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"Melhor é Difícil" é um podcast em que Maria João Avelãs entrevista portugueses que são exemplos de excelência, que são os melhores nas suas áreas e contam como chegaram ao topo.

Sandra Tavares podia ter continuado no desporto, o voleibol, do qual foi profissional. Podia pertencer ainda ao universo da moda, foi modelo. Podia estar em qualquer outro lado, mas ela mora nas vinhas, nas do Douro e nas da região de Lisboa, em Alenquer, já que é enóloga de ambas. Ninguém tem mais curiosidade do que eu em ouvir esta história. Uma história de excelência, claro. O vinho no feminino. Sandra, bem-vinda. E vou já começar por isto: tem algum sentido, peço desculpa se não tiver, falar do vinho no feminino? Sabe por que eu digo isto? É porque pra mim é muito interessante pensar num vinho idealizado e produzido por uma mulher. Pode haver, talvez não haja, alguma diferença no resultado final de uma garrafa de vinho.

Muito obrigada, Maria João. É um prazer enorme estar aqui e ser uma das convidadas do seu podcast. Fico mesmo honrada e feliz.

Ai, pelo amor de Deus. Vamos lá.

Eu acho que o vinho feminino é um bocadinho difícil de dizer, porque eu acho que, no fundo, é a forma como nós interpretamos a terra. E eu acho que nós, sendo mulheres, muitas vezes nos preocupamos com muitos detalhes e pormenores.

Exatamente.

Exatamente. Por isso, acho que existe esse nível de detalhe que se pode perceber nos vinhos feitos por mulheres.

Olhar, portanto, pra terra com mais detalhe, mais atenção, mais curiosidade.

Exatamente.

É isso?

Sim. Porque acho que temos muitas sensibilidades que muitas vezes os homens não têm. Não é que sejam melhores ou piores.

Não, não estamos aqui a estabelecer comparações, mas a falar das diferenças.

Eu acho que quando olho pra uma vinha ou quando estou a provar um vinho, e é engraçado, porque eu trabalho com o Jorge, com o meu marido.

Com o seu marido.

E é muito giro ver a forma diferente como nós interpretamos não só a vinha, mas os vinhos.

Claro, e a forma como reagem.

Exatamente, sim.

E por vezes ironizam ou sorriem com o fato de reagirem de forma diferente.

De forma diferente. E já nos conhecemos muito bem, portanto, conseguimos perceber exatamente o que estamos à procura.

E quem é que ganha normalmente na reação que acaba por ser a escolhida?

Eu acho que não é um que ganhe. Uma coisa muito engraçada, e trabalhando juntos ou trabalhando em equipe, eu acho que é muito importante estar muito bem definido qual é o nosso propósito, qual é o nosso foco ou o nosso objetivo pra cada vinho ou pra cada produto que estamos a fazer ou idealizar. E isso é feito em conjunto, é partilhado pelos dois e pelo resto da equipe, até conseguirmos chegar ao produto final. Depois é mais fácil trabalharmos juntos, porque sabemos que mesmo tendo opiniões diferentes, muitas vezes.

Mas estão a fazer o mesmo.

Exatamente. Se vamos para ali, temos que os dois ir naquele caminho.

Mas, por exemplo, no todo de um processo do fazer de um vinho, que é uma coisa longa, pode acontecer que, como a mulher é muito mais intuitiva, arrisca mais, é capaz de gerir melhor uma simultaneidade de tarefas, de solicitações. Era também por isso que eu perguntava se podia haver uma diferença e ser valorizada.

E é.

A intuição é costuma ser valorizada.

É engraçado que quando estamos a provar ou quando estamos a falar dos vinhos e estamos a idealizar, quando trabalho com o Jorge, realmente ele louva-me imenso e ajuda-me a realmente dar continuidade às minhas intuições e às minhas ideias.

E o que é que acontece quando há um desacordo franco sobre o produto ou sobre alguma etapa do processo do fazer o vinho? Têm acontecido discordâncias, não diria radicais.

Assim radicais, não, mas determinados pormenores, sim. Isso é giro, porque eu acho que o Jorge ganha, mas o Jorge diz sempre que não, que sou eu que ganho nas decisões finais. Por isso, acho que depende de muito. Acho que somos os dois, ou mesmo quando trabalho em Chocapalha e trabalho com o Miguel, que é o enólogo que trabalha comigo lá.

