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Bem-vindo ao Nota 20, programa da Rádio Observador, em parceria com a Iniciativa Educação. Viva, professor Nuno Crato.

Viva.

Professor, hoje vamos falar sobre profissões do futuro, mas primeiro vamos olhar para o resultado do inquérito on-line. A pergunta que fizemos aos nossos ouvintes no Twitter foi a seguinte: as profissões vão mudar radicalmente na próxima década? Opção A: sim, com novas profissões. Opção B: vão extinguir-se profissões. Professor, os votantes aqui nesta matéria ficaram bastante divididos, que é o chamado fifty-fifty.

Olhe, eu também estou bastante dividido, porque é muito difícil prever o que vai acontecer. Que algumas coisas vão mudar, sim. Eu duvido que radicalmente seja o adjetivo apropriado. Vão mudar bastante e não sei o que é que vai acontecer, se são mais profissões novas, se são profissões que se extinguem. Mas é para isso que temos aqui um convidado que é um especialista em economia do trabalho.

Nem mais. É o Pedro Martins, que é investigador nas áreas da economia do trabalho e da educação. Ele é o convidado do Nota 20 desta semana. É professor de Economia na Universidade de Londres. O pai era advogado na área do direito do trabalho, mas como o Pedro tinha um perfil mais quantitativo, acabou por seguir o caminho da economia. Pedro Martins, bem-vindo ao Nota 20.

Obrigado, boa tarde.

Pedro, vivemos em permanente mudança, mas há uma realidade nova no mundo do trabalho que se impôs, que é o teletrabalho. É uma realidade que veio para ficar?

Eu penso que sim. Eu penso que esta situação obrigou muitas empresas a experimentar o teletrabalho. Se calhar tinham outras experiências no passado, que poderão não ter corrido muito bem. Agora, o enquadramento foi diferente. As experiências foram mais alargadas e penso que muitas empresas estão contentes com os resultados desta experiência. E nesse sentido, quando a pandemia chegar ao seu termo, penso que muitas empresas irão continuar com alguma forma de teletrabalho. Aliás, foi feito um inquérito recentemente a cerca de 5 mil empresas e chegaram à conclusão, nesse estudo, que cerca de um quarto das empresas iria continuar com o teletrabalho, pelo menos envolvendo alguns trabalhadores. Portanto, é uma indicação forte de que o teletrabalho está para ficar.

E que profissões é que vão passar a ser executadas em regime de teletrabalho ou em permanente regime de teletrabalho? Sabemos isso?

Ainda é um pouco difícil dizer. Em todo o caso, se analisarmos os perfis das profissões, vemos que algumas claramente terão poucas perspectivas em termos de teletrabalho. Eu fiz uma pequena análise que indica que cerca de 10% dos trabalhadores podem perfeitamente desempenhar as suas profissões com o teletrabalho. No entanto, cerca de 70% dos trabalhadores têm profissões atualmente que não são compatíveis com o teletrabalho. Portanto, haverá aqui alguns desafios, mas eu penso que a tendência claramente é no sentido do alargamento da utilização do teletrabalho em Portugal.

E o que é que vai acontecer às profissões que terão de continuar a ser exercidas em regime presencial? Continua tudo na mesma como antigamente?

Eu penso que em grande medida, sim, com alguns ajustamentos relacionados com as diferentes preferências dos próprios trabalhadores. Que quem, por exemplo, esteja numa situação de escolher a sua profissão pela primeira vez ou numa sequência de um percurso envolvendo desemprego, vai possivelmente cada vez querer direcionar-se para profissões diferentes, em que haja um maior potencial de teletrabalho. Neste sentido, talvez de uma forma gradual, iremos ver também por aí um crescimento das profissões em que o teletrabalho pode ser executado com maior facilidade.

Quando falamos em teletrabalho, estamos a falar exatamente em quê? Em completo teletrabalho ou, digamos, 90% de teletrabalho, 10% presencial, algum misto nesse sentido?

