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Este é o Domínio da Guerra com o Major-General Arno Moreira. Bom dia.

Bom dia. Muito bom dia a todos.

Bem-vindo, General. Recordo que também nos pode seguir com imagem nas redes sociais do Observador e no YouTube. O dia 17 de outubro não será facilmente esquecido pelos franceses. Nesse dia, o Estado pareceu estar ausente e a rua entregue a movimentos, a ativismos e também a grupos organizados para a pilhagem dos particulares e a vandalização do espaço público. Ora, no último programa, deixámos aqui a promessa de que, passada a tempestade emocional, voltaríamos ao assunto, mas com uma abordagem mais completa e mais analítica até. General, afinal, por que se fala de uma revolução em França?

Vamos a isso.

Vamos.

Quando a 14 de julho de 1789 a Bastilha foi tomada pelos parisienses, alguém teve que ir avisar o rei Luís XVI e foi escolhido o duque de La Rochefoucauld-Liancourt, que era o seu marechal de campo. O marechal de campo entrou no gabinete do rei e o rei olhando para aquilo que era o semblante naturalmente carregado, preocupado do seu marechal de campo, perguntou: "Uma revolta?" Ao que o duque respondeu: "Não, alteza, uma revolução." Este diálogo, que é um diálogo que ficou gravado para a história, mostra a capacidade de antecipação dos acontecimentos do marechal, que foi capaz de ver naquele conjunto de indícios muito grandes que tinham levado à tomada da Bastilha, o anúncio da revolução e não de apenas mais uma revolta, porque revoltas em França estão sempre a acontecer. Há uma diferença entre revolta e revolução. Essa diferença não tem a ver com o fato de as revoluções não precisarem de revoltas. As revoltas normalmente podem encaminhar-se para revoluções, mas nem todas as revoltas resultam em revoluções. E a diferença simples é que na revolta não existe o colapso das forças de ordem. Isto é, o Estado mantém a sua autoridade, também do ponto de vista da capacidade de intervenção policial. Na revolução é o contrário, há um colapso das forças da ordem e das estruturas de autoridade do Estado. É por isso que nós temos que ter muito cuidado quando comentamos a quente as intervenções da polícia. Não nos podemos esquecer que revoltosos e os ideólogos da revolução não se cansam de insultar a polícia, procurando condicionar a sua atuação futura e virar a opinião pública contra ela. Por quê? Porque para passar da revolta à revolução, é preciso o colapso das forças policiais. Sem polícia, o Estado perde o seu mais importante instrumento da autoridade. O poder cai na rua ou então um golpe militar tem que ser feito para assumir o poder, para instaurar um estado marcial e repor a ordem, evitando uma guerra civil. E, portanto, temos que ter muito cuidado em todos os comentários que fazemos a quente sobre as intervenções policiais, porque a polícia é o último instrumento da autoridade do Estado, que evita a passagem da revolta para a revolução. Em França, o progressismo chique volta a falar de revoluções. A França, aliás, é o país das revoluções.

Pois é.

