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Olá, boa tarde. Já estamos em missão olímpica, vamos ligar-nos a Tóquio. Eu sou o Diogo Teixeira Pereira e a acompanhar os Jogos Olímpicos está o Bruno Roseiro, editor de desporto do Observador. Olá, Bruno Roseiro, boa noite.

Olá, boa noite.

Grande dia para Portugal. Vamos ter que começar, inevitavelmente, por essa medalha de prata de Patrícia Mamona.

Sim, vamos começar logo pelo melhor. Eu ainda estou no Estádio Olímpico, estava aqui a tentar perceber se estava ao pé daquela saída por onde os atletas entram para a pista quando vão fazer as finais ou não. Mas se não estou, devo estar mais ou menos aí. Estou mais ou menos onde começou este percurso da Patrícia Mamona hoje. Curiosamente, a única vez em que ela sorriu, porque nós dentro do estádio íamos tendo acesso às imagens no espaço de aquecimento. Patrícia Mamona, na altura, até estava a ouvir música, completamente concentrada, sem falar com ninguém. Depois há essa entrada na pista, já depois de ter feito o aquecimento, foi a única altura onde ela fez um sorriso, desenhou um coração com os dedos, mandou um beijinho para a câmera, foi para o seu local de prova e depois, a partir daí, durante seis saltos, não houve a mínima expressão de contentamento. Bateu duas vezes o recorde nacional e a cara que ela fez para o José Uva foi: "Eu ainda consigo fazer melhor." E existe até uma curiosidade que se calhar passou um bocadinho ao lado. Quando ela faz o seu primeiro salto acima de 15 metros, aquele 15 metros e um, ela mesmo assim ficou a 12,9 centímetros na tábua, na chamada. Ou seja, ela poderia ter feito ainda mais e tinha consciência disso, mas foi ainda assim um dia glorioso. Ela só mesmo quando acabou o sexto salto, aí sim, mandou tudo cá para fora. E curiosamente chegou à zona mista muito tempo depois, porque andou ali ainda com a bandeira portuguesa, a passear, a acenar para as bancadas também, para o treinador, para o José Uva. E quando veio ter conosco à zona mista, reparamos em duas coisas. A primeira, ela fez uma ferida na perna durante a prova, ou seja, as sapatilhas que ela e as outras atletas têm uma espécie de pitons pequenos para agarrar melhor no tartan e num dos saltos, que me parece até que foi naquele dos 15 metros, um dos pitons raspou na perna e ela teve que pedir assistência para estancar só o sangue. Ela própria diz que nem sequer estava a sentir muito bem, não sentiu nenhuma dor, não sentiu nada, mas que estava a ficar um bocado desconfortável porque estava a sangrar e portanto já estava a ir também para o ténis daí ter pedido assistência. E depois uma outra imagem que é ela chegar à zona mista e estar completamente nas nuvens e a dizer: "Eu estou com uma adrenalina tal que era capaz de outra vez lá para dentro fazer mais seis saltos" porque, de facto, ainda não tinha quebrado, não tinha havido ainda aquele abaixamento da adrenalina depois da prova. E foi de facto um momento importante para a missão de Portugal aqui em Tóquio, muito importante para a Patrícia, muito justo também por todo o trabalho que ela teve até aqui aos Jogos Olímpicos. Mas dizer também que é uma surpresa e basta só atentar neste pormenor: nos últimos cinco anos, desde os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, quando ela faz a marca de 14.65, que é recorde nacional, apesar de ter ficado no sexto lugar, ela demorou cinco anos até aumentar num centímetro o recorde nacional no Mónaco há três semanas. E agora chega a Tóquio, chega aos Jogos Olímpicos, chega ao maior palco do mundo, aumenta logo no primeiro salto 25 centímetros o recorde nacional e depois no quarto aumenta mais 10. E eu diria que só isso mostra bem a prova fabulosa que ela fez, que só não valeu ouro porque há uma senhora chamada Yulimar Rojas, que é de outro mundo.

Impressionante.

Este recorde mundial já não era batido há 26 anos. E aquilo que mais impressiona é quem está a ver a prova percebe que é uma questão de tempo até ela bater o recorde do mundo. Uma das pessoas que trata da parte de imagens, vídeos, árbitro, etc. é português e portanto tem acesso a mais imagens até do que aquelas que nós temos. E ele próprio diz que há um salto nulo, que se não fosse nulo, iria parar aos 15,80, portanto, bem mais do que o recorde mundial que ela conseguiu. E é de facto uma coisa extraordinária, só mesmo ao alcance de um extraterrestre. Portanto, Patrícia fica com a medalha de prata em termos práticos, mas na verdade acaba por ser quase uma medalha de ouro em termos teóricos, porque contrário a Yulimar Rojas não há nesta altura e ponto.

