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Começa agora uma nova edição do Bom, Mau e o Vilão da Rádio Observador, sempre com o Miguel Pinheiro. Miguel, bom dia. Bom dia. Bom dia, Miguel. Quem é o bom de hoje? O bom de hoje, quem diria, é o Presidente da República. E não estou a brincar, atenção. Ontem, Marcelo Rebelo de Sousa publicou uma nota sobre o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza. Nessa nota, além de explicar que quase dois milhões de portugueses são pobres, que em Portugal são os mais velhos que correm maior risco de pobreza e exclusão social, e que as causas estruturais da pobreza no nosso país se cristalizaram ao longo de anos, para não dizer décadas. Além de tudo isto, o Presidente da República deixou ainda referências à ação do governo, pedindo que se ponha mesmo em marcha a Estratégia Nacional de Combate à Pobreza. O plano foi lançado com a habitual pompa e barulho mediático há 10 meses, mas só ontem, ao fim de 10 meses, precisamente no Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, é que foi nomeada a coordenadora do plano. Portanto, o governo olhou pro calendário e pensou: "Bem, daqui a 10 meses vamos ter uma efeméride. Isto pode esperar. Vamos esperar aqui pelo Dia Internacional pra Erradicação da Pobreza pra nomearmos uma coordenadora e até lá, calma, há tempo." Se isto não é pôr a propaganda à frente do país, eu não sei o que será. Mas eu estou a colocar Marcelo no bom, porque finalmente o presidente falou sobre um tema importante, e falou bem. Ele às vezes até fala sobre temas importantes, mas fala mal. E este é um tema tão importante que eu até tenho uma sugestão. Marcelo Rebelo de Sousa não gosta de sugestões, não gosta de ouvir os outros, acha que sabe tudo, acha que não precisa de ninguém, mas mesmo assim, aqui fica a sugestão, pode ser que faça o seu caminho. E a sugestão é: Marcelo Rebelo de Sousa devia transformar a pobreza no grande tema da sua presidência. Os presidentes não governam, não são oposição, não têm um programa de ação, mas podem ter preocupações. E esta devia ser a sua grande preocupação. Se quer falar todos os dias, fale todos os dias sobre a pobreza, porque se as coisas continuarem como até agora, Marcelo ficará pra história como o presidente das selfies. Aliás, ele disse há pouco tempo que está convicto de que será apenas um rodapé na história, mas eu acho que era muito mais digno se Marcelo ficasse na história como o presidente dos pobres. Ainda vai a tempo, ainda tem tempo na sua presidência pra isso e acho que era um bom caminho. E ficávamos todos mais ricos, não é? Certamente. Ficávamos todos mais ricos, é verdade. E acho que como presidente, este é um ponto onde podia fazer a diferença. Portanto, vamos ver. E Miguel, vais surpreender-nos com a tua escolha para o mau de hoje? Nada, não vou surpreender nada. As pessoas ouvem-me muito a falar disto. Mas eu vou continuar, porque acho isto um dos grandes escândalos nacionais e, portanto, continuo. O mau é a Soflusa, que assegura o transporte fluvial entre o Barreiro e Lisboa. Não sei se se lembram, pelo menos se viverem na margem sul, lembram-se de certeza, mas na semana passada, eu falei disso aqui, a semana passada foi toda dedicada, inteirinha, a uma greve entre as 7h e as 10h e entre as 16h e as 19h na Transtejo, que é a empresa irmã da Soflusa. Nas novelas há sempre as irmãs gêmeas, a boa e a má. Aqui temos a má e a péssima. Tanto a Soflusa como a Transtejo, realmente é pedra, papel ou tesoura pra tentar perceber o que é pior. E então esta semana, o que nós temos? Na semana passada, tivemos na Transtejo uma greve. Esta semana, o que temos na Soflusa? Não temos uma greve. Isso seria muito repetitivo, seria falta de imaginação. O que temos é uma paralisação devida à realização de um plenário. Na Soflusa e na Transtejo é assim. Se não há greve, há plenário. Se não há plenário, há greve. E realmente, se a falta de senso pagasse imposto, a Soflusa e a Transtejo estariam a ajudar o país a ser milionário. Estariam a ajudar Fernando Medina a ter finalmente um orçamento com superávit. Olha, por falar em pobreza, pobres são os utentes que não têm alternativa e que estão sujeitos a estas coisas. E isto passa. Estamos neste ano. Anos. E não há um ministro, um governo, uma tutela que resolva isto. Sabes por quê? Explica-me. Porque as pessoas que poderiam tomar decisões não apanham barcos pra irem trabalhar. Eu estou a dizer isto e estou a pensar: será que estou a ser demagógico? E realmente dito assim parece demagógico, mas infelizmente, eu acho mesmo que é verdade. Vão vendo estas coisas, ouvindo estas coisas na rádio e tal, lá longe. E quem é o vilão, Miguel? Olha, o vilão é a CEO da TAP. Há dias eu tive a infelicidade de pôr a presidente da companhia aérea como bom, por ter dito que a administração da TAP tem de melhorar a forma de comunicar com os trabalhadores e com os contribuintes. Isto foi o que disse a CEO da TAP, e eu vejo agora que afinal a CEO estava mais preocupada em comunicar com os trabalhadores do que com os contribuintes Aliás, está tão preocupada em ter uma boa comunicação com os trabalhadores que, segundo a TVI, até contratou uma amiga pra diretora do departamento de melhoria contínua e sustentabilidade da transportadora, com salário de € 15 mil mensais. Se temos os amigos como trabalhadores, seguramente vamos conseguir comunicar com eles. Está resolvida essa parte do problema. A nova diretora da TAP é amiga pessoal da CEO e é também mulher do personal trainer do marido. E não, nunca trabalhou em nenhuma empresa de aviação. A CEO da TAP diz que não teve nada a ver com a contratação. Zero. Aliás, eu estava aqui a dizer que a CEO a tinha contratado, mas não, a empresa é que a contratou, não foi a CEO, a CEO não teve nada a ver com aquilo. Mas dá um argumento interessante, que nós costumamos, aliás, ouvir quando se fala em incompatibilidades na política. A administração da TAP diz que não seria justo que a amiga da CEO da TAP fosse desconsiderada pro lugar apenas por existir esse conhecimento. Mas então só porque é amiga pessoal da CEO da TAP e mulher do personal trainer do marido da CEO da TAP não pode ser contratada pra diretora da empresa? Quer dizer, isto realmente só em cabeças muito doentes é que se pode achar que isto agora ia ser um impedimento. Mas comprova-se, portanto, que também a CEO da TAP não reconheceria um conflito de interesses, mesmo que ele se sentasse ao lado dela num voo Lisboa-Nova Iorque em classe executiva. Nem assim.
Vamos ao resumo. O bom desta terça-feira é o presidente da República, o mau é a Soflusa e o vilão de hoje é a CEO da TAP. Foram estas as escolhas do Miguel Pinheiro na Rádio Observador e que também pode ouvir em podcast.