Chocapalha, estamos a falar da região marcada de Lisboa e de Alenquer, a quinta da sua família. Já lá irei, mas diga.

Mas tanto nas duas quintas e nos dois projetos, acho que tem essa facilidade de sermos muito francos e muito frontais e conseguimos perfeitamente perceber qual é que tem mais razão ou qual é que será a melhor opção.

A melhor opção.

Não há litígio.

Sim, não há litígio, não há conflito.

Não, o todo, o objetivo é o mesmo.

E quando falou do Miguel, e na quinta do Chocapalha e no vinho Chocapalha, é o enólogo de lá que se chama Miguel.

Miguel Cavaco.

Miguel Cavaco, que é enólogo de lá e não tem nada a ver.

Não, não tem nada a ver com o projeto do Douro.

Com o Douro, onde a Sandra Tavares vive com seu marido e com os seus três filhos. Pelo menos já louvei a intuição e a capacidade de risco e de gerir simultâneas da mulher. Já posso seguir em frente. Já louvei com a sua colaboração, claro. Olhe, a escolha do curso de Agronomia, que fez no Instituto Superior de Agronomia, era já um sinal ou podia ser já um sinal do que viria a ser a sua vida ou não havia vinho nem vinhas no horizonte?

Não, já havia. É engraçado que eu desde muito pequenina, e isto tem a ver com a minhas vivências e tive a sorte, meus pais sempre gostaram de campo e o meu pai ficou responsável de uma quinta de família em conjunto com um tio meu, meu tio Manel. Uma quinta que era do meu avô, na zona de Alcochete. E então, meu pai sendo oficial da Marinha, mas todos os fim de semanas nós íamos Passar fim de semanas em Alcochete, na Quinta da Coutadinha.

Estavam na terra.

Estávamos na terra. A minha infância, e das minhas irmãs e das minhas primas, foi sempre passada nessa quinta e tenho memórias incríveis. E desde aí o bichinho da terra foi ganhando forma.

Daí a agronomia.

Exatamente. É engraçado que eu desde muito pequena dizia que queria ser agricultora, queria estar com as mãos na terra e estava sempre a mexer, a plantar coisas e a semear. Depois foi crescendo, mas de uma forma muito natural. Depois os meus pais decidiram comprar a Quinta de Chocapalha, isto nos anos 80, e aí a cultura maior, predominante, era a vinha. Mas eu decidi enveredar por agronomia e pela área de fitotecnia, portanto, o mais geral possível, que era muito abrangente, porque eu gostava de todas as áreas, também a área florestal, a área de horticultura, a área de fruticultura. E a vinha foi crescendo com a idade e claro, com a influência da Chocapalha na nossa vida. E depois só mais tarde é que fui tirar enologia.

E depois até houve uma passagem por uma cidade italiana.

Exatamente.

Mas também já lá vou. Antes disso, antes de pormos os pés na terra e as mãos nas vinhas, eu queria saber onde é que entra na sua vida a moda, que entrou muito, as passagens de modelos, a beleza, os produtos de beleza ou os modelos, os toureiros, os designers, e onde é que entra o voleibol como profissional. Conte-nos já um bocadinho desta história, antes de eu perguntar por que é que veio a ganhar a enologia.

Sim. Eu acho que é engraçado que eu, sendo muito alta, e isso é uma característica.

Para o voleibol é fantástico chegar àquela rede.

Exatamente. Na minha família somos todos muito altos e eu sou uma das mais altas da família. E na altura, quando era miúda, sofria bastante.

Claro, havia uns complexos.

Foi horrível. E então acho que sempre procurei áreas que me pudesse incluir bem.

Claro. Não destoar.

Não destoar, exatamente. E acho que o vôlei foi uma procura minha, de querer fazer um desporto de equipa, porque precisava de me integrar num grupo e me sentir bem e crescer. E o vôlei realmente acho que é um desporto muito giro e muito bom.

É fantástico.

E tive a sorte de jogar e depois de ir para a seleção nacional e passei muito bons anos.

Quantos anos foram?

Foram cerca de 13 anos. Eu comecei muito nova a jogar vôlei.

Com que idade?

Com cerca de 10.

Dez? Bravo.

