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O Miguel Pinheiro já está conosco para uma nova edição do "O Bom, Mau e o Vilão" da Rádio Observador. Miguel, bom dia.

Bom dia.

O teu bom foi rápido.

Olha, felizmente, e não é comum. Não é comum, mas José Luís Carneiro foi rápido depois de um organismo meramente burocrático ter decidido que o nome de quem financia partidos passaria a ser, na prática, secreto. Depois disso, o líder do PS deu indicações para que os socialistas resolvessem rapidamente a questão e é isso mesmo que estão a fazer. Os deputados do PS vão apresentar dentro de dias um projeto de lei onde fica claro, para lá de qualquer dúvida e interpretação, que os donativos recebidos por partidos ou por candidatos a cargos políticos devem ser, vou citar: "públicos e acessíveis". Ou seja, devem poder ser consultados e revelados por todos, nomeadamente pela comunicação social, que tem um papel de escrutínio de tudo isto. Eu podia estar aqui agora a enumerar os casos em que ficámos a saber coisas muito interessantes através da identidade de quem financia partidos. Tudo isto começou com um pedido de parecer à Entidade das Contas e Financiamentos Políticos feito pelo Chega, pelo PCP e pelo Bloco de Esquerda, que bem que eles estão todos juntos, e depois da decisão esdrúxula a favor do secretismo, o PSD fez de conta que não estava a perceber o que se estava a passar. Estava aqui distraído com outras coisas e é seguir em frente. Agora teve de ser o PS a mexer-se e com a apresentação deste projeto de lei por parte dos socialistas, os outros partidos deixam de se poder esconder atrás dos burocratas. Por isso, agora vamos todos saber. Então, afinal, querem o segredo ou a transparência? Partido a partido, vão ter que se pronunciar sobre este diploma do PS e vão ter que dizer o que é que querem. E nós também vamos ficar a saber, que é sempre útil.

É, e essa magna questão dos dados. Não pode haver divulgação de dados, o que nuns casos funciona e noutros não. Também há aí uma pluralidade de critérios, mas enfim.

Em Portugal dá para tudo. Tu podes pedir, o RGPD é mais do que a Bíblia. A Bíblia, esquece lá isso, mas chegas a algum sítio que o RGPD está resolvido.

Então e quem é o teu mau, Miguel?

O meu mau. Olha, o meu mau é António José Seguro. Peço desculpa, isto é muito difícil. A minha vida, se vocês soubessem. Enfim. Bom, ontem o Presidente da República anunciou os cinco nomes que escolheu para o Conselho de Estado. Acontece que dois deles, dois dos cinco, não é coisa pouca, Alberto Martins e Nuno Severiano Teixeira, são do PS. Parece que Severiano Teixeira não é militante, mas isso é irrelevante. Pior, foram os dois ministros em governos do PS. Pior ainda, foram os dois ministros em governos de José Sócrates. Eu penso que estiveram os dois com Guterres e depois com José Sócrates. E quando andou em campanha, António José Seguro fez sempre questão de se afastar do Partido Socialista, nomeadamente de Sócrates e de Costa, para conseguir o máximo de votos possível e para não ser contaminado pela derrota humilhante que o partido tinha tido nas legislativas. Além disso, Seguro fez questão de dar visibilidade durante a campanha aos seus apoiantes de direita. Mas a verdade, claro, é que António José Seguro nasceu no PS, cresceu no PS e é do PS, por isso só se iludiu quem quis. Não há aqui surpresa nenhuma.

Deve haver também aí uma tentativa de compensação dos nomes que o PS não nomeia agora através do Parlamento.

Ai, tão ingênuo, Paulo. Ai, então afinal é por solidariedade. Muito bem. Portanto, se o que estivesse em falta fossem nomes do PSD, por exemplo, ou do Chega, achas que António José Seguro ia a correr compensar? Além de que, eu penso que o papel do Presidente da República não é compensar o que o povo decide. Acho eu. Penso que o povo compensa-se a si próprio. Mas sim, vamos seguir esta interpretação bondosa do Paulo. É sexta-feira, vamos todos dar as mãos.

Deixar cair uma lágrima.

Isso. Eu já te dou um abraço, Paulo.

O teu vilão tem um problema.

Parece que sim. Parece que não aprende. O vilão é o PS. O partido já estava com problemas suficientes por perder um juiz no Tribunal Constitucional, mas não contente com isso, decidiu arranjar outra polêmica na eleição de órgãos externos no Parlamento. Depois de lhe ter sido oferecido de bandeja pelo PSD o lugar de Provedor de Justiça, que normalmente o lugar de Provedor de Justiça vai para o maior partido da oposição, portanto, até deveria ir, a manter a tradição, para o Chega. Mas enfim, o PSD invocou que tinha um acordo antigo já agora com o PS e portanto, ofereceu de bandeja o lugar de Provedor de Justiça ao PS. E o partido escolheu quem? Tiago Antunes, que trabalhou junto de José Sócrates e de António Costa e foi acusado de colaborar com os blogs que integravam a máquina de propaganda socrática, essa máquina de propaganda de má memória, que além de defender o governo da altura, atacava os adversários do primeiro-ministro de forma implacável e de forma anônima. Já agora, só este pequeno detalhe. O resultado viu-se ontem. Tiago Antunes precisava de 154 votos para ser eleito Provedor de Justiça, mas só teve 104 De facto, olhe aqui 50 votos, não é coisa pouca. O Observador já tinha escrito na véspera que vários deputados socialistas estavam desconfortáveis com o nome e não o iam apoiar. O PS agora apressa a dizer que o Tiago Antunes teve o voto de todos os deputados socialistas, tem esse conforto. Eu não estaria tão certo, mas quem sou eu? Enfim, logo depois do chumbo, o PS ainda admitia a hipótese de voltar a apresentar o nome a uma nova votação. Acho que sim. Mas pelo visto o PS ainda não percebeu que o país mudou. E enquanto insistir em trazer de volta pessoas que trabalharam de perto com José Sócrates e com António Costa, acho que vai continuar a bater com a cabeça numa parede. Há quem goste.

Pois, sobretudo com José Sócrates, que tem o mais elevado nível de toxicidade política, se calhar, do país neste momento.

Atenção, sendo que acho que nunca nos devemos esquecer de lembrar isto. Naturalmente que ninguém está aqui a dizer que as pessoas que trabalharam com José Sócrates, de alguma forma, são comparáveis a José Sócrates. Mas a verdade é que, muito para lá daquilo que se sabe hoje, a forma de exercer o poder por José Sócrates é muito questionável. E por isso, quem andou ali no núcleo duro a achar aquilo tudo muito bem, com certeza está certo, pode defender isso, mas depois não se pode admirar que o país olhe para isso com censura.

Claro, não se pode admirar se perder companhias por causa disso.

Certo.

Vamos ao resumo. O bom desta sexta-feira é José Luís Carneiro, o mau é António José Seguro e o vilão de hoje é o PS. São as escolhas do Miguel Pinheiro no episódio que daqui a pouco também fica disponível em podcast.