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"Melhor é Difícil" é um podcast em que Maria João Avillez entrevista portugueses que são exemplos de excelência. São os melhores nas suas áreas e contam como chegaram ao topo.

Bem-vindo, Mário Laginha, ao "Melhor é Difícil". E eu, com segurança, só posso dizer que é músico e com muita segurança dizer que é genial. Mas depois atrapalho-me, porque com tanta inspiração, tanto talento na composição, na interpretação de um arco musical que eu saiba, que eu me lembre, de Chopin a Bach, à música contemporânea, passando pelo jazz, onde você é o mestre maior. Eu agora peço-lhe que leve esta pergunta a sério. A excelência é isto que eu disse, é ser capaz de qualquer música?

Eu levo a pergunta a sério, mas não quer dizer que ainda assim não ponha alguma coisa em causa, que é: eu acho que às vezes faço coisas muito bem feitas. Tenho às vezes dificuldade, até porque acho que às vezes faço coisas melhores que outras.

Claro.

E, portanto, acho que de vez em quando eu aproximo-me da excelência. O que é maravilhoso, que eu acho que já é espetacular.

E você sente que quando isso acontece, esses momentos privilegiados, você percebe que está a ser excelente?

Digamos que o raciocínio não é... Essa palavra não aparece dessa forma clara.

Mas que está a ser muito bem.

Sim, isso acontece muitas vezes. De repente, há dias que parece que está tudo a correr bem. Resumindo, aquilo que podia correr bem, corre, e aquilo que podia correr mal, não corre. E portanto, as coisas saem mesmo bem. E há um sentimento de plenitude que dá um prazer enorme, uma pessoa sentir que fez bem, que não desiludiu ninguém, que as pessoas estão felizes pelo que presenciaram. É uma sensação espetacular.

Espetacular.

Pronto, não acontece sempre.

É um misto de um privilégio e de uma graça. Mário, mas na música que o Mário faz, também há maravilhosas sonoridades de geografias longínquas. As Índias, as Áfricas, o Brasil. É a inspiração que vai sempre à sua frente a viajar? É o quê?

Eu acho que eu tenho um tipo de desassossego e de curiosidade pelo mundo, não só musical, mas também musical, que faz com que eu queira conhecer que músicas é que há nos vários países. E, portanto, o fato de eu ter curiosidade leva-me a procurar. E acho que eu procuro com vontade de gostar.

E de encontrar.

E de encontrar. E, portanto, sou muito mais vezes surpreendido pela positiva do que pela negativa. E acho que há músicas maravilhosas no mundo todo. Por exemplo, a música africana eu acho que tem coisas que são pérolas, muitas vezes pouco conhecidas, e sempre foi uma influência pra mim, nem sei bem explicar por quê.

Maior até que a do Brasil, parece.

Eu acho que ainda é maior. Eu lembro de ser adolescente, ia pra Buchholz lá pra baixo, e descobria uns discos, eu acho que de uma editora francesa, que era recolha daquela música africana, mas das tribos. E eu sempre achei aquilo mágico, porque entre uma riqueza rítmica imensa e melodias que são simples, mas são inspiradíssimas. Eu sempre adorei esse universo.

Mas é interessante, porque nós, público, percebemos que o seu lado criativo, inspirativo, de intérprete, também ficou maravilhado, como nós estamos maravilhados ao ouvi-lo. Não, é muito interessante isso, porque percebe-se que você foi captado por essas sonoridades. Agora, com tanto talento distribuído por esse leque que temos estado aqui a falar, continua especialmente ligado ao jazz, o que é natural. Mas por que às vezes parece que só o ligam ao jazz? É porque você intervém musicalmente mais com as suas bandas em jazz. Há, no fundo, uma escolha sua do jazz prioritária?