Houve pelo menos cinco revoluções entre 1789 e 1848, quando se estabeleceu a Segunda República em França. Ora, nós já vamos na Quinta República, o que significa que a França está farta de mudar de regimes. Enquanto uns gritam: "Queimemos tudo", outros perdem a paciência para aturar revolucionários e anseiam por uma nova ordem. E assim nos encaminhamos para as eleições presidenciais de 2027, entalados entre os gritos dos que querem a revolução e os desejos dos que querem impor ordem à nação. Esmagados entre estes polos extremados, os reformistas perdem espaço de manobra. Reformar é uma forma avisada de antecipar problemas, mas os reformadores não têm tempo de antena, porque o discurso moderado não gera a mesma excitação que um caixote do lixo a arder. O centro político está a perder força em França e uma certa inépcia política de Macron em fazer leituras acertadas e atempadas pode conduzir os moderados a um desastre eleitoral em 2027. Antes de irmos ao 17 de outubro, deixe-me aqui esquissar uma radiografia da França contemporânea. Do ponto de vista económico, um quarto da despesa do Estado francês vai para o sistema de pensões. A dívida pública aproxima-se dos 120% e o Fundo Monetário Internacional espera um crescimento da economia francesa de apenas 0,4% este ano. Não há dinheiro para nada. Não é de espantar que os liceus estejam decrépitos. Demográfico Há cada vez menos filhos. Por outro lado, há cada vez mais reformados. De um ponto de vista eleitoral, é mais importante obter o voto dos reformados do que o voto dos jovens. Para além disso, hoje em dia vive-se muito tempo. Os filhos já não herdam a casa dos pais. Isto é, há mais uma geração a ocupar casas, porque os pais não morreram a tempo de deixar a casa aos seus filhos. Depois, não se conseguem formar governos estáveis em França. A França não consegue assim reformar-se, é irreformável. A idade da reforma está bloqueada politicamente em França. A proposta que existe há muito tempo de passar a idade da reforma dos 62 para os 64 anos não consegue ser aprovada. Já caíram quatro governos em França a tentar mudar a idade da reforma. E depois há causas de natureza social. No último trimestre de 2025, o desemprego dos jovens entre os 15 e os 24 anos subiu para o valor astronómico de 21,5%. O desemprego para os maiores de 50 anos era apenas de 5%. Ou seja, não há como explicar facilmente que no mesmo país e na mesma economia, um em cada cinco jovens está sem emprego, mas apenas um em cada 20 seniores está à procura de emprego. E depois há causas tecnológicas. Nós passamos o tempo agarrados às redes sociais. E hoje em dia elas são de longe o veículo mais utilizado para promover disparates, revoltas, desacatos e pilhagens. Na quarta-feira, o Le Figaro colocava a seguinte pergunta aos seus leitores. Eu também respondi: em caso de perturbações da ordem pública, deve ou não o governo poder neutralizar o acesso às redes sociais? Na altura em que eu respondi, já tinham respondido mais de 80 mil leitores. E eu fui ver os resultados.

Pois era isso que eu havia de perguntar.

A resposta é esmagadora. Quase 85% das respostas era favorável à neutralização das redes sociais no caso dos tumultos. As pessoas preferem segurança.

Claro.

E abdicam da sua liberdade para poder ter mais segurança. A maioria das pessoas estabelece uma conexão muito forte entre os desvarios praticados e a mobilização feita pelas redes sociais. Mas regressemos ao 17 de outubro. As reivindicações estudantis começaram em meados de setembro, em alguns liceus, e rapidamente se alastraram a centenas de liceus por toda a França. As reivindicações anunciadas eram bastante razoáveis e deveriam merecer a nossa atenção. Mas alguém decidiu cavalgar a onda destes protestos legítimos e razoáveis. E de repente, Paris e outras cidades francesas estavam a arder e o comum dos cidadãos a perguntar-se como foi isto possível. E não foram os estudantes do liceu, ou pelo menos a esmagadora maioria deles, que queimaram Paris ou que queimaram Marselha. Houve aqui várias mãos, várias causas, várias angústias climáticas, vários coletes amarelos, várias bandeiras e lenços, vários sindicatos, vários partidos e movimentos políticos que pareceram sincronizar os seus protestos com a finalidade de promover o ataque à República. Na altura de pedir responsabilidades pela vandalização de 3 mil lojas e a destruição do patrimônio histórico e público, ninguém se mostra culpado. Todos afirmam que se limitaram a exercer os seus direitos constitucionais. O Estado falhou no 17 de outubro, em primeiro lugar pela intelligence, que não preveniu em tempo o que poderia acontecer. E depois, por uma inadequada mobilização de forças policiais. O espaço público e privado acabou assim entregue ao caos e todos aqueles que continuam a sonhar com as revoluções.

O general Arno Morais esteve em Paris em 97 e também em 98, pouco tempo depois dos atentados terroristas do grupo islâmico armado que causaram oito mortos e cerca de 200 feridos, e aproveitou essa experiência imersiva pra olhar de perto a realidade francesa e compreender as suas dinâmicas sociais. Dessa experiência, general, há quase 30 anos e de tudo o que assistiu, que aspectos são relevantes para explicar o que agora se está a passar em França?

