Nas últimas décadas, Portugal registou avanços significativos em múltiplos domínios económicos e sociais, mas continua a apresentar níveis de produtividade inferiores aos das economias europeias com as quais concorre pelos mesmos mercados, investimento e talento. Este diferencial resulta, sobretudo, das características do modelo produtivo que foi sendo consolidado ao longo do tempo e que é imperativo alterar e transformar.
A produtividade é, frequentemente, analisada como um indicador económico. Na realidade, é muito mais do que isso. Representa a capacidade de um país utilizar os seus recursos de forma eficiente para criar valor, gerar riqueza e sustentar níveis crescentes de prosperidade.
Ao longo das últimas décadas, Portugal registou avanços significativos em múltiplos domínios económicos e sociais. Contudo, continua a apresentar níveis de produtividade inferiores aos das economias europeias com as quais concorre pelos mesmos mercados, investimento e talento. Este diferencial não resulta de uma menor capacidade dos trabalhadores ou das empresas portuguesas. Resulta, sobretudo, das características do modelo produtivo que foi sendo consolidado ao longo do tempo.
Uma parte importante da economia nacional continua excessivamente concentrada em atividades de reduzida intensidade tecnológica de conhecimento, com baixo valor acrescentado. Embora este perfil de especialização tenha permitido ganhos relevantes em termos de emprego e internacionalização, revela hoje limitações evidentes num contexto marcado pela aceleração tecnológica, pela crescente concorrência global e pela necessidade de reforçar a autonomia estratégica da Europa.
É neste enquadramento que a indústria (leia-se, indústrias transformadoras) assume um papel particularmente relevante.
As economias mais produtivas e competitivas do mundo são, em regra, aquelas que conseguem combinar uma base industrial robusta com elevados níveis de inovação, capacidade tecnológica e integração em cadeias de valor globais. A indústria continua a ser um dos principais mecanismos de difusão tecnológica, induzindo investimento, qualificação dos recursos humanos e desenvolvimento de competências que se propagam ao restante tecido económico.
Portugal dispõe de condições favoráveis para reforçar este posicionamento. Possui competências industriais relevantes, conhecimento acumulado em diversos setores exportadores, recursos humanos qualificados e uma crescente capacidade de produção de energia renovável. O desafio consiste em transformar estes ativos em vantagens competitivas duradouras.
Para tal, será fundamental acelerar o investimento em modernização produtiva: a digitalização, a automação, a inteligência artificial, a robotização e a incorporação de conhecimento científico nos processos produtivos deixarão progressivamente de constituir fatores de diferenciação para passarem a ser requisitos básicos de competitividade. Será igualmente fundamental intensificar o investimento em intangíveis críticos (e.g. I&D, IP, qualidade, marketing e marcas). As empresas que conseguirem antecipar esta transformação estarão muito melhor posicionadas para competir em segmentos de maior valor acrescentado e menor exposição à concorrência baseada exclusivamente no custo.
Mas a transformação não depende apenas das empresas. A competitividade é um fenómeno sistémico. Depende da qualidade das instituições, da eficiência dos mercados, da capacidade de qualificação das pessoas e do enquadramento regulatório em que os agentes económicos desenvolvem a sua atividade. Neste domínio, a simplificação administrativa radical e uma muito maior previsibilidade dos processos de licenciamento surgem como fatores críticos para atrair investimento e acelerar decisões empresariais.
Num contexto internacional caracterizado por ciclos de mudança cada vez mais rápidos, a velocidade de execução tornou-se um fator de competitividade. Países que conseguem transformar intenções de investimento em projetos concretos num curto espaço de tempo criam vantagens relevantes na atração de capital, talento e atividade económica.
A discussão sobre produtividade deve, por isso, ser entendida numa perspetiva mais ampla. Não se trata apenas de produzir mais. Trata-se de criar mais valor, desenvolver atividades economicamente mais sofisticadas e reforçar a capacidade de Portugal competir nos segmentos mais dinâmicos da economia global.
A transformação da economia portuguesa passará inevitavelmente por esta capacidade de upgrading produtivo, capitalizando os fantásticos fatores produtivos que já possuímos. E a indústria, enquanto espaço privilegiado de inovação, investimento e criação de valor, continuará a ser uma das alavancas mais importantes desse processo.
Porque aumentar a produtividade não é apenas um objetivo económico. É uma condição necessária para construir uma economia mais competitiva, mais resiliente e mais preparada para os desafios das próximas décadas.
Este artigo foi publicado no âmbito do projeto Transformar Portugal, em parceria com a EY.