Quer dizer, eu acho que se há, ela é muito antiga. Eu quando me inscrevi no conservatório, ao contrário do que muita gente pensa, eu estava a estudar jazz, mas na altura não havia escolas, era em casa, ouvia discos, mandava vir livros, estudava jazz, e inscrevi-me no conservatório mais como complemento. E a minha ideia inicial nem era levar o curso até ao fim.

Era o quê?

O curso de conservatório.

Ah, talvez não levasse, era assim uma coisa indefinida.

Era só pra melhorar a minha técnica. Só que a verdade é que a cultura musical europeia é tão maravilhosa, são tantos os compositores absolutamente esmagadores, que eu fui me apaixonando mais e mais e pensei: "Não, vou ter que levar o curso até o fim". E pronto, depois levei o curso até o fim. Mas não respondi à sua pergunta, eu acho.

Pois não, era isso que eu ia dizer.

Ou seja, o jazz foiEu acho que é o alicerce central. A primeira coisa que eu pensava era: queria ser músico de jazz, queria tocar jazz. Mas depois queria muito compor. E durante muito tempo compus sempre direcionado para a ideia de jazz, poder improvisar por cima daquelas estruturas, etc. Mas também tinha o fascínio das canções. Comecei a escrever umas canções. E depois tinha o fascínio de outras músicas. E fui achando que eu era mais eu, se me deixasse influenciar pelas músicas que me apaixonavam. E acho que foi isso que foi acontecendo.

Foi um encontro.

Sim, e eu acho que fui abrindo o meu leque de paixões musicais. E acho que elas influenciaram. Eu nunca tentei que não influenciassem aquilo que eu fui escrevendo ao longo dos anos.

Você estava disponível e aberto para o que viesse.

Estava disponível. Exatamente.

Mário, o Mário nasceu num dia 25 de abril de 1960, e a sua história começa com uma educação musical, uma aprendizagem de piano que veio de casa ou veio da escola, ou veio de si, de pedir aos seus pais.

Eu acho que veio, em primeiro lugar, dos meus pais. Eu acho que eles perceberam que eu tinha jeito pra música, porque eu decorava as melodias. Eu tinha cinco anos nessa altura. Mas eu acho que os meus pais fizeram uma coisa que eu depois tentei repetir com os meus filhos, que é achar que os filhos tinham que ter o ensino convencional, um desporto e uma arte.

Que bem-visto isso. Não, isso é eterno. Não tem a ver com épocas, nem com sistemas políticos, nem com nada.

Nada.

É eterno isso.

É isso que eu acho.

Tão inteligente, tão bem-visto. E, portanto, seguiu.

E, portanto, depois os meus pais compraram um piano.

Compraram um piano, fantástico.

Enfim, um piano vertical em segunda mão. Ainda me lembro, acho que é das imagens, senão a imagem mais antiga que tenho, de memória, é que eu me lembro de ver o piano a vir pelo corredor.

Que interessante, claro.

Ir pro seu cantinho, onde eu iria começar a aprender.

Que era um cantinho que passaria a ser seu.

Meu e do meu irmão.

O seu irmão também aprendia.

Eu tinha cinco e o meu irmão sete, e ambos tínhamos facilidade.

Olhe, mas houve um belo dia em que o Camané o convidou a si ao seu piano pra o acompanharem num concerto que ficou memorável, foi n vezes repetido, Ginha acompanhando ao piano o fado Camané. Eu sei que antes já tinham tido umas experiências com Sassetti e tudo isso, mas aquilo foi um ponto de partida. Só que eu lembrei-me que podia ser engraçado ser o Camané. Olá, Camané. Bem-vindo.

Olá, Maria João. Olá, Mário.

Eu gostava que fosse o Camané a contar aqui a quem está a ver ou ouvir, já sei que tinha ido uma vez, mas como é que foi desta vez a sério? Era só o Mário e só o Camané. Conte lá.

Bem, a primeira vez nós encontramos no Culturgest, no lançamento de um carro, em que o carro descia no elevador e nós subíamos. Lembras-te, Mário? E a partir daí o Mário disse que tinha começado a gostar de fado nessa altura.

