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Começa agora uma nova edição do "O Bom, o Mau e o Vilão" da Rádio Observador. Olá, Miguel Pinheiro, bom dia. Bom dia. Miguel, o teu bom é André Ventura. É. De facto, André Ventura ontem teve um dia com tudo aquilo com que sempre sonhou. Primeiro, encontrou Passos Coelho no lançamento de um livro, depois Passos Coelho cumprimentou-o calorosamente, fazendo conversa com ele em frente às câmaras e aos microfones dos jornalistas. A seguir, Passos foi concordando genericamente com o que André Ventura lhe ia dizendo, repetindo que este governo precisa de mais ritmo porque os eleitores estão a ficar impacientes. Há ali um momento em que Passos diz: "Eu não diria tanto." Enfim, mas basicamente estão ali de acordo. Passos Coelho não lhe disse: "Então, André, de onde é que saiu aquela ideia de baixar a idade da reforma?" Não lhe disse nada disto. Concentraram-se no que os une. E logo depois sentaram-se os dois lado a lado como se fossem grandes amigos. Eu bem sei que nestas coisas as pessoas normalmente sentam-se onde lhes dizem para se sentar, mas enfim, o momento simbólico lá ficou. E por fim, houve a linguagem. Ao apresentar o livro, a dada altura, Passos Coelho disse isto, vou citá-lo: "Quando com medo do populismo, o político do mainstream lhe veste a casaca pra evitar que o populismo chegue com o voto ao Palácio e resolve então ser mais populista do que o populista, normalmente a história mostra que a coisa não funciona." Enfim, aqui está naquela parte do a cópia ou original. Mas depois acabou assim, eu vou continuar a citar, peço antecipadamente desculpa pelas palavras, não são minhas. Ele disse isto: "O que é autêntico e genuíno sempre se manifesta de forma muito mais eficaz do que o que é postiço. E então o postiço fica sem nada. Fica sem integridade, fica como um prostituto sem caráter, sem reduto de pensamento." Passos seguramente não ignora que esta é uma crítica normalmente feita a Luís Montenegro, esta questão da cópia, ele estar a copiar André Ventura e esquecer que normalmente as pessoas preferem o original à cópia. Portanto, a ideia ele sabe que costuma ser atirada a Luís Montenegro e depois há aquela palavra. E a palavra fez-me lembrar uma outra frase polêmica, essa de André Ventura, que na altura provocou grande indignação de Luís Montenegro. Em 2024, o líder do Chega criticou o PSD por oscilar entre uma possibilidade de aliança com o PS ou com o Chega. E André Ventura disse isto, eu vou também citá-lo: "Ficámos com uma espécie de PSD prostituta política." Portanto, prostituta, prostituto. Enfim, ao usar a mesma palavra que André Ventura, parece-me que Passos Coelho diminuiu-se. Não me parece que os eleitores do PSD adorem isto, mas André Ventura adorou, de certeza.
Apesar de ele ser nesta história também o verdadeiro populista. Por causa da imitação.
Sim, Paulo, mas ele não parece ter nenhum problema com isso. Se ele é autêntico e genuíno, pra usar as palavras de Passos Coelho, se é autêntico e se é genuíno, e se as pessoas o preferem. O populismo, na verdade, é uma corrente política muito antiga. Nos Estados Unidos há muitos políticos que se apresentam como sendo populistas. Não é necessariamente insulto, ao contrário de outras palavras em certas circunstâncias. Miguel, o teu mau irritou-se. Pois, Luís Neves irritou-se, mas irritou-se muito. O ministro da Administração Interna falou ontem aos jornalistas pra defender a escolha do major general Viegas Nunes como novo líder do SIRESP, apesar das suspeitas lançadas pelo agora ex-secretário-geral adjunto do MAI, que se demitiu por causa desta nomeação. Fez aquilo que eu tinha apelado a que não fizesse, mas a mim ninguém me ouve. Decidiu falar ali na entrada de um edifício qualquer e resolveu improvisar umas palavras. Isto corre sempre mal. Convinha que os ministros metessem isto na cabeça. Assuntos sérios tratados à entrada de um edifício corre sempre mal. E neste caso, correu mal, porque além de defender Viegas Nunes, Luís Neves atirou-nos a tese da cabala. E foi a seguinte, aqui vai. Ele disse isto: "Na sua gestão, deixámos de estar nas mãos de monopólios, porque é disso que estamos a