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O Miguel Pinheiro já está conosco para uma nova edição do Bom, Mau e o Vilão. Olá, Miguel, bom dia.
Bom dia.
Bom dia. Miguel, o teu bom somos todos nós?
Sim, senhora. Partindo do princípio que-
Eu também
...Paulo, estou partindo do princípio que pagas impostos.
Fico de pé. É a vida, não é?
É?
Pois, claro.
De certeza?
Absoluta.
Pronto, então vá.
O Estado é o nosso sócio, queiramos ou não.
Paulo, é só que eu ouvi assim umas coisas. Houve aí umas pessoas da Autoridade Tributária que andaram pela redação. Mas são os contribuintes o bom, porque ontem, eles, nós, tivemos a grande notícia de que o presidente executivo do grupo Air France KLM anunciou que vai formalizar a proposta de entrada na TAP, vai entregar essa declaração de manifestação de interesse ao governo até ao final do mês. Está quase, felizmente, porque numa altura em que a Lufthansa ainda está a analisar o negócio, eu até tremo a imaginar o que eles estarão a encontrar ali. Mas a Lufthansa está a analisar, mas a Air France KLM avança, o que quer dizer que se Deus, nosso Senhor Jesus Cristo quiser, não corremos o risco de ficar outra vez com a TAP nas mãos, a pagar indenizações a torto e a direito, a lidar com prejuízos e a assistir ao espetáculo de políticos a meterem-se onde não devem. Quanto mais depressa este negócio se concretizar, melhor. Se os senhores da Air France KLM, em vez de esperarem pelo fim do mês, se puder ser um pouquinho antes, só para irmos despachando isto.
Miguel, eu nestas coisas só visto. Só depois dos contratos. E mesmo assim, já se sabe que tudo pode ser revertido. Mas não estou assim tão otimista.
Não estás?
Não, claro que não.
Mas achas que pode não haver negócio?
Então, não pode. Até ao lavar de cestos se é vendido.
Paulo, vá lá, por amor de Deus.
O governo pode não aceitar montantes e por aí fora.
O Miguel estava tão bem-disposto.
Desculpa lá estragar assim o teu mood pro fim de semana.
Não acredito. Tenho fé.
Quem é o teu mau, Miguel?
Olha, é a Ministra da Justiça, porque ontem, quando lhe perguntaram sobre as peripécias e as confusões no julgamento do processo José Sócrates, Rita Julis disse o seguinte, eu vou citar: "Não me vou pronunciar sobre o caso em concreto, mas, como é natural, todos sabemos, e isso posso dizer, que este caso tem representado tudo o que pode correr mal num processo. É um guia para o que não pode acontecer." A ministra tem toda a razão. E se tem toda a razão, então perguntam vocês com argúcia por que está no mau.
Por que está no mau, Miguel?
Muito bem, muito arguto. Paulo, queres ser arguto?
Por que está no mau, Miguel?
Muito arguto também. Está no mau porque o trabalho de uma ministra não é fazer comentários com toda a razão. Esse é o meu trabalho, é o vosso trabalho, a argúcia é o nosso trabalho. O trabalho de uma ministra é fazer coisas. E se este caso mostra tudo o que pode correr mal num processo judicial, e mostra, então é preciso mudar as leis pra que aquilo que está a correr mal não se repita. E se há aqui um guia para o que não pode acontecer, a ministra tem agora de criar um guia para o que deve acontecer. E não me venham com a conversa de que não se pode legislar a partir de um caso concreto, porque se nada mudar, a culpa é dos políticos, não é de mais ninguém. Os políticos é que podem pegar e mudar o código de processo penal, a forma como as coisas funcionam nos tribunais. Podem fazer isso. E se não fazem, é porque não querem.
E é de bom tom que uma ministra da Justiça não comente um caso concreto, não é?
Certo. Paulo, mas nem é por aí. Eu acho que isto, de fato, já atingiu um nível de desfaçatez tão grande que eu acho que se pode comentar, realmente. Porque isto está num nível que está em causa, pra citar um grande pensador, o Estado de Direito. E, portanto, o Estado tem que se defender e olhando pra isto, tem que perceber que as coisas têm que mudar. Agora, é preciso que mudem.
Miguel, o teu vilão é um repetente.
Sim, são outra vez os médicos tarefeiros, porque aconteceram de ontem pra hoje duas coisas muito interessantes. Primeiro, aqueles médicos que se andaram a juntar em reuniões e a ameaçar fazer uma greve de pelo menos três dias, recuaram, vieram dizer agora que lamentam o pânico generalizado e infundado provocado pelas notícias sobre essas reuniões e afirmaram que a culpa, obviamente, é dos jornalistas. Claro. Segundo eles, os jornalistas fazem notícias sensacionalistas. Pronto, já cá faltava, tá aqui. A culpa dos problemas do SNS é dos jornalistas. Além disso, estes médicos exigiram que a Ministra da Saúde os recebesse para negociarem. Mas há aqui um problema: é que os ministros não recebem qualquer pessoa que lhes bata à porta. Os ministros, como é evidente, só podem receber grupos que representem alguém. Então quem é que este grupo representa? Quem é que os escolheu? Foram eleitos por quantas pessoas? De que forma? Eles sabem que não representam ninguém e por saberem que não representam ninguém, estes médicos tarefeiros estão agora a tentar arranjar uma legitimidade à pressa e tiveram a ideia brilhante de lançarem uma petição pública online para se legitimarem. Portanto, eles fizeram uma petição pública e na cabeça deles está lá o nome de uma série de médicos que farão parte deste grupo. O presidente, o vice, etc. E na cabeça deles, quantas mais assinaturas tiverem, maior legitimidade têm. Mas isto não é legitimação nenhuma. Uma assinatura online não dá representatividade a ninguém. Por isso, eu fico convencido de que estes médicos tarefeiros não fazem ideia do que andam a fazer. Andam por aqui assim a inventar a cada dia que passa.
Estão a precisar de um consultor sindical, se é que isso existe.
Olha, Paulo, se não existe, ficas desde já empossado dessa nobre tarefa. O Paulo Ferreira é o nosso consultor sindical.
Já está, arregaça as mangas.
Já está.
Pronto, é um homem que não vira a cara ao trabalho.
Já estou aqui a fazer os cartões de visita.
Ora, muito bem, então já sabem pra onde têm que mandar os e-mails.
Pois. Qual é o e-mail, Paulo? Recorda lá.
É o Paulinho, não é?
Exato. Paulinhosindicalista@oobservador.pt.
Vamos ao resumo. O bom desta sexta-feira são os contribuintes, o mau é a Ministra da Justiça e o vilão de hoje são outra vez os médicos tarefeiros. São as escolhas do Miguel Pinheiro num episódio que daqui a minutos também fica disponível em podcast.