10 ou 11. Eu acho que tinha quase 11 anos quando comecei a jogar vôlei e depois fui continuando. E depois, quando estava na faculdade, tive que desistir, porque não conseguia conciliar tudo, mas já jogava só mais-

Mas era profissional. Era uma honra.

Adorava. Acho que foi ótimo. E vejo hoje em dia quão importante foi o desporto na minha formação.

A disciplina, o cumprir, a ambição.

Tudo, e a resiliência que se ganha e o perder, eu acho que é muito importante nós sabermos perder.

Saber perder como sabe ganhar.

Exatamente, e conseguir dar a volta e estar bem para o próximo jogo e para a próxima etapa, isso acho que é fundamental.

Mas agora falta a moda.

Sim. Isso é giro, a minha mãe diz que eu desde muito pequenina era sempre muito chata e picuinhas com a roupa.

Dantes, você não é de toda esta geração, evidentemente, mas dantes dizia-se uma tuleirona. Era quando se era um bocadinho vaidoso.

Sim, era e sempre fui. E a minha mãe dizia que eu das três era a mais-

São três irmãs.

São três irmãs. Sim, que eu queria sempre tudo a combinar e isso tudo, desde muito nova. E sempre tive o fascínio da moda. Também achei que era uma forma de também aproveitar a minha altura e fui à procura de cursos de moda e de agências.

Em Lisboa.

Em Lisboa, sim. Isto na altura, nos finais dos anos 80, a moda não era como hoje em dia.

Não, com certeza.

E não era tão fácil perceber como lá chegar. Portanto, foi difícil, os meus pais no início não acharam muita graça eu ir para a moda, mas eu gostava imenso e acho que foi também uma etapa muito importante para mim. Para além de ter conhecido pessoas incríveis, eu acho que me deu uma abertura de mundo incrível.

E tão interessante num universo tão distinto do desporto. Isso é que é muito interessante.

É, e há uma ligação tão grande com a arte.

Com o design, com a beleza.

Design e de criação, que eu acho que tudo faz sentido depois para o meu trabalho de hoje em dia. Saber estar, saber apresentar.

Pode não ser tão distinto assim.

Exatamente.

A criatividade está ao serviço de uma coisa e na outra coisa está ao serviço de outra, mas pode-se falar de criatividade. E foi manequim de primeira, chamada modelo de primeira, portanto, fez muitos desfiles.

Sim, fiz imensos desfiles, tive muita sorte.

Aqui e no estrangeiro?

Sim, cá em Portugal, na maior parte. E também fiz alguns desfiles em Paris, em Milão e também em Nova Iorque, mas muito pouco, porque como eu estava a estudar e isso era um ponto muito assente.

Era um pouco um travão ou uma dificuldade.

Exatamente. Eu não queria largar uma época de exames e ir trabalhar. Ainda por cima a época de exames calhava sempre na altura das passagens e das apresentações das coleções. Mas foi uma decisão minha, eu queria terminar o curso, sabia que a moda ia ser uma fase passageira e efémera, que iria terminar, portanto, não apostei 100% na moda internacional.

E guardou alguma recordação? Carinho especial ou admiração por algum designer português?

Sim, por exemplo, quem sempre tive muita ligação e que me apadrinhou muito foi o José Carlos.

Sim, o José Carlos, lembro-me bem dele.

Sempre foi dos primeiros designers que eu desfilei, foi sempre um querido, muito atencioso e era muito amigo.

Genuíno.

E genuíno, sim. Depois também o José António Tenente, foi também de quem desfilei muito. Paulo Matos, os Manéis.

E vê alguém dessas pessoas hoje em dia?

Infelizmente não.

Menos, por causa do tempo e da geografia, não é?

Sim, mas continuo a acompanhar, continuo a mandar mensagens, mas muito pouco. Estou muito desligada, até porque não estou fisicamente muito em Lisboa ou quando vou é sempre a correr.

Não tem tempo, como hoje, que chega aqui ao Alvalade e vai apanhar um avião já para Londres para uma apresentação do seu vinho do Porto. Olhe, agora vamos assentar no Douro, mais concretamente começando pelo Vale do Pinhão, e vamos apear no ano de 1999 e na grande aventura que aí começaria no fim dessa década, não foi? Em 99.

Exatamente, foi.

