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Bem-vindo ao Nota 20, programa da Rádio Observador, em parceria com a Iniciativa Educação, programa onde a ciência fala com a educação. Olá, professor Nuno Crato.
Ora viva.
Professor, hoje vamos falar sobre um tema que faz muitos alunos roerem as unhas: o medo da matemática, como é que ele pode afetar o desempenho ao longo da vida e bem-estar emocional, e que estratégias se deve adotar para o enfrentar. De resto, a pergunta que colocamos no Twitter era precisamente sobre este assunto. Como se combate a ansiedade na matemática? Havia duas hipóteses de resposta: com mais estudo, que obteve 45% dos votos, gerindo melhor as emoções, 54% dos nossos ouvintes escolheram esta segunda opção, ou seja, gerindo melhor as emoções. Professor, isto mostra o quê, na sua opinião? Estas respostas, evidentemente.
Eu não estou dentro da cabeça das pessoas, mas eu julgo que isso mostra a ideia de que há uma adaptação psicológica, que as coisas são psicológicas. Eu julgo que não, eu julgo que as coisas são essencialmente de conhecimento e que a ansiedade deriva do medo de falhar, e o medo de falhar deriva da falta de confiança nos próprios conhecimentos. Mas enfim, se calhar, alguma combinação das duas, embora esta sondagem não seja muito bom sinal, do meu ponto de vista. Ou seja, dá o sinal de que as pessoas estão à espera de que algum tratamento psicológico ou algum tipo de intervenção psicológica resolva problemas, que em meu entender, não podem ser resolvidos só com a psicologia. Mas enfim, temos aqui precisamente uma especialista no assunto pra o discutir conosco.
A nossa convidada, Célia Oliveira, psicóloga cognitiva e professora na Universidade Lusófona do Porto. Professora Célia Oliveira, muito obrigado por se juntar ao Nota 20.
Olá, olá a ambos, é um gosto.
Professora, por que a matemática é o lobo mau dos alunos? A psicologia explica isto?
Sim, pelo menos parcialmente explica. Até pegando na resposta dos ouvintes, que acho que é bastante interessante, e que não está bem 50%/50%, mas que mostra, de facto, que há alguma tendência para divisão. E isso ajuda-nos logo a esclarecer um conjunto de coisas. Ansiedade na matemática é essencialmente uma ansiedade de realização. E o que acontece é que é ansiedade face a um determinado conjunto de capacidades e tarefas específicas. E, portanto, nessa medida, esta ansiedade, ao contrário de outros problemas de ansiedade, não é uma ansiedade motivada essencialmente por incapacidade de gestão emocional. É uma ansiedade muito associada ao desempenho, pelo menos na esmagadora maioria dos casos. Claro que poderá haver exceções. E o que acontece é que a matemática é especialmente propensa a esta ansiedade de realização. Em primeiro lugar, porque por si só, a matemática não tem a maior das popularidades. E há um conjunto de crenças associadas à matemática, crenças negativas, nomeadamente a de que é uma disciplina difícil, que contribuem para, por si mesmas, gerar alguma insegurança face ao desempenho na matemática. Se a estas crenças nós associarmos pontuais, esporádicas, até, dificuldades de realização, de desempenho, ou mesmo experiências de insucesso face a tarefas ou avaliações na matemática, há uma forte probabilidade de isto condicionar aquilo que nós chamamos o sentido da autoeficácia dos alunos. Ou seja, a crença que os alunos têm na sua própria capacidade de desempenho. Quando nós temos um baixo sentido de autoeficácia numa determinada área, no caso, na matemática, o que acontece é que isso vai influenciar os objetivos que nós estabelecemos, portanto, vamos estabelecer objetivos pouco ambiciosos, e vai influenciar as nossas expectativas, isto é, a minha crença é a de que tenho grande probabilidade de falhar. A combinação destas expectativas com o estabelecimento de objetivos pouco ambiciosos, naturalmente aumenta a probabilidade do meu desempenho não ser excepcional ou não ser mesmo positivo. E estas experiências de um baixo desempenho ou de um desempenho sofrido vão reforçar a minha crença na minha própria incapacidade e, portanto, gera-se um ciclo vicioso que alimenta muito esta ansiedade face à matemática.
