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Estou, Tiago?
Alô, escuto. Alô. Agora já passou. Era um problema de rede, mas agora está tudo bem. Estou a te ouvir bem.
Tá?
Estou te ouvindo, Maria João.
Tiago, vamos escrever uns postais de Natal?
Então vamos a isso.
Vamos a isto então.
Se há coisa que eu aprecio é escrever postais de Natal. Então vamos.
Vamos lá.
Vamos lá.
Num Natal mais distante do que é habitual, e esta é a parte séria, um postal ou uma carta podem aproximar-nos, mas escrevê-los nem sempre é uma tarefa fácil, por isso chamámos reforços. E quem melhor para nos ensinar todos os truques do que o Tiago Dores. Olá, Tiago.
Olá.
Sabias desta responsabilidade toda?
Eu de repente lembrei-me que poderia ser pai de meia dúzia de pessoas melhores.
Mas o teu número era o primeiro da lista.
Ok.
Ofereceste, depois dá nisso.
Sim, vamos a isto. Não sei exatamente o que vamos fazer, mas vamos lá.
Isto tem um lado sério. Preciso dizer.
Há também um lado sério.
Sim. Estar longe custa a todos, isso sabemos. Como é que podemos evitar que os postais de Natal se tornem muros de lamentações? Há uma estrutura infalível para estas situações?
Há, pois, nós estamos perante um desafio único. Porque este ano as circunstâncias são completamente diferentes e é até um bocadinho ingrato pedirem-nos assim de repente que descubramos a solução para esta situação absolutamente única. Mas o que eu posso dizer em relação a isso? Não queremos que seja um muro de lamentações, antes pelo contrário, para isso já basta o tempo em que passamos isolados. Portanto, têm que ser momentos de jovialidade, alegria e boa disposição.
E conhece algum truque para fugir ao clássico: "Querido tio, feliz Natal, beijinhos"?
Isso pode manter-se. Lá pelo meio é que se pode acrescentar algumas coisas.
Mas o quê? Uma lista de presentes?
Um desenho de um percurso que se pode fazer fora de casa, no jardim, para apanhar um pouco de ar. Tipo um rally paper, por exemplo.
Exatamente.
Sozinho.
Claro, sem ajuntamentos.
Não é uma competição, mas qualquer pretexto para sair um bocadinho de casa e poder tirar a máscara.
Torna o postal útil.
Fora de casa. Pois, eu acho que sim.
Dizem que escrever algo que nos perturba e depois deitar o papel fora pode ser terapêutico. Achas que se escrevermos o obituário da Covid-19 apressamos a ida?
Isso é capaz de ser muito benéfico. Vê-se que tu andas há algum tempo a preparar o Natal. Tu preparas com antecedência o Natal.
Sim. Eu estou nisso desde fevereiro.
Isso parece-me muito bem.
Mas concordas? Achas que faz sentido?
Eu nunca tinha pensado nisso, mas faz mais sentido do que aqueles bolinhos da sorte. É assim que se chama?
Sim.
Acho até que faz mais sentido do que, por exemplo, uns bolinhos da sorte.
Mas és dos que parte o bolinho ao meio e está sempre curioso para ver como é que vai sair?
Eu acho que nunca abri nenhum bolinho. Onde é que os restaurantes chineses é que há bolinhos da sorte? Ou isso é só nos filmes?
Eu sei que há no Lidl.
Eles vendem por atacado no Lidl.
No Natal reunimos habitualmente a família, até aquela mais distante. O que dizemos àqueles tios menos próximos que teimam em trocar-nos o nome?
Pela primeira vez em muitos anos, não é preciso inventar desculpas para não ter que convidar esses tios que nos trocam os nomes. Isso é alguma coisa boa que tinha que sair desta desgraça toda. É que este ano, de facto, não é preciso inventar uma desculpa esfarrapada.
Tiago, na tua idade são quantos?
Estou quase a fazer 28.
Vinte e oito. Ainda fazes lista de Natal ou só de supermercado?
Faço mais de supermercado, infelizmente. Neste momento sou mais receptor de listas do que elaborador de listas.
E és bom depois a cumprir os requisitos.
Faço bem esse trabalho.
Esse papel de comprador.
Pois, esse pêndulo. Não sou assim um espetacular comprador, mas esforço-me um bocadinho, porque gosto do Natal.
Gostas da parte de comprar presentes e de escolher?
O Natal é consumismo e eu aprecio comprar presentes. Eu vou comprar presentes, como a maior parte dos homens fazem. É uma ida à caça. O alvo está fixado à partida, eu não ando para lá e para cá.