Não só encontrou o amor da sua vida, como casou, e um tempo depois nasceu o Pintas. Não um bebê que viria a seguir, mas um vinho quase profético, porque o Pintas anunciava o que de novo uma nova geração estava a fazer no Douro. Não posso, acho eu, ter despertado mais curiosidade em quem nos está a ver ou ouvir do que dizer que nasceu um Pintas que ia mudar o olhar que se tinha até aí sobre o Douro e aquilo que se podia vir a alterar para melhor.

Sim, obrigada por esta descrição, até fico super lisonjeada. Mas eu acho que 99 foi realmente um ano muito marcante para mim e para o Jorge e também para uma geração de enólogos. É engraçado que muitos projetos começaram nesse ano. E realmente foi muito bom, porque acho que uma das razões para o Douro estar onde está foi exatamente essa geração que começou nessa altura com ideias muito diferentes e com uma vontade enorme de criar vinhos diferenciadores do Douro. No nosso caso, eu e o Jorge tínhamos uma vontade enorme de criar vinhos com muito sentido de terroir, de sentido de local, e daí que escolhemos uma vinha muito velha no Vale do Pinhão, porque acreditávamos que é um dos locais mais carismáticos do Douro para produção de vintages e também queríamos mostrar que era possível fazer um grande vinho do Douro numa dessas vinhas. E foi assim que criou-se o Pintas, mas com uma visão, após viajar bastante e visitar muitas regiões reconhecidas na Europa e não só na Europa.

E quando é o não só na Europa, era o quê?

Estados Unidos. Fazia mais Estados Unidos, Califórnia. Queríamos colocar o Douro no mapa e Portugal no mapa e achámos que o que mais temos de diferenciador no Douro são as vinhas velhas que temos não só no Douro, mas temos em Portugal, mas no Douro temos muita quantidade de vinhas velhas incríveis.

Eu sei que foi a sua grande aposta. Tenho aqui uma pergunta para daqui a um bocadinho sobre isso. Mas diga. Eu acho interessante que já falou duas ou três vezes nas vinhas velhas e eu percebo que foram um grande motor, se quiser, ou um grande ponto de partida.

Foi, porque são únicas. Não existe outro local do mundo em que tenhamos tanta diversidade e com material genético tão incrível e tão único como em Portugal e nomeadamente no Douro. No Douro, estas vinhas velhas têm 40, 50 castas diferentes e cada parcela tem um blend diferente, portanto consegue-se criar vinhos, eu digo sempre, na sua essência de terroir, portanto, são mesmo vinhos que expressam bem aquela parcela. E a nossa vontade foi criar um vinho de uma parcela única, que são vinhas hoje em dia com 95 anos, na altura tinham 70. Porque fazemos 25 anos este ano do projeto da Wine and Soul. E a vinha é uma vinha incrível, com mais de 40 castas misturadas, virada a poente, mas com altitude, por isso conseguimos criar um bom equilíbrio de fruta, mas com frescura. E acho que foi uma aposta. Foi, no fundo, a nossa sensibilidade que nos encaminhou para aquela vinha.

E a sua intuição também.

Também, mas também do Jorge.

Não, com certeza, não estou aqui a valorizar um em detrimento do outro. É evidente que tudo o que vocês fizeram resulta da vontade e do conhecimento dos dois.

É engraçado porque quando começámos este projeto, nós fomos escrevendo assim num papel. Foi muito giro, porque depois das várias viagens que fizemos por várias regiões e provar vários vinhos, nós fomos escrevendo o que é que queríamos que o nosso vinho tivesse ou como é que ele fosse. E fomos escrevendo, e depois andámos à procura no Douro onde encontraríamos essa vinha para comprar as uvas nessa altura.

Vou lhe pedir para fazermos aqui um minúsculo intervalo. Esperem por nós, voltamos já a seguir. O Pintas foi também a porta de entrada para a empresa que vocês vieram a criar, a Wine and Soul, em 2001.

Exatamente.

Foi o Pintas que foi o portão que se abriu e tornou possível a entrada de uma empresa em trabalho mais sólido, mais estruturado.

Fomos crescendo com o Pintas. O Pintas foi o primeiro vinho que produzimos juntos e depois a partir do Pintas fomos comprando outras vinhas e criando outros vinhos e criando o nosso portfólio e criando a Wine and Soul.