Exatamente.

E mais tarde, o Mário fez o "Ai, Margarida" pra mim.

Pra si. Compôs ele.

Sim, e nós gravamos primeiro com guitarra e viola, o "Ai, Margarida". Gravei num disco meu, dum poema da Pessoa, em que ele responde a ele próprio. Mas a verdade é que o tema é lindíssimo.

Lindíssimo.

E mais tarde decidimos fazer alguns concertos ao vivo. Começamos por fazer esses concertos ao vivo. E uma das coisas fantásticas que aconteceram foi que o Mário se apercebeu como é que se acompanhava fado. Portanto, o Mário interiorizou aquela forma de tocar, aquele ambiente musical, aquela estética.

E o espírito do fado.

Espírito do fado. Isso foi fantástico. E depois, a partir daí, decidimos fazer um disco.

Mas espera aí, entre terem feito alguns concertos e aquela grande série de concertos só os dois, passou quanto tempo? Uns anos, uns tempos?

Não, primeiro fizemos bastantes concertos juntos, antes de pensarmos.

Com o Bernardo Sassetti também.

Fizemos antes, isso foi antes. Fizemos uns três espetáculos em que era dois pianos e voz. E era fado tradicional. Muito fado tradicional também. Depois, mais tarde, decidimos fazer um espetáculo só eu e o Mário.

E o Mário aceitou bem essa ideia.

Fomos fazendo.

Claro que sim, eu queria.

Fomos tocando muitas vezes, até que houve um dia que pensamos fazer o disco.

Que estava maduro.

Sim, e o disco chamava-se "Aqui Está Sossegado", que era um tema que eu já tinha gravado, inclusive.

Eu vou dizer, "Aqui Está Sossegado".

É um tema do meu bisavô. É um disco que eu encontrei, foi encontrado, é de 1918, do meu bisavô, a música. E nós adaptamos.

Que ele compôs?

Ele compôs.

Música e letra?

Não, só música. Ele compôs com outra letra.

Sim.

E eu adaptei um poema do Fernando Pessoa, "Aqui está sossegado, longe"

Pode cantar um bocadinho.

"Aqui está sossegado, longe do mundo e da vida. Cheio de não ter passado, até o futuro se olvida". Tem a ver com aquela coisa da não projeção e a pessoa viver o próprio dia e viver o presente. Aquela coisa do Pessoa. E esta música fantástica do meu bisavô. Eu já tinha gravado num disco e depois gravei com o Mário e demos esse título, porque foi a forma como nós nos sentimos a gravar aquele disco em que o Mário fez "Se Amanhã fosse Domingo", "A Rua das Charneiras", e em que cantámos muitos fados tradicionais, o fado alfacinha do Jaime Santos, o Mouraria.

Eu vi várias vezes esse espectáculo.

O Mário inclusive fez algumas músicas de fado. E a forma como ele tocava, era mesmo o Mouraria ou é o alfacinha.

Era isso que eu queria dizer. Agora, se me permitem, como leiga e espectadora, eu quase que me vinham as lágrimas aos olhos. Eu tenho uma paixão, o Camané sabe isto, e o Mário talvez também saiba, uma enorme paixão, mas muito grande. O meu maior desgosto é não cantar o fado. Eu adoraria cantar ou ter cantado. E eu percebia que o Mário fazia com o piano o mesmo que o mais prestigioso tocador de guitarra portuguesa, estou-me a lembrar do José Manuel Neto, que é um génio, outro génio, do Pedro Castro, fazia com o piano. O Mário até quase que se enrolava sobre o piano e punha um pender de cabeça. Foi uma coisa maravilhosa.

Mas foi com trabalho, porque eu comecei por achar que ia ser fácil. Aquela coisa: "Acho que estou a compreender mais ou menos a ideia", que é uma frase que revela ignorância, eu acho.

É verdade. Você é tão bem visto.

