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Estou, Nilton?

Estou.

Sim, Nilton?

Estou. Eu faço sempre este número, que é pra fingir que estou sem rede.

Olá, Nilton.

Olá, Maria João, estás boa?

Tudo bem. Vamos preparar os tachos?

Vamos embora, vamos preparar isso. Sendo que eu não sei se isso não foi uma medida inventada por vendedores de tachos.

Vamos a isto então. Nilton, intitulas-te como um contribuinte que faz stand-up comedy, mas que também escreve livros, faz rádio e televisão quando tem de ser. No meio disto tudo, vais ter tempo para celebrar o Ano Novo?

Este ano. Repara, eu tenho atuado todos os anos, por norma, eu tenho atuado no Ano Novo. Este ano que eu disse assim: "Não vou atuar". Tinha já o ano passado decidido, porque é sempre uma noite com muita confusão e eu, pra todos os efeitos, faço stand-up, não faço música, é sempre um pouquinho mais difícil. Mas já fiz todo o tipo, até festa, até em Albufeira, imagina aquela loucura toda que nos diz. Portanto, já fiz tudo o que é possível imaginar. E este ano que eu disse: "Não vou fazer, vou me divertir numa festa qualquer de passagem de ano". Cancelam as festas de passagem de ano. Agora, digam-me se isso não é um complô, tudo isto não é um complô pra eu não ir a uma festa de passagem de ano, 20 anos depois de eu ter decidido ir a uma festa de passagem de ano.

Não, querem te atrapalhar, já percebeste? É isso.

É um complô mundial. Portanto, não percebo.

E como é que vai ser então amanhã o teu Réveillon?

Vai ser em casa quieto. Com crianças, portanto, este ano nós tínhamos planeado ir pra loucura, vai ser igual a todos os outros. Nesse aspecto ninguém vai ficar rijo de ninguém.

Sim, vai ser uma loucura mais comedida, mais familiar.

Sim, uma loucura mais familiar e pronto. E se me quiser deitar cedo, espero que os meus vizinhos não se lembrem de fazer uma festa aqui e ninguém dorme, ou que me chamem pra festa deles.

Juntas-te a eles. Exatamente. Nasceste em Angola, mas vieste com quatro anos para Portugal. Foi em Proença-a-Nova que passaste a tua infância e também a tua adolescência. Tens memórias das tuas passagens de ano em miúdo?

Sim, tenho, principalmente, a partir da festa de garagem. Portanto, chega ali um ponto em que tu vais desbultando e começas a perceber a lógica da festa de garagem. Lembro-me perfeitamente dessa altura, até porque eu cedo percebi que lucrava mais em não beber álcool, embebedar eu os meus amigos e dar eu três a quatro beijinhos a três ou quatro miúdas durante a noite. Portanto, cedo comecei a perceber e a montar essa estratégia. E repara, nas terras pequenas, por acaso eu tenho uma felicidade de ter crescido numa terra pequena, porque dá-te ali uma sensação de união, de amigos que estão contigo a vida toda, que estão sempre contigo.

E estão mesmo contigo?

Sim, estão. Mantenho muita ligação, curiosamente, a muitos dos amigos lá, aqueles amigos de infância que tiveram contigo a vida toda, manténs sempre essa ligação. Acho que há ali um lado mais de conhecimento, porque conhece a tua família, conhece os teus pais, portanto, sentes sempre que são aqueles teus amigos mesmo. Embora eu, morei em Proença-a-Nova, depois morei no Algarve, depois morei em Lisboa. Costumo dizer que eu 10 em 10 anos sou expulso dos sítios.

Já estás há muito tempo em Lisboa, então.

É verdade, já estou. Sou um bocado Fernando Pessoa, mas eu costumo dizer: "Sou de todo lado e não sou de lado nenhum". Mas, na verdade, vou tendo várias terras como sendo as primeiras terras. Portimão acha que eu sou de Portimão, e há muita gente no Algarve que diz: "Tu és de Portimão", ou outros que sou de Albufeira, porque morei 12 anos no Algarve. E então acabas por ser a tua primeira terra. Aliás, eu tenho uma história muito gira. A primeira vez que eu vou a Proença-a-Nova atuar, eu começo a fazer comédia no Algarve. Depois venho pra Lisboa, Casinha do Estoril, à barraca, depois Casinha do Estoril, não sei o quê, trabalhamos nós na rádio juntos. E depois, a primeira vez que eu digo: "Vou atuar à minha terra", Portimão já tinha atuado várias vezes, mas há um dia que eu vou a Proença-a-Nova, a câmara contratou-me nas festas da vila, em que estão 3 mil pessoas na rua. Portanto, é assim uma loucura, um campo enorme de gente.

E como é que foi pra ti?