Sim. E a Manuela é do Choca Palha ou é da Wine and Soul?

É do Douro.

É do Douro e o Guru também. Eu lembro-me destes três.

Engraçado. Nós começamos a fazer o Pintas, depois quisemos fazer um branco muito clássico, com muita identidade e mineralidade e fomos para as zonas mais altas do Douro, com mais frescura, e criamos o Guru. E mais tarde, em 2005, criamos o Pintas Character, que são várias vinhas velhas que compramos em Vale Mendiz, na aldeia de Vale Mendiz. E em 2009 conseguimos concretizar um sonho nosso de comprar uma quinta, que era de família do Jorge, que é a Quinta da Manuela, que é uma quinta incrível.

Exatamente, que deu o vinho Manuela.

Que dá os vinhos Manuela.

Sandra, acabou o curso de Agronomia, com certeza que estava industriada e com conhecimentos, mas não o suficiente, talvez, para a dimensão, a ambição e o tamanho do projeto ao qual iria entregar a sua vida profissional. Como é que aprendia enquanto fazia, lia, falava com pessoas que sabiam mais do que a Sandra? Como é que foi o tornar-se naquilo em que se tornou hoje, que é uma enóloga indiscutível e cheia de prêmios?

Obrigada. Acho que foi tudo um processo muito natural. Acho que foi sempre a curiosidade e vontade da procura de melhorar. Portanto, é estudar quando podia e o mais possível, mas tenho que agradecer aos meus amigos e colegas, enólogos ou viticultores, porque aprendemos todos os dias com todas as pessoas.

Eu acho que sabe todos os dias, percebe muito bem o que está a dizer.

Desde falar com o lavrador mais simples, ao enólogo que eu mais admiro ou jornalista que sabe e que comenta os nossos vinhos, estamos sempre a aprender. Mas sim, esta busca incessante tem que ser contínua, tem que ser para toda a vida.

E é contínua.

E é contínua, para toda a vida.

Agora, estamos a falar do Douro, de Vale Mendiz, da quinta onde trabalha e vive, mas eu queria lembrar o seguinte: também há os vinhedos de Alenquer, a tal região demarcada de Lisboa, que são as vinhas que estão na Quinta da Choca Palha, que a Sandra já nos contou que tinha sido comprada pelos seus pais. E onde a Sandra já tem hoje uma fortíssima assinatura. O que eu queria saber, eu e quem nos está a ouvir, com certeza, como é que é oficiar, trabalhar, olhar, lidar com castas forçosamente tão diferentes, de zonas geográficas tão distintas como Douro e Lisboa? O que é que isto implica? Tem que se ter em atenção o quê? Quando a Sandra chega a Alenquer, o que é que acontece? Ou quando olha as suas vinhas do Douro, o que é que acontece? Não é a mesma coisa.

Não, é totalmente diferente.

Exatamente. De comum só há as vinhas.

Exatamente, mas eu acho que isso é a magia do vinho.

Claro, é evidente.

E como enólogos temos que conseguir interpretar as regiões diferentes e os terroirs diferentes, as terras, o clima e as castas. E isso acho que é o mais fascinante do nosso trabalho. No fundo, criar vinhos muito diferenciadores.

Impor pela diferença.

Exatamente.

E a qualidade.

Isso é o que nos dá mais prazer, é conseguir perceber. Basta cheirar e este vinho é de Choca Palha ou basta cheirar e este vinho é do Douro. Mas isso é pegar na matéria-prima, está tudo na uva. E a intervenção mínima na adega.

A intervenção mínima na adega. Explica lá.

Sim, porque todo o nosso trabalho é muito conhecer a vinha, as vinhas e trabalhar as vinhas de forma, na viticultura, conseguir ter uvas perfeitas ou uvas em muito boas condições para que na adega sejam umas fermentações simples e depois estágios. Portanto, não há grande intervenção. E de forma que os vinhos sejam claros e transparentes de onde vêm. Isso é como nós gostamos de trabalhar, esse é o objetivo. E Choca Palha tem este perfil tão diferente do Douro, porque é uma região completamente diferente. Temos muita influência atlântica, estamos muito próximos do oceano, o que lhe dá realmente um microclima incrível, com muita frescura, com muito boas amplitudes térmicas, que no Douro temos devido à altitude, em Lisboa temos devido à proximidade do mar. Por isso conseguimos criar vinhos com muito boa acidez, com muita mineralidade e salinidade.

