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O Miguel Pinheiro já está conosco para uma nova edição do Bom, o Mau e o Vilão. Olá, Miguel, bom dia.

Bom dia.

Miguel, o teu bom falou sobre comboios.

É um tema que me diz muito. A Autoridade da Concorrência. Como sabe, o governo está a preparar a subconcessão de algumas ligações ferroviárias, nomeadamente em Cascais e em Sintra, mas há mais coisas acontecendo neste setor. E então, a Autoridade da Concorrência, que é o bom de hoje, elaborou um estudo e apresentou 19 recomendações pra que as coisas sejam bem feitas. Por exemplo, pra haver uma efetiva remoção de barreiras à entrada de operadores, defende a Autoridade da Concorrência, tem de existir uma partilha de comboios e de trabalhadores com estes tais novos operadores. Mas a preocupação não é só com a empresa pública, com a CP, é também com a concessão que já existe. A Autoridade da Concorrência recomenda que o contrato de concessão à Fertagus, que faz a ligação entre Lisboa e Setúbal e que termina em 2031, portanto está quase, a recomendação é de que esse contrato não seja prorrogado pra que existam novos concorrentes, porque não basta haver uma vez em que se faz uma concessão. É preciso estar permanentemente atentos pra que não se criem novas forças dominantes em cada setor. O estudo explica que se tudo isto for bem feito, pode trazer melhores preços, maior qualidade de serviço, mais oferta e mais inovação, mas pra isso tem de haver concorrência. Concorrência é uma palavra que nós não usamos muito em Portugal, não gostamos nada desta coisa da concorrência. É tão bom estarmos aqui no nosso cantinho, mas sem isso não vamos lá.

É verdade, há quem diga que é o último almoço grátis na economia, a concorrência. E provavelmente é, não é?

Provavelmente.

Miguel, o teu mau não tem pressa nenhuma.

Nada. Pressa nenhuma. O governo ontem, no Conselho de Ministros, Leitão Amaro fez questão de falar sobre a polêmica à volta do estudo sobre as pensões pra reafirmar, cara a cara com os portugueses, que o governo não vai fazer nada. Segundo o ministro, se alguma vez a reflexão do governo resultar em decisões sobre a Segurança Social, isso vai ser previamente apresentado em campanha eleitoral. Certo? Sendo que o desejo é que essa campanha eleitoral só aconteça em 2029, porque caso contrário, seria sinal de que o governo tinha caído. Ou seja, o PSD não tem pressa nenhuma. O autor do estudo avisou que nós temos uma janela temporal pra tomar decisões, porque isto vai piorando a cada minuto que passa, mas o PSD acha que isto se faz devagar, devagarinho. Aliás, como diria o nosso atual presidente da República: "Qual é a pressa?" Não há pressa. E eu imagino que as pessoas que um dia se vão reformar, como nós, imagino que qualquer pessoa que tenha visto ontem Leitão Amaro tenha pensado: "Mas se ele não está preocupado, por que eu hei de estar? Vou me preocupar com o quê? Está aqui um ministro todo-poderoso e ele não tem pressa nenhuma. Então olha, deixa-me cá ficar na minha vida, seguramente que não haverá problemas nenhuns quando eu me reformar e a minha pensão for uma ínfima fração daquilo que eu ganho agora."

E esse é o pior problema, é as pessoas não ficarem preocupadas.

Olha, nem mais.

Não é? Quando derem conta da realidade, já é tarde. Já têm o primeiro recibo de pensão à frente.

Mas ó Paulo, como o governo não quer é que o chateiem. É assim. Mas lá está. Olha, é como nos comboios. Quem é mais prejudicado pela falta de concorrência é quem tem menos meios, menos dinheiro. Quem é mais prejudicado pelo problema nas pensões, claro, é quem tem menos dinheiro, que quando chegar a altura não vai ter almofadas financeiras, não vai ter nada que os acuda, não vai ter nada. E, portanto, eu acho que os governos se deviam preocupar, em primeiro lugar, com as pessoas que têm menos dinheiro, mas enfim, mas estou eu cá com as minhas ideias esquisitas.