Algumas das coisas que eu vejo agora em França, já tinha reparado há 30 anos. Eu cheguei à França numa altura muito particular, 1997 e 98, e tinha acabado de haver um conjunto de atentados promovidos pelo grupo islâmico armado, que era uma espécie de transposição da guerra civil que havia em Argélia para o território francês. Uma das primeiras coisas que eu notei quando cheguei à França é que não havia papeleiras na rua. Não havia papeleiras. Eu disse: "Por que não há papeleiras?" Porque o GIA costumava colocar bombas dentro das papeleiras dos espaços públicos. Estava em vigor um plano chamado Vigipirate. Aliás, esses planos continuam a existir com vários graus, de acordo com a ameaça terrorista. E o que era visível no plano Vigipirate eram patrulhas conjuntas de militares com guardas, com polícias. Isto é, havia um polícia e depois havia mais cinco militares com armas de guerra e o dedo no gatilho em todas as estações de metrô, de comboio e de aeroportos. O polícia integrava este dispositivo militar para poder proceder à identificação das pessoas Portanto, os militares estavam ali para a defesa imediata, o polícia para efeitos de identificação das pessoas. E por várias vezes, não foi só uma, eu que andava sempre a viajar de um lado para o outro em França, tive que abrir a minha mala para mostrar o seu conteúdo e mostrar que não levava explosivos do lado de dentro. Era uma situação securitária muito complexa. Mas para além deste ambiente securitário, Paris era uma cidade bonita. Era agradável viver lá. Eu aluguei um apartamento, devorei o livro de Hemingway, "Paris é uma Festa", era o meu companheiro de leitura. Frequentei os cafés literários da Rive Gauche, percorri toda a cidade a pé e ao fim de poucas semanas eu era um autêntico francês. "Mais oui."

Era um parisiense.

Um dia fui a Le Bourget visitar o Museu do Ar e do Espaço. Le Bourget fica a cerca de 10 km a norte do centro de Paris, num departamento, que é uma forma administrativa francesa, que é o departamento Seine-Saint-Denis. Fui de transportes públicos, eu nunca usei carro em França. Andei sempre de transportes públicos no meio das pessoas. E à medida que o autocarro ia progredindo em Saint-Denis, eu passei a ser o único francês dentro do autocarro. Isto foi há 30 anos. Eu era o único francês dentro do autocarro. Era, aliás, o único que falava francês. Toda a gente que falava, não falava francês dentro do autocarro. E era o único que estava incrédulo com o que via do lado de fora e dentro do autocarro. Naqueles bairros, a França, no seu sentido cultural, já tinha desaparecido o espaço público. A integração tinha falhado, porque o número de não franceses já era tão gigantesco e a concentração em algumas comunidades tão forte, que a integração já não era necessária. Ora, o problema francês não é um problema com os imigrantes, é de onde vieram esses imigrantes. Eu recordo que há enormes casos de sucesso de imigrantes em França. Entre 1957 e 1974, cerca de 900 mil portugueses rumaram a França. Hoje, existe um milhão com dupla nacionalidade francesa e portuguesa. E há 500 mil portugueses que residem oficialmente em França. Não há notícia de que algum deles tenha participado nos desacatos. E depois, há outras comunidades de imigrantes, vítimas de outras comunidades de imigrantes. Os chineses, que não participaram em nada das confusões, viram as suas lojas saqueadas e vandalizadas.

Hoje trazemos para a nossa cortina de fumo o misterioso desaparecimento de algumas palavras que faziam parte do lema da Revolução Francesa de 1789: liberdade, igualdade e fraternidade. Palavras que, aliás, se transformaram no lema de França, mas as palavras originais não eram apenas essas. O que levou à alteração do lema revolucionário, general Arnaud Moreira?