Eu penso que sim, até porque grande parte das empresas irão, e já estão a experimentar, uma forma mais gradual, envolvendo, por exemplo, um dia de teletrabalho por semana, dois dias de teletrabalho por semana. Eu penso que o teletrabalho a que iremos assistir a partir de agora será cada vez mais desse tipo. Por outro lado, também sabemos outras tendências, por exemplo, a emergência da chamada economia da plataforma, em que os trabalhadores relacionam-se com empresas e com utilizadores através de plataformas de internet, em que aí haverá um potencial mais alargado para um teletrabalho completo, em que a pessoa está em sua casa ou noutro espaço a programar para empresas que estão noutra parte do mundo e haverá realmente um maior potencial para um teletrabalho mais intenso. Em termos mais genéricos, eu penso que poderemos direcionar-nos para um modelo em que uma parte significativa dos trabalhadores passarão um a dois dias em casa em teletrabalho.

Vamos sair deste capítulo do teletrabalho e do trabalho presencial para as profissões em geral. Antever quais são as profissões do futuro é um exercício especulativo, mas é possível identificar as grandes tendências de como é que será exercido o trabalho no futuro?

Que é isso, no fundo, aquilo que interessa aos jovens. Nós estamos aqui a tentar trazer problemas que interessam aos jovens para a sua escolha de profissões, para aquilo que querem fazer no futuro, para os estudos que têm que fazer. E é evidente que perante esta grande incógnita, os jovens gostariam de se sentir um pouquinho mais seguros.

Sem dúvida. Eu acho que, por um lado, há três ou quatro macrotendências que já tinham sido identificadas antes da pandemia e que continuam a fazer todo o sentido e que vão influenciar os desenvolvimentos ao nível do mercado de trabalho. Tendências como automação, inteligência artificial, o envelhecimento, a chamada economia da plataforma, que falamos há pouco, todas essas tendências vão influenciar os perfis das profissões, não só em termos de emergência de novas profissões, como também mudança dos conteúdos dessas mesmas profissões, nomeadamente as profissões que vão continuar a existir nos próximos anos. Depois há uma outra dimensão que eu também acho que é importante sublinhar, que tem a ver com o desenvolvimento dos sistemas de informação do mercado de trabalho. Isto é, utilizar a informação que já existe sobre as profissões que já estão em funcionamento e conseguir proporcionar informação mais detalhada sobre quais são as profissões em concreto que estão a crescer mais, quais são as profissões que estão a oferecer salários mais generosos e, por outro lado, também quais são as profissões que estão em declínio, tanto em termos do seu número, como também em termos das condições de trabalho que oferecem. Esse é um trabalho interessante a ser desenvolvido pelas organizações na esfera pública, como também outro tipo de organizações, no sentido de coligir a informação disponível e proporcionar a informação mais diretamente utilizável, nomeadamente aos jovens, nas suas decisões quanto às suas profissões do futuro.

Isso significa o quê? Ter uma espécie de um website onde um jovem de 16, 17, 18 anos pode consultar se a sua profissão está a ter procura ou se aquilo que ele estuda está a ter procura pelo mercado e se é remunerado, de que forma? É isso?

Eu penso que sim, penso que a ideia é importante e haverá condições para avançar nesse sentido. Não só para os jovens de 17, 18 anos, como estava a dizer, como mesmo para os jovens, por exemplo, uns 13, 14 e 15 anos, nomeadamente aqueles que possam estar a considerar um percurso ao nível do ensino profissional.

Para fazer uma escolha mais consciente, é isso?

Exatamente. Sabendo quais são as alternativas, aquilo que é oferecido em termos das escolas da sua região e depois quais são as perspectivas do mercado de trabalho que podem resultar dessas escolhas. Eu penso que os jovens preocupam-se cada vez mais com esses aspetos, querem profissões que lhes deem boas perspetivas e olhar para aquilo que tem acontecido nos últimos anos será talvez a melhor forma de poder projetar o futuro, sendo certo, como agora estamos a ver, pode haver alterações importantes que também terão que ser tidas em consideração.

Pedro Martins, esse tal sistema de informação do mercado de trabalho de que falava poderá ser o pequeno empurrão que falta para o ensino profissional crescer em Portugal?

O ensino profissional tem sido objetivo de alguma prioridade em termos das políticas públicas. Tenho nota que tem talvez caído um pouco nos últimos anos, mas penso que desempenha realmente um papel muito importante no país. Há vários estudos que indicam que jovens com cursos profissionais têm ótimas perspetivas no mercado de trabalho e penso que é importante valorizar o papel que a maior proximidade com as empresas pode ter em termos de assegurar que as profissões também tenham boas perspetivas. A escola, obviamente, é fundamental e é incontornável nesse processo, mas um papel das empresas nesse processo também penso que é muito relevante. E os cursos profissionais são uma forma de assegurar essa maior ligação ao mercado de trabalho.

