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Está no ar o Não Se Fala de Outra Coisa, aquele momento das manhãs 360 em que destacamos histórias que têm suscitado muita curiosidade nas redes sociais. E eu trago uma história que nos últimos dias tem causado muita perplexidade a muitos internautas. Ainda se usa a palavra internauta ou não?
Internauta. Só pessoas de determinada idade.
Agora é utilizador.
É utilizador.
Utilizador. É isso. Então olha, foi descoberta uma guerra civil no Uganda, no Parque Nacional de Kibale. Depende do nosso conhecimento do ugandês.
Se é do norte ou do sul.
Isso. Muito bem.
Kibali é no norte, Kibale é no sul.
Sotaque do sul. Bom, foi descoberta, sim, descoberta, e envolve chipanzés deste país africano. É uma realidade desconhecida e que foi tornada-
Uma guerra civil entre chipanzés
Uma guerra civil entre, não entre chipanzés, entre seres humanos. Entre seres humanos, isso é banal. Tem séculos. Entre chipanzés. Então, é uma realidade desconhecida que foi agora tornada pública. Os chipanzés são estudados desde 1995, estes em específico. Em 2015, um primatólogo de uma universidade do Texas é coordenador de um estudo.
É alguém que estuda as primas.
É, exatamente. Estava a seguir os machos alfa do cluster central, ou seja, da sub-região central deste parque do Uganda, que se encontraram com os do cluster ocidental e começou aí uma luta entre os dois grupos.
Isso é muita masculinidade tóxica.
É, mas é por aí, porque os chipanzés do cluster ocidental acabaram por fugir e os chipanzés da zona central seguiram-nos numa longa perseguição. A partir daí, os confrontos tornaram-se regulares e a violência endêmica, e em 2018 esta guerra provocou a primeira vítima mortal. E vocês perguntam: "Então, mas por que esta guerra civil primata?" O Bruno já deu aqui uma pista, masculinidade tóxica. É verdade. Os autores deste estudo atribuem a tensão ou o início das tensões à morte de cinco machos adultos em 2014.
Num jogo de futebol, não?
Não, num jogo de futebol, não. Acho que não. Não li o estudo em profundidade. Essa morte desses cinco machos alfas há alterado as dinâmicas de poder, que neste parque tinha três populações divididas entre os tais subclusters. Desatou tudo à pancada. Já houve muitos ataques e, portanto, isto poderá dar pistas. Nós sabemos, nós, seres humanos, também somos-
Não somos muito melhores do que os chipanzés
Não somos muito melhores do que os chipanzés.
Pelo contrário.
Mas analisando as dinâmicas dos primatas, talvez se encontre aqui alguma explicação ou mais explicações para esta nossa, perdoem-me aqui o pessimismo antropológico, esta tendência para andarmos sempre a batatar às coisas.
Mas não é a primeira vez. Eu sou muito fã da Jane Goodall, tenho visto muitos documentários.
Eu percebi que ias dizer, sou muito antiga.
Eu também. E ela ficou muito chocada a primeira vez que viu o seu grupo de chipanzés perceber como houve uma vez uma luta violenta entre dois grupos, sem nenhuma razão aparente, e que fez cair um pouco aquele mito de que eram os primatas pacifistas. E afinal, isto corre-nos no ADN.
Afinal, isto tem tudo para correr mal.
Tem tudo para correr mal.
Eu acho que isto se resolve com umas eleições supervisionadas pela ONU.
Ou com as Nações Unidas.
Um envio de primatas da ONU.
Ou não. Há aqui uma fatalidade qualquer.
Bem, vamos passar para outro assunto. Vamos falar de literatura. Ou quase.
Ou quase.
Ou quase.
Então.
Freida McFadden é talvez a autora mais popular dos últimos 10 anos. Em Portugal é das mais vendidas. Vendeu cerca de 400 mil livros em Portugal, só o seu livro mais famoso, "A Criada", acho que toda mundo já conhece. Há agora uma adaptação cinematográfica. Vem aí, acho que uma sequela de "A Criada".
É também da série, inspirou a série ou não? Há uma série.
Há uma série.
Mas eu não sei se estamos a falar da mesma coisa.
Eu acho que é um filme. Neste caso, é um filme.
Há uma série também que eu não vi.
Pois, eu também não. Peço desculpa. Bem, mas qual é a razão da notícia? É que Freida McFadden cansou-se de esconder a sua verdadeira identidade.
Opá, saiu do armário.
É verdade, saiu do armário, apresentou-se ao mundo. Ela deu uma entrevista à estação televisiva USA Today e contou que até esta passada quinta-feira vivia sob pseudônimo para separar a sua vida profissional, quer dizer, as suas duas vidas profissionais, porque acaba por ser também profissional da escrita. Mas ela é médica, é uma médica especializada em lesões cerebrais. Não é verdade? E, portanto, a escrita era o seu hobby, mas eu acho que em breve deixará de ser, não sei. Digo eu, provavelmente, para encontrar o equilíbrio, vai continuar a exercer a sua função de médica. Mas com o receio de que alguns dos seus pacientes achassem a sua vida dupla algo estranha, Freida McFadden aparecia em eventos oficiais, como escritora, disfarçada com uma peruca. Ela usava uma peruca. Não sei se os pacientes não a reconheceriam, mas ela usava uma peruca para que não a reconhecessem. Os óculos são mesmo dela, usa-os no dia a dia Podia ter tirado os óculos, não sei.
São uns óculos retangulares da armadura.
Um pouco como o Clark Kent. Tira os óculos e de repente já ninguém o reconhece como Super-Homem. E disse que chegou a um ponto da sua carreira, muito bem-sucedida nas letras, em que estava cansada de alimentar, de guardar este segredo. E então resolveu esclarecer todas as dúvidas e apresentar-se ao mundo.
Pôr tudo em pratos limpos.
Elena Ferrante, faz o mesmo, por favor.
Duvido.
Eu sei que eu tinha muita curiosidade em conhecê-la.
Tu e muito mais gente. Grande polêmica que houve aqui há uns anos, na discussão sobre se a Elena Ferrante devia ou não revelar a sua verdadeira identidade, porque havia também rumores de que não seria uma escritora, mas um escritor ou mais do que um escritor. O mesmo acontecendo com Freida McFadden. Ela disse, para justificar o ter revelado a sua verdadeira identidade, que não era três homens.
Havia esse rumor?
Havia também esse rumor, que seriam três homens.
Claro.
Como não?
Senão não haveria um homem no meio do sucesso.
Isso até tem uma explicação, porque houve um grande prêmio literário em Espanha aqui há dois ou três anos, que foi atribuído a uma autora de thrillers, que depois se veio a descobrir que eram três homens. E então talvez tenha sido por isso também que Freida McFadden tenha avançado e revelado a sua verdadeira identidade. Ela acrescentou que: "Embora não tenha revelado o meu nome até agora, sinto que partilhei o meu verdadeiro eu o tempo todo." Ou seja, ela considerou que estava a enganar. Aquilo era mesmo uma forma de proteger um pouco a sua atividade como médica e também não criar alguma estranheza junto dos seus pacientes. Junto dos seus fãs, creio que não seria muito estranho, porque a história de pseudônimos na literatura não começou agora e também não vai acabar agora.
Só em relação a "A Criada", é uma minissérie da Netflix e não tem nada a ver com o livro.
Ok, muito bem. O filme, sim. Portanto, "A Criada" pôs tudo em pratos limpos.
Em pratos limpos.