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Jornal da Uma com o Miguel Videira. Miguel, já vamos conhecer alguns dos destaques da entrevista do Observador ao candidato presidencial Henrique Gouveia e Melo, mas começamos pelas buscas na TAP.
Lideradas pelo Ministério Público e que contam com a colaboração de dezenas de inspetores da Polícia Judiciária. Está em causa o negócio de privatização da TAP em 2015, no final do governo de Pedro Passos Coelho, o consórcio Atlantic Gateway, constituído pelos empresários Humberto Pedrosa, do grupo Arracaer, e David Neeleman, compraram 61% do capital social da companhia aérea portuguesa. Há dúvidas sobre, muito em particular, a forma como David Neeleman obteve o financiamento necessário para a concretização deste negócio. Está conosco a redatora principal do Observador, Ana Suspiro, é jornalista da editoria de economia do Observador e acompanha de forma próxima a TAP. Ana, boa tarde, bem-vinda, obrigado pela tua disponibilidade. Dizia que há dúvidas, muito em particular, relativamente à forma como David Neeleman obteve o financiamento para concretizar esta compra de 61% do capital social da TAP. Que dúvidas existem?
Olá, Miguel, boa tarde. Na verdade, não é bem a compra da TAP que está aqui em causa, é a recapitalização que David Neeleman fez da companhia aérea quando a comprou em 2015, e não sei se as pessoas se recordam, ele pagou só € 10 milhões. O problema não são os € 10 milhões. O problema tem a ver com o financiamento acima dos € 200 milhões que ele teria que pôr, e pôs, na TAP, e de onde é que veio o dinheiro que ele usou para recapitalizar a TAP. Ora, desde 2022 que nós sabemos que há dúvidas relativamente a essa operação. O então ministro das Infraestruturas fez uma denúncia, que é a denúncia que estará na origem das diligências que estão a decorrer hoje. E na altura, ele tinha um parecer que lhe chegou às mãos vindo da própria TAP e que dizia que esta operação tinha sido feita um bocadinho, chama-se na gíria, o comprar o cão com o pelo do cão. Ou seja, tinha sido a própria TAP a gerar os fluxos financeiros que permitiram a David Neeleman recapitalizar a TAP. Isso foi feito através da Airbus. A Airbus é o fabricante de aviões com quem a TAP tinha um contrato para uns aviões que eram muito cobiçados na altura no mercado. A TAP foi uma das primeiras empresas a encomendá-los. E o que aconteceu é que David Neeleman, em 2015, chegou ao pé da Airbus e disse: "Olha, este contrato vale muito dinheiro. Portanto, vocês ficam com o contrato e mudam o modelo de avião que vão vender à TAP, vão vender um outro modelo de avião. Vocês ganham bastante dinheiro com isto. Eu, que sou o intermediador do negócio, também estou aqui a permitir que a Airbus tenha uma folga financeira importante". A TAP compromete-se a comprar os outros aviões e a pagar. E no fundo, a margem financeira que resultou desta troca foi o dinheiro que David Neeleman colocou na TAP, tendo como contrapartida obtida por parte da Airbus, de que a TAP ia pagar os novos aviões. Daí que se diga que foi o dinheiro da TAP. Essa questão tem sido posta nestes termos.
Por que só agora? Tendo em conta que esta é uma dúvida que já subsiste, julgo que há alguns anos. Por que só agora esta intervenção das autoridades judiciárias?
Essa é a pergunta que todos queremos saber, não é?
Sim.
Isto não é só sobre os fundos Airbus, pelo que é público neste momento, as investigações do Ministério Público dizem respeito a várias operações feitas enquanto a TAP tinha a gestão privada, desde pagamentos a consultoras, pagamentos a administradores, enfim, não pagando salários, mas pagando prestações de serviço, como se eles fossem consultores. Também há aqui questões de prêmios, há aqui um conjunto muito vasto de matérias que foram todas investigadas na Comissão Parlamentar de Inquérito de 2023. O porquê agora, não sei.
O que concluiu, já agora, Ana, essa Comissão Parlamentar de Inquérito?
Essa Comissão Parlamentar de Inquérito concluiu muita coisa. Ela teve como ponto de partida o pagamento a Alexandra Reis, que é também um tema que está a ser investigado pelo Ministério Público e que deu origem a diligências e buscas em setembro deste ano, portanto, também dois anos depois da questão ter sido posta em cima da mesa. Não te vou agora ler aqui as conclusões da Comissão de Inquérito, mas todas estas suspeitas estavam lá.
