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Não se fala de outra coisa, de um professor universitário francês que conseguiu enganar meio mundo, a comunidade acadêmica, durante anos, depois de criar um prêmio falso e de o atribuir a si próprio. A história parece mesmo saída de um filme. O homem chama-se Florent Montardet, tem 56 anos, era professor de Ciências da Linguagem numa universidade francesa, onde trabalhava há mais de duas décadas, até que decidiu inventar uma espécie de Nobel da Filologia. Criou uma associação internacional completamente fictícia, com nome suficientemente credível para parecer real. Montou sites, anúncios, cerimônias e até uma medalha dourada. E do que ninguém estava à espera é que ele desse o prêmio a si mesmo.

Ficou surpreendido.

Ficou, agradeceu à mãe e ao pai.

A gente não estava nada à espera.

O mais impressionante é que esta encenação toda funcionou durante anos. Ele começou a apresentar a distinção no currículo, em conferências, em apresentações públicas, como se tivesse recebido um reconhecimento acadêmico internacional de enorme prestígio, mas não ficou por aí. Há cerca de 10 anos, organizou uma cerimônia em Paris, na Assembleia Nacional Francesa, com convidados importantes, antigos ministros, acadêmicos, até laureados com o Prêmio Nobel. Ou seja, durante anos ninguém desconfiou. O problema surgiu quando jornalistas, colegas universitários começaram a tentar perceber melhor de onde vinha este misterioso prêmio de Filologia.

Invejosos.

E de que ninguém nas universidades de Oxford ou Sorbonne alguma vez tinha ouvido falar. Foi aí que a história começou a cair. As investigações revelaram que não existia qualquer associação, não existia júri, não existiam fundos. Basicamente, todo o prêmio tinha sido, de fato, criado do zero pelo professor. As autoridades francesas estão agora a investigar outros possíveis crimes, inclusive um alegado doutoramento obtido nos Estados Unidos, porque desconfiam que nem a universidade onde ele tirou o doutoramento exista. Entretanto, claro, foi expulso da universidade. Se tudo isto parece real, ainda há mais. É que quando foi pedido, isso com muita moral, não houve falsificação nenhuma, porque a versão real nunca existiu.

Claro.

Portanto, se não houve versão real, não foi falsificada.

Se o prêmio não existe, não pode ser falsamente atribuído.

Não é falsidade.

Se ele dissesse assim: "Eu ganhei o Prêmio Nobel", aí, sim, seria uma falsificação.

Não, mas foi este prêmio de Filologia que ele próprio criou. Alguém criou o Nobel também. Neste caso, criou o de Filologia.

Tem razão.

E as coisas têm que começar de alguma forma. E é sempre do zero, portanto, o empreendedor. Parece que basta um nome pomposo, um site convincente e as coisas podem durar anos e anos.

Experimentar.

E no meio dos acadêmicos e de Nobel. Enfim, impressionante esta história.

Não é esse nível. Lembrei-me daquele consultor do FMI que no tempo da troika veio cá.

Lembro-me sempre. Deu uma entrevista bombástica.

É verdade. Artur Batista da Silva?

ABC, se não me engano, não era? ABS? Artur Batista da Silva.

Eu acho que era Batista da Silva.

Talvez. E era muito convincente. Ou nós queríamos muito acreditar.

Vamos lá ver. Todos os dias saem notícias de burlas que parecem muito simples, mas enganam muita gente.

Exato. E às vezes o segredo está na simplicidade.

Exato.

E aconteceu. Estávamos aqui há pouco a falar do Festival da Canção e como no meio de tudo há uma cançãozita, no Festival de Cannes, no meio de tudo, também passam uns filmes. O festival começou agora dia 12, há dois dias, é a edição 79, e já está marcado pela polêmica que já tinha marcado o Festival de Berlim e pelas mesmas razões do Festival da Canção, sobre as críticas a uma suposta indiferença face à guerra no Médio Oriente, concretamente em Gaza. Na apresentação do festival, o júri foi confrontado com muitas perguntas sobre a relação entre o cinema e a política e se uma coisa pode viver sem a outra, se vivem em separado. O presidente do júri tentou mesmo ir por aí, dizer que uma obra com mensagem política sem arte é apenas propaganda e, portanto, as coisas não podem ser separadas, mas têm que ser vistas numa lente mais abrangente. Um outro membro do júri, que é um habitual colaborador do britânico Ken Loach e muito mais político, aproveitou a conferência de imprensa para ser muito mais crítico. Diz que vimos tanta violência sistemática, o genocídio em Gaza, todos os conflitos horríveis, e recordou mesmo uma série de atores norte-americanos que ficaram um pouco cancelados de Hollywood por se manifestarem a favor ou contra Israel, como o caso de Javier Bardem ou Susan Sarandon, e diz que é uma vergonha para Hollywood. Ora bem, estes primeiros dias do Festival de Cannes estão a ser muito marcados por isto e por uma outra polêmica também muito fraturante, se olharmos para as notícias na imprensa, e que tem a ver com os braços de Demi Moore. Há quem ache extraordinária ou magérrima. Isto está em todo lado.

Eu ontem estava a ver as imagens e fiquei pasmo.

Muito magra, não é?

Está muito magra. Pode estar a fazer um papel, não sabemos, na verdade, mas de facto está muito magra.

Está muito magra. Ela estava com um vestido em que estava com os braços muito visíveis. Ela tem 63 anos, podemos dizer sim, está em ótima forma.

Ótima forma, 63 anos. E a Joan Collins, com 92. Muita gente já nem sabia que Joan Collins ainda estava viva.

É verdade.

Mas numa forma esplendorosa para alguém com 92 anos, fez declarações. A conhecida Alexis Carrington, de Dinastia, também escritora, colunista, está numa forma, de facto, esplendorosa.

Esplendorosa mesmo.

Inacreditável. E diz que detesta agulhas, que nunca usou Botox no rosto. Mas fiquei agradavelmente surpreendido com Joan Collins, uma lenda da televisão e do cinema.

É mesmo. Portanto, é para acompanhar o Festival de Cannes até ao dia 23 de maio.