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É hora de mais um "Não se Fala de Outra Coisa" e hoje é incontornável. Está em todos os jornais, redes sociais, sites, a morte de Francisco Pinto Balsemão, fundador e militante nº 1 do PSD, dono do grupo Impresa, defensor da liberdade de expressão. Lançou o semanário Expresso ainda antes do 25 de Abril. Nos anos 90, lança o primeiro canal de televisão independente. É inegável a marca que deixa na história do país. Carla, tu trabalhaste com ele, eu também, mas foi pouco tempo. Tu estiveste uma maioria de idade.

Estive mais tempo. Foram 18 anos na SIC Notícias. Sim, tenho algumas histórias com Francisco Pinto Balsemão, não as suficientes, porque ele gostava desta ideia de que alguém que não é jornalista não entra na redação. E eu acho que quando se fala de um homem que prezava a liberdade e independência, é preciso dizer isto, e isto é uma história que mostra bem o que isto significa na prática. Francisco Pinto Balsemão entendia que não devia estar na redação, que é o local dos jornalistas e não o local dos gestores e dos empresários. Com uma única exceção que ele tinha todos os anos: ele entrava na redação na SIC no dia 25 de dezembro para trazer um bolo rei. Um bolo, que não era um, era vários, porque era para todos. Mas era isto que Francisco Pinto Balsemão fazia todos os dias de Natal, normalmente, ali a seguir ao almoço, final da tarde. O bolo rei era de uma conhecidíssima pastelaria do Estoril, era o melhor que ele conseguia encontrar.

É muito bom.

Cumprimentava todas as pessoas, uma a uma, esperava, nomeadamente com a SIC Notícias, quando havia um noticiário no ar, esperava que o noticiário terminasse para que todas as pessoas que faziam o jornal, são muitas, são as que estão no estúdio e as que estão na regie, pudessem sair e pudéssemos todos fazer uma fotografia de família. Portanto, há uma fotografia de família todos os anos.

Isso era todos os anos assim.

Era todos os anos assim, que ele fazia. É só um pequeno detalhe, mas mostra. Tenho algumas histórias, se calhar, mais engraçadas ou outras nem tanto, mas que mostra o que era esta pessoa. Um dia, estava de férias, foi há alguns anos, ainda não havia WhatsApp, e recebi um e-mail de Francisco Pinto Balsemão. O que é que dizia o e-mail? Ele tinha estado a jantar num restaurante em Cascais. Eu creio que ele nem dizia o nome do restaurante, mas um restaurante ali na Boca do Inferno, e contou-me que um dos funcionários do restaurante se dirigiu a ele a dizer-lhe que tinha sido meu colega na escola, mas assim primário. E esse meu ex-colega me mandava beijos, cumprimentos, e ele mandou um e-mail a passar-me essa informação. Vocês imaginam? É mesmo fantástico. Outro detalhe, mais trágico, mas que nunca esquecerei, num momento muito difícil da minha vida, duríssimo, com uma questão de saúde com um familiar muito próximo, ele telefonou-me só pra me apoiar.

Só pra saber, claro.

Só pra me apoiar, pra dizer que estava a pensar.

Isso diz muito da pessoa.

E isto coincide, atenção, só pra termos o detalhe, isto coincide numa altura em que a jornalista da SIC, Maria João Ruela, tinha sido baleada no Iraque. Aí havia uma responsabilidade grande, imagino que a preocupação dele fosse... O meu caso era um caso familiar, e ele mesmo assim, imagino que estivesse preocupadíssimo com a Maria João Ruela, telefonou-me só para dizer que estava também a pensar nela.

Mostrava que era atento e que sabia aquilo que se passava com as pessoas.

Numa empresa muito grande.

Com tantas pessoas.

Com familiares, claro. E que sabia o que se passava com cada um.

Exatamente.

E esses relatos têm se sucedido, quer haja uns de índole não tão pessoal, às vezes pequenos pormenores de visitas também à redação. E esse lado, esse conhecimento por parte dos jornalistas e esses relatos são mais importantes, às vezes, do que se possa falar em ponto grande. Nós temos a tendência a falar.

Dá cor àquilo.

E empresta credibilidade, porque uma coisa é nós falarmos o grande homem da liberdade de imprensa, o grande empresário, e isso é tudo muito macro. E às vezes é nas pequenas histórias que se revela, de facto, a natureza das lideranças também, não só a natureza, o caráter, mas a natureza das lideranças, a forma como se é líder. E essas histórias, como as que contaste aqui, também contribuem mesmo pra isso.