Salinidade.

Então nos brancos acho que é incrível, são vinhos super gastronômicos e muito frescos de sabor.

E como é que se organiza? Vive no Douro, trabalha mais no Douro, mas tem também o Choca Palha e a quinta na sua responsabilidade com o Miguel.

Sim, Miguel Cavaco. Tenho uma equipe muito boa em Chocapalha, nomeadamente trabalho com os meus pais. Meus pais são os mentores e os guardiões da quinta.

Estão os dois ativos no Chocapalha.

Graças a Deus. Minha mãe mais no enoturismo, meu pai na viticultura. Tenho a minha irmã que é incrível.

É enóloga?

Não é enóloga, é economista, mas que há mais de 15 anos que mudou radicalmente de vida. Ela era financeira e trabalhava em um grupo muito grande financeiro e mudou-se de bagagens para Chocapalha, sem perceber nada do negócio.

E hoje percebe tudo.

Percebe tudo e é engraçado como no início ela questionava-me tudo, porque é muito financeira, eu sou mais criativa. E é engraçado que hoje em dia ela que tem uma visão de estratégia, mas também do negócio.

Mas é muito interessante que é uma empresa completamente familiar.

Exatamente.

É o exemplo de uma empresa familiar que conseguiu, que se impôs.

Sim, é muito familiar e toda a equipe é muito familiar, porque temos pessoas que trabalham na nossa equipe há 40 anos, há 30 anos. O Miguel trabalha conosco já há mais de 15 anos também. É muito bom ter esta equipe.

Esse background atrás, essa equipe.

Claro que sim.

A Sandra já falou das vinhas velhas. Eu volto a elas por causa do tal vinho no feminino, que é uma ideia que eu acho que é engraçado. Eu falava há pouco da intuição e acho que foi também ela que a levou olhar para as vinhas de outra maneira. Mas foi sobretudo a Sandra, já como enóloga, ter percebido que havia ali um valor ou um potencial, talvez ainda não totalmente descoberto nesses vinhedos, a possibilidade de uma reinvenção ou uma reencarnação dessas uvas, dessas vinhas.

Eu acho que sim, eu tive sempre um fascínio muito grande de vinhas velhas, isto tem uma explicação.

Pois eu ia perguntar.

Porque eu ao estudar agronomia, eu depois especializei-me em viticultura e no meu estágio de final de curso de viticultura na agronomia, fiz um estudo sobre clones e sobre algumas castas. E estava muito focada em perceber as diferenças dos vários clones e quais as características de cada um dos clones. E quando cheguei ao Douro, eu nunca tinha visto vinhas velhas com tanta diversidade de castas e de clones em cada uma. Como no Douro eu nunca tinha visto. E tinha passado por várias regiões.

Foi um impacto.

Foi um impacto e sempre pensei que isto é um museu vivo, isto não existe e tem que ser preservado. Graças a Deus foram preservadas na altura, e estamos a falar nos anos 90, finais dos anos 90, foi quando eu cheguei a primeira vez ao Douro. Penso que foram muito porque é muita minifundios, portanto havia muitos lavradores muito pequeninos que mantinham estas vinhas ao longo das gerações e também pelo atraso relativamente a outras regiões em que fizeram grandes recuperações de vinhas. Portanto, tínhamos este património todo ali em bruto. No fundo, era um diamante em bruto e era preciso pegar nele, achei eu, antes que se fosse perdendo. E está-se a perder muita coisa. Por isso, sempre disse aos Jorge: "Não, vamos fazer vinhos de vinhas velhas". E acho que isso foi uma coisa que nos diferenciou daquela primeira geração que começou a explorar o Douro em vinhos de topo do Douro. Porque achamos que não há melhor que as vinhas velhas em termos de blend, porque o blend já está feito na própria vinha.

Na própria vinha, claro.

E esta interação das plantas na vinha é incrível. Tanto conseguimos ter uma harmonia e um equilíbrio e complexidade que é muito difícil replicar nós humanos a posteriori. Acho eu, mas esta é a minha forma de estar.

Mas o que eu quero é ouvir a sua opinião.