Professor Nuno Crato, não sei se quer acrescentar algum ponto.

Não, eu acho que isto é muito interessante. E ouvir o professor Pedro Martins falar sobre isto é muito interessante. Os cursos profissionais, de facto, dão uma empregabilidade mais direta. Aliás, é para isso que são feitos, porque os jovens quando têm 14, 15 anos e quando começam a ter que escolher ou o ensino científico-humanístico ou o ensino profissionalizante, têm esta opção à sua frente, têm que ver: "Bem, se eu for pro ensino científico ou humanístico, que é feito para a entrada na universidade, é uma via de entrada na universidade, eu terei essas perspectivas futuras. Se for para o ensino profissional, terei uma qualificação no fim do ensino obrigatório que me permite entrar diretamente numa profissão". Como é evidente, há vantagens e desvantagens e têm que ser os jovens a decidir por si e, felizmente, é possível passar do ensino profissional para o ensino pós-secundário, os chamados TESP, criados em 2014, que permitem aos jovens depois terem entrada no ensino politécnico, portanto, no ensino superior, e ficar com outra qualificação. Mas há aqui sempre um grande leque de escolhas. Não sei se talvez o professor Pedro Martins nos possa dizer mais alguma coisa sobre isto.

Sim, eu sublinho essa diversidade que os cursos profissionais oferecem. Estamos a falar de 500, 600 profissões diferentes e os cursos profissionais que estão em funcionamento proporcionam precisamente esse encaminhamento para essas diferentes profissões. Agora, se por um lado, os jovens têm informação sobre quais são as escolas, quais são os cursos profissionais em cada uma dessas escolas, ainda há muito pouca informação sobre o que é que se poderá perspetivar na sequência da conclusão desses cursos. E penso que aqui há realmente uma falha ou uma oportunidade, no sentido de dotar os jovens de informação mais detalhada sobre as implicações das suas diferentes escolhas. E quando conseguirmos ultrapassar essa dificuldade, penso que estaremos em condições de assegurar um maior entrosamento entre, por um lado, o sistema de educação E, por outro lado, o mercado de trabalho. Isso é muito importante não só para os próprios jovens, acima de tudo, mas também para as empresas, porque muitas empresas têm dificuldades de recrutamento e parte dessa dificuldade tem a ver precisamente com a inexistência de informação sobre quais são as profissões, se não de futuro, pelo menos as profissões do presente. E essas também são muito importantes.

Era sobre isso. Diga, professor.

Não, eu estava a pensar o seguinte: as profissões do futuro, como o nosso convidado está a dizer, e muito bem, são mais difíceis de prever do que as tendências que existem no presente. Há exemplos célebres. Já agora contava dois ou três exemplos. Por exemplo, em Nova York, no princípio do século XX, as pessoas pensavam e era perfeitamente legítimo, que estando a subir em geral o rendimento das pessoas e a aumentar o número de habitantes, seriam necessários mais cavalos. E sendo necessários mais cavalos, uma profissão de futuro era a profissão de ferreiros. Bem, passados poucos anos, apareceram os automóveis. Portanto, os ferreiros passaram a ser relegados a uma profissão secundária, ligada às corridas de cavalos e coisas desse gênero. Outro exemplo mais recente, muito interessante e que nós conseguimos perceber muito bem, é o exemplo dos táxis. Um alvará, também em Nova York, para um táxi era, há cerca de seis anos, cerca de um milhão de dólares. Ou seja, era um negócio tão lucrativo que uma pessoa estava disposta a pagar um milhão de dólares para ter o alvará de poder utilizar um táxi. Hoje em dia, acho que desceu ou pelo menos no ano passado tinha descido para cerca de um quarto desse valor. Por quê? Porque apareceu a Uber, apareceram todas essas plataformas. São exemplos de coisas que são difíceis de prever a longo prazo. Outras previsões funcionam e, portanto, temos que olhar para como as coisas estão a evoluir.

Professor Pedro Martins, pegando aqui neste argumento da incerteza, que o professor Nuno Crato ilustrou e bem com estes dois exemplos de Nova York, nós sabemos hoje que nos próximos anos, e isto tem sido muito dito por muitos especialistas, vai surgir um sem fim de profissões que nós ainda hoje nem conseguimos sequer antecipar. Para fazer uma entrada mais rápida no mercado de trabalho e para se manterem ativos o maior tempo possível, os jovens devem apostar em que tipo de formação?