E depois comecei a ouvir os discos com mais atenção do Camané, a tentar perceber como é que eles acompanhavam. José Manuel Neto e o Carlos Manuel Proença.

Extraordinário.

Que eu a dada altura dizia que eu achava que era uma espécie do Rolls-Royce de saberem acompanhar o fado, porque aquilo é tão bem feito. E então eu punha-me a tentar imitar, depois desligava e ficava eu a trabalhar no piano.

Sozinho, claro.

Sim, em casa. E depois a dada altura eu lembro-me de achar: "Não, isto agora eu já me estou a aproximar". Voltava a pôr o disco. E eu pensei: " Ui, ainda estou a milhas, ainda estou muito longe". Mas acho que me fui aproximando, sendo que eu acho que há coisas que são impossíveis, porque são da linguagem do próprio instrumento.

Mas eu acho que tu entraste muito bem na linguagem do fado.

Muito bem.

Aliás, porque o fado começou por ser acompanhado ao piano.

Pois, exacto.

Essa história, que não existem registos gravados, mas o fado começou nos grandes salões, até mesmo o Vianna da Mota, que foi aluno do Liszt, tocava uns seis fadinhos no final dos concertos.

Que interessante. E tocava-se em salões de casas aristocráticas?

Sim. Claro que não sei como é que era o registo, nem a forma, nem o ambiente musical. Mas sei que, de alguma maneira, isto está constado nos livros, já tinha existido, portanto, de alguma maneira tu também chegaste lá.

Exactamente.

Porque tu és outra pessoa quando de repente nós fazemos concertos ao vivo.

É, não é? Isso é tão interessante, porque eu acho que ele é outra pessoa.

É assim, uma das coisas fantásticas que tem acontecido, já vivi concertos teus com o Burmeister, por exemplo, em que tocaste música clássica. E tu és outra pessoa quando foste.

Claro.

És outra pessoa. E quando tocas jazz, és outra pessoa.

São os meus heterónimos.

Mas tu consegues entrar nos ambientes musicais, consegues ter essa honestidade, essa verdade. Isso é fantástico.

É um dom. É um dom, não acha, Camané? É um dom absoluto. Camané e Mário, tenho a melhor das recordações depois dos itinerários que fizeram com o vosso concerto dos dois, com o fado, mas houve algum lugar onde tivesse sido quase uma epopeia, uma coisa assim?

Mas houve vários. De vez em quando havia uns que eram de tal maneira mágicos, porque entre acharmos, aquela coisa que eu dizia há bocado, que estava mesmo a correr bem, tudo nos corria incrivelmente bem.

Os corizeiros foram ótimos.

Os Coliseus foram incríveis.

Lembras-te que uma vez estávamos cheios de frio, fomos comprar umas Termotevs?

Lembro-me perfeitamente.

Mas era ao ar livre.

Ao ar livre.

Ao ar livre, um frio horrível.

Em que sítio?

Em Lamego.

Em Lamego.

E estava imensa gente a assistir ao concerto. Não, estavam milhares de pessoas a assistir ao concerto. Era num centro, com um lago no meio.

Eu acho que não era verão, mas era assim.

Sim, mas não era inverno, evidente.

Não era inverno. Mas estava um gelo, que então fomos, ainda me lembro.

Salvou-nos.

Eu acho que naquelas casas chinesas que há sempre.

Sim, que têm tudo.

Não, exactamente.

Há sempre e têm tudo.

E isso salvou-nos.

E já me tem acontecido ultimamente, eu aprendi com o Mário isso. Ultimamente tem-me acontecido, os teatros estão sempre gelados. Por quê? Os teatros não usam ar-condicionado, porque o ar-condicionado faz mal à voz.

Afeta a voz.

Afeta a voz. Portanto, ainda há que há tempos aconteceu uma coisa em Barcelos, num teatro gelado, parecia que estava dentro de um frigorífico. O teatro era fantástico, era um teatro pequeno. Eu fiz duas noites. E então eu levo sempre aquela Termotev ou outra. Há dias comprei uma no Japão, também. Comprei uma Termotev no Japão, ótima, mais fininha, mas superquente.