E também o que me fascina nas vinhas velhas, claro que é também o sistema radicular, são vinhas muito resilientes, vinhas muito bem adaptadas tanto ao clima como também aos solos, que são muito pobres no caso do Douro. Portanto, conseguimos ter uma consistência de qualidade, isso tem se visto ao longo destes anos todos, não só nós, mas outros produtores que trabalham com vinhas velhas, que são vinhas com uma consistência e um perfil sempre muito constantes e que são muito leais.

São leais, exatamente. Não os deixam ficar mal, não criam armadilhas.

Exatamente.

Olhe, um dia eu a ouvi dizer: "Nós viemos para quebrar regras". Eu queria saber quais é que deviam ser quebradas e substituídas por que outras.

Eu acho que nós tentamos desmistificar um bocadinho o mundo dos vinhos, que na altura era muito, ainda é um pouco, já está muito diferente com esta geração que agora está a aparecer.

Que idade é que a Sandra tem?

54. Acho que é ótimo, porque tem que se desmistificar o vinho e cada vez mais torná-lo mais próximo das pessoas. Lembro-me quando comecei a trabalhar, era tudo muito snobe, muito sério.

Sim, claro.

Era tudo muito distante. As pessoas tinham medo de falar de vinho.

Postulavam.

Até eu. Porque era tudo com um palavreado tão difícil, os descritores dos vinhos, era tudo muito complicado. E no fundo, o vinho, pra mim, é uma missão.

Um pouquinho pretensioso, talvez, até.

Pretensioso também. E distante das pessoas.

Distante, sim, claro.

E eu acho que o vinho é um produto de convívio. Claro que depois há vários níveis de conhecimento, mas o objetivo máximo do vinho acho eu, é social, é de aproximar pessoas.

Claro. Tem um lado festivo.

Completamente.

E que tem que ser aproveitado e celebrado. Exatamente.

Não acho que há um produto tão nobre como o vinho do ponto de vista social, que muitas vezes as pessoas esquecem. Portanto, claro que é uma bebida, mas no fundo, acho que é um produto que une as pessoas. E eu acho que cada vez mais hoje em dia precisamos de produtos que unam as pessoas e façam-nos desligar das redes sociais ou da televisão e das tragédias todas que existem.

Aliás, há poucas coisas tão boas como uma boa conversa com um bom vinho.

Com vinho, acho que sim.

Há muito poucas tão boas como esta, exatamente.

Por isso nós queríamos criar, não era quebrar regras do ponto de vista de aproximar e desmistificar um pouco.

A gravidade e a seriedade.

Exatamente. Daí o nome Pintas, foi um bocadinho por isso.

Claro.

Que nós não tínhamos marca, nós fizemos o vinho em 2001, depois não tínhamos marca, não tínhamos vinhas na altura e então queríamos criar um vinho que fosse fácil as pessoas memorizarem. E depois olhamos pro nosso cão, que se chamava Pintas, era um Pointer, e dissemos: "Porque não Pintas?" Porque ele era delicioso, ele andava sempre conosco, fazia-nos imensa companhia e adorava estar na vinha. Mas fomos super criticados por dizerem: "Não, isto não é um nome sério pra um vinho sério". Mas por que tem que ser sério? Eu acho que o mais importante é ter um significado pra nós e nós acreditarmos nesse vinho.

E qualidade, claro.

E qualidade, e depois a partir daí.

Olhe, diga-me, como é o dia a dia de uma enóloga? É sempre diferente ou consegue encontrar alguma amparadora disciplina ou rotina, apesar de ter duas frentes de batalha no Douro e em Alenquer?

É difícil, eu acho que não tenho rotinas. Isso acho que é bom e mau.

As rotinas às vezes têm um lado bom.

Sim, exatamente.

São disciplinadoras.

Exatamente. Infelizmente, na nossa vida, eu acho que são tantas frentes que temos que amparar e muitas vezes são alteradas de um dia pro outro e, portanto, é muito difícil ter uma rotina muito certa. Há coisas, como é óbvio, acompanhar os nossos filhos ou levá-los à escola quando podemos, isso é a rotina máxima.

Claro, evidente.