A professora Célia escreveu um texto que está publicado no site da Iniciativa Educação sobre este tema, com o sugestivo título "Quem tem medo da matemática?" Nesse artigo, cita, de resto, um estudo realizado em Itália com mais de 200 crianças do ensino básico. A que conclusões é que chegou este estudo? Primeiro, antes de mais, o que foi feito e quais foram as conclusões deste estudo?
Este estudo é, de facto, muito interessante. Por um lado, porque a ciência constrói-se por replicação de resultados, ou seja, não basta nós termos um estudo a indicar uma determinada conclusão, que nós podemos generalizar essas conclusões. E, portanto, este estudo, de algum modo, vem reforçar aquilo que são conclusões de outros estudos, que, aliás, têm sido feitos majoritariamente com alunos mais velhos, nomeadamente alunos do ensino secundário. Este estudo tem não só a vantagem de replicar aquilo que é a tendência de resultados que a investigação nos tem vindo a mostrar que existem, como acresce o benefício de ter sido realizado com crianças do primeiro ciclo. No caso, crianças do quarto ano de escolaridade. Nós sabemos que este tipo de ansiedade de realização surge precocemente, surge muito frequentemente logo nos primeiros anos de escolaridade, porque como eu expliquei inicialmente, está muito associado às nossas experiências de desempenho Este estudo, que foi feito na Itália com 224 crianças do quarto ano de escolaridade, fez uma coisa muito interessante: aleatoriamente distribuiu estas crianças por três grupos distintos, três grupos de intervenção distintos. Um grupo de controle, que durante oito semanas, uma hora por semana, realizava tarefas de banda desenhada, basicamente, e dois grupos de intervenção. Um grupo que, durante as mesmas oito semanas, foi sujeito a um programa de treino de competências de gestão emocional, e um segundo grupo de intervenção que durante essas oito semanas, e nós estamos a falar de uma intervenção de 60 minutos por semana, recebeu treino na aprendizagem da matemática, em tarefas de matemática. No caso, eram tarefas de cálculo. Quando, no final da intervenção, se avaliou o desempenho de cada um destes três grupos e se comparou a evolução dos grupos ao longo do tempo, isto é, o desempenho dos alunos no final, com o desempenho dos alunos antes da intervenção, o que a investigação concluiu foi o seguinte: o grupo de controle, que não recebeu nem treino de gestão emocional, nem treino de aprendizagem da matemática, basicamente manteve o mesmo nível de desempenho e os mesmos níveis de ansiedade face à matemática.
Portanto, aquele grupo de alunos a quem foi ensinada a melhor forma de gerir a sua ansiedade.
Não, o grupo ainda só de comparação, ou seja, o grupo que não recebeu qualquer tipo de treino específico, realizou tarefas de banda desenhada, não mostrou qualquer alteração, quer no desempenho na disciplina de matemática, quer na gestão da ansiedade. Portanto, tudo se manteve inalterado. O grupo de intervenção, que recebeu um treino de gestão emocional da ansiedade, efetivamente, no final deste treino, melhorou nas suas competências, na sua capacidade de gerir a ansiedade, mas o desempenho na matemática manteve-se sensivelmente o mesmo. O segundo grupo de intervenção, que recebeu treino de matemática, treino de aprendizagem da matemática, treino de conhecimentos, no fundo, este grupo não só melhorou os resultados na matemática, como melhorou do ponto de vista da ansiedade face à matemática, ou seja, a sua ansiedade face à matemática diminuiu. E o que as conclusões deste estudo mostram vai ao encontro daquilo que nós sabemos que é essencial no que respeita à ansiedade em tarefas de realização, que é: quando nós nos sentimos mais competentes, a nossa ansiedade também diminui. E o que acontece é que estes estudantes, ao adquirirem mais conhecimentos de matemática, também sentiram uma diminuição na sua ansiedade. Mais, isto é tão interessante porque a diminuição da ansiedade destes alunos está ao nível da diminuição da ansiedade dos alunos que receberam um treino de gestão das emoções, o que mostra que o aumento dos conhecimentos tem um duplo benefício: não só melhora o desempenho dos alunos, como diminui a sua ansiedade face àquelas matérias.
Eu já vi o professor Nuno Crato aqui num cantinho da imagem já a rir.