Isso, muito esquisito.

Miguel, já não falávamos do teu vilão há algum tempo.

Pois é, isto com o verão, parece que as pessoas se esqueceram de Luís Neves, mas ontem soubemos de mais uma confusão. Uma investigação conjunta da TVI, da CNN de Portugal e do Nascer do Sol mostrou que quando já era ministro da Administração Interna, Luís Neves pediu à direção da Polícia Judiciária um carro, um Volkswagen Golf, que ele usava quando era diretor nacional da PJ. "Então, Luizinho, estás bom? Olha, estás a ver aquele carro que eu conduzia aí quando era diretor da PJ? Manda entregar aqui em casa." Portanto, o Luís Neves tem os carros habituais do ministério, que são conduzidos por motoristas, e depois tem um outro carro que é conduzido por ele. E o Luís Neves jura que há duas boas razões pra isto. Não há nenhuma suspeita de que isto tenha sido feito de forma ilegal. Atenção, só para isso ficar claro. Mas Luís Neves jura que há duas boas razões. Por um lado, ter o carro, vou citá-lo: "Permite em situações de urgência, que são permanentes nesta área governativa, uma deslocação mais rápida e autónoma." Portanto, por um lado, isto. Por outro lado, desta forma, ele dispensa motorista em algumas situações e isso, diz ele, poupa dinheiro ao Estado. Convém notar que se trata de uma originalidade. Apesar destas exigências da pasta, nunca nenhum outro ministro da Administração Interna invocou razões semelhantes para pedir um carro nestes termos, mas pelos vistos Luís Neves é um governante especial. No Ministério da Administração Interna, historicamente nunca aconteceu e no governo, tanto quanto se sabe, também não acontece. Nós temos um ministro dos Negócios Estrangeiros que precisa de gerir crises em todo o mundo, imagina-se também ao fim de semana, mas que não precisa de sair de casa a correr ao volante de um carro fornecido pelo Estado. Temos uma ministra da Justiça que já teve de enfrentar crises provocadas, por exemplo, por fugas de prisões ao fim de semana, mas que não precisa de sair de casa a correr ao volante de um carro dado pelo Estado. Temos um ministro da Defesa que exerce funções numa altura em que há uma guerra na Europa e tendo nós tropas portuguesas em vários cenários de conflito, mas que não precisa de sair de casa a correr ao volante de um carro do Estado. E temos uma ministra da Saúde com problemas em hospitais todos os dias, incluindo ao fim de semana, mas que não precisa de sair de casa a correr ao volante de um carro do Estado. Mas o ministro da Administração Interna, ele sim, e só ele, precisa de, como um super-homem, saltar da cama de madrugada, meter-se ao volante de um carro do Estado para ir a correr salvar o país, salvar o mundo e salvar o universo, sempre, mas sempre, ao volante do seu Volkswagen Golf. Passa publicidade. Com Luís Neves nós temos sempre confusões garantidas. É uma alegria.

Mas é um GTE e essa parte é importante.

O que isso quer dizer, Paulo?

Não faço a mínima ideia, mas é GTE.

Pronto, ok. Está bem.

E deve ter jantes especiais.

Jantes de liga leve, eles dizem na

Seguramente.

Ou será daquelas jantes de racing? Como é que se chama?

Touring.

Touring. Tu achas que sim? Queres me ver que o ministro vem pela ponta baixa da gama?

Estava a ver ali, não é GTE, é GTD.

Também tem um escape alterado.

Melhor ainda! Paulo, GTE já era bom. GTD deve ser uma coisa que eu nem imagino.

Vamos ao resumo. O ponto desta sexta-feira é a Autoridade da Concorrência, o mau é o governo e o vilão de hoje é Luís Neves. São as escolhas do Miguel Pinheiro num episódio que daqui a minutos também fica disponível em podcast.