E depois a partir daí o dia é um bocadinho... muitas vezes eu e o Jorge dividimos um pra cada lado pra conseguir ir a todas as frentes, porque pra além de produzir o vinho e acompanhar as vinhas, a parte comercial é muito importante e nós temos que viajar bastante. E esse acompanhamento ao mercado tira muito tempo e muitas viagens.

Mas é a outra metade, digamos, ou é a outra face da moeda, porque o vinho tem que ser dado a beber, dado a conhecer, comprado, etc.

E é uma fase muito difícil e desafiadora, mas por isso também acho que a nossa profissão, e acho que somos uns sortudos.

Sortudos é bom, sim.

Somos sortudos.

Não, por trabalharam muito, pode dizer, sim.

E por fazermos o que adoramos, mais isso. Mas é uma profissão dura. Eu acho que é engraçado que as pessoas têm uma ideia do enólogo ser só provar vinhos.

Uma pessoa vaia ligeira.

Mas não, nós temos que estar com a mão na massa, portanto é um trabalho duro fisicamente, requer esforço físico.

Está muitas vezes na terra.

Na terra, na adega. E depois, pra além disso, são muitas horas de trabalho, não só na vindima. Normalmente as pessoas acham que os enólogos só trabalham na vindima. Não é só na vindima. Requer, pra além das viagens, que são muitas horas passadas nos aeroportos, sozinhos.

E em hotéis sozinhos, sim, claro.

Que não é fácil muitas vezes.

E a lidar com concorrências fortes, exatamente.

Sim, com pressão. Pressão, porque temos que vender e temos que posicionar e temos ambição pra colocar o vinho naquele sítio e com objetivos muito específicos. Por isso, muitas vezes as pessoas veem a profissão de enólogo muito glamourosa, e isso é engraçado, que eu muitas vezes faço comparação com a moda, que as pessoas têm ideia também que a moda é super glamourosa, mas não é. Tem um lado super duro.

Os bastidores da moda são duríssimos.

São duríssimos. E as pessoas só veem, e é como no vinho, também só veem a parte glamourosa, que é as provas, são jantares, são os eventos.

As fotografias nos jornais, claro.

Mas por trás é como na moda, exatamente. Ou outras profissões.

Exatamente, claro, é uma boa comparação.

Sim.

Ó Sandra, e depois a parte doméstica dos seus filhos, claro que agora já são grandes, os mais novos são gêmeos, têm 15 anos, portanto não necessitam tão prementemente de uma mãe ou de um pai em casa ou numa grande proximidade. Mas não foi muito fácil Para trás. Não deve ter sido fácil essa conciliação. Por isso é que eu digo que a mulher gere bem a simultaneidade das solicitações.

Isso é engraçado, que nós realmente somos multitasking. Às vezes o Jorge diz: "Como é que consegues fazer tanta coisa ao mesmo tempo?" Que eu estou a pensar sempre em milhares de coisas.

As mulheres conseguem.

E quando tínhamos os bebês pequeninos era realmente difícil, mas graças a Deus correu bem. Claro que com muitas ausências e eu às vezes sinto-me mal.

Mas está tudo bem. Tenho um minuto para lhe perguntar se com tantos prêmios, foi eleita empresária do ano em 2025, escolhida entre as 50 melhores do mundo, mencionada no Financial Times, etc. Muitos prêmios. Sente-se, nada lhe subiu à cabeça, eu sei, e os seus amigos sabem e as pessoas que a conhecem, mas é uma pessoa realizada. Chegou, fez, trabalhou, conseguiu. Olha para si assim?

Claro que sim, mas eu vejo estes prêmios, claro, fico superfeliz. É um reconhecimento de todo o trabalho que fiz. Sinto-me realizada, mas ainda quero fazer muito mais, como é óbvio.

E vai nascer um novo vinho, como se fosse um novo bebê.

Sim, temos uns projetos, sim, irão nascer outras coisas.

Em cima ou embaixo? No Douro, Atlântico ou...?

Nas duas quintas.

Nas duas quintas. Muito bem. Sandra Tavares, gostei imenso de falar com uma enóloga, gosto muito de vinho. Havia imensas curiosidades que eu tinha, ficaram aqui todas bem satisfeitas e acho que quem nos viu e ouviu também. Agradeço-lhe muito, entre o Douro e Londres, ter parado aqui em Alvalade. Muito obrigada.

Obrigada, foi um prazer enorme. Obrigada.

Obrigada.