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Está no ar mais um episódio do "O Bom, o Mau e o Vilão" da Rádio Observador, que hoje também vai poder acompanhar com imagem através das nossas redes sociais. Olá, Miguel Pinheiro, bom dia.
Bom dia.
Miguel, o teu bom venceu o debate de ontem.
Sim, André Ventura ontem conseguiu tudo aquilo que queria. Conseguiu impor a imigração como principal tema do debate, conseguiu voltar a falar sobre o papel de Marcelo Rebelo de Sousa em Angola, conseguiu colar António José Seguro ao PS de Guterres e de António Costa, lembrando o milhão de portugueses sem médico de família, o fim do SEF e tudo o resto que correu mal nos anos em que os socialistas estiveram no poder, e conseguiu apresentar Seguro como candidato daquilo que disse ser a conversa de chacha. As palavras-chave desta campanha de André Ventura são 50 anos, imigração e corrupção. Ele usou-as todas uma e outra vez. André Ventura falava muito e António José Seguro, para usar uma imagem, parecia um Bambi com os olhos encadeados pelos faróis de um carro que vem na direção dele a alta velocidade. Estava ali à espera da pancada.
Acho que não vimos o mesmo debate.
Eu acho que não viu o mesmo debate a maior parte das pessoas.
Talvez. Mas de certeza está certo, Miguel.
Eu tenho este imaginário da Disney e vejo Bambis nos sítios mais inesperados.
Essa cara de Bambi devia duas ou três vezes a André Ventura.
Ai, foi?
Pronto, mas olha, é a vida.
O importante, Paulo-
É que eu vi de trás para a frente.
Não, o importante é que haja um Bambi. Se houver um Bambi, seja de um lado ou do outro, foi um bom debate.
E já agora, que a mãe do Bambi sobreviva.
Suspeito que não.
O bom é André Ventura, o teu mau perdeu o debate de ontem.
É, peço desculpa, Paulo.
Vamos reincidir.
Mas acho que com António José Seguro as coisas não correram bem, começou a descarrilar logo com a lei laboral. Ele disse: "Qual a necessidade de fazer isto agora?" Uma frase que faz lembrar o célebre "qual é a pressa?", quando era ele líder do PS e lhe perguntaram em que altura faria um congresso partidário que o pudesse desafiar. Qual é a pressa de andar aqui a fazer coisas? Vamos parar de fazer coisas, o país está tão bem, vamos parar, está tudo bem.
António José Seguro parece que nunca tem pressa para nada.
Pois não. Os Bambis nunca têm pressa para nada, especialmente quando estão encadeados por faróis. Mas depois disso, parece-me que foi o descalabro com o Seguro a ser levado pela enxurrada André Ventura. Não houve uma única altura em que Seguro controlasse o debate. Quer dizer, na realidade, houve uma, Paulo.
Então.
Mas correu terrivelmente mal.
Até essa que tu conseguiste generosamente identificar.
António José Seguro consegue controlar o momento do debate e corre mal. Foi quando ele apresentou o seu pacto para a saúde. Ele sacou de uns papéis que entregou a André Ventura e começou a recitar o sumário executivo. Só a expressão dá sono, não é? "Senhores telespectadores, vou aqui recitar o sumário executivo." E toda a gente pensa: "Epá, espera aí, vamos ouvir isto que isto vai ser bom." Mas então António José Seguro começou a recitar aquilo, parecia que tinha "Os Lusíadas" à frente. Eu depois também fui ler e então o pacto defende, por exemplo, a integração efetiva entre níveis de cuidados, defende o reforço da gestão da avaliação e da estabilidade institucional e defende, atenção, a digitalização interoperável.
Isso é outra coisa já.
Pronto. Repara, é evidente que nós precisamos de uma digitalização interoperável. Vimos isso até há pouco tempo, quando percebemos que os sistemas informáticos não falavam uns com os outros. Podíamos é chamar-lhe outra coisa que não digitalização interoperável, para as pessoas perceberem. Na cabeça de António José Seguro, e este é o ponto de substância, o ponto de forma é a interoperabilidade, é que António José Seguro acha que a melhor maneira de levar os partidos a porem-se de acordo em relação a um pacto para a saúde é ter um presidente que pensa o pacto, escreve o pacto, imprime o pacto em folhas A4, muito direitinhas, todas alinhadinhas, põe-lhes o pacto à frente e depois eles assinam o pacto. Eu acho que realmente é uma ideia brilhante. Realmente, assim conseguimos ter um pacto. Os partidos calam-se, o presidente decide e está feito o pacto.
Mas depois não é aplicado o pacto.
Paulo, não sei, a mim parece-me uma ideia brilhante. O presidente chegar lá com umas folhas imprimidinhas em folhas A4, entregar-lhes o pacto para eles concordarem com o pacto. Achas que é brilhante? Achas que vai correr bem?
