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Está no ar o Não Se Fala de Outra Coisa, rubrica das manhãs 360, onde destacamos histórias que têm suscitado muita curiosidade nas redes sociais e não só. Ora, eu trago aqui uma história sobre uma aplicação que está a causar muito furor na China. Chama-se "Are You Dead?" Estás morto?

Muito bem.

Dá pra rir, mas o assunto é sério. É uma aplicação que está a ser carregada por jovens chineses e basicamente o que esta aplicação faz? Permite a pessoas que vivem sozinhas, fazer um check-in a cada dois dias. Se não fizerem o check-in de dois em dois dias, a aplicação ativa um contacto de emergência e alerta a pessoa de que nós poderemos estar em apuros. Na Apple Store, na loja virtual da Apple, esta ferramenta é descrita como uma ferramenta de segurança criada para pessoas que vivem sozinhas, com o objetivo de estabelecer uma rede de segurança discreta, assente na monitorização de check-ins em mecanismos de contacto de emergência para tornar a vida a sós mais tranquila. Eu diria: liga-lhe. Faz uma chamada, fala com os teus amigos.

Há pessoas que não têm redes de contactos, de amizades, de familiares, sobretudo nas grandes cidades. E nas grandes metrópoles há pessoas que não têm essas redes de contacto, sobretudo as mais velhas, que já não trabalham.

E esta aplicação é mesmo o espelho dessa realidade. Ela foi lançada o ano passado, em maio, sem grande repercussão. Teve uma entrada no mundo virtual de forma muito tímida, mas nas últimas semanas explodiu.

Estava a fazer-se de morta.

É, exato. Tiveste graça agora. Custa cerca de 1 € e já está em segundo lugar nas aplicações pagas nos Estados Unidos, em Cingapura e também em Hong Kong. É o espelho aqui de uma realidade que tu descrevias há instantes, Bruno, de muito isolamento, de muita gente a viver em profunda solidão, que necessita de uma aplicação para mostrar ao mundo que está viva.

E não será só nessas regiões. Poderá ser bastante útil noutros lugares do mundo, sobretudo, como dizia, nas grandes metrópoles. E nós temos até casos em Portugal, que são relatados, de pessoas cujo cadáver é apenas encontrado meses e até anos depois.

Houve um caso há poucas semanas em Espanha, também.

Sim, nós olhamos para o que está à nossa volta, pessoas que conhecemos, mas nem todas as pessoas têm essas redes familiares.

É verdade.

Eu lembro-me de um caso que aconteceu há uns anos no prédio onde eu vivia, de uma pessoa que morreu, vivia sozinha. Um senhor que não era muito velho, na altura devia ter 50 e poucos. Vivia sozinho, estava com o filho de duas em duas semanas, e ninguém deu pela morte dele só ao fim de dois dias. É que sobre os vizinhos também não tínhamos praticamente contacto com a pessoa. Portanto, não é uma realidade tão estranha que essa aplicação não possa, de facto, ser bastante útil.

Sim, e não só para os mais velhos, pra toda a gente que vive sozinha.

Vive sozinha, exatamente. Nós pensamos em coisas no pior, mas às vezes pode ser alguém que cai e precisa de ajuda.

Exatamente. Mas não deixa de ser estranho.

São os novos tempos.

É os novos tempos.

