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O Miguel Pinheiro já está conosco para uma nova edição do Bom, Mau e o Vilão. Olá, Miguel. Bom dia, boa sexta-feira.
Bom dia, boa sexta.
Miguel, quem é o teu bom de hoje?
O bom de hoje é Luís Montenegro. Ontem o primeiro-ministro inaugurou um hospital da CUF em Leiria e aproveitou para reafirmar a importância das parcerias público-privadas na saúde. E eu vou citá-lo: "Estamos no país, de uma forma global, a caminhar para aprofundar a análise e a fundamentação jurídica que possa habilitar o nosso Serviço Nacional de Saúde a ter mais parcerias público-privadas." Está tudo muito bem. Realmente, uma das decisões mais desastrosas de António Costa na saúde foi acabar com as PPP, mas convém que Luís Montenegro não se distraia. Aquilo que ele inaugurou ontem não foi um hospital PPP, foi um hospital privado. Não há nenhum hospital PPP para inaugurar porque o governo está a andar devagar, devagarinho, sem pressa, porque ouvindo nós percebemos então que ainda estamos a caminhar para aprofundar a análise e a fundamentação jurídica que nos permita ter novos hospitais PPP. Portanto, nós ainda não temos a análise nem a fundamentação jurídica. Nós estamos a caminhar para aprofundar. Também ainda não temos o aprofundamento, ainda só estamos a caminhar. E eu gostava de lembrar que o governo já tem, na prática, dois anos, e que os hospitais PPP não são assim propriamente física nuclear. Não estamos a tentar criar aqui uma bomba nuclear qualquer, em que precisamos de tecnologia de ponta. E se Luís Montenegro não se despacha, a legislatura chega ao fim e nós continuamos na mesma, porque quando se anda a passo de tartaruga, nunca se chega a lado nenhum.
E uma PPP também não se faz em dois a três meses. Mesmo depois de caminhar e aprofundar a análise, depois demora tempo a executar, sobretudo se tiver na base a construção de um hospital raiz.
Ora nem mais. Claro, atenção, os meus netos adorarão, quando nascerem, poderem usufruir de um hospital PPP. Mas apesar de tudo, se pudesse ser antes, se pudesse ser para a minha velhice, que se está a aproximar a passos largos, acho que o país agradeceria.
Miguel, o teu mau foi desastrado.
Completamente. O governo arranjou um problema absolutamente desnecessário. Nós demos aqui a notícia no Observador. O governo queria mudar a forma de funcionamento do Conselho Nacional de Desporto para impedir os seus membros de falarem publicamente sobre discordâncias. E pelos vistos, o governo entende que aquilo que se debate no Conselho Nacional de Desporto, que é um órgão meramente consultivo, e que inclui, por exemplo, a Federação Portuguesa de Futebol e o Sindicato dos Jogadores de Futebol, mas aquilo que se discute lá é tão relevante para a segurança nacional, é tão relevante pro país, que exige um silêncio absoluto. Não se pode falar sobre nada do que se passa ali, porque senão a independência da pátria está em causa. E como seria de esperar, umas horas depois da notícia, o governo teve de recuar, teve de deixar cair esta lei da rolha. E eu só me pergunto: o secretário de Estado do Desporto, Pedro Dias, que pelos vistos foi a santa alminha que teve esta ideia brilhante, não percebe que não se deve andar por aí a matar mosquitos com uma bazuca? Quer dizer, ele tem uma coisa que o incomoda, que o irrita, de fato, irrita um bocadinho. Há coisas que nos irritam. E vai à casa e pega numa bazuca. E assim arranja um problema para o governo totalmente desnecessário.
É que nem no Conselho de Estado, sequer, esse tipo de regras podia alguma vez ser instituída.
Certo. É isso.
Miguel, o teu vilão é José Luís Carneiro.
Precisamente. Ontem o líder do PS anunciou que o partido vai votar contra o pacote laboral apresentado pelo governo, já agora, na generalidade. Portanto, nem sequer admite discussões sobre os detalhes das propostas. Quer matar já a discussão. E ouvindo as palavras de José Luís Carneiro, percebeu-se duas coisas: primeiro, percebeu-se que ele quer manter o mercado de trabalho exatamente como ele está agora. Aliás, teve uma reação pior do que a UGT, porque a central sindical, pelo menos, dialogou e chegou a acordo na esmagadora maioria das propostas do governo. Foram só alguns poucos pontos que impediram o acordo. Mas já o PS acha que o governo quer recuar, e vou citar José Luís Carneiro, para tempos quase que pré-históricos. Atenção, nem mais nem menos, quer recuar para tempos quase que pré-históricos. Portanto, José Luís Carneiro acha que os dinossauros tinham um regime laboral de escravatura e que o governo quer agora que sejamos todos australopitecos. Isto é tão hiperbólico. Isto o José Luís Carneiro, não sou eu, que não há qualquer margem para conversas. É impossível. E a segunda coisa que se percebeu é que o PS quer fazer com que seja ainda mais impossível governar, porque neste momento, para aprovar alguma coisa, o governo tem de falar com o PS e com o Chega, mas os socialistas acham que além desses dois partidos, deve ser sempre preciso falar com a CAP, com a CIP, com a UGT, com a CCP, com a CGTP, com todas as organizações que estão na concertação social. Estou a dizer isto porque José Luís Carneiro anunciou que vai apresentar um pacote económico global, e que tudo isso deve também ser discutido com os parceiros sociais. Aliás, ele anunciou que já começou a ter essas conversas. Atenção, eu nem sou especialmente contra a existência de concertação social. Há muitos países onde isso funciona bem, mas na prática, aquilo que José Luís Carneiro quer ter é uma segunda câmara além do Parlamento. Temos o Parlamento e depois temos uma segunda câmara, que é a concertação social. E eu até já tenho um nome para esta segunda câmara. Como ela junta as várias corporações e como, pelos vistos, vai ter poderes alargados a tudo o que seja medidas econômicas, eu acho que podemos esquecer a designação concertação social e passar a chamar-lhe, por que não, câmara corporativa? Eu acho que é mais curto e funciona.
Com provas dadas na história, aliás.
Acho que sim. Vamos fazer a concertação social grande outra vez.
Vamos ao resumo. O bom desta sexta-feira: Luís Montenegro. O mau: o governo. E o vilão de hoje é José Luís Carneiro. São as escolhas do Miguel Pinheiro, num episódio que daqui a instantes também fica disponível em podcast.