Não, eu julgo que temos-
A chave é o conhecimento, não é? No final.
Isto é muito interessante. No fundo, isto é a resposta à pergunta de início. Ou seja, se nós tivermos uma intervenção de gestão socioemocional, essa intervenção tem naturalmente resultados, porque os psicólogos são treinados para isso. Mas se, em vez disso, ensinarmos matemática e ajudarmos os jovens a progredir, não só diminui a ansiedade, como se chega àquilo que nós queremos, porque o que nós queremos é que os jovens saibam mais, estejam mais bem preparados para o futuro. Portanto, este estudo eu acho que é muito interessante e vai no sentido de uma série de outros estudos que têm sido feitos sobre o mesmo. Agora, talvez a nossa convidada pudesse acrescentar alguns outros aspectos que eu não sei, que é o que se pode fazer a seguir. Ou seja, na prática, como é que se pode atuar para fazer as duas coisas, ou seja, para ensinar matemática e ao mesmo tempo também ajudar a que a ansiedade desapareça. Deixem-me só fazer um outro parêntesis, que eu acho que é interessante, que é a sensibilidade de um professor de matemática. A sensibilidade de um professor de matemática é que a matemática é particularmente propícia a criar este tipo de dilemas em alguns jovens. Porque a matemática ou está certo ou está errado. E enquanto que noutras matérias se pode ir ajudando os jovens a encontrar uma resposta que esteja mais certa, em matemática ou acertou ou errou. E isso é um pouco frustrante para quem erra repetidamente e, portanto, uma maneira de ultrapassar isso é passar a acertar repetidamente.
Muito bem, isso é interessante, esse seu contributo. Professora Célia, quer responder à pergunta do professor Nuno Crato, como é que podemos resolver este problema chamado ansiedade e medo da matemática?
Se me permitem, antes de responder a essa pergunta, eu gostava ainda de acrescentar uma outra coisa para concluir o raciocínio de há pouco. Estas conclusões a que este estudo chegou, dos benefícios do aumento do conhecimento dos alunos, quer do ponto de vista da realização, quer do ponto de vista da gestão da ansiedade, são conclusões muito importantes e que ligam com um estudo acabado de sair, também com alunos do primeiro ciclo, isto é importante, também sobre o ensino da matemática, no caso, crianças do segundo ano de escolaridade, com sete anos de idade E este estudo mostrou uma coisa muito importante, ainda sobre os benefícios do ensino direto da matemática, isto é, do treino de conhecimentos da matemática. É que este estudo comparou os efeitos de dois tipos de instrução: instrução direta e métodos de instrução designados socioconstrutivistas, isto é, métodos mais baseados numa abordagem às tarefas de aprendizagem por descoberta, por tentativa e erro, que contrasta com os métodos de instrução direta que fazem este processo um pouco ao contrário. Isto é, primeiro há instrução, depois há treino orientado e depois há treino independente. Não começa pela aprendizagem independente. E o que este estudo mostrou, e foi particularmente importante, porque foi realizado com crianças de níveis socioeconômicos desfavorecidos, foi que ao distribuir aleatoriamente um grupo de crianças, quase 90 crianças, por duas condições de intervenção, uma de instrução direta, outra de aprendizagem socioconstrutivista, o que este estudo mostrou é que as crianças que receberam instrução direta progrediram significativamente mais do que as outras. Isto é particularmente importante porque estamos a falar dos benefícios deste tipo de instrução para a evolução do conhecimento e porque aqui, sendo o estudo feito com crianças de níveis socioeconômicos desfavorecidos, isto mostra o potencial deste tipo de estratégia para melhorar o desempenho dos estudantes e, em potência, melhorar a sua trajetória escolar e a sua trajetória de vida do ponto de vista social e econômico. Isto é bastante importante e isto liga com a questão que me acabaram de fazer, que é: perante isto, o que fazer? Que é o que preocupa pais e professores. O que é que nós podemos fazer?
Lembrando, professora Célia de Oliveira, que temos sensivelmente quatro minutos.
Muito bem, chega.
Vamos lá.