E fica a fazer parte também da time dos 15 metros. Ela fez essa referência que também é muito importante. E por um centímetro se ganha, por um centímetro se perde. E temos que falar de Oriole Dongmo, que esteve também muito perto de chegar às medalhas.

Sim. Isto é um pouco cruel aquilo que eu vou dizer, mas eu sinceramente, antes deste dia começar, diria que era mais provável a Oriole ganhar uma medalha do que a própria Patrícia. Apenas e só por uma razão: porque enquanto no concurso da Patrícia, toda a gente sabia que o concurso iria ser aberto a sete, oito atletas que tinham condições para chegar às medalhas à vontade. E há o exemplo da Ricketts, da atleta jamaicana, que faz os três primeiros saltos fracos. Aliás, ela só consegue passar à fase seguinte, mesmo no último salto e com uma marca muito modesta para aquilo que ela é capaz de fazer. Depois, consegue fazer um salto que a coloca no terceiro lugar e acaba por cair quando a Ana Pelatero bate pela segunda vez o recorde de Espanha e consegue segurar o terceiro lugar. No caso da prova de lançamento do peso, além da Oriole, sabia-se que muito provavelmente só existiriam mais três atletas com capacidade para lutar pelas medalhas. Temos a chinesa, que acabou por ganhar, a Lijiao Gong, que consegue, logo desde o primeiro lançamento, controlar por completo a final, portanto, não havia grande hipótese. Ela depois acaba nos últimos dois ensaios por fazer os seus dois recordes pessoais acima de 20 metros e meio, mas tinha sempre a prova completamente controlada. Raven Saunders, a americana, que é muito fácil de identificar porque tem o cabelo pintado, porque usa aquelas máscaras como se fosse o Hulk, é uma atleta um bocadinho fora, muito excêntrica, mas ao mesmo tempo já um ícone na defesa dos direitos LGTBI, LGPTI, nos direitos também das pessoas de raça negra. Ela foi-se tornando um ícone e foi também uma das atletas que falou mais de saúde mental. E por quê? Porque ela, em 2016, foi ao Rio de Janeiro, acabou por ficar no quinto lugar e depois tem uma transição muito complicada no regresso do Rio de Janeiro, portanto voltar, neste caso, a estudar. Não soube lidar com toda a fama e com todo o folgo, digamos assim, que teve a partir do Rio de Janeiro. Teve uma depressão enorme, nada lhe saía bem, fosse em termos pessoais, fosse em termos profissionais. E hoje ela acaba por ser também uma referência, porque quando atletas como a Simone Biles falam de saúde mental, há exemplos como a Raven Saunders, que ela própria assume que a determinada altura, em 2018, há uma mensagem de uma antiga terapeuta que pode ter evitado um final ainda mais trágico para alguém que estava com uma depressão enorme. E portanto, também por aí havia grande interesse em seguir esta prova da Raven Saunders, que estava com marca de medalha, como conseguiu. E portanto, tudo ficava resumido para a Oriole entre ela e a Valerie Adams. A Valerie Adams foi medalhadora em 2008 e em 2012, foi medalha de prata em 2016 e, entretanto, de 2016 para cá, foi mãe duas vezes, teve imensas lesões, foi operada n vezes. Eu não sei se tu segues muito NBA, ela é meia-irmã do Steve Adams.

Sim.