Se calhar é Uniqlo.

É Uniqlo.

O Japão gostou do Camané a cantar?

Gostou, acho que sim.

Correu muito bem.

Correu muito bem. Depois aproveitei para fazer uma viagem. Fui a Quioto, depois fui a Tóquio.

Nunca tinha ido ao Japão?

Nunca tinha ido.

E gostou imenso.

Gostei imenso. O concerto foi em Osaka, mas aproveitei para ter lá umas férias.

Muito bem. Para se despedir do Mário Laginha, agora aqui só neste podcast, o que você quer dizer ao Mário? Além daquilo: "O que é melhor é difícil ou mesmo impossível".

O Mário foi das coisas melhores que me aconteceu na vida.

É pá, obrigado.

Foi, porque foi um acréscimo enorme no meu trabalho, na minha vida, e ainda não acabou, porque eu estou a fazer um disco e já há mais dois fados dele fantásticos.

Que bom.

Com dois poemas lindíssimos e que eu vou gravar os dois. Portanto, são os dois bons.

Sim.

E é o trabalho do Mário que eu oiço sempre e que faz parte da minha vida e a amizade que temos.

Nós temos que fazer aqui uma brevíssima pausa. Esperem por nós, voltamos já. Mas eu queria agora, antes de continuar a falar com o Mário, agradecer imenso ao Camané ter vindo aqui para este bocadinho, dar brilho e a sua experiência e a sua memória do que tem sido a sua vida de músico, de fadista com o Mário Laginha. Muito obrigada, Camané.

Muito obrigado.

Já agora, antes do Camané se ir embora, gostava de dizer o que acho dele.

Claro.

Eu acho que o Camané, para já, é dos maiores cantores que eu já alguma vez ouvi, e não é só no fado, porque acho que um cantor é um cantor. Ele é um cantor que eu acho que tem aquilo que só alguns têm, uma mistura entre uma voz maravilhosa, eu acho que a voz do Camané é maravilhosa, mas há uma honestidade absoluta em cada som que ele imite.

Assim por baixo.

Eu acho que nunca senti no Camané forçar uma nota para mostrar que tem boa voz ou fazer o que acho que pode ser aceitável.

Claro.

Mas eu reservo-me o direito de dizer o que eu gosto mais.

Claro.

Já aconteceu, posso dizer, dezenas de vezes. Normalmente quando ensaiamos, o Camané vai à minha casa, que tem piano, e estamos a ensaiar e já aconteceu em várias situações. Eu digo: "Podes poupar a tua voz, não tens que estar a cantar dessa maneira". Ele não sabe.

Só sabe cantar bem.

Ele só sabe cantar bem. Eu acho que ele está a cantar ali em minha casa, quer dizer, a Francisca, a minha mulher, costuma dizer: "Eu adoro estes ensaios", porque no Coliseu canta igual.

Claro.

Ele canta igual.

É sempre o mesmo.

Eu acho que é mais forte que ele. Essa honestidade vem desde o ADN. Está no ADN.

Está na pele dele.

Muito obrigado, Mário.

Então adeus, Camané. A gente vai continuar aqui a conversar.

Muito obrigado.

Tenho imensa curiosidade de ouvir o Mário Laginha a falar da sua relação com o piano. O piano é o seu maior amigo.

Sim. É fiel.

É fiel, é a pessoa com quem você procura que ele lhe corresponda, ele procura que o Mário lhe corresponda. Deve ser uma relação muito interessante.

Sim, interessante, intensa, próxima.

Tudo isso, ou seja, o piano começou a aprender em casa muito jovem. Mas houve um dia que ouviu o Keith Jarrett e decidiu. Houve uma decisão nessa noite ao ouvi-lo, de ser pianista.