Eu penso que depende muito das preferências de cada um. Haverá aqueles que têm boa informação sobre as perspetivas do mercado de trabalho, enfim, por vários, as ligações familiares, e poderão ter aqui uma ideia muito concreta daquilo que se adequa aos seus perfis. Outro tipo de jovens, se calhar, numa situação como a atual, em que o mercado de trabalho está a mudar, em que há alguma imprevisibilidade, talvez faça sentido evitar especializações muito aprofundadas e muito precoces e valorizar mais alguma generalidade, algumas competências transversais ou, por outro lado, também algumas competências básicas nas matemáticas, nas ciências sociais, etc. Acima de tudo, independentemente da direção que cada um preferir, eu penso que em situações como a atual, é sobretudo muito importante tentar ser o melhor possível. E nesse sentido, será esta aposta na qualidade, na excelência, que poderá garantir as melhores perspetivas no mercado de trabalho.

Estudar compensa, não é? Estudar compensa, continua a compensar. Eu julgo que isso é uma mensagem também interessante para os jovens.

Penso que sim. Há vários estudos que analisam a relação entre a escolaridade e as remunerações e todos apontam para vantagens muito significativas da maior escolaridade em termos dos resultados ao nível do mercado de trabalho.

Muito bem. Pedro Martins.

Temos que compensa também muito.

Não percebi, peço desculpa.

Sim, era sublinhar este ponto, que estudar compensa e ser bom naquilo que fazemos também pode trazer proveitos muito grandes.

Com certeza. Professor Pedro Martins, muito obrigado por ter vindo ao Nota 20 desta semana.

Muito obrigado.

Professor Nuno Crato, notas finais sobre o futuro das profissões e sobre o futuro do mercado de trabalho.

É um pouco difícil, porque este é um tema muito rico e mesmo um grande especialista na área, como é o professor Pedro Martins, teve que ser sintético. Eu começaria por esta última ideia, que acho que é uma ideia importante para os jovens, que é: mais escolaridade compensa. Ou seja, aumentar a escolaridade, aumentar os estudos é bom, não só para a remuneração, como também para a flexibilidade que se tem em relação aos empregos futuros. Segundo lugar, falar do profissional, porque o profissional é uma alternativa que se põe a muitos jovens, e muito bem, porque permite um emprego mais direto e mais imediato, é uma qualificação. E que é bom que os jovens pensem que podem seguir essa via, se o quiserem, mas que podem depois perseguir estudos. Portanto, isso não fica fechado. Felizmente, no nosso país, não é uma via fechada como em alguns outros, infelizmente, é. Mas isto são as médias. Agora, as médias escondem a diversidade. E nós sabemos também que há muitos jovens que estudam no ensino superior e não conseguem um emprego, por dificuldades várias e às vezes porque os cursos que estudam não são aqueles com maior empregabilidade. E julgo que aí também é importante perceber-se que certos cursos técnicos têm maior versatilidade, que estudar matemática é algo de importante, etc. E em relação ao profissional, que se pense num profissional adaptado às necessidades. Eu julgo que a melhor maneira de o fazer é pensar: este profissional é desejado pelas empresas ou não? Na escola para onde eu vou, as empresas estão a colaborar com a escola e para que depois a seguir eu tenha estágios ou que tenha mesmo formação em contexto de trabalho já durante o decorrer do próprio profissional, como nós tentamos ajudar no programa Ser Pro. Julgo que são coisas todas que os jovens devem pensar. Enfim, agora estamos num final de ano, mas vem aí outro ano em seguida e há jovens que têm que fazer escolhas.

Muito bem. E o próximo programa é sobre literatura juvenil e o seu impacto no desempenho escolar. Vamos ter conosco Sara de Almeida Leite, professora do Instituto de Educação e Ciências e autora da coleção "O Mundo da Inês". Professor Nuno Crato, estamos quase no fim. Falta a habitual pergunta que deixamos no Twitter. A pergunta é a seguinte: todo tipo de leitura que os jovens fazem tem impacto positivo no seu desempenho acadêmico? Não, nem todas as leituras são boas. Sim, o que importa é ler. Já sabe, a sondagem ou o inquérito fica disponível daqui a minutos na rede social Twitter. Professor Nuno Crato, até para a semana.

Até para a semana. Muito obrigado.