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Começa agora uma nova edição do "O Bom, o Mau e o Vilão". Olá, Miguel Pinheiro, bom dia.
Bom dia.
O teu bom venceu o debate ontem.
Venceu. Gouveia e Melo ganhou o debate com António Filipe. Uma e outra vez Gouveia e Melo atacou o candidato do PCP. Ele claramente foi pra aquele debate para estar na ofensiva. A dada altura, até lhe disse: "Não podemos ser a quinta coluna dos interesses fascistas da Rússia atual", que é uma frase forte, certeira, mas forte. Além disso, deixou António Filipe KO quando se falou sobre o artigo quinto da NATO. Num arroubo de indignação, António Filipe atirou isto: "Não aceito a ideia de que temos de ir morrer onde nos mandarem. Se nos tiverem mandado morrer pro Iraque, os portugueses iam morrer pro Iraque?" E Gouveia e Melo, com toda a calma, explicou-lhe que o artigo quinto do Tratado da NATO é um artigo que impõe apenas a defesa dos países que fazem parte da NATO e por isso seria impossível ele servir pra mandar soldados pro Iraque, porque geograficamente não faz muito. A parte mais divertida, vamos a isso, não vamos falar de coisas tristes. Foi um diálogo já perto do fim e foi este: atenção quem nos estiver a ouvir.
Podes fazer duas vozes?
Não consigo, mas começa Gouveia e Melo e segue-se António Filipe. Concentra-se. Vamos a isto? Começa Gouveia e Melo: "O seu modelo econômico, já agora..." "Qual é o meu modelo econômico?" "O seu modelo econômico já falhou." "É o da Constituição." "Não, não é o da Constituição." "É, está enganado." E diz Gouveia e Melo: "O seu modelo econômico é o da estatização." E Gouveia e Melo: "Essa agora? Afinal, o senhor já não é comunista?" "Eu sou, eu não sei é o que o senhor é." E diz Gouveia e Melo: "Sou um social-democrata antigo, que concilia economia de mercado, livre iniciativa, propriedade privada, com direitos dos trabalhadores e coesão social. Isso é coisa que os senhores nunca quiseram conciliar." E diz António Filipe: "Está enganado." Os protagonistas não têm nada a ver uns com os outros, como é evidente, estes são, com todo respeito, mais fraquinhos, mas esta parte final fez-me lembrar um outro debate em 75. Portanto, ontem foi assim: "Está enganado." Em 75, no debate entre Soares e Pinhal, foi assim: "Olhe que não." Portanto, do "olhe que não" pro "está enganado", finalmente Henrique Gouveia e Melo conseguiu vencer um debate, já não era sem tempo.
Sim, partiu ao ataque. Pode-se considerar que sim.
Pelo menos, se é militar, que vença uma batalha.
O que não significa ganhar a guerra, não é?
Não, Paulo. Não significa de todo.
Há quem vá de vitória em vitória-
Até à derrota final.
Exatamente.
Portanto, o bom ganhou o debate, o mau perdeu o debate.
É assim. De facto, a vida é assim, uns ganham, outros perdem.
Num debate a dois, por regra, isso acontece.
Sim, é possível. Podem perder os dois. Aconteceu há pouco tempo. Mas houve algumas coisas que saíram bem a António Filipe, nomeadamente a chamada de atenção pro facto de Gouveia e Melo dizer muitas banalidades, mas houve três momentos em que parecia que António Filipe queria tratar os eleitores como tontos. Primeiro, quando afirmou isto: "Se alguém está nos antípodas de Putin, sou eu." Basta ouvir o que o PCP diz há anos para perceber que o PCP vibra de cada vez que Putin consegue dar uma canelada na ordem internacional que é dominada pelos Estados Unidos. Depois, pra defender Fidel Castro e a ditadura comunista, António Filipe usou o argumento de que... Paulo, estás a rir porque nunca pensaste nisto.
Acho que recordo qual foi o argumento.
Estás a rir de ti próprio a pensar: "Meu Deus, sou patético, nunca me lembrei disto." O argumento é: Eça de Queiroz foi nosso cônsul em Havana. Eça chegou a Cuba 54 anos antes de Fidel nascer. Fui confirmar. E, de facto, é um argumento literário pra justificar uma ditadura, nunca me tinha ocorrido. Mas apesar de tudo, houve pior. Acho que o pior aconteceu quando os dois candidatos estavam a debater o modelo econômico defendido por cada um. E quando, naturalmente, Gouveia e Melo afirmou que António Filipe defende um modelo comunista, a resposta de António Filipe foi a seguinte: "Se quiser, eu posso perguntar qual é o seu modelo. Se é um país capitalista qualquer, como o Haiti." E eu: "O Haiti? Mas onde é que o António Filipe-
Ele esteve a marcar as férias de verão do próximo ano e lembrou-se.