Foi uma epifania, foi mesmo. Porque eu, entre os cinco e os 11, toquei muito, gostava muito de estudar e evoluí com bastante rapidez. Mas aos 11 tive aquela crise normal da adolescência em que se quer mudar tudo, e eu pedi ao meu pai uma guitarra. O meu pai deu-me uma guitarra clássica. E durante os anos seguintes, eu praticamente não toquei piano, era mais guitarra e desporto, fazia muita ginástica. Já aos 17, está na televisão um sujeito a tocar piano, que na altura tinha aquelas cabeleiras assim. E eu lembro-me de pensar assim: "Eu adoro isto, eu não sei sequer que música é esta". Porque aquilo não era bem jazz, já era muito daqueles improvisos dele.

Exato.

E eu pensei: "Mas eu adoro isto". Aliás, a minha forma de começar a estudar, na altura, foi até bastante ingênua, porque o que eu fazia era: "Ok, aquele tipo toca daquela maneira, o que ele estudou para chegar ali? Ele estudou jazz. Então eu vou estudar jazz". E portanto, comecei a ouvir jazz, não de trás pra frente, mas da frente pra trás. Ou seja, comecei por ouvir mais modernos e depois é que me interessei por os mais antigos. Só depois é que eu ouvi, se calhar, o Peterson e depois mais pra trás, até o Scott Joplin dos ragtimes, muito mais pra trás, nesse caso. Mas depois, aquilo foi tão forte que a única coisa que eu queria fazer era estudar piano

E depois o piano, como é que chegamos também ao seu mais que encanto, à sua rendição a alguns grandes compositores? Estou a me lembrar de Chopin e de Bach, que eu sei que gosta muito e até fez um tributo a Chopin. Há uma ligação também forte sua à música dita clássica, não há?

Claro que sim, e ela cresceu no conservatório. Apesar de eu querer estudar jazz e sentir que o que eu queria ser era músico de jazz, decidi que me queria inscrever no conservatório para melhorar um bocado a minha técnica. Só que depois comecei a estudar aqueles compositores e aquilo tudo me fascinava tanto que eu pensei: "Não, eu vou levar isto até o fim". E levei o curso até o fim, à conta disso. E aí, sim, ao estudar Bach, ao estudar Chopin, ao estudar Prokofiev, ao estudar Mozart, Beethoven, é um mundo tão vasto. E eu, como estava virado pra imensas coisas, nem estudei assim tanto destes compositores. Estudei um bocado, mas foi o suficiente pra paixão ficar lá.

É muito engraçada essa frase que você disse agora: "Eu como estava virado pra tantas coisas". É, de facto, talvez o traço que mais nitidamente o define, é a capacidade, a curiosidade e a disponibilidade pra estar virado pra tantas coisas.

Sim, porque há muitas coisas que me fascinam. Às vezes isto leva-me a confrontar dois sentimentos, que são: um é que como adoro, quero experimentar. O outro é a consciência de que uma pessoa não se pode meter em tudo, com perigo de começar a fazer muita coisa mal feita.

Ou levianamente.

Ou levianamente, que eu não quero. E, portanto, o que eu acho é que tento, sempre que abordo uma coisa diferente, não estou a dizer que consigo, mas tento ir o mais fundo que posso e tentar perceber se consigo ser eu a fazer aquilo e, de alguma forma, também a minha personalidade musical interferir um bocadinho que seja. E, por exemplo, falou no Chopin. Eu à altura fui convidado pra fazer um concerto a partir da música de Chopin, mas que me pediram logo que não fosse o original. Ou seja, era eu agarrar na música de Chopin e fazer o-

Exatamente, e recompor, digamos por cima.

Sim, revisitar.

Revisitar, desculpe, é o melhor termo.

E então eu lembro de começar por estar assustado e depois pensei: "Mas eu quero experimentar". Eu acho que isso também é uma das coisas que me define, é que prefiro o risco de que não corra muito bem a não experimentar. Agrada-me a ideia e tento fazer o melhor que posso, claro, mas agrada-me. A ideia de não ter experimentado com medo de falhar, não é pra mim.

