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Paulo, não se fala de outra coisa.

Não se fala de outra coisa, pelo menos do assunto grande, porque este é lateral. Estamos aqui a falar de US$ 760 milhões.

Isto é lateral.

É muito lateral, são peanuts. E foi este o valor de uma aposta nos mercados, que está novamente a levantar questões incômodas sobre quem sabe o quê, quando é que se sabe, nos corredores do poder global, sobretudo, estamos aqui a falar concretamente da evolução do conflito no Irão e da tomada daquelas decisões, ou do anúncio daquelas grandes decisões, como a abertura ou fecho do Estreito de Hormuz, ou um cessar-fogo, no fundo, tudo aquilo que indicie fortemente que as hostilidades ou vão continuar ou vão parar. Por quê? Porque isso tem influência nos mercados, fortíssima, como sabemos. E o fato de saber destas informações minutos antes de elas serem tornadas públicas, permite ganhar, ou não, muitos milhões. Imagine-se que se tem 20 minutos, neste caso, para ganhar aquilo que pode ser uma fortuna. Vinte minutos antes do mundo inteiro saber que o Estreito de Hormuz vai ser reaberto pelo Irão, enquanto a diplomacia internacional ainda acertava os últimos detalhes nos bastidores para o anúncio desta reabertura, havia certamente um grupo restrito de investidores que já estava a carregar no gatilho, isto é, estava a fazer apostas no sentido de fazerem investimentos, e apostaram tudo, neste caso, destes investidores, na queda do preço do petróleo, o que se veio a verificar. Naturalmente, toda gente sabia que ia acontecer isso quando fosse anunciada a reabertura do estreito. E quando a notícia saiu, o mercado, de fato, caiu. E este movimento, chamado de venda a descoberto, short selling, no fundo, é vender um produto, neste caso, petróleo, que não se tem. Isto é, nós não precisamos de ter um milhão de barris para os vender. Estamos a vendê-los já, a entrega é posterior. Temos é que os comprar no mercado antes de os entregar a quem os comprou. E joga-se precisamente com a baixa, isto é, nós estamos a vender agora por 100, sabendo nós, ou adivinhando nós, que o preço do petróleo vai cair, estamos a vender agora por 100. Entre a venda e o momento da entrega, vamos comprar por 90 depois e estamos a ganhar 10, mesmo sem ter nenhum petróleo à partida. Foi isso que aconteceu. Não é a primeira vez que acontece, está a ser investigado pelas autoridades, obviamente. Aqui há suspeitas de inside trading, isto é, de negócio com base em informação privilegiada. Isto é punido e é crime na maior parte dos mercados de capitais. Está a ser investigado, obviamente. Agora vamos ver se se consegue chegar à identidade das pessoas que deram as ordens e ganharam. E depois provar aqui o nexo de causalidade entre aquela ordem de investimento e o conhecimento prévio que se tinha daquilo que ia acontecer. Mas diríamos que ali à volta de Donald Trump deverá haver pessoas nas últimas semanas e meses a ganhar muito dinheiro.

São pessoas muito bem informadas, certamente.

Muito bem.

E certamente que se lembram do filme "RoboCop"?

Um dos meus preferidos.

1987.

87?

87.

O "RoboCop 1" e depois o "RoboCop 2".

E tem o três também.

Há o três, sim, senhor. E uma série de desenhos animados, o "RoboCop". O "RoboCop" é um dos meus filmes preferidos.

Tu entras num restaurante, sacas um copo da mesa e fazes assim.

Qual é o filme?

Eu já sabia que ia dar nisso. Desculpa.

É, sabes que eu sei. Há coisas que não mudam. Tu podes ir, podes voltar, e está sempre tudo na mesma.

Já sabia. É o filme que, se bem se lembram, um polícia morto em combate é transformado num ciborgue ultrassofisticado por cientistas da empresa que controla a polícia de Detroit. Está em 87 no filme, mas a China parece querer adotar mais ou menos este modelo. O país quer um novo modelo de repressão estatal com recurso a um conjunto de máquinas autônomas, isto para conter distúrbios urbanos sem a necessidade de um único polícia humano, digamos assim.

Mas os chineses são tantos e ainda precisam de robôs para estas tarefas. Mas ainda vamos falar de robôs hoje, na China.

Não fui ver. Não sabia. Esta é a conclusão de um estudo publicado numa revista científica que incluiu também a Universidade de Engenharia da Polícia Armada Popular, nem sequer sabia que isto existia. E isto representa uma rutura completa com a tradição desta polícia, que historicamente teve como prioridade o trabalho em equipe entre humanos e máquinas. Já juntava aqui as máquinas, mas sempre em trabalho de equipe. Os especialistas em segurança consultados por um jornal de Hong Kong alertam, no entanto, que há dois obstáculos nisto. Primeiro, a vulnerabilidade técnica de uma rede centralizada, que pode se achar vulnerável a ataques de hackers ou de uma guerra cibernética e, portanto, poder haver alguém externo que controle estas máquinas. E segundo, o problema ético do reconhecimento de alvos, porque tudo isto é baseado em inteligência artificial, que não consegue distinguir com segurança alguém que está a instigar uma manifestação ou um espectador que está assustado com uma manifestação, com alguma violência que possa acontecer e, portanto, poderia levar as máquinas a atacar civis inocentes. O certo é que a base tecnológica deste plano já está a ser testada nas ruas da China, áreas comerciais em que uma empresa está a testar um robô polícia que tem 125 quilos e é capaz de perseguir criminosos em alta velocidade, apesar de ter 125 quilos, mas é um robô. É uma máquina que utiliza gás lacrimogêneo, bombas de fumo, sirenes de alta potência, destrutivos acústicos, enfim.

Não pode disparar e matar, não é?

Exatamente. A diferença aqui é que este robô ainda faz a patrulha ao lado de polícias humanos.

Para já.

Para já. Noutras cidades, já foi implementado um polícia humanoide que opera 24 horas por dia, sete dias por semana, a controlar o trânsito, a levantar o braço, a apitar, até a repreender verbalmente as pessoas que não passam na passadeira. Aqui já é mais a tecnologia a funcionar, mas é só mesmo para controlar o trânsito. O certo é que um responsável de um ministério chinês explicou ao New York Times que estes sistemas vão reduzir o patrulhamento nas ruas e podem ser treinados para identificar objetos, como faixas de protesto. As empresas estão a colaborar com o governo chinês, por exemplo, para implementar tecnologia que reconheça voz e que entenda mais de 200 dialetos locais para fins de segurança nacional. Tudo isto, claro, com a ajuda de ferramentas de inteligência artificial, com um sistema que também lança alertas precoces que permitem que a polícia recalibre rapidamente o efetivo na zona e que reforce o patrulhamento se houver ali um risco que possa ser previamente determinado pela inteligência artificial.