Não, não vai correr bem. Já agora, vi um André Ventura desconcertado com a forma como António José Seguro tentou desarmadilhar aquilo que é a prática de debates. Não é novidade para ninguém a forma como o André Ventura debate.
Que é aquelas 20 vezes em que António José Seguro ficou em silêncio e disse: "Pode falar."
Sim.
Achas?
Acho. Tu não achas? Olha, é por causa disso que o mundo não cai para o lado.
Acho que ele aproveitou e falou. "Ai, posso falar? Com certeza." Aqui o ponto é: aquele foi o debate que André Ventura queria Debateram-se os temas que António Ventura queria. Foi isso que se debateu. Já pareço o próprio João da República a falar em António Sócrates. Aquele seguramente não era o debate que António José Seguro queria, não foi o debate que ele levou de casa preparadinho na cabeça.
Acho que em termos de estilo ficaram muito bem vincadas as diferenças, claramente.
Claro.
Claro, tu também concordas, não é?
Certo, com certeza.
Podemos dizer que é mais um estilo, de alguma maneira.
Não gosto de valorizar o estilo. Acho que André Ventura mostrou o estilo que queria mostrar. Não aconteceu uma coisa em que ele foi desmascarado. Não, ele quer ser aquilo, ele quer mobilizar os apoiantes dele para aquilo. E, de facto, nós temos visto nas últimas eleições, vamos ver se vemos nesta, com certeza, é que ele tem vindo a somar apoiantes. E o que vemos à partida é que se ele conseguisse ter o mesmo número de votos que teve nas últimas legislativas, tinha grandes possibilidades de passar à segunda volta. Agora, claro, são eleições diferentes, como é evidente, o comportamento das pessoas é diferente. A aposta dele é no mais do mesmo. E ele conseguiu impor isso. É só esse o meu ponto modesto.
Claríssimo.
Portanto, o teu mau é António José Seguro e quem é o vilão?
São os despedimentos coletivos. Nós vimos ontem números que mostram que o número de trabalhadores que foram abrangidos por despedimentos coletivos até este momento é o mais alto desde 2023, 5412 pessoas. Só nestes primeiros nove meses, o Ministério do Trabalho recebeu a indicação de 414 despedimentos coletivos, mais 17% do que no mesmo período do ano passado. E por que esses despedimentos coletivos aconteceram? Temos essa informação. São basicamente três motivos: necessidade de redução de pessoal por parte das empresas, encerramento de uma parte da empresa ou encerramento da empresa toda. E há muitas explicações para este número, claro, mas há uma coisa importante nesta altura em que estamos a discutir as alterações à lei laboral. É que se é difícil despedir um, dois ou três trabalhadores para adaptar as empresas a momentos de dificuldade, e há empresas que têm momentos de dificuldade. Todos nós gostaríamos que não houvesse momentos de dificuldade, todos nós gostaríamos que toda a gente tivesse emprego, todos nós queremos isso, todos somos pessoas muito boazinhas que querem que o Bambi sobreviva, mas quando há um momento de dificuldade, se é difícil, se a lei laboral dificulta, impede o despedimento de um, dois, três trabalhadores, então depois já só é possível atuar quando a situação é dramática. E aí recorre-se aos despedimentos coletivos. Não é possível despedir uma pessoa quando as vendas descem. É possível despedir 50 ou 500 quando a empresa fecha. E por isso, acho que isto nos devia servir para pensarmos um bocadinho. O Bambi António José Seguro, que falou sobre a lei laboral, podia pensar um bocadinho sobre isso. O Bambi André Ventura, que também está ali a meio da ponte, que também quer dizer que os trabalhadores têm que ser defendidos através de uma rigidez da lei laboral, devemos olhar para isto.
Mas é que o ponto é mesmo esse, é que é mais fácil fazer o despedimento coletivo do que o individual. Enfim.
Certo. Mas também é mais doloroso. Claro, com certeza. Atenção, com certeza. Um despedimento individual é mais doloroso para a pessoa que é despedida, como é óbvio, vamos lá ver, como é evidente. Não é esse o meu ponto, com certeza. Eu diria que 50 ou 500 despedimentos, infelizmente, são piores do que 10 ou 15 numa determinada altura. Tudo isto, obviamente, são situações complicadíssimas, mas nós temos que olhar para os números todos. E o que nós temos é isto, os despedimentos coletivos no número mais alto desde não sei quando.
Vamos ao resumo. O bom desta terça-feira: André Ventura, o mau: António José Seguro, e o vilão são os despedimentos coletivos. Foram as escolhas do Miguel Pinheiro nas manhãs 360 e sempre em podcast.