Faz o trabalho todo antes em casa.
Sim, vou com o meu alvo muito bem definido, que é para depois ir direitinho àquilo que pretendo.
E como é que vai ser o teu Natal este ano? O que é que não pode faltar na tua mesa amanhã à noite, na ceia de Natal?
Doçaria com fartura. Doçaria, fatias douradas, rabanadas. Mesmo sendo a mesma coisa, eu quero as duas.
Exato.
Basicamente é isso, o Natal é muito isso para mim.
Muito doces. E vais comer bacalhau ou polvo?
Polvo. O polvo é típico do Natal de onde?
Diz que sim, mais para o norte.
Das Maldivas, ou assim, se calhar. Mais para o norte, a sério? Não sabia.
Portanto, contigo é bacalhau.
Vai haver bacalhau e vai também haver xixa, em princípio.
Xixa quê? Porco ou cabrito? Já estou a querer saber demais.
Não, por acaso vai ser porcalhão, se calhar, este ano. Mini porcalhão, em princípio.
E acompanhas o mini porcalhão com o quê? Vinho branco ou vinho tinto?
Eu não discrimino em termos de vinho.
O que houver na adega?
Na adega, exato. O termo certo é adega. Abre uma pipa. É possível que, sendo Natal uma ocasião especial, acumule vários tipos de vinho. Pode dar-se esse caso.
Portanto, fazes toda uma prova de vinhos.
Para lá para casa não faço misturas, que é perigoso fazer misturas. Também não dá para ir a lado nenhum, efetivamente. E por isso acho que podemos estar um bocadinho mais à vontade. Atenção, nunca abusando, como disse o senhor diretor da DGS, nunca abusando de substâncias que podem até levar a um excesso de afetividades. Portanto, cuidado com isso.
A cozinha é uma zona segura da casa pra ti? Gostas de cozinhar?
Eu gosto muito de assistir a cozinhar.
Portanto, tu és de provas, não é? Ficas a assistir.
Sim.
És um bom sous chef. És?
Para ir buscar coisas, tipo: "Preciso de pôr isso num prato, traz-me um prato". Até esse nível consigo dar assistência. Eu sei que não está nada na moda, mas eu não só não faço questão nenhuma de cozinhar, como não acho piada especial a cozinhar e nem vou aprender. Hoje em dia toda a gente cozinha, toda a gente adora, mas eu não faço questão.
Portanto, tu é mais a parte do comer.
É mais do ponto de vista do utilizador.
E em relação a tradições, há alguma tradição, alguma recordação de infância que guardes?
Temos uma tradição muito gira cá em casa, é uma coisa de família, que já vem de algum tempo, que é chegar ali por volta da meia-noite e abrirmos os presentes. É uma coisa de família já antiga.
E é giro porque ficamos a saber um pouco mais sobre ti, não é? Porque é completamente inesperado.
Eu não vou aqui entrar em grandes detalhes, mas fica só uma ideia.
Sim, já dá um bom lead.
É, eu acho que sim. Acho que é uma coisa que costumamos fazer, sim.
Tiago Dores, agora umas perguntas curtas para respostas rápidas sobre o teu Natal. Vamos a isso?
É daquelas respostas que só podem ter uma palavra?
Não, podem ter duas ou três.
Está bem.
Por ser pra ti. Rabanadas ou azvias?
Ambas.
Bolo rei ou rainha?
Ambos, com preferência para o rainha.
Por quê?
Porque eu não gosto de desperdiçar comida e a verdade é que aquilo das frutas cristalizadas é mais pra decorar. Fica bonito, realmente, dá um colorido.
Mas fica no prato.
Enfim, não é bom.
Arroz doce ou aletria?
Arroz doce. Aí sou perentório.
Presépio com musgo ou com alcatifa verde?
Vamos lá ver. Por um lado, musgo, sim, senhor, bonito. Mas se calhar um pouco menos ecológico, porque estamos a raptar o musgo do seu habitat. Por outro lado, a alcatifa também deve ser à base de plástico. Por outro lado, também depois sai do presépio e vai poluir os oceanos. Portanto, aí estou dividido.
Muito bem, então seguimos em frente.
Vou pensar melhor sobre isso, depois perguntas-me outra vez.
Combinado. E no presépio, alumínio ou espelho para fazer de água?
Papel de alumínio?
Sim.
Eu acho que o espelho.
Lembras-te do presépio quando fazíamos em miúdos?
Então não lembro. Aí acho que o espelho é preferível, por uma questão também de proteção do planeta.
Árvore de Natal verde ou branca?