Ok. Ana, deixa-me só voltar aqui um bocadinho atrás para te perguntar o seguinte: esta recapitalização, os tais 200 milhões que David Neeleman estava obrigado a colocar na TAP, era uma condição essencial para que a privatização destes tais 61% da companhia aérea portuguesa fossem bem-sucedidos. Ou seja, não tendo ele esta disponibilidade financeira para fazer esta recapitalização, a privatização não avançava.
Não, claro. Exatamente. Isso era uma condição absolutamente fundamental. E foi durante o fecho final da operação de privatização da TAP, que foi no segundo governo de Pedro Passos Coelho, aquele que durou um mês. E depois aqui esta operação pode ter alguma leitura política, porque os secretários de Estado que à data fecharam a operação por parte do governo, um deles era Miguel Pinto Luz, que é atual ministro das Infraestruturas. E todas estas diligências judiciais, quer aquela que eu já referi relativa a Alexandra Reis, quer esta relativamente aos fundos Airbus, estão a acontecer no momento em que o governo está a tentar vender a TAP. Portanto, a privatização está no ar e este sábado termina o prazo para as manifestações de interesse dos potenciais candidatos
Que implicações em concreto pode pôr em causa este negócio? Ou este processo de privatização pode obrigar o adiamento do processo de privatização?
Eu penso que só na medida em que isto, e nós neste momento não temos muita informação, possa ou não, de alguma forma, comprometer aquele que é o rosto do atual governo para a operação, que é o ministro das Infraestruturas. Mas eu neste momento não tenho informação para dizer qual é o grau de implicação dele nestas operações.
Claro, ainda estamos numa fase precoce. Agradeço, Tânia Suspiro, redatora principal do Observador. É jornalista da editoria de economia do Observador, que acompanha de forma próxima a gestão da transportadora aérea portuguesa, a TAP, que está no cerne desta investigação do Ministério Público.
Seguimos agora com essa entrevista do Observador a Henrique Gouveia e Melo. O almirante considera que é óbvio que houve uma tentativa por parte do Governo de bloquear a sua candidatura à Belém, com o intuito de proteger Luís Marques Mendes.
Diz Henrique Gouveia e Melo que o Governo tentou amarrar a Marinha à chefia do Estado-Maior da Armada para dessa forma impedir que avançasse com uma candidatura à Presidência da República.
Era uma impressão que eu tinha e continuo a ter.
Mas continua a ter a impressão de que não queriam esta candidatura presidencial.
Sim, é uma impressão minha, que é sempre subjetiva, como é evidente, mas era a minha impressão e transmiti essa impressão.
Com a impressão de que o Governo não queria, de facto, que esta candidatura avançasse. Não queria por quê? Para proteger Luís Marques Mendes?
Eu acho que isso, em termos políticos, é óbvio. Não é preciso ser um grande analista para se perceber nas diversas ações e comentários ao longo do tempo, até enquanto era chefe do Estado-Maior da Armada, que havia essa resistência à minha candidatura.
Nesta entrevista ao Observador, Henrique Gouveia e Melo admitiu também a possibilidade de, caso venha a ser eleito, cumprir apenas um mandato.
Todos os presidentes tiveram um primeiro mandato melhor do que o segundo mandato. O segundo mandato passou para além do que seriam as suas funções normais enquanto presidente.
Isso quer dizer que só se vai candidatar a um mandato?
Corre menos bem. Isso é uma análise que eu terei que fazer se for eleito.
Mas admite só fazer um mandato?
Sim, admito. Não estou a dizer que só quero fazer um mandato. Mas admito fazer um mandato. Depende da análise que terei que fazer na altura.
É uma possibilidade admitida por Henrique Gouveia e Melo, candidato a Belém, que esteve hoje sob escuta na antena da Rádio Observador.
Vamos agora a outras notícias que também estão em destaque a esta hora, Miguel.
A criminalidade violenta e grave desceu quase 2% na Grande Lisboa até setembro. Em contrapartida, a criminalidade geral aumentou cerca de 6% nos primeiros 10 meses do ano, face ao mesmo período de 2024. São dados revelados ao início da tarde pela PSP. O consumo de antibióticos em Portugal cresceu 8%, supera a média da União Europeia. Dados revelados hoje pelo Infarmed, no dia em que se assinala o Dia Europeu do Antibiótico. Mostram estes dados que o consumo global aumentou 8% entre 2019 e 2024, quatro vezes mais do que a média de 2% registada nos países da União Europeia.
Este foi o Jornal da Uma, com edição do Miguel Vilar.