É que quando nós vemos os cartazes que se faziam na altura, de propaganda, para além da liberdade, igualdade e fraternidade, dizia: "Ou morte." Ou morte. Isto é, aquilo tinha sido elevado a um nível tamanho de pureza dos ideais, que a alternativa era isto ou a morte. Com os anos, a morte teve que ser retirada e é por isso que eu vou explicar porque é que a morte saiu deste lema francês. Maximilien Robespierre é uma figura central da Revolução Francesa, com particular destaque para um período entre 1793 e 1794, que ficou conhecido como o período do Grande Terror. 30 a 40 mil pessoas terão sido executadas neste curto período. Ele era presidente do Comitê de Segurança Pública da Convenção Nacional Revolucionária, e a ele se deve a proposta de 16 de agosto de 1792 para o estabelecimento de um tribunal revolucionário para julgar e condenar os traidores e os inimigos do povo. Robespierre era um homem culto, era um homem que lia os autores daquilo que era o Iluminismo francês, Jean-Jacques Rousseau, Montesquieu, etc. Era também um homem vaidoso, de discurso fácil, eloquente e mobilizador. Vemos muitos ideólogos da revolução exatamente com esta característica. E ao longo do seu percurso de vida, foi se transformando de um defensor da liberdade, igualdade e fraternidade, para um defensor da revolução custe o que custar. Para ele, a revolução tinha que evoluir para uma república orientada para o bem comum, como aliás o contrato social de Jean-Jacques Rousseau defendia, e iluminada pela virtude, como Montesquieu tinha escrito. Mas para isso era necessário que fossem eliminados todos aqueles que se opunham às ideias iluministas. Isto é extraordinário. Ele escreveu no seu livro de memórias em 1793: "Os perigos internos vêm das classes médias. Para derrotar as classes médias, temos que mobilizar o povo." "O povo deve aliar-se à convenção revolucionária e a convenção deve fazer uso do povo." E aqui temos o povo utilizado como ferramenta para o combate social ao serviço dos iluminados revolucionários. E depois temos a consequência da arte revolucionária. Podem sacrificar-se as pessoas em nome da pureza dos ideais. É isto que nós continuamos a ouvir no espaço público. A pureza dos ideais permite que sejam sacrificadas as pessoas. Dêem a um revolucionário o princípio da igualdade e ele construirá uma guilhotina. A guilhotina foi o resultado da igualdade, foi construída para que o rei e os camponeses perdessem a cabeça da mesma forma. A guilhotina é o grande símbolo da igualdade naquilo que é a Revolução Francesa. Dêem a um revolucionário a ideia de igualdade e a primeira coisa que ele vai fazer é construir uma guilhotina. Em Nantes, uma outra grande cidade francesa, entre novembro de 1793 e fevereiro de 1794, o delegado da Revolução em Nantes, que era Jean-Baptiste Carrier, mandou afogar no rio Loire mais de 4 mil pessoas. Na última execução coletiva que foi realizada, foram afogados um homem de 78 anos, um homem cego, 12 mulheres, 12 raparigas, 15 crianças, das quais 10 com menos de 10 anos, e cinco bebés. Em nome dos ideais da revolução, foram afogados cinco bebés nesta tragédia que ocorreu em Nantes. O princípio estava certo. Nunca têm dúvida das suas ideias, os revolucionários. As pessoas é que estão erradas. E é, portanto, as pessoas que são eliminadas ao longo da revolução. E como acontece a muitos revolucionários, acabam por ser vítimas dos processos que desencadearam. Robespierre morreu na guilhotina, condenado sem julgamento, em 28 de julho de 1794. E Carrier, o homem dos afogamentos de Nantes, foi guilhotinado em 16 de dezembro de 1794.

A terminar o nosso Ponto de Mira, que hoje se foca no equilíbrio entre direitos e deveres. General, o que se passa com este equilíbrio?

Eu passei a semana toda a ouvir falar em direitos. Só ouvi falar em direitos. Mas alguém perguntou a quem se exprime através dos direitos, quais são os deveres de um cidadão? Alguém fez esta pergunta? Eu nunca ouvi esta pergunta em todo este tempo. Não há deveres pelo fato de ser um cidadão? A convivência entre os cidadãos não obriga que aos direitos de uns se sobreponham também os deveres dos mesmos? É que parece que para uns há direitos e para outros há deveres. Mas não é assim que funciona o contrato social. Num contrato social, cada um de nós tem direitos e tem deveres. E esses deveres são os normais deveres da cidadania, um dos quais é o respeito pela lei. Porque a lei foi a melhor forma que encontrámos nos Estados democráticos de tornar a atitude, a ação de cada um de nós, não apenas visível, mas com a legitimidade que lhe é concedida por todos os outros cidadãos. Nós vivemos em comum. As sociedades precisam de regras. Os Estados estabelecem leis para serem cumpridas. E portanto, nós quando temos que mudar uma lei, temos os órgãos próprios para fazer a discussão democrática e promover as alterações que se julguem necessárias. Aqueles que querem a revolução vão acabar vítimas da sua própria revolução.

General Arnaut Morara, muito obrigada por um domínio especial.

Foi muito especial.

Foi especial, não foi o domínio da guerra especial. Obrigada. Bom fim de semana também para si.

Um bom fim de semana a todos.