Não, pois não. Não.

Mas às vezes é inevitável.

Não, mas é uma grande verdade o que está a dizer, e está a dizê-la com grande verdade. Mais vale o risco de poder não correr muito bem uma vez ou duas vezes, mas experimentei, fui capaz, ousei.

Sim. Eu acho que é uma característica da minha personalidade, que há umas que me orgulho mais que outras. Essa, por acaso, até orgulho que eu acho que é bom, porque acontece até noutros universos sem ser a música. As pessoas parece que rejeitam antes de conhecerem. E eu acho que uma pessoa primeiro deve conhecer pra depois então, já com conhecimento de causa, dizer se gosta ou não.

Claro. Também é assim por baixo, como há bocadinho. Acontece, hoje em dia, ser convidado pra interpretar um concerto da chamada música clássica, por exemplo?

O que acontece mais, e eu tenho feito algumas vezes, mas está sempre de alguma forma ligado ao meu lado do jazz. Eu já toquei várias vezes com orquestras, Rhapsody in Blue. E toco a partitura tal como o Jorge Garcia escreveu.

É maravilhoso.

Eu acho uma inspiração. E eu acho que é uma peça em que o meu lado do jazz dá alguma contribuição.

Então não dá.

Há zonas, não todas, que dá pra dar assim um swing, que eu acho que me é mais natural ou que é fácil, em comparação com outros pianistas, intérpretes clássicos muito mais virtuosos que eu, mas que não têm a prática do jazz. E isso eu acho graça e de vez em quando faço.

E agora, por exemplo, tem alguma encomenda, entre aspas, digamos, para repetir a Rhapsody in Blue?

Agora, neste momento, não. Mas de vez em quando. Eu acho que de vez em quando: "Ei, que tal tocar?" Eu tenho tocado dois concertos pra piano. Um que fui eu que escrevi, eu tenho um concerto pra piano e orquestra. Esse, aliás, vou tocar agora, daqui a dois meses.

Onde?

Em Sintra e em Paris.

Em Sintra, já no Festival de Sintra, talvez, não?

Não, acho que não é. Acho que ainda não é no Festival de Sintra.Curiosamente, eu até fui sondado para a hipótese de o tocar no Festival de Sintra, pelo Martim.

Martim Sousa Tavares, que é o diretor. É um belíssimo festival.

Sim, belíssimo. Eu tive que dizer-

Que não tinha data.

Não, data tinha, mas se eu vou a Sintra tocar umas semanas antes, eu acho que tem que se ter esse cuidado.

Não, e tem que ser sério como você está a ser. Mário, e em Paris o mesmo.

Sim, é com uma orquestra portuguesa, que eu sei que é o Osvaldo Ferreira o maestro. Eu acho que é sediada em São João da Madeira. Não sei. Mas é uma ótima orquestra, é uma orquestra que só se junta de vez em quando, com músicos que pertencem a outras orquestras, mas são músicos muito bons e a orquestra soa muito bem.

E vai tocar a Paris.

E vamos tocar uma mistura de arranjos de orquestra que eu fiz para alguns fados para o Camané. E o meu concerto para piano e orquestra.

Aliás, vem agora da Dinamarca, onde esteve em Copenhague. E o Mário é muitas vezes convidado a compor, já sabemos. Cá dentro, estou-me a lembrar da Orquestra Metropolitana, da Sinfônica do Porto, Remix Ensemble, e lá fora, estou-me a lembrar, e estamos quase a chegar à Dinamarca, da Big Band da Rádio Hamburgo, da Rádio de Frankfurt, da Orquestra Filarmônica de Hanover, e agora regressou da Dinamarca, do mesmo modelo.