Foi muito giro, jantei com os meus pais, foi aquela sensação de chegar à terra e de ser recebido depois de teres alcançado alguma coisa lá no curral. Mas naquela altura do levanta e ri, tudo muito giro, e a stand-up vai começar. E eu termino esse espetáculo já muito cansado, tinha feito rádio de manhã, tinha estado a gravar umas coisas pra SIC, fiz 200 e tal quilômetros, estou cangadíssimo e em piloto automático, digo: "Muito obrigado à Câmara Municipal de Portimão". E faço uma pausa de três segundos e digo: "Por me ter deixado ficar hoje", porque eu era pra estar em Portimão e eles disseram: "Tu és de Proença, vais atuar a Proença".

Tu em Lisboa. Safaste-te bem.

O presidente da câmara disse: "A tua pausa foi demasiado grande".

Olha, falaste aqui das festas de garagem. Há alguma tradição que faças questão de manter, pra além das festas de garagem?

Não sou nada supersticioso. Havia uma tradição que mantinha no Natal, mas nem este ano cumpri, porque fiquei em Lisboa, que era o Driving Home for Christmas, do Chris Rea, que é uma música que eu ouvia sempre muito feliz, porque ia passar o Natal à casa, aos meus pais, como já não há tanto, em Lisboa. E eu ouvia sempre o Driving Home for Christmas em loop.

E cantarolavas ou só ouvias?

Não, eu sou muito comedido, tenho respeito pelo artista. Tenho noção.

O artista e pela família que vai contigo no carro.

Também. Mas fiz muitos anos sozinho e até podia ter cantarolado. Mas não, algum respeito pelo homem. E então tenho essa na passagem de ano. Não tenho assim nada especial. Quer dizer, há aquelas resoluções que tu fazes mentalmente, dizes: "Pronto, este ano é que é ginásio".

Por acaso tinha esta pergunta pra te fazer, como é que estávamos a nível de resoluções? Se amanhã à noite vais ser dos que promete inscrever-se no ginásio, fazer dieta, deixar de beber ou ando muito longe disso.

Eu não tenho muito pra resolver, porque eu não bebo álcool, não bebo café, não fumo. Quer dizer, eu já sou um totó em pessoa. Tinha uma resolução que este ano achava que ia cumprir, que era dormir mais. Eu parei com a rádio, queria descansar mais. Estava naqueles anos em que tu dizias: "Não faz sentido nenhum na vida isto, porque não faz sentido, só trabalhas, não estás com os teus amigos, não fazes nada". E então foi uma resolução deste ano eu dizer: "Vou estar com os meus amigos, vou aproveitar mais a vida". De repente, aparece o COVID.

Mais uma coisa.

Volta ao complô. Se isto não é um complô mundial, vocês é que sabem. Portanto, não estou com os amigos. Depois, na primeira semana de quarentena, montei um estúdio em casa, ou seja, estou a trabalhar muito mais do que trabalhava o ano passado. Não fazes tantos espetáculos, mas os que fazes dão muito mais trabalho. E agora já voltei com espetáculos, faço um humor com o Ramins, o Guilherme Duarte e o Hugo Sousa. E na verdade, estou a trabalhar muito mais, portanto, até aí não consegui cumprir. Se calhar este ano não cumpro nada. Não prometo nada, neste caso.

Falaste aqui deste novo espetáculo de stand up, "Ajuntamento". A ideia é desconfinar em segurança e descontrair. Já há datas para 2021?

Não, ainda não temos, mas iremos regressar. A ideia foi, acima de tudo, regressarmos à estrada. Foi um desafio que eu fiz aos restantes e eu já tive há uns anos um projeto de humor, que era o Clube de Comédia, resultou muito bem e eu achei que era altura de voltarmos com isso. Até porque não havia, neste momento, um grupo de humor stand up. E felizmente fomos muito bem recebidos, que era uma dúvida que havia: será que as pessoas vão aderir? Mas em sala, realmente fiquei muito agradado. É um bom prenúncio para 2021, que vamos começar agora. São quatro artistas.

E este nome é um bocadinho provocador, não é? Ajuntamento.

É, mas é propositado. Foi um brainstorm e foi propositado. Até acho que foi o Guilherme que se lembrou. E é propositado. Mas é ajuntamento só de quatro.

Exatamente. Disseste que não tinhas superstições em relação ao fim de ano e antes de subires a um palco. Existe alguma coisa que faças ou não?

Tenho. Trabalhar.

Convém.

Trabalhar. Convém escreveres texto, convém teres o texto decorado, mas sou muito relaxado. Os meus colegas no humor, que já trabalharam comigo, ficam sempre muito admirados. "Mas tu não estás nervoso?" "Não". Dá um certo ar de profissionalismo, mas é só inconsciência. Não tens noção só para onde é que vais e que tens ali milhares de pessoas à frente. Mas eu finjo que sim. Eu estou muito à vontade, sou pessoal. Não, é só parvo e inconsciente. Pode ser isso.

Nilton, quase a terminar, tenho perguntas de resposta rápida sobre o teu fim de ano. Preparado?

