que é uma revista indiscutível e cheia de prestígio, muito internacional, eu também ambientei um bocadinho com a palavra. Cada vez que se quer gabar aqui qualquer coisa, diz que é internacional. Mas em 2016, a Forbes elege-a como uma das 100 líderes com maior influência na Europa. Isto foi o quê?
Foi um reconhecimento deDe muito trabalho.
Mas uma pequena música de orgulho na sua alma e no seu coração.
Claro.
Exatamente.
Sem dúvida.
Um dia telefonaram-lhe a dizer?
Esse em específico não telefonaram, mas houve comunicações prévias.
Que era uma escolhida.
Era uma escolhida, era um reconhecimento bastante único.
Mas houve outros. Houve o Young Global Leader pelo Fórum Económico, que a elegeu como jovem líder global. Por acaso é uma frase bonita: jovem líder global. Soa bem, é um pouco musical. Seguiram-se várias distinções. Melhor é difícil, ou não? Que é o nome do nosso podcast.
Melhor é difícil.
Gosto imenso que assuma com uma naturalidade tão simples e tão afável, porque detesto os falsos modestos e porque, de facto, melhor talvez seja difícil. Uma das características para a Forbes eleger e ter a certeza da sua escolha para entrar neste friso era decisão, influência, fortuna familiar, dimensão de negócio e empreendedorismo. Mas eu aqui, se me permite, gostaria de pedir que parasse dois segundos na palavra decisão, influência e empreendedorismo. Decisão, sentia que tinha capacidade. Percebeu a Forbes quando a escolheu. Reconheceu-se na escolha.
Reconheci.
E sobretudo, também pela sua capacidade de decisão.
Capacidade de decisão, de arriscar e de desafiar algumas das regras que eram o expectável para alguém que tem a primeira distinção da Forbes, era os under 30. Alguém que tem menos de 30 anos, num país como Portugal, que na altura era muito desconhecido.
Sim.
Os americanos não faziam ideia onde é que ficava Portugal, hoje em dia isso já mudou. Nós éramos pioneiros reconhecidos nos Estados Unidos e fizemos uma coisa que honestamente foi única. Começámos em Portugal, mas nascemos globais do dia um.
Começaram, diga lá isso outra vez, começaram em Portugal?
Começámos em Portugal, nascemos globais desde o dia um, e eu acredito, a Talkdesk e outras empresas, há mais, são meia dúzia, acabaram por inspirar uma geração de outros jovens a criar outras empresas tecnológicas, a arriscar mais, a ir para fora, e a perceber que havia um mundo mais ou menos paralelo.
Abriram a porta, de certa maneira.
Abrimos a porta, de certa maneira.
A uma nova geração.
Aliás, hoje em dia, onde eu dedico a maioria do meu tempo é a investir em empresas parecidas, empresas do mesmo gênero, empresas tecnológicas.
Já era aí que eu ia chegar agora. É o que está a fazer.
É o que estou a fazer agora, através da Índico, depois acabei por fundar.
Eu agora queria saber exatamente. Antes da Cristina entrar na Índico, deixe-me só perguntar, em 2018 criou a Índico Capital Partners, mas isso pressupôs que tivesse vendido a Talkdesk. Queria fazer outras coisas, mudar um bocadinho, continuando na mesma grande área se quisesse, mas mudar. Achava que já tinha feito tudo. O que é que originou vender uma e criar outra?
Em primeiro lugar, eu não vendi totalmente, eu vendi só uma pequenina parte. Eu costumo dizer, as pessoas perguntam, eu sou uma feliz acionista da Talkdesk.
Que aliás é um dos dois ou três unicórnios principais, não é?
Seis ou sete.
Seis ou sete.
Portanto, eu precisava genuinamente de fazer um bocadinho um reset à minha vida. Eu desenvolvi uma vida adulta a fazer nada mais do que trabalhar. A empresa estava muito bem, estava numa trajetória de crescimento ótima, as coisas estavam a correr bem e eu achava que precisava de fazer uma série de coisas que se acumulavam na minha vida e que eu não conseguia fazer.
Por exemplo, casar e ter filhos?
Não, isso não era a minha prioridade na altura.
Conhecer mais mundo.
Viajar, conseguir passar mais tempo com os meus amigos, que gozavam comigo da forma mais querida. Eu era sempre a pessoa que levava o computador para os jantares e que o trabalho não conseguia sair de mim, porque efetivamente havia uma série de coisas que dependiam de ti. Havia uma série de coisas que eu queria estudar, havia um programa da Singularity University que eu queria fazer, havia uma série de viagens que eu tinha prometido aos meus afilhados que não conseguia fazer. E portanto, eu achava genuinamente que havia um lado da vida que eu estava a perder. A empresa estava muito bem encaminhada e, de novo, muitas vezes os empreendedores confundem a sua personalidade com a personalidade das empresas que criam, e eu não acho que seja a mesma coisa. Eu acho que os próprios fundadores devem perceber quando é que, se calhar, há melhores pessoas para tomar conta daquilo que eles criaram, e foi isso que eu fiz.
E foi isso que fez. Eu infelizmente agora já só tenho dois minutos e meio. Eu sofro tanto com a falta de tempo. Diga-me o que é, muito brevemente, a Índico Capital Partners.
Muito simples
Em pouco tempo. Como é que se descobre o talento? Como é que se diz assim: "Eu escolhi este talento e não aquele talento"? Dois minutos.
Nós na Indyca, em oito, nove anos, já falámos com cerca de 5000 empresas, e dessas 5000 empresas investimos em 55. O que é que as distingue? São normalmente fundadores que têm uma ideia, mas que procuram validar a ideia. São fundadores que validam, têm uma grande ambição, têm um produto diferenciado e que se pode tornar líder à escala global, e que percebem que não o vão conseguir fazer sozinhos, mas têm que atrair uma equipa muito forte para o fazer com eles. E uma equipa muito forte, quer dizer, uma série de contratações importantes, mas também investidores que os consigam ajudar, que já tenham visto outras empresas a tornar-se bem-sucedidas e que os consigam ajudar nesta trajetória com capital, com rede, com experiência. E, portanto, na Indyca nós somos os parceiros número um da maioria das startups que está a ter sucesso nesta geração, em Portugal.
E a partir de Lisboa.
Lisboa. O nosso mercado-alvo é Portugal, Espanha e Itália. Nós começámos um pouquinho mais focados em Portugal, mas hoje em dia já fazemos o sul da Europa de forma um pouquinho mais abrangente.
Falei com uma mulher muito realizada.
Falou, sem dúvida. Não poderia pensar num caminho diferente e melhor para mim própria.
E o que é que vai fazer agora?
Olha, agora tenho várias coisas que me preenchem, incluindo dois filhos, que faço questão de lhes dar jantar e de brincar com eles ao final do dia, portanto, não posso meter em grandes voos.
Muito obrigada. Acabamos com a mãe Cristina Fonseca. Muito obrigada por ter vindo. Fui a sua maior fã, tenha certeza, deste podcast.
Obrigada, Maria João.