Verde. Não, atenção. Mas quando diz branca é toda branca?
Toda branca.
Não é aquele polvilhado a fingir de neve.
De neve, não, é toda branca.
Não, porque o polvilhado a fingir de neve, cinco estrelas, gosto muito. É o que tenho, mas a árvore verde. Árvores brancas e de outras cores não. Estritamente proibido.
E as bolas de todas as cores ou só de uma? Ou duas no máximo?
Sim, eu gosto, vamos lá ver. Eu percebo que é contenção em termos estéticos, que se quer uma certa contenção, mas Natal é cor, é alegria, portanto, eu digo barafunda de cores.
Pai Natal ou Menino Jesus?
Eu acho que ambos. Eu acho que não se zangam e acho que é bonito.
Meias ou bombons?
É difícil. Eu tenho tendência a ter os pés muito frios, portanto, aquela coisa que toda a gente diz muito mal de receber meias, mas é uma das coisas que eu acarinho.
Mas tu gostas de receber.
Exatamente. Por outro lado, bombons gosto muito também.
"Sozinho em Casa" ou "Música no Coração"?
Epá, tramado. Muito difícil tudo isto. Se calhar primeiro "Música no Coração", pra satisfazer aquele desejo de clássico e depois um bocadinho de boa reposição com "Sozinho em Casa".
Tiago, amanhã é noite de Natal, o fim de ano está também à porta.
Pois é, amanhã, exatamente.
Já estamos em conta crescente. Que mensagem gostavas de deixar a quem nos ouve?
Eu gostava de deixar uma mensagem que vai no sentido de desejar a todos os nossos ouvintes, apesar de todas as contingências que nos afligem este ano, um santo e próspero Natal. E é só Natal, não é Ano Novo. Ano Novo depois mais pra frente tratamos disso.
Pode ser sim.
Mas que consigam ainda assim reunir as vossas famílias. Anteontem o professor Marcelo falou em grupos de cinco pessoas, mas ele próprio disse que ia fazer várias reuniões de cinco pessoas. Por isso, não querendo desrespeitar a opinião do nosso líder, Marcelo Rebelo de Sousa, eu acho que tentem pelo menos estar assim com a família mais próxima, acho que já é bom. E se calhar é isso.
Tiago Dores, obrigada por este pequeno...
Sim, várias reuniões, sem nunca abusar de substâncias que possam levar a um excesso de afetividades.
Isto ia esquecer outra vez.
Não, mesmo se for com familiares, mesmo muito próximos, eu acho que um excesso de afetividade até pode ser um presente assim inesperado, muito bem-vindo. Portanto, se estão num círculo mais fechado, abusem das afetividades.
Esperamos por ti segunda-feira, de maneira que no fundo é muito isto nas manhãs 360. Um feliz Natal.
Eu estou sempre à espera de um cinema de despedimento, portanto, isto é dia a dia.
Exatamente. Boas festas, Tiago, um beijinho.
Muito obrigado, igualmente e um beijinho.
Obrigada.
Obrigado.
A seguir, uma curiosidade de Natal. Se falar de Caretos, de sales e risos, provavelmente associa ao Carnaval. Mas em Varge, os Caretos saem à rua para celebrar o solstício de inverno e em Ouzilhão para celebrar o Santo Estêvão. Mas de onde vem esta tradição dos Caretos? A origem remete-nos para tempos pré-romanos, ao tempo dos Celtas. Trata-se de um ritual de passagem à idade adulta. Nos nossos dias, a tradição em Varge é feita de 24 a 26 de dezembro, quando os jovens regressam a casa para participar nesta festa. Os rapazes solteiros da aldeia reúnem-se no dia 24 para preparar tudo e no dia 25 de dezembro, após a missa de Natal, aparecem vestidos de Caretos, saltando, gritando e rindo ao som dos chocalhos e de um gaiteiro. No meio de tudo isto, cantam as loas, onde criticam e ridicularizam situações que tenham ocorrido na aldeia durante o ano. No final do dia, é com corrida e um jantar com baile que a celebração termina. Já na outra aldeia transmontana de Ouzilhão, no Conselho de Vinhais, a tradição acontece nos mesmos dias, mas para celebrar o Santo Estêvão. A presença dos Caretos tem o mesmo simbolismo, mas neste caso, serve também para anunciar um novo ano. Fator comum em todas as casas das duas localidades é de uma boa mesa bem recheada para receber os rapazes que mantêm viva esta tradição. A ver vamos como será este ano. Eu sou a Maria João Simões, obrigada pela companhia neste "Natal com Sabor". Beijinhos, abraços e boas festas.