Vamos a isso.

Champanhe ou espumante?

Champomix, sempre bebo.

Água com gás.

Áspic. Uma loucura.

Marisco ou carnes frias?

Marisco. Eu carne ligo pouco, marisco é sempre aquela coisa que mais dia menos dia acaba. Também é aproveitado.

Frutos secos ou fruta fresca?

Frutos secos.

Doces ou salgados?

Salgados. Não sou muito doce.

Smoking ou pijama? Pode estar de smoking em casa, não é?

Realmente smoking só em Gales, mas pijama também não.

É ali um meio-termo. tachos ou fogo de artifício?

Fogo de artifício. Fica caro, mas pago só dois anos depois. Normalmente vai para a dívida da câmara.

Passas uma a uma ou as duas ao mesmo tempo?

Duas ao mesmo tempo. Só para complicar a pessoa que está a processar os desejos. Imagina o supercomputador que deve haver algures para processar todos os desejos de toda a gente a toda hora. Há de haver gente a baralhar: "Mas eu não pedi isto". Foi uma baralhação, possivelmente, do computador da passagem de ano.

E contas os desejos ou dizes assim dois ou três e pronto, está feito?

Eu digo dois ou três. Eu não sou gargalhão. Sou daquelas pessoas tipo: "Quero ganhar o Euromilhões uma vez". Não vou daquelas tipo: "Não, quero ganhar várias vezes e depois o Totoloto também e o Totobola". Não, eu peço uma vez e está feito.

Sobes para a cadeira ou ficas no chão?

No chão.

És dos que perguntam quanto tempo falta?

Não, eu sou daqueles que tenta fazer umas partidas. Há uns anos tinha um megafone e fiz uma grande maldade, nunca me esqueço. Praia da Rocha, tudo à espera do fogo de artifício, milhares de pessoas na rua e eu peguei no megafone, meio escondido, e comecei a fazer contagem crescente para aí três minutos antes. Está tanta gente a abrir champanhe, tanta gente a gritar, beijinhos, abraços, e daí a bocado veio uma segunda passagem de ano.

Eu ficava muito chateada, sabe?

Eles não saberem que era para ir lá. Dei-lhes duas passagens de ano. Qual é a probabilidade de, sem ires à Austrália e voltares à Europa, teres duas passagens de ano no mesmo dia? Já viste este altruísmo.

Nilton, quase no fim do nosso tempo e também de 2020. Nesta véspera de fim de ano, uma mensagem para os nossos ouvintes.

A mensagem é a resiliência. Não há nada a fazer. Que nós não pensemos, infelizmente, há pessoas desempregadas, há muita tristeza paralela a tudo isto, que infelizmente às vezes não é tão palpável. Mas há uma coisa que eu gosto de pensar: não é contra mim, é contra todos. Portanto, olha, que se lixe, estamos juntos, estamos todos no mesmo barco e é resiliência e isto de alguma maneira há de passar. É termos força e não há de ser nada. Vamos passar isto rapidamente, acima de tudo é isso.

Nilton, obrigada por teres estado connosco neste final de ano. Beijinhos e aconteça o que acontecer, um feliz 2021.

Aconteça o que acontecer, quer dizer?

Rádio Observador. Aconteça o que acontecer.

Ok, eu pensei que me estavas a dizer "se não te safares".

Não, não sou assim fatalista.

"Não chegares a 2021. Pronto, Nilton. Olha, gostei de te conhecer". Estou a brincar contigo.

Beijinhos, Nilton. Obrigada.

Um grande abraço. Gostei de te ouvir.

Já a seguir, uma curiosidade sobre o fim de ano. Um dos desejos mais pedidos na passagem de ano é ter dinheiro. E são muitos os rituais usados para obter prosperidade e melhorias profissionais. Desde usar roupa sem buracos, passar a meia-noite com dinheiro nos bolsos e há até quem coloque uma nota no sapato do pé direito e faça a primeira compra do ano com ela. Mas as superstições não ficam por aqui. E não vai achar estranho se lhe falarem subir a uma cadeira, um degrau, ou dar três pulos com uma taça de champanhe sem derramar o conteúdo e, no fim, atirar o líquido para trás. Neste caso, se alguém for atingido, melhor. É sinal de sorte para o ano inteiro. Diz-se ainda que roer sete sementes de romã na noite de Réveillon e guardá-las num guardanapo, ou ter uma folha de louro na carteira e deixá-la lá o ano inteiro, também atraem riqueza. E já agora, evite discussões no primeiro dia de janeiro. Diz-se que augura um ano turbulento e com muitas dores de cabeça. São muitas as superstições e por mais irracionais que nos pareçam, sentimo-nos sempre tentados, pelo menos, a entrar no novo ano com o pé direito. E é isso que lhe desejamos também. Eu sou a Maria João Simões. Obrigada pela companhia neste Natal com sabor. Beijinhos, abraços e boas festas.