Que é aquele poste também muito excêntrico. Ela, por acaso, de excêntrico tem pouco, mas ela é irmã desse jogador da NBA, eles são muitos irmãos, outros também jogam basquete, outros são do atletismo. E ela era uma espécie de um joker. Ou seja, se ela não conseguisse chegar às marcas que acabou por chegar, nomeadamente aquele 19.62, a Oriole tinha mais do que caminho aberto para chegar à medalha. A partir do momento em que a Valerie Adams, quer no segundo, quer no terceiro ensaio, consegue já fazer essas marcas, obrigatoriamente a Oriole tinha de trabalhar para um recorde nacional. Ela sabia disso. Ela nos treinos estava a lançar para isso. Ela própria, até na preparação dos Jogos Olímpicos, sabe que já chegou a lançar perto dos 20 e, portanto, estamos a falar de uma marca que muito provavelmente nos próximos meses ou nos próximos dois anos poderá ser o novo recorde nacional do lançamento do peso. Aquilo que ela não consegue explicar é por que não saiu. Não se justificou. Uma coisa também importante, não houve a mínima justificação. Explicou que tinha um daqueles adesivos no braço, porque tinha uma pequena lesão no braço, mas que isso não justifica nada em relação ao quarto lugar. Explicou que estava imenso calor e eu não sei se passou aí na transmissão, quando ela faz o terceiro lançamento, estavam 40 graus no relvado. Quando começou o concurso estavam 38, quando ela faz o terceiro lançamento, estavam 40. E isto foi uma coisa que começou logo de manhã. Eu para andar três minutos às 08h30 da manhã, parecia que tinha acabado de tomar banho quando parei para beber um café. Hoje estava por demais. O calor não é uma coisa que ela goste propriamente. Ainda assim, não se justificou com nada, disse só que não conseguia explicar o que falhou. E apontou baterias já ao próximo ano, porque vai ser um ano, em termos de atletismo, muito preenchido, porque vai ser o ano que vai retomar todas as provas que foram canceladas ou adiadas por causa da pandemia. Vamos ter os Campeonatos do Mundo em Oregon, nos Estados Unidos. Vamos ter também Europeus ao ar livre e Mundiais em pista coberta. E, portanto, vão ser muitas provas, muito trabalho, muitos picos que vão existir durante a época para procurar recordes nacionais e para preparar essas fases das grandes competições. E é por aí, nesta altura, que ela já tem o pensamento virado. Fica um sabor amargo. Ela própria tem consciência que hoje podia ter saído daqui com uma medalha. A Valerie Adams conseguiu aparecer aos 36 anos. Há atletas que, independentemente da idade, têm o gene de campeã. Neste caso, é isso que a Valerie Adams tem. Quando chegou à altura da verdade, conseguiu meter o seu ensaio, conseguiu fazer a marca dos 19.62, e isso foi suficiente para conseguir levar a medalha de bronze e deixar o Oriol no quarto lugar.

Foi por muito pouco que Portugal ia conseguindo mais uma medalha. Vamos falar agora da final de 100 metros. Bruno Roseiro, costuma ser esta uma das provas, um dos ex-libris dos Jogos Olímpicos e do atletismo, mas não ficaste completamente satisfeito com esta prova, que também foi esta tarde.

Não, é assim, com o atleta que ganhou, fico satisfeito até por uma razão. Acabou agora de passar por mim, todo contente a buscar o olho, a fazer um fisco, deve achar que eu sou italiano, porque já não há muita gente aqui.

Ele levava a medalha ao peito.

Não, ele por acaso não está. Ele vai com o treinador. Não, a medalha não tem, porque é só amanhã.

Só amanhã que são entregues.

É como a Patrícia, que também só vai receber a medalha amanhã de manhã. A final acabou por ser mais interessante do que as meias-finais. As meias-finais deixavam antever o pior, porque houve muitas decepções. Por exemplo, o Yohan Blake, eu ontem já tinha ficado com a perceção que nas eliminatórias ele parecia-me a um nível bem mais baixo do que aquilo que nos habituou. Hoje nem sequer conseguiu chegar à final e nem sequer ficou muito perto. Não foi daqueles atletas que ficou perto de ser repescado. Há muito tempo, salvo erro, desde 2004, 2000, que a Jamaica não tinha uma final dos 100 metros sem um único representante. Foi isso que acabou por acontecer. E no meio do nada, o Lamont Marcell Jacobs, que é este nosso velocista italiano que acabou agora por passar por mim muito simpático e muito satisfeito à vida com o treinador, acabou por conseguir a qualificação para a final nas repescagens, porque ele foi o terceiro da sua série, e depois acaba por fazer uma prova extraordinária. Para nós portugueses, e se calhar ele se soubesse que eu era português, não me estava a piscar o olho todo contente, mas para nós portugueses, tem aqui um simbolismo que foi o Francis Obikwel ter perdido o recorde da Europa, e perdeu na meia-final, e depois essa marca foi ainda melhorada pelo Jacobs. Ainda assim, fica a nota de que Obikwel deixou de ser o homem mais rápido da Europa, mas também fica esse título para aquele que é o campeão olímpico dos 100 metros, daquele que foi, para mim, uma das grandes surpresas até agora, não por ter sido o Jacobs, mas porque pela primeira vez nós olhamos para os 100 metros e não encontramos propriamente uma grande figura, uma grande referência, como existe, por exemplo, nos 200 metros. O Noah Lyles, por exemplo, dos Estados Unidos, já é uma figura dos 200 metros. Temos também o caso daquele americano de 17 anos que conseguiu a qualificação agora nos trials dos Estados Unidos e que tem batido vários recordes de sub17 e sub20. E portanto, aí conseguimos encontrar algumas referências. Nos 100 metros não encontrámos e acabou por ser o Jacobs a sair um bocadinho mais feliz numa prova que podia ter dado para vários lados. O atleta chinês, por exemplo, o Su, faz uma meia-final quase perfeita, faz 9.83, mas com capacidade para fazer um pouco melhor. Na final já teve uma saída pior e, portanto, já não conseguiu estar a disputar a final. Ficou a vitória da Itália e ficou essa curiosidade de o Jacobs, tal como todos os velocistas, atravessam a linha a todo o gás, e no caso dele, ele só parou nos braços do atleta italiano, que tinha também acabado de ganhar a medalha de ouro no salto em altura, que além de ter sido um concurso com marcas fantásticas, com vários atletas, cinco, seis, a tentarem recordes olímpicos, acabou com uma novidade, que foi uma regra nova introduzida, que foi o Tamberi e o Barshim, do Qatar, que são amigos e que se conhecem bem, acabaram por acordar cada um ficar com uma medalha de ouro e foi assim declarado um empate técnico, que é uma nova regra que existe no atletismo, e o salto em altura não teve uma medalha de ouro, uma de prata e uma de bronze, mas sim duas de ouro e uma de bronze.

