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Começa agora uma nova edição do Bom, o Mau e o Vilão. Olá, Miguel Pinheiro, bom dia.
Bom dia.
Bom dia, Miguel. O teu bom não quer escamotear.
Não quer escamotear. A ministra da Saúde não quer escamotear. Eu ontem falei aqui da forma como o presidente da República falou sobre o caso do dermatologista que ganhou €400 mil em 10 sábados. Marcelo disse que não podemos agora estar aqui a perder com os casos pontuais. Eu falei sobre isso ontem. Hoje quero falar sobre Ana Paula Martins, que comentou este mesmo assunto, mas de forma totalmente diferente. A ministra da Saúde afirmou que isto mina a confiança no sistema e no Serviço Nacional de Saúde e defendeu que não podemos deixar que isso aconteça. E insistiu, lá está, que os responsáveis políticos não devem ignorar nem escamotear o que se passou. E agora só falta a ministra da Saúde explicar ao país de que forma é que está a evitar que situações como esta se repitam, de que forma é que se está a certificar de que os vários hospitais públicos, a começar no Santa Maria, têm mecanismos de controle para saberem o que se passa com o dinheiro que os contribuintes generosamente lhes entregam através dos impostos.
Já nem queremos saber, nos últimos anos, quantos casos destes terá havido. Vamos partir em frente.
Achas?
Eu penso.
Se calhar queria saber. Achas que é melhor não saber, Paulo?
Não, acho que é melhor saber, mas achas que vamos saber isso?
Há aquelas pessoas que antes de irem pra casa, telefonam uma hora antes. Também preferem não saber, mas se fosse possível saber...
Frias.
Neste caso, sim.
Então e quem é o teu mau, Miguel?
Olha, é António José Seguro. Ontem mais um dirigente relevante do PS falou sobre presidenciais e não foi bom. António Mendonça Mendes deu uma entrevista aqui à Rádio Observador e andou às voltas e reviravoltas, mexeu-se e remexeu-se, e contorceu-se pra não declarar um apoio óbvio a Seguro, disse que o PS tomou a decisão que se impunha face ao contexto que tinha, mas depois desculpou-se pra não falar mais sobre o assunto, com o argumento de que agora está concentrado no orçamento e por isso não tem tempo pra as presidenciais. Apesar disso, criticou os candidatos que tentam sair das gavetas, numa referência pouco subtil à entrevista em que Seguro recusou dizer que era de esquerda porque não queria ser metido numa gaveta. António José Seguro pode iludir-se, mas no dia das eleições, ele vai precisar de votos socialistas. Não há outra forma. E entrevistas como esta não me parece que o ajudem a conseguir isso.
O que transforma estas presidenciais numa caixinha de surpresas, mesmo até o fim.
É uma gaveta de surpresas.
É uma gaveta, isso mesmo.
Aliás, a primeira pessoa a meter o socialismo na gaveta foi Mário Soares e, portanto, em certo sentido, António José Seguro tem antecedentes históricos nobres. Mas enfim, agora o PS já não quer saber de gavetas.
Agora não é o socialismo, sequer, é o esquerdismo. É um conceito um bocadinho diferente.
É preciso uma gaveta maior. Enfim.
Miguel, o teu vilão é o procurador-geral da República.
Pois. Peço desculpa.
Não fazia parte do guião.
Não.
Não.
Um waistraxe.
Eu sou uma pessoa frágil e então estou aqui um pouco apanhado. Enfim, não estou nada. Há dias, quando saiu uma notícia sobre o fato de, ao fim de dois anos, haver três arguidos da Operação Influencer que ainda nem sequer foram ouvidos, nessa altura, Amadeu Guerra justificou a demora no processo com o fato de haver um recurso interposto por um dos arguidos e que ainda estava à espera de decisão do Tribunal da Relação. Ora, ontem de manhã nós percebemos, através dos jornais, penso que foi o Expresso, que essa decisão já tinha sido tomada a 23 de setembro. E ontem à tarde, o procurador-geral da República desculpou-se dizendo que só na terça-feira é que tinha recebido o acórdão em causa. Ora, há aqui dois problemas: o primeiro problema é que Amadeu Guerra deu uma informação errada. E quando percebeu isso, na terça-feira, aparentemente ficou em silêncio e só veio falar depois de, na quarta-feira, os jornalistas noticiarem que havia alguma coisa errada. Podia ter tomado a iniciativa. Na terça-feira, chamava os jornalistas ou fazia uma nota a dizer: "Peço imensa desculpa, enganei-me. Afinal, isto já estava resolvido." Segundo problema é que, pelos vistos, a lentidão da Justiça é mais grave do que pensávamos. A decisão do Tribunal da Relação é de 23 de setembro, mas só chegou ao procurador-geral da República a 11 de novembro, ou seja, um mês e meio depois. De qualquer forma, eu acho que pode ficar aqui um conselho: quando está em causa a Operação Influencer, o PGR não pode nunca falar de cor. Quando lhe fizerem perguntas, ou sabe do que está a falar, ou pede um bocadinho pra se ir informar. Atirar assim umas coisas pros microfones quando está a entrar ou a sair de um prédio, dá nisto.
E também quando se está em causa uma operação destas, um documento não pode demorar um mês e meio a percorrer 2 km em Lisboa.
Certo. Mas eu, acima de tudo, acho que se há processo em relação ao qual o procurador-geral da República tem que ter um especial cuidado de estar informado, é este. Não é interferir no processo, é saber o que se está a passar e certificar-se de que as coisas andam.
Por assim dizer, tem de escamotear qualquer dúvida.
Certo.
Eu adoro escamotear.
Sabes que a escamoteação é um problema.
É. Escamotearei. Tu já viste o que é conjugar o verbo escamotear no futuro, no condicional?
Escamotear-vos-ei? Um dia destes.
Exato. Escamoteá-lo-ei. É o que o PGR arrisca, que é uma coisa complicadíssima. Vamos ao resumo. O bom desta quinta-feira é a ministra da Saúde, o mau é António José Seguro, e o vilão de hoje é o procurador-geral da República, Amadeu Guerra. Foram as escolhas do Miguel Pinheiro nas manhãs 360 e sempre em podcast.