falar. Vamos lá ver se nos entendemos. Pra passarmos pra defesa do erário público." Há aqui um problema de tom, como será percebido pela minha capacidade de representação, há um problema de tom e há um problema de conteúdo. O problema de tom é esta irritação. Durante anos, Luís Neves passou uma imagem de tranquilidadeSempre que falava enquanto director nacional da PJ, especialmente nos momentos mais difíceis, ele tem de levar essa imagem para a política. Ele não pode ficar a espumar logo que surge a primeira contrariedade. A imagem dele é a de alguém tranquilo. De repente, passa a ser alguém irritado? Não me parece que seja uma boa medida política. E depois há o conteúdo. Então nós estivemos durante anos nas mãos de monopólios sem que alguém defendesse o erário público? Isto interessa-me muito, porque eu sou contribuinte. Mas então vamos continuar a conversa. Acho que temos de continuar esta conversa. Que monopólios eram esses? Quem os protegia? Quem é que não defendeu o erário público durante anos? Eu espero de um ministro que me conte tudo. Ainda por cima, o ministro acabou de chegar de fora da política e apanha ali, de repente, um monopólio durante anos mantido por pessoas que não defendem o erário público. Então diga tudo, atire tudo cá para fora. Diga-nos nomes, diga-nos o que se passou. Eu não sei, mais uma vez, quem tem razão nesta polémica de Viegas Nunes, mas eu quero saber quem é que andou anos a gerir mal o meu dinheiro e quem é que andou a receber o meu dinheiro quando não devia. E por isso acho que Luís Neves deve contar tudo. Conte tudo. Agora isto assim é que não. Irritações com suspeições é que não. Nós sabemos que o SIRESP já foi muito escrutinado, já se ouviu muita coisa sobre o SIRESP, mas vamos então começar aqui do zero. Vamos lá contar a história desde o início e Luís Neves que nos ilumine.
Sobretudo que não perca a cabeça, não é? Porque isto é o pão nosso de cada dia do ministro da Administração Interna. Era bom que ele viesse com aquela capacidade de contenção das palavras que teve na PJ durante muito tempo.
Sem dúvida, tem de conseguir aguentar estas coisas sem perder a cabeça, acho eu. Miguel, só fica a faltar o teu vilão, quem é? Olha, o SNS. A Sic Notícias contou ontem a história de uma grávida de 40 semanas a quem rebentaram as águas e que se dirigiu ao hospital de Faro. E lá fecharam-lhe a porta na cara, nem lhe permitiram fazer a triagem, porque, santo Deus, não tinha telefonado antes para a linha SNS 24. Como é que é possível? Rebentaram-lhe as águas, estava ali numa aflição e em vez de pegar no telefone... Pegam no telefone para tudo, estão sempre agarrados ao telefone e agora não pegam no telefone. Realmente. Só havia uma obstetra exclusivamente reservada para casos em que haja risco para a mãe ou para o feto e por isso o hospital recusou-se a atendê-la. Com certeza que só há uma médica para situações graves. Com certeza que não pode agora, de repente, tratar só porque sim de outros casos, mas aqui até se deu uma coisa que foi a grávida lá fora ligou para o centro idoso, o INEM chegou, viu-a e voltou a pedir ao hospital que fizesse o parto. Portanto, desta vez o pedido não foi de uma grávida nervosa, poder-se-ia dizer, foi do INEM. Mas nem assim, perante isto, a grávida foi levada para Portimão, a 70 km de distância, onde foi feito o parto. Felizmente correu tudo bem. E eu só fiquei com uma dúvida: se tivesse sido um hospital privado a fechar a porta na cara de uma grávida, ignorando um pedido do INEM, o que é que se estaria a dizer hoje? Eu gostaria que as pessoas fizessem este exercício. O que é que se estaria a dizer hoje?
Se calhar não se pode dizer às 08h30 da manhã em público numa rádio, não é?
Pois, se calhar não. Miguel, regressas depois do meio-dia com o Realpolitik, com o Sérgio Sousa Pinto. O que vão falar hoje? Olha, vamos ter que falar de Passos Coelho, tentar perceber quem é que manda na direita, quem é que quer mandar na direita, que confusão é esta. Também vamos conversar um bocadinho sobre a polémica no SIRESP, a grande polémica da semana, e ainda fez agora um ano de papado de Leão XIV, a esta nova encíclica. Vamos conversar um bocadinho sobre isso.