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Não se fala de outra coisa. Não sei se já se cruzaram nas redes sociais com as novelas com frutas e vegetais, que estão a acumular milhões de visualizações.
Já sei que estou a perder alguma coisa.
Eu já ia depois passar para isso.
Não faço ideia do que estás a falar, mas ainda bem que trazeste esse assunto.
Também não.
Pois.
E acho que não estou a perder nada. Até devo não estar a perder nada.
Novelas, reality shows e séries. O TikTok está a ser inundado por este novo tipo de entretenimento, que tem como protagonistas um abacate, um morango, uma banana, uma pera, geradas, claro, por inteligência artificial. E são só algumas das principais personagens nos enredos, que estão a ser muito criticados, porque estas mini histórias têm quase sempre como base relacionamentos tóxicos, até discursos preconceituosos. O problema é que atualmente são milhões os espectadores que estão viciados em saber o que vai acontecer no episódio seguinte. Nestas novelas, as personagens Moranguete, o Abacatudo e o Zé Nora. Eles traem, eles discutem, eles choram, protagonizam assim reviravoltas chocantes como em qualquer novela, mas aqui a um nível ainda mais radical. Os vídeos são, lá está, por norma, curtos, com menos de um minuto, são narrados por vozes, também elas geradas por inteligência artificial, editados com uma banda sonora que cria suspense, tudo para agarrar o espectador. É um formato que nasceu nos Estados Unidos, inspirado nos reality shows. Os especialistas, claro, dizem que é preciso ter atenção ao consumo destes conteúdos, porque podem influenciar a forma como são vistas as relações e os comportamentos sociais, sobretudo entre os mais jovens, porque a exposição repetida a narrativas marcadas por conflito, traição, dramatização, podem ser interpretadas como a parte natural nas relações. E também aqui volta a entrar na discussão o termo brain rot, que traduzido à letra significa podridão cerebral, a designação oficial para esta nova vaga de conteúdos digitais de baixa qualidade intelectual, extremamente repetitivos, absurdos, hiperestimulantes, que têm só um objetivo, que é fazer com que a pessoa passe o tempo todo agarrada ao telemóvel. Há pouco falava com a nossa produtora Beatriz Canato, que dizia que não percebe como é que isto ganhou esta dimensão, mas que é um facto que está tudo agarrado a isto e que passam horas a fazer scroll para ver o que vai acontecer no episódio seguinte. Portanto, lá por casa, ainda não ouviram falar sobre isto?
A história continua.
Mas isso deve ser profissional, também.
Sim, e está em todo lado.
Meu Deus!
Sim, a malta está agarrada. Está viciante.
A paralisia.
Vou indagar lá em casa se já ouviram falar destas coisas. Nós, muitas vezes, nós pais- E vemos frutinhas e passa-se da frente. De cada tempo é que o pessoal fala.
Só percebemos o que é que se está a passar quando a Maria João traz.
Os nossos colegas estavam curiosos para ouvir como é que nós íamos debater este tema.
Como velhinhos que somos.
"No meu tempo não era assim."
Larguem o telemóvel.
Beatriz, quem é o teu personagem favorito? Diz aí ao ouvido que eu repito aqui. É o Moranguete.
Espera aí que eu acho que já-
E a Beatriz Félix também tem um preferido, a nossa jornalista. É o mesmo, Moranguete.
Agora que assim constata, que eu acho que já ouvi falar disso.
Peço desculpa não ter dito Moranguete.
Moranguete.
Ainda não apanhei isso.
Mas também alguns. Deve haver por lá uns brócolos e uns alhos franceses. Num certo sentido, isto está ligado com a tua história, não está?
Está?
Não, Bruno. Não sei.
Não sei.
Tem a ver com as mensagens que se passam e a forma como podem chegar.
E tem muito que ver com a repercussão de certos temas também nas redes sociais, que é onde se passa a maior parte das coisas. Voltamos ao caso das declarações de Cristina Ferreira, no programa "2 às 10", que geraram muita controvérsia.
Entrou a normalização destas e algumas ideias.
Claro, sim, foi acusada disso, Cristina Ferreira, de desvalorizar o caso, mas também houve muitas reações de indignação, quer de figuras públicas, quer do público em geral, em relação aos comentários de Cristina Ferreira. Claro que também, ao mesmo tempo, depois estas fronteiras são sempre muito ténues, passa-se depois para um outro nível de ataques pessoais, e Cristina Ferreira fez esse comentário, essa reação.
É uma vaga contra a Cristina Ferreira.
Chega uma altura em que já se perde de vista o que está em causa e o assunto passa a ser não a discussão daquele tema, que é um tema grave, e as declarações também têm a sua gravidade, mas o assunto passa a ser aquela pessoa, Cristina Ferreira, figura pública, e menos o conteúdo destas declarações e o tema em si. A reação pública, de facto, foi intensa. Muitos espetadores e figuras públicas que consideraram os comentários de Cristina Ferreira uma desvalorização, uma relativização da gravidade do caso e, de alguma forma também, culpar a vítima por aquilo que aconteceu, discussão sobre o conceito de consentimento, que devia ser claro para todos, o não é não, só há consentimento quando há um sim. E ainda por cima, naquele contexto, estamos a falar do caso que envolveu uma menor e quatro rapazes. Não estamos a falar propriamente aqui até de uma relação de equilíbrio. E por tudo isso, também foram apresentadas à Entidade Reguladora para a Comunicação Social cerca de 3300 queixas, pelo menos até ontem era esse o número. E a ERC abriu um processo de análise ao caso. Vamos ver também o que é que sai daqui. Os pais da menor envolvida neste caso também avançaram com uma queixa contra Cristina Ferreira, admitindo mesmo uma possível queixa-crime por considerarem os comentários preconceituosos e prejudiciais, claro, também para a filha envolvida neste caso. Cristina Ferreira respondeu, isto já depois de um comunicado oficial da TVI, que também foi alvo de muitas críticas. Mas Cristina Ferreira, que tinha bloqueado a possibilidade de comentários nas suas redes sociais, publicou uma story no Instagram a dar conta da sua posição, a dizer que nunca quis justificar o crime, que as palavras foram de alguma forma retiradas do contexto e que aquilo que estava a fazer não era, no fundo, a dar a sua opinião, mas a levantar a discussão. E diz que muitas destas reações, em relação aos seus comentários, são exercícios de puro ódio pessoal, dirigidos não só a si, mas também à TVI. Este caso vai continuar a ter desenvolvimentos, como dissemos, a ERC abriu aqui um processo, há muitas queixas. Vamos ver também o que é que dará esta queixa dos pais em relação à Cristina Ferreira. Muita pressão pública, de facto, sobre a apresentadora e o canal televisivo, e também aqui poderá haver potenciais consequências legais. É um assunto que, de facto, não tem saído da ordem do dia.