De fato, há duas coisas muito importantes que nós podemos fazer. A primeira decorre diretamente dos resultados destes estudos, que é o treino da aprendizagem. Como é que se faz este treino da aprendizagem? Nós estamos a falar de expor crianças que têm ansiedade face à disciplina, a essa disciplina. E portanto, uma das coisas que favorece a adesão das crianças às tarefas é proporcionar-lhes tarefas e experiências de sucesso. Portanto, é muito importante, quando se trabalha com as crianças, começar por trabalhar a partir do nível de desempenho em que elas se encontram, no nível de desempenho em que elas são capazes de realizar uma tarefa com sucesso, e a partir daí, gradualmente, aumentar o nível de conhecimentos e o nível de exigência, porque esta abordagem inicial à tarefa, que proporciona uma experiência de sucesso, é o que vai contrariar o potencial baixo sentido de autoeficácia da criança, que gera ansiedade e que leva ao evitamento. E portanto, isto pode ser feito tanto em casa como na escola. Na escola, nós sabemos também que um dos aspectos que contribui significativamente pra ansiedade dos alunos é a avaliação, são os momentos da avaliação. Os momentos da avaliação formal, somativa, que contam pra nota. Então, uma das estratégias de que nós até já temos vindo a falar em vários dos artigos que publicamos na Iniciativa Educação, na plataforma Edon, é precisamente a estratégia de testagem repetida. Isto é, esta testagem, a exposição frequente a fichas de avaliação, que pode ser uma avaliação formativa, que não conta pra nota, que produz um efeito de dessensibilização face à tarefa, isto é, uma redução da ansiedade face à tarefa, por consequência da familiaridade com a tarefa. Portanto, estas duas estratégias, aliar oportunidades de sucesso à exposição frequente, aos momentos de avaliação, contribuem significativamente para reduzir a ansiedade.
Muito bem. Professora Célia de Oliveira, obrigado por nos ter ajudado a compreender não só o fenômeno da ansiedade e do medo da matemática, mas também por nos dar pistas para como lidar com ele. Por momentos, fiz uma viagem à minha adolescência, creio que os ouvintes, muitos ouvintes também. Muito obrigado.
Foi um gosto.
Muito obrigado. Professor Nuno Crato, três breves notas, ou duas ou três notas sobre este assunto.
Duas ou três notas. Primeira nota, a ansiedade matemática deve ser enfrentada de frente. Enfrentar de frente. Ou seja, ensinar, aprender e dizer aos jovens que a solução pra ansiedade é aprender. E depois, utilizar estratégias, como a professora Célia nos disse, que levem a que isso seja feito de forma apropriada aos jovens que têm maior ansiedade, ou seja, aproximação gradual à tarefa, começar por dar pequenos passos e a partir daí evoluir até aos passos maiores. Segundo, o treino de avaliação, que não tem só um efeito de dessensibilização, mas também tem um efeito de recuperação e de reorganização do pensamento e do conhecimento. E depois, finalmente, reconhecer que isto é típico. A ansiedade é uma questão típica, é normal. Alguma ansiedade até faz bem, que a pessoa esteja empenhada naquilo que está a fazer. E enfim, ensinar e aprender, que é o que nós queremos, de forma que os jovens todos saiam mais bem formados e com melhores conhecimentos da escola.
Muito bem, professor, já agora, no seu tempo de meninice, causava-lhe muita ansiedade a matemática ou não?
Não propriamente. Houve algumas disciplinas que me causaram ansiedade, não a matemática, porque eu sempre olhei pra matemática como sendo algo que eu podia aprender, quer dizer, que eu podia decompor em vários passos e aprender. Enquanto, por exemplo, eu não sabia o que é que havia de fazer pra ter um muito bom em Português, a não ser ler mais e ler mais, pra ter um muito bom em Matemática, eu sabia que precisava de ler outra vez as coisas, fazer mais exercícios, tentar compreender melhor alguns aspectos e conseguia eu fazer. Portanto, talvez por isso. Outras pessoas terão ansiedade com a matemática e não com o Português. Enfim, cada um é como é, o que é importante é que todos nós aprendamos o essencial e todos nós tenhamos uma melhor formação com o nosso tempo na escola.
Isso é que conta. Pra semana vamos falar sobre horários escolares. A pergunta que colocamos no Twitter é a seguinte: "O horário de início das aulas pode ter impacto nos resultados dos alunos? Sim ou não?" Professor, acho que tá tudo. Até pra semana.
Até pra semana.