Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Está no ar o "O Bom, o Mau e o Vilão" da Rádio Observador. Olá, Miguel Pinheiro, bom dia.

Bom dia.

Miguel, quem é o teu bom de hoje?

Quem poderia ser? O bom de hoje só pode ser a nossa Justiça, que começa finalmente a julgar José Sócrates. Foi preciso ter muita paciência. O Observador tem um artigo publicado onde faz as contas e conclui que José Sócrates apresentou pelo menos 106 recursos e incidentes processuais relativamente a este processo, a Operação Marquês. 106, há seguramente mais, bem mais. Esta contabilidade foi feita por baixo. E há outro número que impressiona, é que José Sócrates apresentou incidentes de recusa contra mais de 30 juízes. Ele achava que simplesmente não tinham legitimidade pra tomar decisões sobre o caso. E convém notar que no meio de tudo isto, só houve duas decisões de recursos que foram favoráveis a José Sócrates. E no Tribunal Constitucional, ele perdeu sempre. José Sócrates fez tudo pra que o dia de hoje nunca chegasse, mas chegou. Vamos ver. Vamos seguir tudo aqui no Observador, num live logo ao minuto. Temos a nossa ilustradora na sala de tribunal, não se pode filmar nem tirar fotos, mas nós vamos estar lá pra mostrar os desenhos do que se está a passar lá dentro. E vamos lá então ver o que acontece a partir de hoje.

Vamos ver. Mas mesmo assim, estás muito bem disposto hoje. A bom, a Justiça, depois de 12 anos, 13. Muito bem.

Eu sou um otimista incorrigível, como aliás tu sabes.

Completamente.

Qual é a surpresa?

Otimista é o teu nome do meio, Miguel.

Com certeza.

Miguel, o teu mau é muito rápido.

Rapidíssimo. A direção executiva do SNS é rapidíssima. Eles já nos garantiram que correu tudo de forma correta no caso da grávida de 40 semanas que perdeu o bebê após o nascimento. Como se sabe, há cinco hospitais envolvidos no caso e esses cinco hospitais estão a realizar auditorias internas, mas a direção executiva do SNS apressou-se ontem a emitir um comunicado onde escrevia isto: "A grávida terá sido avaliada de forma atempada por profissionais de saúde qualificados, submetida aos exames e avaliações considerados necessários, tendo recebido as orientações consideradas adequadas." E há aqui dois pontos que vale a pena notar. O primeiro é que, aparentemente, as auditorias internas dos cinco hospitais, que estão a ser acompanhadas pela Inspiração-Geral da Saúde, nem eram necessárias, porque em pouquíssimas horas a direção executiva do SNS percebeu que toda a gente fez tudo bem feito. Bastam os telefonemas. Ali com os telefonemas, resolveu-se. Afinal, não é preciso auditorias internas nenhumas. Eu não sei o que é que aconteceu. Os hospitais, pelos vistos, também não sabem e por isso pediram auditorias, mas a direção executiva do SNS sabe tudo. O segundo ponto é um pouquinho mais intrigante, porque ao falar sobre este caso, a ministra da Saúde, se bem se lembram, falamos sobre isso ontem, disse que assumir responsabilidades políticas pelo caso não era demitir-se, era resolver os problemas. Perguntaram à ministra: "A senhora assume a responsabilidade política por isto, demite-se?" E ela diz: "Demitir, não. Eu quero é resolver os problemas." E eu agora fiquei baralhado. Resolver quais problemas? Mas quais problemas? Segundo a direção executiva do SNS, não há problemas nenhum. Correu tudo muito bem. Toda a gente fez o que tinha a fazer. Por isso, não só a ministra não precisa de se demitir, como não precisa de fazer rigorosamente nada. O nosso SNS é o melhor do mundo, podemos seguir em frente sem preocupações.

Isto só vem, de facto, sublinhar a importância das auditorias independentes, não é?

Não, Paulo. Não, porque estás a ver isto mal. Isto só vem sublinhar a importância de termos uma direção executiva do SNS. Nós perguntávamos assim: "Pra que alguém decidiu criar uma direção executiva do SNS? Na altura, disse-se assim: "Então, mas isso vai fazer o trabalho que normalmente é de um ministro, será que isto é pra proteger os ministros da Saúde?" E as pessoas disseram: "Não, isto não é nada pra proteger os ministros da Saúde. Isto é pra tudo funcionar muito bem." Agora, afinal, temos a direção executiva do SNS a proteger a ministra da Saúde. Já viste?

Que surpresa, meu Deus.

As coisas que acontecem neste país.

Miguel, o teu vilão não avança.

Olha, eu...

Estás triste?

Não é bem tristeza, é uma derrota pessoal.

Tua?

Sim.

Claro.

Sim. Eu fui orgulhosamente um dos dinamizadores, como sabem os nossos ouvintes, do MASP.

Foste tu que tiveste a ideia, é claro.

Sim. Modestamente, sim, fui eu que dei a ideia. Lancei aqui o movimento de apoio ao Augusto Santos Silva à presidência e agora ele não avança. É uma derrota pessoal. A pátria precisava do senhor professor doutor Augusto Santos Silva. Enfim, mas tem que ser forte, tem que seguir em frente.

Tem que ser grande cabeça.

É isso mesmo, Miguel.

É, exato.

Um abraço sentido neste momento difícil.

Obrigado, Paulo. Pelos vistos, Augusto Santos Silva não é tão inteligente quanto pensa sempre que se olha ao espelho, e atenção que ele olha-se ao espelho muitas vezes ao dia, porque Santos Silva só percebeu ontem que, vou citá-lo: "A sua candidatura não é suficientemente abrangente pra ser suficientemente forte e que até seria divisiva no partido." O tempo que ele demorou pra perceber isto. Santos Silva gosta de dizer que António José Seguro não reúne os requisitos mínimos para ser candidato. Pelos vistos, ele também não. Mas há pior do que isso. Santos Silva podia simplesmente ter ponderado uma candidatura e ter decidido não avançar. Só que ele foi mais longe. Confirmamos ontem que o suspense dos últimos dias serviu apenas para travar um eventual apoio do PS a Seguro até aparecer Sampaio da Nóvoa. Na entrevista em que anunciou que não será candidato, Santos Silva disse isto: "Retirando a minha disponibilidade, espero que nos próximos dias possa surgir uma candidatura que, essa sim, seja mais abrangente, mais forte, mais agregadora do que a minha seria." Desculpem este barulho aqui.

Ia perguntar o que se passou aí.

Entusiasmei-me que eu comecei a citar o professor doutor Augusto Santos Silva e há um arroubo patriótico que faz com que eu perca o controle de algumas funções motoras. Augusto Santos Silva, ao dizer isto, está a reconhecer que, no fundo, foi uma mera barriga de aluguer de Sampaio da Nóvoa.

Eu acho que mesmo assim não estás a perceber a nobreza do gesto. Foi um momento de altruísmo, puro altruísmo, ele sair de cena pra dar lugar a outro.

Para, Paulo, estou a ficar emocionado, a sério. Não quero começar a lacrimejar em direto na rádio.

Melhor irmos ao resumo. O bom desta quinta-feira é a justiça, o mau a direção executiva do SNS e o vilão de hoje é Augusto Santos Silva. Foram as escolhas do Miguel Pinheiro nas manhãs 360 e claro, sempre em podcast.