Sim. Na realidade, não é só o mesmo modelo, é o mesmo repertório que a Big Band de Frankfurt tinha encomendado pra eu fazer. A cantora é a Cristina Branco, e era pra fazer uns arranjos pra big band, pra acompanhar um repertório que vai do fado à música polar portuguesa. E por acaso me deu um gozo incrível escrever. Eu acho que esta big band de Copenhaga ouviu esse concerto e acho que foi uma coisa do tipo: "Nós também queremos".

Mas eu também queria. Não vem a Lisboa ou Portugal?

Eu espero que sim. Nós aqui há uns anos tocamos esse repertório com a Big Band do Hot, com o Pedro Moreira a dirigir.

Mas com a Cristina Branco deviam fazer esse espetáculo.

Com a Cristina Branco a cantar. E comigo, esse repertório, esse concerto.

E não há um disco?

Não há um disco. Pode ser que um dia haja.

Pode ser que um dia haja e pode ser, sobretudo, que haja um desse concerto, porque deve ser muito interessante. Esse arco que disse, de música.

Eu acho que funciona muito bem. Eu sempre que vou por esses sítios, que têm uma prática enorme de repertório diversificado e às vezes coisas pelos maiores compositores pra big band, eu fico sempre um pouquinho assustado, confesso. Mas a verdade é que gostaram, correu bem. Você quando começa a ensaiar e vê que os músicos estão com sorrisos na cara, quer dizer que está tudo a correr bem. É o chamado "so far so good". Porque senão, se há caras que não escondem, são as das orquestras.

Que interessante. Lê-se no rosto.

Lê-se no rosto. Eu não acho mal.

Não, não é mau. É o quê? Não sinalizam. Alguma coisa os faz sinalizar através do rosto.

Começamos a ensaiar, isto foi semana passada, eu comecei a ver sorrisos, eu falei: "Ok, isto vai correr bem".

Nunca tinha tocado em Copenhague?

Já tinha tocado, mas com a Maria João em duo e talvez em trio ou em quarteto, em Copenhague. Já há bastante tempo.

Ainda bem que falou na Maria João, porque eu ia lhe fazer uma pergunta sobre a voz humana, que é o mais formidável dos instrumentos, e o Mário sabe melhor que ninguém. Há alturas em que a voz humana lhe seja indispensável na música que está a fazer?

Eu não sei se utilizaria o termo indispensável, mas o que eu acho é que há coisas que são absolutamente especiais e que não são substituíveis. E portanto, se eu fizer um tema instrumental, é uma coisa que me dá imenso prazer e há muitas variantes. Pode ser um quarteto de cordas, pode ser um quarteto de jazz, pode ser trio, duo, etc. A voz humana é uma outra coisa, até porque pode ter, não tem que ter, como a Maria João nem sempre tinha, mas pode ter texto. De repente, vem a palavra, e o sentido da palavra, e aquilo que se diz. E isso foi uma coisa que me obrigou a pensar de uma forma diferente, porque eu durante muitos anos, e aqui me confesso, e me penitencio de que eu não ligava nenhuma às letras. Nada. A minha obsessão era tão grande em relação ao "deixa ver as melodias, as harmonias, o ritmo", e ficava ali obcecado, a olhar pra aquilo. E a letra era uma coisa que me passava ao lado. Reparava na voz e a letra passava-me ao lado.

E agora não.

Não, felizmente que não. A pessoa está sempre a tempo de perceber. E de repente, foi uma coisa meio infantil, quase, que era: "Olha aquela música que eu gostava tanto, reparei que tem um poema maravilhoso e que conta uma história que é incrível". E eu acho que também me fez crescer nesse sentido.

Um minuto. O que é que pede ainda, se é possível, pedir mais à vida?

Peço que continue.

Muito bem. Mário Laginha, gostei tanto, é caso pra dizer que é mais do que, mais é difícil, melhor é difícil. É muito difícil ser melhor do que esta conversa que teve aqui comigo e na qual o Camané também participou. Muito obrigada por ter vindo.

Muito obrigado pelo convite.