Muito bem, Bruno Roseiro, se tivesse que apostar, dizia que ele te tinha piscado o olho precisamente por saber que és português. Mas vamos continuar.

Esperemos que não, porque assim eu ia atrás dele e chateava-me com ele.

Vamos continuar este "Missão Olímpica", estamos mesmo no limite. Vamos falar agora das dificuldades a entrar numa prova de halterofilismo. O que aconteceu exatamente?

Sim, já me estragaram um bocadinho o dia. Ou seja, uma pessoa tenta ser organizada e a organização parece que não gosta disso. Eu acho que não tinha falado ainda contigo, mas isto tem um regime que é: nós todos os dias podemos marcar 10 provas ou jogos para assistirmos durante o dia. Existe um programa, que é uma plataforma específica dos Jogos Olímpicos, onde nós marcamos todos os dias as provas onde queremos ir. Para amanhã, em relação a Portugal, era relativamente fácil, depois não podemos estar em todos os sítios, mas há canoagem, há a final da Liliana Cá aqui no atletismo, há também a medal race na vela. Mas eu tinha marcado também o halterofilismo, porque amanhã é a prova dos +87 quilos femininos e será também a estreia do primeiro transgénero nos Jogos Olímpicos, a Lauren Huibel, da Nova Zelândia. Eu já tinha a percepção de que seria uma prova que teria muita gente a seguir. Aquilo que eu não tinha percepção era que haveria tanta gente a seguir, que iria ver a minha entrada recusada. Eu até agora, desde que começaram os Jogos Olímpicos, só houve dois dias, esta é a segunda vez que eu tenho uma coisa recusada. O primeiro, ainda hoje não percebi muito bem porque é que recusaram, mas devia haver ali qualquer coisa especial, que foi um dia de eliminatórias de ténis de mesa. Sinceramente, também não era uma coisa que eu achasse que ia lá muito. Marquei porque estavam lá portugueses, mas acabaram por recusar. E agora tive esta recusa do halterofilismo. Aqui sim, percebe-se porque está toda a gente muito atrás desta história do primeiro transgénero nos Jogos Olímpicos. Vamos fazer na mesma isso, mas vamos fazer na televisão. E assim, ao menos, podemos ver ao vivo a final da Liliana Cá, que não é favorita a ganhar uma medalha, longe disso, mas depois daquilo que aconteceu, sobretudo à noite, parece que há aqui um boost diferente para os últimos dias de Portugal. E cada vez mais eu tenho a percepção de que se é verdade que eu demorei nove horas a sair do aeroporto de Tóquio para poder chegar ao hotel, sete das quais na primeira barreira, cada vez mais tenho a certeza de que foram nove horas que valeram a pena, porque esta tem todas as condições para ser a missão com mais medalhas de Portugal. Portugal já tem uma medalha de prata, já tem uma medalha de bronze, tem Pedro Pablo Pichardo no triplo salto, tem Fernando Pimenta no K1 1000, e acredito, sinceramente, que Portugal vai conseguir chegar às quatro medalhas, o que vai ser um registo histórico. Era bom que uma delas fosse de ouro, com essa particularidade de perceber se o Fernando Pimenta poderá ser o primeiro atleta a ganhar uma medalha de ouro para Portugal sem ser no atletismo, o que seria também algo simbólico.

Fica aqui esta tua perspectiva, este teu prognóstico, que nós vamos levar muito a sério, até porque se há alguém que está a medir bem o pulso ao Comité Olímpico Português em Tóquio, és tu. Bruno Roseiro, obrigado mais uma vez. É o enviado especial d'O Observador aos Jogos Olímpicos de Tóquio, que todos os dias entra em missão olímpica aqui na Rádio Observador.