Nossa nova realidade. Olhe, eu trago aqui uma história que tem sido muito falada na última semana, mas nos últimos meses já vinha a ser bastante falada, era a situação do ator James Van Der Beek, conhecido sobretudo por "Dawson's Creek", série em que ele morreu a 11 de fevereiro de 2026, depois de uma longa batalha contra o cancro colorretal. James Van Der Beek foi publicando nas redes sociais diversas mensagens ao longo do tempo, dando conta também da situação que estava a viver. E agora há uma polêmica, porque um dos seus amigos, foram vários, mas um dos mais conhecidos, Alfonso Ribeiro, que todos nós da nossa geração nos lembramos pela participação no "O Príncipe de Bel-Air", fazia de primo do Will Smith. Mas depois nos Estados Unidos, ele agora é mais conhecido por ter feito parte do júri do programa "Dancing with the Stars". E ele era bastante amigo de James Van Der Beek, é aliás padrinho de um dos filhos do ator que morreu. Publicou nas suas redes sociais uma foto bastante íntima, os dois juntos no leito de morte de James Van Der Beek, uma fotografia tirada pela mulher de Van Der Beek, e isto pouco antes da morte do ator. E ele publicou esta fotografia nas redes sociais dizendo que fez o amigo rir uma última vez, expressou o amor e a profunda amizade que os unia, mas as reações nas redes sociais, como nós sabemos, são sempre contraditórias, tudo é motivo, é pretexto para polêmica.

Ou é tudo ou é nada.

Claro, e aqui é mais um desses casos, houve reações favoráveis que elogiaram o ator pela coragem de partilhar um momento humano, ao mesmo tempo de sofrimento e de consolo Houve outros comentários que destacaram que uma fotografia como essas pode ajudar outras pessoas a compreender melhor a realidade da morte e da perda, mas também houve muitas críticas, alguns a dizer que era desadequada a partilha de uma foto tão íntima, num momento claro de sofrimento e um momento bastante íntimo. Alguns disseram que era uma espécie de invasão de privacidade ou de tentativa de se promover a si mesmo, aproveitando aquela situação. E muitos até se questionaram se isto não era uma daquelas estratégias quase de relações públicas para se divulgar a si mesmo por parte de Alfonso Ribeiro. A verdade é que há aqui vários argumentos a favor da publicação. Claro, que é uma humanização da morte que eu compreendo. E é verdade, nós temos a tendência para afastar tudo aquilo que tem a ver com o sofrimento e com a dor das redes sociais. Mostramos apenas o belo, o melhor. E a verdade é que James Van Der Beek também não escondeu a situação que estava a viver. Não foi alguém que estivesse recluso nestes últimos meses de vida. Ele partilhou a sua situação, falou muitas vezes sobre aquilo que estava a viver, um pouco com filosofia de vida ali à mistura, tudo aquilo que esta situação o fez pensar. Há também a questão de uma homenagem genuína de duas pessoas que eram, de facto, próximas. Alfonso Ribeiro não era alguém que apareceu ali no último momento para tirar uma fotografia e para fazer essa divulgação. De facto, eles tinham uma ligação e a fotografia foi tirada pela mulher de James Van Der Beek.

Portanto, havia ali uma espécie de triplo consentimento.

Sim, não foi alguém que apareceu ali a espreitar no último momento para se promover. E há também aqui a normalização do luto. Parece um clichê, mas a morte faz parte da vida e nós, de facto, em questões de doença e da morte, temos a tendência ao ocultar, sobretudo nesta época de redes sociais. Claro que houve outros argumentos contra a publicação da fotografia. Já falei na violação de intimidade, na exposição da vulnerabilidade, mas aqui, uma vez mais, foi o próprio ator Van Der Beek que se expôs, também tentando alertar para outras situações, pessoas que não têm este tipo de exposição, que vivem a mesma situação. No fundo, normalizar essas situações. Mas nas críticas também houve quem lembrasse os filhos. O ator tinha seis filhos, e a falar no impacto que estas imagens podem ter nos filhos e no resto da família. A verdade é que isto foi feito com o consentimento da família. Havia essa ligação próxima e tudo isto nos faz refletir, pensar e comentar também estas situações de perda, de sofrimento, que é algo que se calhar não estamos assim tão habituados no dia a dia e muito menos nas redes sociais, em que só se procura mostrar o lado melhor das férias, os bons momentos. Faz parte da vida e se calhar é essa a lição que podemos tirar deste caso e desta partilha desta fotografia.