E vai pro Haiti.
O Haiti, que já nem será um Estado neste momento.
O Haiti tem N problemas. Aliás, é curioso, porque até houve uma altura, que há uns anos, não sei como é que é agora, não sou especialista na economia haitiana, mas houve uma altura em que parece que 90% das receitas do Estado haitiano resultava de um negócio com petrolíferas da Venezuela, no tempo do Hugo Chávez. Se calhar é daqui que lhe veio o Haiti, mas eu não sabia que o Haiti era a Meca do capitalismo global, era o exemplo de uma economia de mercado que seguia os princípios de Adam Smith.
O mercado lá funciona muito bem.
Eu voltei para trás várias vezes, eu acho que ele disse mesmo. Eu ouvi Haiti, não ouvi isso.
O mercado lá está ao nível de pistola na mão, passa para cá a carteira e assim se faz a transferência de rendimentos.
Paulo, a exploração do homem pelo homem.
Certo. Quem é o teu vilão, Miguel?
O vilão é Gouveia e Melo. O debate correu bem.
Mas isso foi à noite.
Foi à noite, mas o dia não correu bem, porque ontem ele perdeu o seu mandatário para Castelo Branco. Era Afonso Camões, antigo presidente da Lusa e ex-diretor do Jornal de Notícias. Ele renunciou ao lugar para não embaraçar, estou a citar, o almirante. E perguntam vocês: "Mas por que carga de água ele ia embaraçar o almirante?" Iria embaraçar o almirante porque Afonso Camões sempre foi um homem muito próximo de José Sócrates. A dada altura surgiu uma escuta em que ele falava com José Sócrates sobre a sua possível nomeação para diretor do JN ou de outro jornal, e Afonso Camões disse algo como isto: "Eu sou um joker em qualquer posição para mandar. E também sei que um general prussiano não se amotina." E a minha grande dúvida, aquela dúvida que me intriga, a dúvida que me deixa perplexo, é esta: Gouveia e Melo só descobriu isto agora?
De facto. Qualquer pesquisa no Google.
Paulo, eu percebo que Gouveia e Melo patrioticamente passou muito tempo noutra vida, nas Forças Armadas, com outras preocupações. Mas a partir do momento em que entra na política, tem que saber os mínimos, tem que conhecer os mínimos, ou então tem que arranjar pessoas que saibam os mínimos, que conheçam os mínimos e que o informem dos mínimos. Eu imagino que o almirante Gouveia e Melo tenha entrado em pânico com a possibilidade de ir debater com o André Ventura e do que André Ventura lhe diria sobre isto e outras coisas, porque André Ventura no fim de semana já começou a dizer que o Gouveia e Melo é o regresso, eu acho que ele disse a tralha socratista ou foi assim uma coisa qualquer. E portanto, de facto, se vai com fragilidades destas debater com o André Ventura, realmente é um-
Ou então assume que não há fragilidade e assume aquelas pessoas.
Ele primeiro assumiu.
E portanto, isso também é um caminho.
Ele primeiro assumiu.
Não pode é ficar a meio da ponte e agora-
Certo
...mas depois veio esta renúncia.
Miguel, hoje é dia de Realpolitik. O Sérgio Sousa Pinto junta-se a ti depois do jornal do meio-dia. Do que vão falar hoje?
Vamos falar da saúde de quem manda em nós. O Sérgio Sousa, em princípio, tem alta hoje, felizmente, mas vamos falar um bocadinho sobre como é que tem sido a relação de quem manda em nós com a sua própria saúde. Vamos falar sobre a nova vida do Bloco. O Bloco tem um novo líder, chama-se Manuel Pureza. Vamos falar sobre se existe um caminho para o Bloco sair deste buraco onde se meteu. E finalmente, vamos falar sobre as ameaças de Putin à Europa, a propósito das negociações de paz na Ucrânia. Ontem Putin eu senti que estava no filme "O Padrinho".
Completamente.
Eu hoje quando acordei fui ver se tinha uma cabeça de cavalo aos pés da cama.
É o Realpolitik para ouvir logo a seguir às notícias do meio-dia. Quanto ao bom, ao vilão desta quarta-feira, o bom é Gouveia e Melo, o mau, António Filipe, e o vilão de hoje é Gouveia e Melo. São as escolhas do Miguel Pinheiro no episódio que daqui a minutos também fica disponível em podcast.
[cerca de 12 segundos de música eletrónica]